VILAMOURA E QUARTEIRA - e FESTA DA RIA FORMOSA

29/07/2019

Meu corpo sentiu bem a caminhada pesada da quinta feira. Quando fui colocar o pé no chão, na sexta, aquela fisgada. A famosa câimbra. Mas valeu cada passo dado.

Hoje, sexta feira, meu destino é Vilamoura e Quarteira, com indicação para ir de autocarro que é mais fácil. A Eva transportes é a principal companhia que atende o litoral no Algarve. E a estação é, como já disse, muito p´roxima ao hostel.

Mas primeiro vou tomar um café na padaria. Um outro hóspede saiu ao mesmo tempo que eu e agradeceu, em espanhol, por eu ter segurado a porta. Respondi:

_" De nada!"

Mas ele reconheceu meu sotaque.

_ " É brasileira?"

_ " Sim."

_ " Ah. Eu também sou. Sou amazonense." Nisso ele foi seguindo a rua comigo.

_ " Estive no Pará e Amapá no começo deste ano. Não conheço o Amazonas. Sou de São Paulo, mas estou vindo para morar um tempo em Portugal."

_ " Eu também não estou morando no Brasil. Estou fazendo uma pós-graduação na França. Bem ao Norte. Já estou há dois um ano. Vim para ficar dois anos, mas consegui uma extensão do curso e ficarei três anos."

_ " Que gostoso!"

_ " No começo era mesmo, depois vai cansando..."

_ " Se você soubesse disso antes não tinha pedido a extensão, né?"

_ " Onde se toma café por aqui?"

_ " Eu costumo ir numa padaria ali na esquina. Tem muita variedade. E você paga p que consome."

Ele foi comigo. Estávamos aguardando na fila quando perguntou-me o que eu ia pedir?

_ " Um pão com chá e um doce qualquer."

_ " Não tem outro lugar que sirva café completo? Estou com bastante fome."

_ " Aqui eles servem. Mas nesta rua tem vários restaurantes... Se quiser verificar..."

_ " Acho que vou sim. Tchau então. Bom passeio."

Acho mesmo que ele ficou com medo de eu grudar nele e querer passear junto. Eu não o recrimino, também não gostaria se fosse o contrário. Até tomar o café juntos e jogar um pouco de conversa fora, vá lá. Mas passear juntos... é coisa de amigos. Poucas foram as pessoas que me afinei em passeios assim. Porque já tanho minha programação, mutável, quando eu assim o quero.

Acabei pedindo um chá de cidreira, um pão sem nada, e uma tortinha de maçã. E voltei ao hostel para garantir que não teria problemas durante a viagem, e porque era caminho até a Rodoviária mesmo.

Comprei a passagem na bilheteria, mas poderia ter comprado direto com o motorista. Fui encaminhada para a rua, à esquerda, para a paragem. Um ponto de ônibus na rua. E o ônibus é de linha, como entre municípios vizinhos, no Brasil. Mas com um conforto muito melhor. Entra pela porta dianteira e sai pela traseira após acionar o botão solicitando a parada.

Desci na Marina de Vilamoura, num jardim. E fui diretamente para o lado onde avistei água. Estava com bastante sede, achei que encontraria alguma lanchonete a beira mar. Andei um bom tanto sob o sol, e vi um restaurante de tinha uma plataforma que levava a praia. Não tinha condições de ir pela areia fofa e quente. Dali avistei duas pequenas estruturas como faróis, que sinalizavam a entrada da Marina.

Resolvi seguir. E fui me aproximando das embarcações. Lanchas e Iates de fazer cair o queixo. E a coleção de carros estacionados então. Logo vi que aquilo ali não era para meu bico. E nem gostaria que fosse. Alguns visitantes como eu, faziam fotos das ostensivas propriedades, que, se ali estavam eram para ser vistas e cobiçadas mesmo. 

Tinha algumas Lamborghinis vermelhas, outras pretas e umas poucas prata, parecendo uma convenção. Fiquei observando um casal que caminhava com dois carrinhos de bebês. Em um deles, uma menininha de pouco mais de um ano. No outro um menino maiorzinho, com um pouco mais de três. Pois eles abandonaram os carrinhos no sol, queimando a cara das crianças, sendo que uns metros a frente, onde eu estava, tinha sombra, para fazerem fotos um do outro, em frente aos carros. O menino, mais esperto, puxou a cobertura do carrinho, se protegendo. A menina colocava a mãozinha em frente ao sol para proteger ao menos seus olhinhos. Os pais voltaram aos carrinhos, após muitos chamados do menino, mas continuaram empurrando-os com o sol de frente. A menina já estava com o rosto vermelhinho, não sei se queinado ou da natureza dela mesmo. Esta postura dos pais com as crianças tem me incomodado. Sei que, como mãe, tive e tenho muitas falhas, mas acho que era atenta, ao menos.

Continuei minha caminhada, observando os luxuosos hotéis, alguns em forma de Navio, e cheguei a uma marquise que sombreava a área dos restaurantes. 

Vi um restaurante chinês que servia peixe assado, recomendado por minha amiga Maris, como uma boa opção de refeição considerando o meu estado de saúde. Eu ainda morta de sede, e querendo tomar um isotônico, que vários amigos sugeriram para me reidratar adequadamente. Pedi um peixe assado com cebolas e gengibre, que serviria também para minha garganta. Pedi um isotônico. Os chineses dali não entendem muito bem o português. Tudo ali está direcionado para estrangeiros. A maior parte dos anúncios e cardápios estão em inglês. Me perguntou:

_ " Tônica?

_ " Vocês têm tônica. Está bem, pode ser."

Passados alguns minutos ele deposita em minha mesa um copo grande com um mexedor em formato de estrela. Que sede. Tomo um gole e está bem amargo. Isso é bom para o estômago. Mas não vejo e nem sinto nada de gás. Será isto uma gin tônica? Que falta me faz um bom paladar às vezes. Não sinto gosto de álcool, se bem que nunca tomei gin, não sei qual seria seu sabor.

O peixe vem numa chapa fumegando ainda. Mas também tem pimentões. Que eu descartei na hora de comer. Tinha pouco gengibre mara meu gosto. Mas o tempero estava bom, um pouco doce, o que gosto, e também a quantidade. Ele perguntou-me se eu queria sobremesa e me forneceu o catálogo. Pedi um flan, que veio congelado, parecendo sorvete. Mas estava bom. Só na hora de pagar tive certeza que era uma gin tônica. Não tomei toda, e sai dali com a cabeça no lugar.

Tinha lido que a Vilamoura é uam gracinha, com suas  casas mouriscas (estilo árabe). Mas não estou vendo nada disso por aqui. Acho que já vou para quarteira.

Mas quando passo por um jardim, estou consultando o Google Maps e chega um trenzinho. Ele roda por uns 10 quilômetros em uma hora aproximada de percurso a um custo de 5 euros. Beleza, nem sei para onde vai, mas sairá em meia hora. Vou esperar. Fico um pouco sob a sombra das árvores do jardim e depois decido-me sentar no trem, também tem sombra, é ventilado e bancos, o que é melhor.

Daí lembro da água e desço. Num café do outro lado da rua compro uma água, algumas ameixa e ainda tomo uma água saborizada com ameixas, que eles oferecem de cortesia aos clientes. Mas perdi o lugar, e sento no mesmo banco, mas do lado oposto, junto a um casal.

À nossa frente está uma família com duas crianças muito lindas. Ele estão brincando de fazer caretas, tampando o nariz e falando com vozes engraçadas, e riem muito. A menina, apesar de mais nova, é como a condutora da brincadeira. O menino já aprendeu que os pais são mais complacentes com ela, por ser pequenininha, e se a imitar, não leva bronca. No primeiro movimento diferente que ele fez em direção a ela, se pondo em risco no banco, já levou um chacoalhão. Nossa inexperiência como pais nos levam a atitudes extremadas sem os devidos esclarecimentos. Para ele, o que parece, é que só ele leva bronca e é castigado. Toda sua forma de ser faz-me acreditar nisso. Telvez já tenha vivido essa história. Mas a menina, continuando brincar, de repente fala algo, faz cara de séria e bate continência. Não me pareceu casual. Foi muito perspicaz, isso sim.

Parte do percurso se dá em ruas de pedras, o que faz com que os vagões pulem muito. O homem ao meu lado deve ser comediante. Sua mulher diz que ele é 'funny'. Mas ele fica se requebrando todo enquanto o trenzinho para por essas ruas. Todos nós o fazemos, naturalmente. Ele o faz exageradamente, ficando realmente engraçado. Eles falam comigo e até gravam-me, com ele fazendo voz de Pato Donald. Se eu já não entendo o inglês bem falado, imagina desta forma.

Agora entendi o que falaram sobre as 'casinhas' da Vilamoura. Mais parece um condomínio classe A. As casas são realmente muito bonitas, a vila toda é encantadora, com muitas casas brancas, mas nem todas. Alguns restaurantes e hotéis luxuosos lá dentro.

Num deles, que tem uma rotatória central, tinha um porteiro, acho, passei e lhe sorri. Mas o trenzinho fez mais uma volta, então larguei o celular e dei tchau, sendo cumprimentada de volta.

Mais adiante entram um avô com sua neta, linda com seu tererê no cabelo. Ele todo babão, como imagino alguns amigos meus com seus netos... E ela toda decidida, conversando seriamente só quando de seu interesse. Permaneceram no trenzinho após a minha descida, e eu falei para ela que ficava muito bem com aquele tererê.

O próprio condutor do trem deu-me as orientações para chegar à Rodoviária de Quarteira. 

Passei perto do mar, em uma calçadão bonito, mas sem sombras. O sol quente das 15 e tanto.

Depois preferi ir por dentro da cidade, aproveitando as sombras dos prédios, e depois, das árvores na avenida principal. Quarteira é como Faro, mas mais jovem, creio. E menos populosa. Também tem um custo de vida menos elevado.

Uma espera não muito longa, pego um autocarro que diz: Faro(directo). Mas ainda para uma ou duas vezes no caminho, atendendo solicitações com o braço estendido.

Não queria chegar tarde pois hoje tem a Festa da Ria Formosa, no Lardo de São Francisco. Começa às 19 horas. Fui direto ao banho e depois deitei um pouquinho. Mas chegou um grupo de franceses e depois o amazonense e começaram a conversar, assim que só descansei por uma hora, mas acordei com a cabeça doendo, principalmente por causa de um cheiro de perfume no quarto.

Coloquei outro vestido esvoaçante e lá fui eu conhecer a Festa. 

É como uma grande quermesse. A população comparece em peso. Tem muitas barracas de comidas típicas do Algarve, a maioria com fruots do mar. Sei que ainda não estou 100% mas não posso sair daqui sem provar da culinária local. E esta é uma grande oportunidade. 

Pergunto sobre um arroz, se era o de polvo, e a moça me mostra que o de polvo é outro. Explico que não posso comer nada engordurado, ao que ela me indica os dois pratos menos engordurados dali. Um que leva um feijão grande e claro, com lagostins, que penso chamar-se feijoada de mariscos. O outro é arroz de lingueirão.

Peço um pouco de cada, solicitando que não ponham muito para não haver desperdício. Sem bebida. E gasto 8,50 euros. Gostei muito do arroz e do feijão, as carnes não estavam assim tão boas. Ventava muito, e não estava fácil administrar os guardanapos, prato e talheres descartáveis. E, de pé, o vestido e o celular para fazer fotos.

Agora a sobremesa, que adoro. Um enrolado de massa de maçã e canela. E uma Ginginha no copo de chocolate, viu Cristina? Nem precisei esperar chegar a Óbidos.

2,50 do doce e um da bebida. Volto ao hostel para atualizar o blog, mas não consegui carregar as fotos. O Wi-Fi etava péssimo. 

Na volta avisto um gato em cima do muro que parece a Frida, a gata da minha mãe.

E percebo que dará tempo para mais um por de sol. E vejo também o corpo de bombeiros voluntários trocando uma lâmpada do  Jardim. Quando saem um comerciante local agrade. Isso me mostra que todo mundo cuida do que é público.

Amanhã é meu último dia. 

Talvez por ter ficado doente e isso me atrapalhou, mas sinto que 5 dias aqui, mesmo indo a Olhão (tremendo) e Quarteira, foi demais.

No sábado já arrumo minhas coisas porque o check-out é às 11 horas, o ônibus só às 16h30 mas posso deixar minhas malas na recepção. Vou à padaria e como um croissant francês, um torta de laranja e um chá de camomila. Estou feliz, já me sinto praticamente bem. A comida de ontem não me causou danos.

Volto o hostel, termino de arrumar as malas, faço o check-out e vou para a rua, ver se a Igreja de São Francisco está aberta, ver o restante das muralhas e espreitar se acho mais alguma coisa interessante na Vila Adentro. 

A muralha que circunda a Vila não está íntegra, o pedaço faltante é entre a Porta Nova e o Arco da Vila. Descobri também que o Arco da Vila também é conhecido como Porta Árabe por seu estilo.

Na vila Adentro uma exposição ultra moderna, que propõe o livre pensar. Eu realmente divaguei na obra. Cabeças decapitadas sobre uma mesa. Me parece um protesto contra a violência feminina doméstica. Numa das imagens tem até uma garrafa sobre a mesa. Mas a exposição chama: Eu metia as mãos na água.

Ainda é cedo. Vou asistir Netflix até umas 15 horas, quando vou procurar algo para almoçar pois só chegarei em casa após às 20h.

Definitivamente, em Faro não é lugar de comer massas. A especialidade é frutos do mar. As massas só servem para dar sustento ao corpo, nesse caso. 

Vim dormindo no ônibus quase o tempo todo, mas ouvia uma vizinha de banco contano toda sua história de vida para duas senhoras sentadas atrás dela, e que as conhecia. E chorou. E vomitou. Não prestei atenção na história, mas a moça devia estar mesmo muito necessitada de conversar com alguém para se expor para duas estranhas. Depois que ela desceu em ArcoVerde, comentaram comigo e entre si, vida dira desa moça, até o padrasto tentar matar a mãe... Eu também não ia querer que filho meu chamasse meu padastro de avô. Não falei nada, porque também fui criada assim. Mas não concordo. Estes títulos merecem ser dados a quem participa, de forma positiva, da vida da outra pessoa. 

Seu Jorge atendeu prontamente ao meu chamado, e em casa, posso atualizar rapidamente o blog e descansar, já pensando na próxima aventura. Dia 02 de julho, quando completo um mês na nova casa, vou para o Festival Medieval de Óbidos, no Centro-Oeste Português. Me aguardem.