VANCOUVER - DOIS DIAS DE MUITA AMIZADE

23/06/2019

Primeiro dia

Caramba! Acho que estou mesmo ficando velha. Não consigo dormir as minhas 8 horas de sono de beleza, tão desejadas. Fui dormir depois da meia-noite, coloquei o despertador para 8h30 e acordei às 2h, depois às 5h50, mas nessa hora não levantei, dormi mais um  montão e acordei às 7h30. Deixe-me levantar que não adianta insistir mais. Marquei com o Mister Boon para 10 horas. Ele virá me buscar aqui, na Steven Home. Começo por um bom banho, a banheira é meio alta para eu passar, o vidro do box limita bastante o espaço, e não tenho onde me apoiar mas, consegui entrar e sair, ainda mais importante.

Me preparei e às 9h30 já estava prontinha. Resolvi aguardar lá fora em vez de ficar esperando, olhando pela janela. Quando saí, senti frio. Tinha testado a abertura da porta com a senha recebida e as instruções. Deu certo. Porém , quando resolvo voltar para pegar mais uma blusa, não consigo abrir a porta. Não é possível, terei que passar frio o dia inteiro? Insisto. muitas vezes, até que um hóspede indiano abre a porta desconfiado. Explico que estou no quarto 2 e não conseguia abrir a porta, entro pego meu casaco e saio. Nisso, encontro o Mister Boon entrando, já quase no fundo da casa, que é por onde entram os hóspedes. Nos cumprimentamos alegremente, com abraços e saímos para nosso café da manhã. 

Ele me questiona que tipo de café quero tomar, indiano, Western ou outro que não me recordo. Deixei que ele escolhesse e fomos ao White Spot, tomar um café Western, segundo ele. Pedi um chá vermelho com leite, panquecas com morangos, creme e syroup. Vieram acho que uma 5 panquecas daquelas bem gordas. Lógico que não aguentei comer tudo, mas ainda assim comi 3. Mr. Boon pediu wafle com blueberrys, creme e café. O chá e o café são reabastecidos se você quer. Ele quis, mas eu não.

Ele não aceitou que eu pagasse nem a minha parte. Disse-me que estou em seu país, como querendo dizer então que sou sua convidada.

Dali fomos direto ao Queen Elizabeth Park, que minha filha Débora me indicou. Aliás, como ela morou aqui por 6 meses, pedi indicações de lugares a visitar, coloquei na minha programação e quando Mr. Boon  perguntou o que eu pretendia fazer em Vancouver, passei minha lista. Pois ele disse que seria meu chofer nos dois dias que aqui estarei e foi seguindo minha programação. O parque realmente é maravilhoso, e acho que a Débora não o viu cheio de flores como eu, afinal, estamos inciando o  verão hoje, e é notável que os canteiros estão todos com flores plantadas recentemente. Lindas, organizadas, bem cuidadas.

Fico encantada com uma árvore que os galhos crescem para baixo. acho que por sustentarem o peso da neve. Eles tentam subir mas ficam arcados. Muito interessante!

No parque também tem uma redoma de vidro com plantas, mas quando vejo que temos que pagar para entrar, desisto, afinal, tem muitas plantas para serem apreciadas do lado de fora.

As noivas gostam de fazer fotos nestes lugares, podia até ser uma modelo de revista de noivas, mas o lugar é romântico e inspirador.

Umas esculturas com cadeados que trancam os amores, num espaço chamado Loves Rains, bem apropriado numa terra onde chove tanto, é de chamar a atenção.

Tem uma fonte de água e quando menciono que ficaria mais bonita com luzes coloridas, Mr. Boon me diz que durante a noite o são.

Estamos conversando bastante e lhe digo que meu inglês está bem melhor do que da última vez em que nos vimos, no Paraguai, em 2017. Já conseguimos conversar. Pergunto sobre seus filhos e me diz que a mais velha está na Malásia, sua neta, filha desta, em Seattle. Seu filho e o outro casal de netos vivem em Vancouver mesmo. 

Ele acabou comprando uma fazenda para criar cabras no Paraguai. Já construiu uma casa e já voltou lá 4 vezes depois daquela ocasião em que nos conhecemos. Gostou muito do Paraguai, mas sua esposa diz que ele é louco de fazer esse investimento lá. Mas acho que o faz por prazer. Ele é um homem com bastante energia.

Me contou também que o marido de nossa anfitriã, a dona do hostel em que ficamos em Assunção, faleceu. Ela, que era francesa, voltou para sua terra sozinha. Isso me deixou muito triste. Gostei muito deles quando lá estive, aliás, foi o diferencial do lugar, como mencionei na ocasião, um oásis em meio ao caos.

E fomos circulando...

O segundo lugar visitado foi a Grandville Island, próximo ao Pier, de onde partem barcos para visitar a ilha e observar a Skyline. No caminho algumas lojas vendem algumas diferentes manifestações artísticas. Gosto de uns trabalhos em madeira, e umas esculturas em ferro, principalmente. 

Quando enfim chegamos ao porto,  o barco saíra às 12 horas, e já passavam de 13h. Não faremos este passeio.

Muita gente comendo bebendo, sorrindo, comprando. E lá tem também o Granville Island Public Market. Um outro grande mercado de alimentos, principalmente, que me deixam maravilhada. Enchem-me os olhos de alegria. Compro outra pipoca doce de caramelo com sal. A primeira foi em Los Angeles, se lembram? Fora o chocolate da Ghirardeli em que o recheio era este também. Estou ficando viciada neste sabor. A Brenda faz um molho de caramelo pra comidas salgadas. Very good.

Não posso ver uma vitrine como a abaixo e não lembrar do Luisinho, amigo de meu falecido esposo, e que agora é meu amigo, junto com sua linda esposa Sandra e filho Gustavo. Todos fanáticos por doces, como eu.

Manifesto o desejo de comprar um presente para sua esposa, que irá jantar conosco. Quero comprar flores ou chocolates, ele diz que não é necessário, mas eu insisto. Ele diz que me levará a um lugar para isso. Aceito.

Passamos por toda a Downtown, ele me mostra uma esfera que é o Museu de Ciências. O estádio em que jogam futebol americano e Rockey no gelo. Depois passamos por umas ruas e ele diz que ali embaixo tem um shopping mall. Eu digo que quero conhecê-lo e diz:

_ " Tomorrow."

OK, por mim está bem assim.

Estamos a caminho do Stanley Park, bem longe um do outro, como eu pretendia fazer ambos no mesmo dia a pé? Ou de ônibus? É também um Parque Beira-mar. Com uma enorme calçada para pedestres e bikes, que vai contornando o mar, mas que não tem praia. Tem uma carroça tipo trem, puxada por dois cavalos, que faz o percurso, mas não o fazemos. 

Caminhamos um pouco por dentro do parque até um monumento de honra entre canadenses e japoneses que morreram na segunda Guerra Mundial, na s guerras da Coréia e do Afeganistão. Alguns nomes constam em lápides com um ano em cada, ele não soube me dizer se existem pessoas enterradas ali, mas é o que me pareceu.

Dali seguimos até o aquário, mas ele já fora 3 vezes e eu já visitei muitos aquários nesta viagem, e ainda tenho que ir ao de Lisboa, então, passo.

Avisto de longe uns bichinhos pretos nas árvores. Achei que eram macacos. Digo:

_ " Monkeys!!!"

Ele me corrige dizendo tratar-se de esquilos. Mas são negros, maiores dos que eu vi em Seattle. São dois e estão a brincar. Fofinhos.

Também vejo um pato mergulhando para caçar, ou pescar?

Ouço uma música e peço que me explique a diferença entre sing e song. Explicou-me com maestria. Sing é o verbo. Song é o substantivo. E já sei que Music é o gênero musical: Roque, Tango, Samba, Forró...

Canto para ele:

_ I'm sing in the Rain..."

_ " Yes, this is the song."

_ " Perfect, I understand now."

Perguntou-me se eu tinha fome, disse que um pouco, mas ele queria passar ainda em dois lugares. No Totem Poles, que se escreve do mesmo jeito mas pronuncia-se diferente.

Apresentou-me o arbusto de framboesas negras, blackberrys. Ainda estão pequenas e verdes.

No carro, resolvo comer um pouco da pipoca antes que me dê tremedeira. Ele aceita um pouquinho nesta hora. Fazemos um longo caminho e passamos, agora sim, por uma prais de verdade, com areia para as pessoas se espalhares. Disse chamar Third Beach. Quando pergunto se existem a First e a second Beach, ele diz não saber.

(um parenteses, tem alguém roncando tão alto em outro quarto que estou ouvindo os motores daqui, será que faço o mesmo? ou aqui é muito silenciosos mesmo?)

Voltamos a passar Centro da cidade, e tiro uma foto em outro ângulo do estádio. 

E vamos para a FreeWay. Daí ele me fala que ali não é mais Vancouver, é Burnaby. Recordo que foi este o lugar em que a Débora e o Ruan moraram. Vi também umas linhas em concreto, bem altas e ele me disse que era para o Skytrain.

Estávamos indo em direção a sua casa, mas antes ele queria comprar bolo. E entramos num Shopping Mall, pela porta do Walmart, onde vi umas plantinhas para fazer presente para Mrs.Joane. Fiquei para trás e o perdi. Ele anda como um esquilo, ligeirinho. Passos curtos e rápidos, num estilo oriental. Disse estar com 100 anos, brincando. Diminuiu a conta para 90, mas acho que está com 80 anos. Ainda assim, goza de muita saúde, tenacidade, autonomia. Dirige seu Toyota Camry, que por sinal tem um marcador no espelho retrovisor que nunca vi em nenhum carro. Quando questionei, ele me disse que marca os pontos cardeais, estávamos indo para o Leste (Est) naquele momento.

Mr.Boon comprou 6 pedaços de bolo, e eu comprei uma cestinha e um vaso de suculentas para Mrs. Joane. Dali fomos para sua casa, num distrito além de Burnaby, que eles disseram tratar-se de subúrbio. Mas não falta nada no entorno.

Mrs. Joane é uma simpatia. Ela me disse que Mr.Boon lhe dissera que eu não falava nada em inglês, mas estava me entendendo e disse-me que eu tinha mais é que praticar bastante, treinar o ouvido e tentar, só assim aprenderei. Ela fez um chá muito gostoso, que também serviu com leite, e comi dois pedaços de bolo recheadinho com creme, bem fofinhos. 

Conversamos sobre filhos, netos, viagem, falamos de frutas. Ela é da Malasia e toda sua família lá se encontra, mas ela vive há mais de 60 anos em Vancouver. Tem 75 anos mas é muito jovial e bonita. Mr. Boon tinha marcado o jantar para às 18h30 mas digo que é cedo, pois já são 17h45 e acabamos de lanchar. Que tal às 20h?

Ele concorda e liga para o restaurante reservando 3 lugares. E converso com eles por todo este tempo. Ele me contou que, do outro lado do rio, em Vancouver, tem um bairro caríssimo, com casas a partir de 10 milhões de dólares. Pede para que eu compre uma para ele. Digo que vou usar meu cartão de crédito, e aproveitar para comprar duas para mim. Ele é muito gozador. Depois me mostra umas camisetas autografadas que ele possui. Primeiro a do Maradona dizendo ser o melhor jogador de futebol do mundo, só para me provocar. Depois pede que eu feche os olhos e me conduz até a camiseta do Pelé. Tiro uma foto sua junto à camiseta e digo que agora sim, o melhor jogador de futebol do mundo.

Conversamos um pouco mais e as 19h30 saímos para o jantar. Ele diz que o lugar é próximo à minha hospedagem. Lá chegando ele me pergunta como eu sabia daquele lugar, daí me dou conta que me levaram ao lugar indicado por minha filha, pois eles mesmos não o conhecem. Trata-se do Pink Peppercom Seafood House.

Amazing!

Quando lá dentro estamos, num ambiente aconchegante, acolhedor, bem caracterizado, e com garçons muito simpáticos, solicitamos uma entrada de calamaris (polvo) e Mrs. Joane e eu pedimos escalopes com camarão e vegetais. Mr. Boon solicita peixe com purê de batatas e vegetais. Pratos enormes, eles pediram para embrulhar o que não conseguiram comer. Eu como toda a carne, experimento um pouco de cada legume, cenoura, brócolis, pimentão vermelho, aspargo verde, e do arroz com um molho branco a base de vinho. Maravilha!

Digo que tive um bom dia, com bons passeios, boa comida... e ele completa, e boa companhia, no que eu concordo. 

Um dos garçons é mexicano e me ajuda a dizer para eles que tenho dificuldade de lidar com dias tão extensos. Fico agitada enquanto tem claridade, e quando me dou conta, já são dez da noite, e ainda começou a escurecer. Mas ele diz que, com o tempo, me acostumo. E traduz para meus anfitriões a minha conversa.

Ele tira uma bonita foto nossa com fundo da decoração do restaurante, um olho clínico, já acostumado aos pedidos e ao ambiente. Até ele sai na foto, no espelho. kkk

Termino agradecendo e dizendo:

_ " I have one wonderfull day" e percebo que ele ficou feliz em me fazer feliz. Aliás, ambos ficaram.

Quando estamos saindo, cumprimentamos o chefe. Ele sai atrás da gente e pergunta para Mrs. Joane se ela é de Sri-Lanka, ela diz que seus pais sim, mas ela nasceu na Malásia e já está há muito tempo em Vancouver. Ele diz ser filho de Mãe de Sri-Lanka e pai de Portugal. Fala espanhol porque já morou no Panamá, cozinhando. Eles me apresentam como brasileira e futura moradora de Portugal. Mas o que fico encantada mesmo foi com o reconhecimento dele da compatriota, certamente pelos traços e jeito. Eu não consigo reconhecer um brasileiro a não ser quando falam...

Mr. Boon é de Singapura e me disse que fala um pouquinho de cantonês, e agora está aprendendo o espanhol, para vermos que nunca é tarde para aprender o que queremos e gostamos.

Digo que estou querendo cama, enfim admito que estou cansada. Sinto meu corpo pedindo para se estirar. Quando chegamos pergunto a Mrs. Joane:

_ " See you tomorrow?"

_ " No, but nice to meet you."

_ " Oh! Nice to meet you, too. Thank you for all."

Mr. Bonn me acompanha, preciso de sua ajuda com as instruções de abertura da porta.  Pois, não é que, agora, sob o olhar dele, consigo abri-la. Meus funcionários diziam isso quando eu chegava perto de algum serviço que não funcionava. kkk. Normal. Até amanhã às 10 horas então. 

Quando tento abrir a porta do quarto 2, não abre. Recordo-me que recebi um e-mail na noite anterior dizendo-me que estava naquele quarto com cama queen porque a casa estava lotada, e entendi que, se eu quisesse, poderia mudar de quarto no dia seguinte. Mas por que eu iria querer? Então abro o e-mail para ver se houve alguma mudança. Dito e feito, transferiram minhas coisas todas para o quarto 4. Entro, coloco minha bolsa, pego escova de dentes e pasta e vou para o banheiro, encosto a porta e... quando volto... não consigo abri-la. Estas portas aqui estão me tirando do sério...

Subo uma escada interna e bato à porta. O Steve finalmente aparece. Me apresento e explico o que aconteceu. Ele pega uma chave e se adianta, abre a porta para mim, e dentro do quarto tem um toco de chave que devo usar para  quando sair do quarto. 

Os quartos tem vários detalhes atenciosos como uma vasilha de água, copo, guardanapo, cesto de lixo, espelho, ganchos para roupas, diversas tomadas... só as instruções que são dadas por e-mail e nem todas. Os proprietários são chineses, pela constatação do Mr.Boon. Eu diria asiáticos. Ele deve ter razão. Mas, a não ser pelas crianças, e por este inconveniente, acho que não veria o dono. Bom, consegui entrar e agora estou sossegada.

Segundo dia

A Steve Home

No quatro, além da cama ser de solteiro, tem um colchão mole sobre outro derretendo, e novamente as minhas costas é que me alertam. Ainda assim, tendo ido dormir quase 1 hora, acordei com o despertador às 8h10.  Antes da 9h recebi um recado de Mr. Bonn que iria se atrasar e chegar às 10h30. Como tomei meus remédios e não posso demorar a comer, decido verificar no Google sobre cafés nas proximidade.  Na Victoria Drive tem um Starbucks, é o mais próximo e fica a menos de 1 km. Aproveito para conhecer a vizinhança. As ruas transversais estão todas com uma calçada no meio do gramado, para pedestres, mas a que subo, a 39th, só tem gramado e, para não pisá-lo, subo pela rua. Existe uma certa movimentação de carros, e eles são muito cuidadosos com os pedestres, os motoristas. Então tenho que prestar atenção para não atrapalhar.

Além dos esquilos nos parques, outro bicho que se vê por toda a parte aqui pra cima é o corvo. Por vezes são até meio agressivos, acho que quando estão com ovos ou ninhada.

Quase ao lado do Starbucks existe uma paneteria, e lá encontro alguns bolos recheados e pão. Compro um pedaço de bolo e como não tem bebida e nem onde sentar, saio. Quando entro no Starbucks tenho a certeza de estar numa comunidade chinesa, sem brincadeira, só tinham olhinhos rasgados, até os atendentes. Peço meus ovos com gruyére e bacon, eles têm outros dois sabores mas apimentados, e um capuccino médio desta vez. A moça anota Mary como nome, pois é o que falei. Arrumo um assento, pois a loja está bem cheia, deixo minha bolsa e fico no aguardo. Ela chama pelo meu nome, uma moça se aproxima e pega meu pacote, nem confere e sai rapidamente da loja.  a moça vem com meu capuccino e nota o que aconteceu, dizendo que aquele era meu. Como não tinha mais o que fazer, ela me pede para esperar. Eu levo o capuccino ao balcão, adoço e levo para a mesa/balcão. deixo lá e ela me chama, entrega um pacote e um cartão, pede desculpas e diz que o cartão pode ser usado outro dia. Eu devolvo dizendo:

_ " No next.

Ela explica que são as normas da empresa. Eu devolvo o cartão a ela e digo que é um presente para ela então. Quando vou puxar a cedeira para sentar, um cara que estava lá desde que ecostei mostra um copo do menor tamanho e diz que seu amigo está ali. Mas o copo não estava ali quando cheguei. nessa horas não tenho argumentos para me defender. Segunda vez em apenas alguns minutos. Mas o amigo chega, diz para eu me sentar e chama o outro para um lugar na mesa normal.

Quando abro o pacote, é um croissant de chocolate. Eu desejava algo salgado. Doce eu vou comer o bolo. Estou na metade do croissant quando a moça toca meu braço e me entrega outro pacotinho, com meus ovos agora. Acho que fizeram correndo, o bacon nem ficou tão crocante, mas fico feliz e agradecida. Talvez a incapacidade de rebater, e mesmo o sentimento de importência e não de raiva, reverteram toda a situação.

Passei para o Mr. Bonn a localização, além de dizer que era na Vistoria Drive, mas mesmo assim ele perguntou sobre qual cruzamento, depois me disse que são 3 Starbucks só nesta rua. Mas quando abriu a localização, já comigo, pediu desculpas. Não viu antes. Eu informei por mensagem que era o cruzamento com a 41th.

Aguardei uns minutos do lado de fora até ele chegar. Vendo o movimento e um cachorrinho que implicava com os homens.

Primeiro passamos em seu escritório em Burnaby, proximo à estação Gilmore do Skytrain, ele fez uma ligação, pegou uns papéis e partimos. Colocou o endereço no aplicativo do celular, e este nos fez ficar indo e voltando para o mesmo lugar. E ele ficava chamando o aplicativo de estúpido, até que, de volta a origem, ele resolveu trocar e colocou um GPS da Garmin. Isso já me fez dar muita risada.

Quando chegamos ao destino, no Lynn Canyon Park, não tinha parque nenhum. Ele viu um casal fazendo cooper com seu cachorro, adiantava o carro, pois estávamos na calçada inversa, parava e esperava parar de passar carros para abrir a porta e atravessar a rua. Nisso, o casal já havia se adiantado. Ele voltou para o carro, desta vez tinha outra moça na calçada. Ele demorou, passou um ônibus no sentido inverso, quando chegou a calçada, a mocinha pegou o ônibus e o casal já tinha passado novamente. Isso me fez rir muito mas ele não se zangou. Pela terceira vez levou o carro bem adiante. Falei para ele que no Brasil abriríamos a janela e conversaríamos dali mesmo. Mas dessa vez ele conseguiu abordar o casal, e ainda contou que era a terceira vez que ele tentava. Sei disso porque a moça também achou muito engraçado. Tivemos que retornar um pedaço e virar a direita, mas era bem perto.

Na minha programação tinha colocado o Capilano Park, mas ele me levou ao Lynn Park, pois era tão bonito quanto e de graça. Não conheci o Capilano, mas adorei o Lynn, com sua ponte pênsil, seu rio de corredeira, sua cachoeira e um laguinho verde, de águas transparentes. Andamos pra caramba lá dentro, muitas escadaria, meu fôlego não chega nem perto do dele com 80 anos. Preciso emagrecer, apesar que estou achando que nessa viagem já o fiz, uns dois ou 3 quilos, pelo menos. Ele às vezes sobe as escadas de dois ou três degraus e me espera lá em cima. Minhas costas doem, mas as pernas estão boas, não me doem nem durante, nem depois, é só o fôlego mesmo. Ui! Sua esposa não nos acompanha justo porque tem problemas nos joelhos, já operados e com algum metal implantado. Anda bem mas não pode forçar.

Dava para andar sobre as pedras e acompanhar o curso do rio. Sem dor, o faria em boa parte do percurso, e com uma mãozinha para ajudar de vez em quando, principalmente nas pedras mais altas. Mas não quero contar com a força dele, é um homem miúdo, e por mais saudável que esteja, tem 80 anos. Ainda assim chego a beira do rio, tiro umas fotos, retorno, vamos adiante, faço o mesmo, só que desta vez ele não me acompanha.

 E aí pegamos o escadão. Aff! Subimos quase tanto quanto na Cascata do Caracol, mas mais pausadamente, numa escadaria que vai pra lá e pra cá, pela montanha, entre as árvores e com muito ar fresco. Apesar de estar bem fresco, chego ao topo com o rosto suado. E ainda não terminamos, temos uma longa caminhada até chegar de novo a ponte suspensa e ao estacionamento.

Paramos na lanchonete para beber um suquinho e desta vez, consegui pagar. Ficou por CAD$5 cada, mas parecia uma vitamina. O meu, uma mistura de 5 frutas. Nem ele conhecia todas: apple, banana, plum, blackberry, boysenberry, blackcurrant. Ele tomou um suco verde.  O blackcurrant em francês entendi que é o cassis.

Indo ao estacionamento, fomos apanhados por uma chuvinha fraca. Me perguntou se queria ir ao Shopping subterrâneo ou à Chinatown. Escolhi o Shopping por causa da chuva. Ele explicou-me que deixaríamos o carro em Burnaby, no estacionamento do escritório, e iriamos no Skytrains, uma rica experiência e não teria que arrumar estacionamento em Downtown.

Paguei o trem na ida. Você apresenta o bilhete na catraca mas não pode jogar fora, pois tem que reapresentar na saída. achei que aquele bilhete ia servir para a volta também. Seu preço? CAD$ 2,95.

Trocamos de linha uma vez e descemos dentro do shopping, caminhamos pouco por ali e saímos pois estava na hora do almoço, passada aliás. Ele ofereceu comida tailandesa, indiana ou americana, de novo, eu pedi italiana. Queria comer algo que meu estômago não estranhasse os temperos, amanhã vou passar mais de 7 horas voando, não quero surpresas desagradáveis. 

Pelo Google achamos um a 5 quadras de distância. No caminho passamos por outro local do Jazz Festival de Vancouver. Não é a praia dele, então passamos igual aviões, mal pude registrar em fotos, quem dirá curtir a música. Essa é uma das coisa boas de viajar só. O destino não é uma meta em si só. Ele é só um sentido na direção que tomo. O caminho é o que importa e pode alterar meu destino.

No Italian Kitchen um ambiente até refinado, escolhi um nhoque ao funghi e ele um linguini com escalopes no molho de tomate. A comida estava na quantidade exata para o meu apetite, e ainda sobrou espaço para a sobremesa, dessa vez. Tive que insistir e pedir por favor para pagar aquela refeição. Tomamos água. Gastei CAD$ 60,90 na refeição com impostos, deixei 66 com a gorjeta. Fomos muito bem atendidos.

Queria um sorvete ou bolo de sobremesa, seria o encerramento de nosso dia, não queria chegar tarde à Pousada. Um guarda nos indicou uma sorveteria próxima ao hospital, andamos umas 4 quadras e não achamos nada. Um casal nos indicou outra praticamente voltando ao princípio. Vi uma placa de chocolate e ele dizia, onde você vai? Acabou me seguindo, coisa que o caminho quase todo foi ao contrário, hábito cultural, e na chocolateria vi que também tinha sorvete e café, que foram nossa opções. Eu, inclusive, tomei meu sorvete de café. Os sorvetes por aqui não são nada de especial, assim como também não nos estados Unidos. Enquanto saboreávamos nossa sobremesa, entrou uma mulher com uma linda menina num carrinho de bebê. Eu ia levantar para ajudar, mas estava muito longe. Ela enfim venceu a porta. A menina, uma graça, cabelos loiros, um pouco mais claros que os meus, cacheados, balançou os dedos como quem dizendo tchau, mas disse:

_ " Fingers, apontou os sapatos e disse, shoes, depois na cabeça mostrou a crown."

Eu disse:

_ " I'm learning from her. I'm brazilian. I don't speak english very well."

Nisso a mulher começa a falar espanhol. É peruana. Aquela é sua neta. Mas achei-a muito jovem para avó da menina. Conversamos um pouco sobre minha viagem. Disse-lhe como conheci Mr. Bonn e como estava me recebendo e apresentando a cidade. Chamei a menina de rainha, mas sua avó me corrigiu dizendo que ela era uma princesa. Uma princesa mesmo, só chorou quando tiraram a coroa dela para ser consertada. Mas parou assim que voltou para sua linda cabeleira.

Vi ali a oportunidade de comprar algo para levar na viagem de amanhã e ao mesmo tempo, presentear meus anfitriões. Comprei duas caixinhas, com bombons sortidos, escolhidos por mim, da Daniel chocolates suíços finos. Depois que as atendentes observaram minha conversa com a peruana e de ela explicar minha origem, as moças foram ainda mais solícitas para me atender. Gastei CAD$ 26,50 muito bem gastos. Só vou entregar ao Mr. Bonn quando voltar à minha pousada.

Dali voltamos procurando a estação de trem. Tem várias no pedaço e só conseguimos acertar na terceira vez. Ainda ajudamos um casal que estava perdido no trem, e queria ir justamente para o bairro onde ele reside, a mesma linha que íamos usar, mas nós iríamos descer em Burnaby, explicou ele. Sua residência é em Coquitiam. Quando descemos, nos despedimos do casal.

Pegamos o carro e ele me trouxe de volta. Quando entreguei o presente dizendo:

_ " This is my thank you my good friends Joane e Boon. Thank you, so much."

Abraçamo-nos verdadeiramente emocionados. Não tenho palavras para expressar minha gratidão. Ele disse que só não me levaria ao aeroporto porque amanhã trabalha. Mas será só até o final deste ano. É muita responsabilidade.

Eu já tinha perguntado sobre o táxi, se podia pedir para o Steve me ajudar. Ele disse que sim. E eu, antes de entrar para meu quarto, subi as escadas e toquei a campainha. O Steve apareceu e eu:

_ " Please, can you help me? nem esperei a resposta e comecei o meu discurso já meio ensaiado, tomorrow I go to airport and need one táxi for 6:30 a.m. Call you for me?"

Ele confirmou o horário, eu repeti e ainda disse o horário de meu voo. Ele disse que já ia reservar para amanhã, às 6h30. Se não aparecer, ainda dá tempo de eu fazer algo a respeito, já que aqui não tem UBER. Eu disse meu nome, para não haver dúvidas. Agradeci e desci as escadas enquanto ele fechava a porta.

Fui para meu quarto e vou aproveitar o banheiro vazio para já tomar um banho. Amanhã cedo não dará tempo, e não é conveniente, pois vou deixar tudo arrumado.

A banheira está cabeluda, alguém hoje se depilou ali, grossos pelos negros e encaracolados. Que nojo! Abro o chuveiro e fico jogando água para limpar. Este devia ter sido o serviço de quem se depilou. Não vou lavar o cabelo. Lavei de manhã. 

E hoje vou colocar o colchão no chão para ver se amanhã não estou com dores nas costas.

Resumo da história:

Encontrei Mr. Bonn no começo de dezembro de 2017, quando já estava emocionalmente exausta e ele foi a companhia que me ajudou a suportar o tempo de espera em Assunción para o voo que comprei de última hora, depois de quase 60 dias de viagem. 

Agora, reencontro Mr. Bonn, já um amigo, depois de 30 dias exautivos de viagem, num país muito diferente em costumes, onde o idioma foi uma barreira, não intransponível, mas difícil de escalar. Ele me recebe, junto com sua maravilhosa esposa e me conduz por esta cidade tranquila e linda, fazendo-me sentir em casa, acolhida e querida. Certamente este homem tem um papel importante em minha vida. Deus os abençoe em todos os seus planos, com a saúde, física e mental, para que possam desfrutar com merecimento, tudo o que plantam amorosamente.

E obrigada Deus, por sempre me mostrar a sua proteção.