ZAMBUJEIRA DO MAR E A ROTA VICENTINA

21/06/2020

Saindo de Vila Nova de Milfontes eu me dirigi direto para a Praia de Almograve. E agora, já tendo terminado a viagem posso dizer, sem medo de errar, que foi a praia que mais gostei. Notem bem, eu entendo praia como extensão de areia junto à água. Neste caso água do mar. Existem outros locais belíssimos em toda a Costa Oeste de Portugal, mas a Praia da Almograve reúne alguns requisitos que achei importantes e fundamentais na minha eleição. Para chegar nela você pode ir  por escadarias, uma em cada extremo da praia, que é bem grande. Nos extremos dela existem umas rochas, não muito altas, e entre elas o mar entra formando pequenas lagoas cristalinas, onde crianças e idosos se divertiam. É possível caminhar por toda a extensão, mesmo parecendo que são duas praias, impedidas por um grande rochedo, mas por trás dele existe uma passagem de areia que não é encoberta durante a maré cheia, e sei disso porque a areia é bem fofinha. O mar tem cores surpreendentes e por toda a extensão da praia, reserva alguns detalhes para a embelezar. Eu a observei de cima, junto ao estacionamento, e fiz o percurso a pé, pela estrada perpendicular à principal, descendo pela outra extremidade e voltando pela areia. Desfrutei um pouco das lagoas que mencionei (pequeninas) e subi pela rampa, de volta ao estacionamento. E foi uma delícia!

Depois disso eu fui até a Praia do Cavaleiro ou da Carraca, onde também desci porque fiquei impressionada com a beleza das formações rochosas. A praia é bem pequena e o grau de dificuldade para alcança-la é médio, já que a escada e estreita, de degraus com alturas diferentes, mas toda ela com corrimão de madeira. Demorei 3 minutos para subir, que é a parte que considero mais difícil. Lá embaixo são tantas as pedras, que para chegar até a areia tive que atravessar um trecho recoberto por elas. E as pessoas fazem até auqelas esculturas de pedras equilibradas. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a sobreposição destas nas encostas, com camadas onduladas, como se fosse uma massa cremosa e quente que ali foi depositada, se derramando e buscando espaço, como uma cobertura de bolo, e depois se solidificando. É uma imagem da força da Terra e de sua capacidade de transformação. Impressionante!

De lá eu avistava o Farol do Cabo Sardão, e via uma trilha para chegar até ele, mas não via por onde ela passava junto a mim. E tive que ir de carro até lá. Deixei o carro no estacionamento em frente ao farol e saí para a direita, passando por dentro de um trecho de mata fechada, igual o que eu imaginava para toda esta área, conhecida como Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. O Parque inicia um pouco abaixo da cidade de Sines, na altura da Praia de São Torpes e engloba uma parte do Algarve, na Costa Oeste, região de Sagres, até na altura da Praia do Burgau. Mas o que vi, percorrendo por suas entranhas, foi muita área agrícola, com plantio principalmente de frutas vermelhas. E vi também muito pasto para gado bovino.

Ao sair da trilha de areia, em meio a vegetação, eu vi a marcação da Rota Vicentina, me aproximei para tirar fotos do mar e a segui, pois percebi que talvez conseguisse dar a volta no farol e chegar ao estacionamento pelo outro lado. E foi ótimo porque neste trecho, além da maravilhosa encosta, pude avistar dois ninhos de cegonhas, construídos sobre os picos de alguns rochedos, e os vi de cima, observando-os por dentro, e vendo os cuidados das mamães com suas crias. Foi mágico!

Mais adiante existe uma pequena elevação de madeira, construída como um mirante. E nela encontrei duas garotas fazendo selfies, muitas. E um grupo de caminhantes, sentados, fazendo seu refeição. Estavam bem paramentados, com bonés e roupas que cobriam o corpo, para evitar as queimaduras solares. Identifiquei-me com este grupo e puxei conversa, falando dos ninhos. Eles disseram que vinham de Odeceixe, mais ao Sul, e que viram muitos. Eu perguntei se vinham caminhando, mas não, estavam fazendo como eu, trechos de carro e trechos a pé. Disseram-me que moram em São Paulo, mas tive a impressão de que eram portugueses. Não sei dizer com certeza. Tive a sensação de notar o acento português em sua pronúncia.

Depois de explorar bem o local, consegui chegar no estacionamento pelo caminho que seria mais óbvio. Mas ainda bem que não sou afeita ao óbvio.

Antes de ir para a hospedagem, ainda resolvi conhecer o Porto das Barcas, perto de Zambujeira, e preferi tirar fotos também a partir do alto, deixando o carro perto de um restaurante onde pensei em almoçar. Aproximei-me de um ponto onde achei que teria uma boa visão do Porto, e lá estava estacionado um motorhome. E no extremo oposto, seus ocupantes, deitados em cadeiras de praia, tomavam sol sossegadamente. Pedi licença ao me aproximar e fiz as fotos, inclusive de uma capelinha, dedicada a Nossa Senhora.

Voltei e fui ver a vista para o outro lado, antes de me dirigir ao restaurante.

Passei no carro para pegar a máscara, e descobri que havia espera no local. Mas já passava das 14 horas, e o Restaurante A Barca das Tranquitanas já estava se esvaziando. Notem, era domingo e o final de semana trouxe muitos turistas portugueses até as praias. Ali o cardápio é oferecido nas redes sociais, e como eu não consegui ver completo, uma das garçonetes, mais velhas, acabou me oferecendo o cardápio físico e eu elegi polvo frito com batata doce. Algumas partes do polvo ficaram fritas demais, , e a batata doce estava deliciosa como, aliás, todas as que já provei em Portugal. Elas são extremamente doces.

E depois fui direto para a Casa Santo Antonio. É um pequenérrimo apartamento, construído com a divisão de uma pequena casa, e ambos são para locação. O homem que o anuncia não mora em Portugal e a mulher que me atendeu eu supus ser a mãe dele, e é Ucraniana. Eu liguei para ela ao sair do restaurante e quando cheguei perto do local, já que o Google Maps não estava abrindo para eu me localizar.

O quarto com beliche, um banheiro com cortinas e sem portas, porque era tão minúsculo, que as portas tomariam espaço inexistente. Mas muito funcional. E as cortesias de quem procura oferecer conforto aos hospedes se fizeram notar na mesa e cadeiras de armar, na cafeteira e bule de aquecer água, no pequeno frigobar e na garrafa de água oferecida.

E depois de me instalar fui até o mercado, comprar mais água, sondei a área depois de deixar as compras no quarto, e avancei pelo rochedo após o Mirante, já que via algumas pessoas aproveitando a tarde quente, sentadas nas pedras. E lá no extremo estava um grupo de indianos ou da mesma região. Só homens. E quando me aproximei, senti certo receio, mas os cumprimentei e fui até a beirada do rochedo. Tirei as fotos que quis e voltei sem muita delonga. Voltei ao quarto para tomar banho e aguardar a hora do por do sol.

Sete dias de passeio e sem WiFi em nenhum lugar. Impediu-me de publicar os relatos enquanto as emoções estavam mais latentes e a memória mais fresca.

Por volta das 20h30 eu sai em direção ao mirante, junto da pequena Igreja, e fiquei observando como o amarelo do sol transformava sua pintura branca. E tirando fotos do por do sol de 3 em 3 minutos, e depois montei um GIF com elas. E o sol se pondo bem atrás da ponta do rochedo que visitei mais cedo. Sem nuvens no céu, ele só espalha a cor pelo pó da atmosfera. E o sol se escondendo tão tarde, voltei ao quarto quase na hora de dormir.

E estava com uma enorme preguiça, pensando se ia mesmo sair no dia seguinte.

Mas, 'quem sai na chuva é para se molhar' como diz o ditado. Não levantei cedo e por volta de 11 horas eu tomava meu desjejum no Recanto da Ursa, bem perto de onde estava alojada. E a garçonete de lá, brasileira, mineira, vive desde os 19 anos em Zambujeira do Mar, e disse gostar e estar acostumada. Eu estimo que ela tenha uns 30 anos, atualmente. Falou que eu voltasse para batermos um papo, em outra oportunidade, mas não houve já que no dia seguinte, quando parti, o restaurante ainda estava fechado.

Na segunda feira eu pensei em fazer a Rota Vicentina a pé, chegando até Azenha do Mar, mas seriam 9km de muito sol, e teria que contratar um táxi para voltar a pé. Mudei de ideia e fui mesmo de carro, porém com a intenção de chegar até Odeceixe. Coloquei meus trajes de banho por baixo da roupa pois o dia estava bonito, as praias deviam estar vazias e eu queria curtir um pouco mais a praia, só não sabia ainda qual delas.

Desci a ladeira e vi que na Praia de Zambujeira do Mar também era possível o acesso no nível do mar. Já parei para fotografar a praia por outro ângulo. 

E depois subi a ladeira seguinte, de carro, até a Praia dos Alterinhos. Um estacionamento enorme e quase vazio demonstra que é uma praia bastante procurada pelos banhistas. E a Praia é mesmo muito bonita, mesmo eu não achando o caminho até ela, mas também não procurei.

Depois segui até a Praia do Carvalhal, que tem dois pequenos estacionamentos, também ao nível do mar, e por isso cheguei até o mar, adotando, provisoriamente, um chapéu. Queria proteger um pouco o rosto do sol, mas não me entendo muito bem com eles. E agora já estava me lembrando de passar o filtro solar.

A rota de carro para estas praias é muito bonita, estreita, com muitas curvas, altos e baixos, mas reserva surpresas como um campo com zebras, antílopes, avestruzes e lhamas. Imprevisível!

A Praia dos Machados foi mais difícil de encontrar, e percorri um pequeno trecho de estrada de areia, muito estreita e com vegetação densa. E no final dela, só havia uma clareira, onde deixei o carro e segui a pé para avistar a bela praia, lá de cima. Confesso que tirou um pouco a minha tranquilidade chegar até lá.

E a próxima parada foi em Azenha do Mar, um povoado pacato, com um gato dormindo no ponto de ônibus. E uma bonita vista.

Agora iria a parte não planejada, inicialmente, e seguir para a Praia de Odeceixe, passando por grandes áreas cultivadas e cobertas. Eu vi algumas plantações de morangos, mas não conseguia descobrir o que seriam estas que ficam protegidas das intempéries. Até que vi um trator com dois homens e parei para perguntar so que era a plantação.

- Framboesas, disse-me ele.

"Que legal!", pensei. Nunca vi plantação de frambroesas. Nem sei se as cultivem no Brasil.

E quando passei pela cidade de Odeceixe, logo avistei a Ribeira de Seixe. E parei, lógico. E descobri que o suporte do espelho lateral do carro pode ser um grande ajudante para fazer selfies.

E a Praia de Odeceixe, com a Ribeira desaguando na extremidade, com águas verdinhas e rasas, convidam a brincadeira. A escada que leva a praia é bem estruturada, com parte de passarela, e a praia possui guarda-sol de palha, onde estendi minha toalha antes de sair caminhando para o mar e dali para o rio. E depois contei 500 passos até a toalha novamente, onde me sentei e fiquei curtindo um pouco a maresia. E ouvindo o rádio de outro grupo de homens indianos, instalados um pouco adiante de mim. E no fim foi uma tarde deliciosa.

Com isso eu completei uma grande extensão da conhecida Rota Vicentina, sem caminhar por ela, pelo que eles chamam de trilhas dos pescadores, em parte. Mas fiz mais de 80 km dos 230 total. E digo que é do mais bonito que vi, em termos de costa marítima, até hoje. A Costa de Portugal é mesmo fantástica.