UPPSALA - CIDADE COM JEITO DE INTERIOR

20/09/2019


A Árvore inversa da Catedral de Uppsala e seu simbolismo. Além da outra que promove a reconciliação da Terra habitada pelo homem com a natureza

Hoje fomos para uma cidadezinha vizinha, conhecer um pouco mais da Suécia. Bem cedo nos dirigimos à Estação Central, por onde transitam 250 mil pessoas por dia. Eu previa pegar um trem às 9h36, com a pontualidade britânica deles. Paramos no caminho para o café da manhã e chegamos na estação um pouco antes da 9 horas, mas sem passagens, sem saber onde comprar e onde embarcar. Ficamos com aquelas caras de perdidas e um homem que estava sentado se dirigiu a nós. Mas ele não tinha cara de muito sabido e falava um inglês muito enrolado, ainda assim ficamos sabendo que ele conhece alguém do Rio de janeiro. Eu tinha pressa e trocamos poucas palavras já que eu percebi que dele não iria obter a informação desejada.

Vi um outro senhor sentado e perguntei se sabia onde comprar passagens para Uppsala. Ele disse não saber, mas indicou-me um quiosque de informações turísticas. Para nossa sorte era ali mesmo a venda de passagens, comprei as duas de ida e a Elisabeth as duas de volta. O próximo trem parte às 9h09. 

_ " Oh! Where is the track and what number?"

A moça nos indicou a direção d plataforma número 3. Seguimos em passo rápido. jJá havia um trem na plataforma indicada mas antes de embarcar preferi confirmar com a fiscal:

_ " To Uppsala?, e mostrei as passagens. Ela assentiu e lá fomos nós procurarmos um banco qualquer, já que nos bilhetes não constavam os números dos assentos.

Trata-se de uma viagem bem rápida porque são cidades próximas, cerca de 70 km. E uma hora de viagem. Tem em torno de 170 mil habitantes e nela se encontram a mais antiga Universidade e a maior Catedral Escandinava. Tem ares de interior e o povo é bem receptivo. É de origem Viking.

Na nossa ida conversamos bastante, bem dispostas que estávamos após uma boa noite de sono, e olhando pela janela sempre. Mas tudo que vimos se assemelha bastante ao que vimos na Finlândia, com muitos bosques de pinheiros. Mas por estar bem perto da capital, percebi a existência de um número maior de habitações pelo caminho.

Descendo as escadas rolantes da Estação Central de Uppsala, demos de cara com um músico, tocando seu acordeon por uns trocados, num ritmo alegre e convidativo. O dia estava bonito até, com poucas nuvens no céu e uma temperatura de uns 11 graus. No caminho percebemos o gosto pelas bicicletas, comuns em toda a Escandinávia.

A cidade de Uppsala beira um rio, e logo que iniciamos a caminhada já vimos as altas torres da Catedral. Foi nossa primeira parada. Ela sofre uma manutenção externa. Nós chegamos por uma porta que indicava outra, e fomos rodeando a igreja quase toda para chegar à entrada. 

Ela realmente é muito grande e seu interior revela recantos para uma exploração mais intíma do espaço. Tem diversas salas, como anexos, onde almofadas, sofás, trazem ambientes acolhedores para o aprendizado, para a história, para a religiosidade. Voltado para crianças pequenas, jovens e adultos. Vimos estes espaços sendo explorados e nós mesmas assistimos um filme reflexivo em um destes. E possui três órgãos de diversos tamanhos em lugares estratégicos.

Quase ao lado dela uma igreja menor com uma cruz de pontas cortadas por traços. Achei interessante e fui pesquisar seu significado. Descobri um site que fala de muito mais cruzes do que eu imaginava existir e representar algo. Disponibilizo para quem tiver interesse:

https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/miscellaneous/cruz_suas_formas_e_seus_significados.html

Esta segunda igreja bem menor e proporciona um ar acolhedor, de comunidade.

Nosso próximo destino seria o Museu de Uppsala, mas fiquei perdida com meu Maps e passamos em frente a um portão aberto que deixava ver um grande jardim. A Elisabeth que o notou. Me aproximei e vi que la dentro havia uma placa de bem-vindos.

Dois rapazes trabalhavam podando os galhos das árvores. Passei por uma árvore cheia de frutos vermelhos mas de formato um tanto estranhos. Perguntei aos rapazes do que era a árvore ao que eles responderam:

_ " Apple Tree."

Sério, mas neste formato. Eles mexiam numa outra árvore de maças verdes, enormes. A Elisabeth queria uma e eu pedi:

_ " Can you pick-up one for she?"

E eles prontamente pegaram as ferramentas para tirar uma maçã para minha companheira. Um quebrou o talo e o outro agarrou, meio frangueiro que deixou cair no chão. Depois ela mesma pegou uma vermelha e já provou. Como confirmou ser azeda, peguei uma para mim também.

Depois passamos em frente à Universidade de Uppsala. Nas escadas frontais um grupo de estudantes ensaiavam, orientados por seu mestre, um ritual com bandeiras, certamente para alguma celebração, e de longe os apreciamos por uns momentos.

A caminho do Museu, que agora percebi estar a Beira do rio, vimos uns 'food truck' com falafel e outras comidas árabes. Fomos até uma bica para tirar fotos e o dono de um destes carros de lanches chegou com uma vasilha para pegar água. Fantástico! Ele pendurou o garrafão em um gancho e depois ficou a balançar um pêndulo que bombeava a água. Filme no Instagram @ lessa meyre, e no Facebook: Meyre Lessa.

Dali fomos almoçar num dos trucks, mas não o dele. escolhemos o único que tinha fila, porque eram estudantes locais que estavam na fila, e esta significa que, entre duas uma, ou ambas:

_ ou o lanche é melhor;

_ ou o lanche é mais barato;

Ou Ambos.

Mas não queríamos lanchar ainda, mais para um pequeno almoço mesmo. Vi que acompanhamentos extras custavam 15 coroas suecas. E pergunteri se podíamos pedir só s acompanhamentos. Assim escolhi: babaganouch, Homus e batatas fritas, que usaríamos para comer os molhos em vez de pão. 

O mundo está cada vez mais globalizado e penso que para comer uma comida típica temos que comer na casa de uma família local. Se for alguém solteiro irá provavelmente consumir artigos prontos encontrados em grandes redes de supermercados.

Enfim chegamos ao Museu. Uns retalhos de choche e trico formando figuras e envolvendo árvores e corrimão da ponte me chamaram a atenção sem entender o significado.

Descobrimos que também esta atração é gratuita. E tem 4 andares para visita~ção. A Elisabeth foi no banheiro do trem. Eu precisei usar o do museu. Enquanto eu o usava ela desapareceu escadas acima visitando seus andares. Eu sai do banheiro e coo não a encontrei, aproveitei para ler minhas mensagens do Whats'sApp, tirar o excesso de roupa e colocar na mochila e dali subir para o primeiro andar. 

Quando lá estava observando os achados de civilizações anteriores, algumas vikings pelo que pude entender nas imagens, ela surgiu dizendo que já explorara tudo e iria me aguardar no andar mais simpático, a seu gosto, o quarto e último piso.

Eu fui explorando devagar. Percebi um piso voltado ao protesto, onde havia um filme de entrevistas e transsexuais, várias fotos de movimento sobre o aborto, um grupo de jovens estava recebendo informações de sua professora sobre a sexualidade, no mesmo andar, e muitos outros assuntos polêmicos.

Num outro andar apareciam objetos e utensílios do cotidiano de várias épocas, o que me fez perceber que a globalização de gostos não se deu em função da internet. O que a internet propiciou foi a simultaneidade dos eventos. Percebi num padrão de cozinha exposta aqui o mesmo que presenciei e vivi nos anos 70 no Brasil.

Outra coisa que me chamou a atenção foi como nossas exigências por espaço e conforto foram aumentando ao longo do tempo. Uma pequena casinha de madeira acomodava toda uma família no século XIX, Um único cômodo abrigava a lareira que servia de fogão, a cama do casal, que normalmente atendia também os filhos menores, um berço, e uma cama para os filhos maiores. Pouca roupa não exigia o guarda-roupa, idem para a comida. 

No quarto andar, que a Elisabeth tanto gostou, ficou clara a vocação artística do lugar e o porquê dos retalhos de tricô e chochet em frente ao museu. Ali uma exposição de variadas peças do vestuário e de adorno executadas pelas mãos habilidosas das artesãs locais, com fotos de pessoas utilizando as peças, inclusive o Kurt Cobain.

A Elisabeth admirou que as senhoras se reúnem para conversar e trocar receitas, ficam ali fazendo seus trabalhos e mantendo a mente sã. Calculou que nenhuma tinha menos de 80 anos. Comentei de minha tia que também faz seus trabalhos manuais e a quem muito admiro pois, no alto de seus 92 anos, está lúcida, usando o What'app, Aliás, tias e mãe para eu admirar não me faltam, inclusive por parte de meu falecido marido. Muita experiência e amor envolvidos.

Fomos andando por entre jardins e vimos um grande edifício que abriga a biblioteca Carolina Rediviva, com 5 milhões de títulos em seu acervo.

Constava em meu roteiro um Castelo em Uppsala. Vimos uma fortificação com canhões em volta. E no prédio um Museu. Não consegui concluir se é o que chamam de Castelo. Mas parece-me que o Castelo foi destruído num incêndio e não foi reconstruído.

Uma estrutura negra e grande, com um sino no alto, é também uma das atrações e chama-se Gunilla Bell. Em volta dele um grupo de jovens orientais fazia a festa com câmeras e celulares.

Neste museu, também com entrada gratuita, uma estranha exposição no quarto andar, modernista demais para meu gosto.

Mas no subsolo, um restaurante com café. A Elisabeth por conta de um início de gripe e de tudo que tem gasto energia disse estar com uma fome danada. E viu que tinha sopa. Como a sopa vem acompanhada de salada e pão à vontade, optou por esta, de tomate e batatas com muita pimenta. Quando foi passar seu cartão, quatro vezes tentou e foi recusado. Desconfio que bateu a senha errada. Acho que acabou pagando em dinheiro. Eu vi um serviço nas mesas e quis saber do que se tratava. O atendente disse que era chá, com pão, marmeladas, e queijos. Adorável, pela forma de servir e pelo conteúdo. Fiz meu pagamento com o cartão e o atendente disse:

_ " First trie."

Recebi um bule com meio litro de água quente e peguei dois saches de chá de diferentes sabores. Enquanto nos alimentávamos, chovia lá fora...

Nosso último destino antes de partir é um jardim. Para nele chegar andamos às margens do rio Fyrisan. Minha amiga Viviana gostará de saber que aqui nasceu e viveu o importante naturalista Lineu e o cineasta Ingmar Bergman.

A beira rio também reserva seus encantos. 

E o jardim, com suas lindas flores, me fez pensar em Monet e suas pinturas. E bancamos as musas para futuras inspirações artísticas no Stradstradgarden.

A volta pelo mesmo caminho e a mesma correria.Chegamos à estação às 16 horas e às 16h09 parte um trem para Estocolmo. Corre e embarca. Perguntei a uma passageira e ela me diz que é um outro trem, que aquele precisa de um tíquete. 

_ " I have one tícket", e retiro da mochila para mostrar-lhe a passagem adquirida antecipadamente em Estocolmo. Ela o olha e confirma que estamos no lugar certo. Tomamos assento e logo em seguida o trem parte.

No retorno o trem estava bem cheio e o fiscal não passou para verificar os bilhetes. A Elisabeth teve a capacidade de contar o número de vagões pois achamos muito grande para aquele pequeno percurso. 13 vagões e a locomotiva.

Depois de 1 hora de viagem, achei melhor usar o banheiro da estação central antes de seguir para o hostel, pois são 1,5 quilômetros de caminhada.

E parece que meu cronograma de programadora de viagens está muito bem obrigada. Chegamos com 15 minutos de antecedência em ralação aos dias anteriores. 17h30, e 11 graus. Daqui a 15 minutos estará com um grau a menos. hahaha

O belga foi embora e só restaram os 3 meninos que, suponho, sejam alemães. Por volta de 21 horas chegou uma moça. Pensei: "Que bom! Não ficarei sozinha com eles." Mal chegou e se ajeitou, pediu-me se podia apagar a luz do teto e cada uma acenderia sua luz individual. Eu estou sem luz na cama já que estou usando as tomadas para conexão direta e tirei a da lâmpada. Lembra que o pente de tomadas não está funcionando?

O moço mal cheiroso chegou e pediu-me para pegar o plug de uma extensão que o belga estava usando. Ajudei-o.

Por volta de 23 horas terminei de escrever meu relato no blog. Logo em seguida estavam todos deitados e quando deito é para dormir. Ainda fui ao banheiro e quando voltei estavam todos quietos e no escuro.

Por volta de 2 horas ouço alguém saindo do quarto, voltei-me e logo em seguida a moça entrou, olhou e percebeu que eu estava acordada. Eu sorri para ela e a mesma começou a vociferar em inglês, com cara de poucos amigos. Eu dizia que não a entendia e o rapaz acima de mim falou algo com ela. Acho que disse que eu não falava inglês, ou sei lá. Nisso ela começou a teatralizar meu ronco. De modo muito ofensivo. Parecia um guincho de um porco à beira da morte. Eu tentei encontrar palavras para explicar que nada posso fazer por tratar-se de um ato involuntário. Deixei de tentar me explicar, enrolei-me na coberta e fui para o canto oposto da cama, ela saiu de meu ângulo de visão em direção a sua cama. Dois dos rapazes se levantaram e começaram a se arrumar. Acho que já deu o horário deles irem embora. Na vociferação dela falou algo como " Everbody here." Acho que disse que eu estava incomodando todos ali. Os meninos pelo menos não foram tão grosseiros e mal educados. Percebi pelas suas risadas no dia anterior que achavam graça da situação. Esperei eles saírem e quando tudo se aquietou, fui ao banheiro porque já estava na minha hora, e passavam um pouco das 2 horas.

Voltei e deitei, mas percebi que quando eu começava a dormir e a fazer barulho, ela empurrava algo contra a minha cama para fazer barulho e me acordar. E assim foi por boa parte da noite, até que, acho que cansou-se e dormiu.

Levantei mais cedo que ela e logo me arrumei para sair. Coincidentemente, quando eu colocava meu tênis junto à porta de saída, ela apareceu franzindo a cara. Eu desculpei-me. Ela me perguntou quantos dias eu ainda ficaria. Respondi que um dia mais.

Considero vexatória esta situação. Passei parte da noite e do dia de hoje a perguntar-me se vale a pena passar por esta humilhação. Parecer mais jovem do que sou me coloca em situações como esta, porque o corpo não responde mais como há alguns anos. E as pessoas me tratam segundo minha aparência. Na maior parte das vezes bem, porque sorrio e sou cortês. Por outro lado penso se vale a pena, para gastar menos e ter um pouco de companhia, aguentar gente mal-educada, mal-humorada e talvez até alguns mal-amados. Eu não consigo expressar o que sinto e penso. O máximo de expressão que consigo é ser. Fazer e agir. Essa seria uma situação que eu deixaria -a falando sozinha, e de certa forma foi o que fiz, ficando quieta em minha cama. Mas tinha vontade de dizer para ela que meu atos eram involuntários, mas os dela não. Senti que os rapazes ficaram constrangidos.

Não sei se ajudo ou ensino algo sendo como sou. Ou se só estou me expondo e sofrendo. Este tipo de situação me desequilibra. Mas sei que tem um propósito. Só não entendi ainda qual?

Por vias das dúvidas, uma nova companheira está no quarto neste dia que escrevo. Já cheguei perguntando se ela se incomoda com ronco para dormir, porque eu ronco. Ainda bem que ela disse que não. Alguém aí tem alguma sugestão para acabar com este problema?