VILA DA LUZ, MOURÃO E MONSARAZ – PRECIOSAS DO ALQUEVA

29/08/2019

Continuando a exploração das terras em torno do Alqueva, saí do Hotel Passagem do Sol, por onde aliás tive uma ótima passagem, com o relógio já marcando 10h30, depois de uma noite revigorante para mais um longo dia de atividades.

Meu primeiro destino foi a Vila da Luz, para ver um Museu e a igreja de Nossa Senhora da Luz. Imaginei que ficaria em torno de meia hora neste pequenino lugar.

A Vila da Luz fica às margens do Grande Lago mas nem sempre foi assim. O lugar em que passou a maior parte de sua existência hoje está submerso por 16 metros de água. E um Museu revestido de pedra num estilo moderno conta-nos essa história. Logo de cara um resumão escrito no primeiro cartaz seguindo o sentido orientado pela recepcionista depois que paguei 2 euros no ingresso.

Iniciei pela esquerda e vi que a transposição da vila ocorreu entre um verão e um outono, de vivos e mortos e todos os objetos que ali estavam. Iniciaram realocando todos os túmulos do cemitério da luz. E sob dúvidas, lamentos e esperanças foram também os vivos. Fizeram sua última festa tradicional em um setembro e se foram, para que o início do novo ciclo letivo fosse já na nova escola.

Houve o cuidado de transpor a planta da cidade, não como uma réplica exata, mas mantendo as principais características, e as vizinhanças, e os parques e praças, e igrejas, serviços de saúde, comércio nesta cidade que naquele momento de 2002 tinha 363 habitantes.

Mais que alguns objetos e fotos interessantes, um filme de uma hora de duração que assisti quase todo guarda a principal memória de toda esta ação, desde a notícia da realização da represa em 1997, quando souberam que a vila ficaria submersa, e todos os sentimentos contraditórios que essa notícia causou na população adulta numa via quatrocentista. As crianças viveram seus medos através do consciente adulto, mas tem a juventude como facilitador da adaptação. Mudar-se de um lugar em que viveu toda sua vida, conhece os cheiros, as nuances do clima, o ranger das portas, os hábitos até dos insetos, mesmo que para uma casa nova, sem buracos, com tudo funcionando perfeitamente, e com as mesmas características da anterior, mas não é o lugar conhecido. Eu que tenho uma tendência às novidades consigo observar o apego reconfortante que as pessoas têm com o que lhes é familiar, mas não imagino o tamanho da dor e da aflição que uma mudança como esta, que mexeu com o consciente coletivo, pode ter causado.

E eles vão contando suas histórias, mas muitos reconhecem a renovação da vida de uma terra que estava fadada à morte seca, onde nada mais se produzia e o desânimo tomava conta. Hoje têm frutas e verduras no quintal, partilham com os vizinhos e desfrutam da beleza e das vantagens do lago. Ainda saudosos, mas bem.

E também apresentam uma exposição temporária que chamou-me a atenção pelas poesias, ligadas à terra, à natureza, e que combinam bem com a história ali relatada.

E nisso minha visita durou uma hora e meia!

Segui dali direto para a Praça da República de Mourão, e acompanhando o mapa e procurando um lugar para estacionar, entrei numa contramão. Só me dei conta porque vi a posição dos carros estacionados e um carro em sentido contrário na outra esquina. E deu tempo de eu engatar uma ré sem maiores prejuízos.

Estacionei junto a Praça e já atravessei-a em direção à Matriz e ao Castelo. Aqui planejei passar um tempo um pouco maior.

Subi a serra em baixo do sol de quase 13 horas. A igreja e o Castelo se veem de longe, lá no alto.

No caminho mais uma árvore cheia de romãs, exuberantes.

Quando lá cheguei vi um estacionamento e uma faixa que impedia a passagem. Supus que dali para cima não se pode passar com o carro. Fui em direção à Igreja e quando lá cheguei fiquei impressionada com a bela vista do Lago de Alqueva e da cidade.

A Igreja estava fechada pelo horário de almoço. Então me dirigi ao Castelo, e fui impedida de prosseguir por um funcionário da obra de restauração que ali ocorre em função dos danos da tempestade que ocorreu em maio deste ano. Este talvez seja um efeito negativo do lago. Não creio que por aqui ocorriam tempestades antes de essa grande massa de água ser instalada.

Esqueci-me de dizer que para a inundação da área eles retiraram tudo que pudesse contaminar a água. E a antiga vila da Luz foi totalmente demolida e seu material removido, bem como árvores, que receberão outras destinações. Passei por diversas grandes pontes sobre o lago. Percebe-se um planejamento bem completo. Mas certamente nem tudo pode ser previsto.

Desci chateada pelo infortúnio e pensando em almoçar já que os restaurantes costumam encerrar cedo seus serviços em cidades pequenas. Achei um tipo churrascaria, não de rodízio. Mas estava lotado e uns 20 minutos que esperei, quase me desmancho em suor. Desisti.

Segui então para a Vila Medieval de Monsaraz. Uma das queridinhas dos olhos portugueses. E ficou evidente esta preferência nacional lá de baixo, ao observar a Vila parecendo um presépio no alto do morro.

Cheguei exatamente às 14 horas e consegui um local bom pra estacionar, após fazer mais umas fotos do lago num mirante, bem perto da Vila.

Ela tem várias portas e fui pela primeira que achei, seguindo as indicações de restaurantes. Lá dentro, fui procurar o Restaurante Os Templários, mas fechou às 14 horas para entrada de clientes, mesmo lá dentro ainda estando um grande movimento.

Continuei andando pelas estreitas ruas de pedra e procurando um restaurante, não que estivesse com muita fome, mas quando ficasse, não teria mais opções de consumo. Entrei até num evento, um tal de SummerCemp, mas a porta estava aberta...

Uma outra casa restaurante, fechada. Fui retornando para a porta pela rua de baixo e vi um café restaurante que tinha desprezado, tenho que admitir, por ser ao ar livre e apesar das coberturas de palha nas mesas, o sol ainda penetrava com insistência e sem dó. Mas a garçonete conseguiu-me um lugar sombreado e ventilado.

Solicitei um bife de vazio no molho roquefort, que veio acompanhado de arroz e batatas fritas, e uma cerveja Sagres Imperial. O prato demorou um pouco e fui degustando a cerveja e apreciando a vista.

Estava tudo uma delícia. E ainda comi um profiterólis de sobremesa.

E depois fui percorrer as três ruas principais da vila, e observar suas simpáticas travessas até chegar na Matriz Nossa Senhora de Candeias. Fui direto ao Santíssimo fazer uma oração. Levantei-me e comecei a fotografar, quando fui alertada por uma funcionária sobre a proibição. Não vi porque o aviso estava no corredor central.

Dali saindo, vi uma portinha em frente e uma placa dizia tratar-se da Igreja da Misericórdia. Entrei. Bem pequenina. E dessa vez perguntei primeiro:

_ " Pode-se tirar fotos?"

A senhora que estava sentada a uma mesa , logo à entrada, apontou um cartaz e disse-me que não.

_ " Que pena."

_ " Está bem, pode tirar uma foto."

Tirei e comecei a conversar com ela, comentando do alerta na matriz. Perguntei sobre o Santíssímo Sacramento, pois não vi a sinalização de sua presença, a luz vermelha acesa junto ao Sacrário. Ela disse que ali era a igreja vinculada ao Hospital, outrora. Hoje só tem um posto de saúde, e o Santíssimo é trazido da Matriz por ocasião de alguma celebração.

Dali fui direto para o Castelo, e fica ainda mais claro o xodó por esta bem preservada vila. Lá dentro tem um anfiteatro, as muralhas são todas transitáveis e nas torres de extremidades, as escadas levam-nos aos pontos mais altos da construção e descortinam belas paisagens, do lago e da própria vila, toda murada.

Ao sair e descer a primeira viela para percorrer a via mais abaixo encontrei um trabalhador da construção civil e o cumprimentei, como costumo fazer quando cruzo com pessoas em lugares isolados.

Ele assim me respondeu:

_ " Boa Tarde. Você é brasileira não?"

_ " Sou. Dá para perceber pelo sotaque né?"

_ " De onde você é"

Nisso percebi que ele também é brasileiro.

_ " Sou Paulista."

_ " Eu sou baiano."

_ " De onde?"

_ " Do sul da Bahia, Caravelas."

E antes que ele me desse mais explicações...

_ " Conheço, já fiquei hospedada por lá.

Isso foi lá pelo final do século passado, mas fiquei vários dias na cidade.

Ele me contou que chegou há menos de 40 dias, arrumou o emprego porque pretende depois dar entrada nos papéis de permanência. Eu que estou viajando.

_ " E pretende trabalhar?"

_ " Não, já sou aposentada."

_ " Ah. Então está com o burro na sombra."

_ " Neste exato momento, e apontei para meu corpo com as duas mãos correndo ao lado deste, estou com o burro no sol."

E pedi licença para aproximar-me e ficar na sombra.

Continuamos a conversação, ele dizendo que é técnico em mecânica mas achou este trabalho através do cunhado e achou melhor garantir dada a situação. Mas já tem oferta de emprego em sua área.

_ " E você? Tem família aqui?"

_ " Não. Estou só."

_ " E o marido?"

_ " Sou viúva." E ele:

_ " Bom, então vamos começar novamente, boa tarde."

Mas continuei conversando sem dar ênfase à interrupção.

Ele perguntou-me se ficaria para a festa no início de setembro. Eu disse que vou para a Noruega exatamente nesta época.

_ " Você não precisa de um guarda-costas? Não sou muito grande mas sou valente."

_ " Os baianos o são mesmo." Já tinha lhe dito que sou filha e neta de baianos.

Despedi-me para continuar meu caminho e ele continuar seu trabalho de manutenção das muralhas da Vila.

Fiz várias fotos de várias pequenas travessa, achei outras portas, tomei uma água num café . 

Sai por uma porta diferente da que entrei. E mais próxima ao carro estacionado. 

Já são quase 17h30. E minha hospedagem é em Reguengos de Monsaraz. Menos de meia hora de distância, de carro.

E todo este sol e andança me deixam cansado, precisando de banho e cama.

Nem jantar eu fui. Descansei um pouco depois do banho e de alagar o banheiro, pois sai água por todo lado, a reclamar amanhã na recepção. E nem tive coragem de sair para jantar. Tomei água e o restante do suco de abacaxi e comi um delicioso e cheiroso pêssego e vim escrever. Mas não consigo publicar. A internet é horrível.

E amanhã termino minhas incursões pelas terras do Alqueva.