Uma breve passagem por GUIMARÃES, o berço de PORTUGAL.

18/03/2020

_ " Até que horas podemos fazer o check-out?"

_ " Até o meio-dia."

Muito bem, estamos indo em direção à cidade com mais casos de Corona vírus registrado em Portugal até então. As medidas de restrição do governo vêm aumentando e com pronunciamentos diários. Sabemos que, sendo Porto uma grande cidade, os riscos de contágio são maiores e certamente as medidas são mais rígidas. Estamos passeando ao ar-livre, até agora, tendo por companhia uma a outra. Mas as coisas começarão a mudar. Sendo assim, vamos postergar ao máximo nossa ida para Porto. E só iremos mesmo porque o voo de minha amiga sai de lá.

Como houve modificação do plano inicial, onde ela pegava um voo direto de Porto para Guarulhos, e agora terá que fazer escala em Lisboa, pensei em irmos juntas de volta a Lisboa, mas ela disse que, se não pegar o avião em Porto, terá 'no show' (não comparecimento), e seu voo será totalmente cancelado.

Nosso roteiro inicial previa a passagem por Guimarães. Ótimo, Guimarães é uma cidade bem menor, onde ainda teremos alguma mobilidade.

É uma cidade com 55 mil habitantes e pertence ao Distrito de Braga e uma das regiões mais industrializadas do país. Seu centro histórico faz parte do patrimônio Cultural da Humanidade. É considerada berço de Portugal por muitos motivos, sendo o principal a ocorrência da Batalha de São Mamede em seus limites, batalha esta que foi de suma importância para a formação da nacionalidade portuguesa.

Mal chegamos e já avistamos o lindo Castelo, uma das Sete Maravilhas de Portugal e também com importante papel nas lutas pela Independência portuguesa.

Parei o carro na rua lateral, num local de estacionamento, onde não havia nenhum outro carro. Mas mal descemos do carro um senhor nos avisou de lá de cima, onde supus ser o estacionamento do Castelo, que ali era proibido, e eu poderia ser multada, aconselhando-nos a dar a volta. E lógico que seguimos sua orientação. <as a volta foi enorme, e não achei por onde entrar no estacionamento, parando na rua paralela, de retorno, no outro lado da atração.

Sabendo que o Castelo estava fechado, não sentimos necessidade de maior aproximação, e no passei que fizemos de carro, notei várias edificações e jardins dignos de fotos. E convidei a Cristina para descermos pelo jardim, na lateral do Castelo. Um jardim encantador. Porém, logo ao iniciarmos a descida ela viu duas pessoas deitadas na grama, identificando-os como mendigos. E toda a neura retida, em função da possibilidade de ficar retida em Portugal, de toda essa pandemia, do isolamento social, da tristeza de ver locais tão lindos em isolamento, de nem podermos nos abraçar, brotou em forma de medo. Eu olhei e vi um casal de namorados. Ela viu dois homens, romenos e perigosos. E eu estava de braço com ela, auxiliando-a em sua caminhada pelo caminho de pedras irregulares. E senti que ela tentava acelerar o passo, enquanto eu queria fotografar aquele lindo jardim. Diante da necessidade dela, cedi, mas lhe disse para não temer, e não vibrar na mesma sintonia deles. Se ela assim o fizesse, nós nos tornaríamos invisíveis. E começamos a falar sobre isso:

_ " O medo nos desestabiliza", disse eu, "colocando-nos em uma vibração diferente, compatível com ondas mais baixas, ou diferentes. Sei que você é uma pessoas positiva, inteligente, detentora da capacidade de manter sua energia em alta frequência, a da positividade e otimismo. Sei que acredita que somos energia. Então não tenha medo."

E ela queria saber mais sobre isso. E fomos chegando ao final do caminho. Eu tentando manter a minha paz interior. Ela entrando em sintonia comigo, mas ouvíamos os passos se aproximando.

No final do caminho havia uma pequena escada de 3 ou mais degraus. E neste momento, eu ainda de costas para o barulho, o homem passou rente a mim, tão rente que quase fez contato físico. E continuou em frente. A mulher passou um pouco mais distante, avançou, chegou a calçada, olhou para lá e para cá, e continuaram caminho. A Cristina ficou 'bege', como diria minha filha, mas não de medo. Ela constatou:

_ " Pareceu-me que eles não nos viram mesmo. Ele quase se chocou com você, como se não a visse ali. Como você faz isso? Vou querer saber tudinho. E iremos conversando na estrada para Porto."

Mas chegando na calçada, uma mulher que estava na calçada oposta, com uma grande avenida entre elas, nos viu, e sentiu a preocupação. Veja como ela vibrava em nossa sintonia:

Ela tentou obter informações a distância para ajudar-nos. A Cristina tentava explicar que estava receosa com os mendigos. Como ela não entendia, devido à distância e o barulho de um carro ou outro que passava de vez em quando, atravessou a rua, manteve uma distância segura e recomendada, e falou que o Parque, sem movimento, ficava mesmo um pouco perigoso, e deu-nos as orientações para seguir adiante onde encontraríamos belos lugares.

Percebe que a vibração dela era de auxílio? Ela não temeu se aproximar. E nós também a auxiliamos, ela queria conversar. Deve estar se sentindo sozinha, e solidão também mata. Seguimos rumos opostos .Mas minha amiga ficou refletindo depois disso tudo, e me falou que pensava na 'Capa da Invisibilidade' do Harry Potter, e que vários escritos prevem essa possibilidade.

E fomos cercando o Castelo, e observando aqueles belos jardins. Passamos pelo Tribunal Judicial, pelo Paço dos Duques de Bragança, pela Igreja de São Miguel. Pela estátua de Dom Afonso Henriques. Pelo Convento de Santo Antonio dos Capuchos. 

E voltamos, agora passando por dentro do Parking público, onde conversamos com o senhor que nos falou da proibição de estacionamento. Ele nos disse duas vezes que a multa por estacionar ali é de 60 euros. Agradecemos polidamente a gentileza. Mas a Cristina já tinha notado anteriormente e sabiamente, que ele devia viver das gorjetas dos motoristas. E agora o parque estava vazio. E ele acabou pedindo uma gorjeta. E demos. Era o mínimo que podíamos fazer.

Agora, de carro, seguimos para o Largo da Oliveira e a praça São Tiago. A parte mais antiga da cidade, com ruas estreitas, que não gosto de passar de carro, mas tudo bem. A maior parte do comércio está fechada, menos uns poucos restaurantes que estão atendendo principalmente os turistas, que ficaram presos no país e estão aguardando as providências das companhias aéreas para serem repatriados. Digo assim porque os países só estão aceitando receber seus moradores, nenhum visitante. E observamos que, nestes 4 últimos dias, onde as medidas foram se tornando mais restritivas, cada dia tem menos turistas. Nos hotéis em que ficamos o máximo de quartos ocupados eram oito. Saímos de São Bento de Porta Aberta deixando o hotel vazio.

Ainda bem, achamos um restaurante aberto nesta praça. Havia um grupo de uns 8 ingleses comendo na parte externa do restaurante, pedimos se podíamos ficar dentro. A garçonete disse que preferia que não ao que a Cris argumentou:

_ " É por causa das pombas."

E a moça aquiesceu. Mas nosso problema também era com fumantes. E sentamos numa pequena mesa, junto ao vidro, bem longe de todos. Detalhe, nossa primeira providência em todo local que entramos é lavar aos mãos ou usar o álcool gel, que quando eles não o têm, a Cris o trouxe consigo. Aliás, venho percebendo-a a cada dia mais alarmada com tudo isso. Mas é compreensível. Estamos todos com uma grande sobrecarga de informação, e ficamos a cada dia mais vulneráveis, pois baixamos nossa frequência energética.

Ainda assim procuramos desfrutar da companhia uma da outra, rir com nossas bobagens, que são muitas, nós estamos constantemente fazendo trocadilhos com as palavras, observando situações inusitadas, vendo a beleza e a graça das coisas. Vou sentir muita falta disso. Essa eu não consegue se manifestar por aqui, falta intimidade.

Acho que a Cris comeu bacalhau de novo, e eu comi filé com risoto de espinafre. A carne estava crua para o meu gosto. Mas o risoto estava maravilhoso. Não tomei vinho porque estava dirigindo, e ia pegar estrada. A Ana Raquel, que nos atendeu, foi extremamente educada e gentil, e isso, em tempos de crise é algo a ser notado e valorizado. Inclusive ela nos ensinou como chegar a um lindo jardim, ali perto, que a Cristina já conhecia de outra visita à cidade.

Era o Largo República do Brasil, com seu jardim todo de canteiros em formas geométricas, e ao fundo está a Igreja Nossa Senhora da Consolação, onde não chegamos, para não sacrificar o joelho da Cristina, que está melhor após uns dias de descanso, andando só de carro e pouco. A região em volta do Largo é constituída por umas casinhas com um estilo francês, ao meu parecer, é como imagino que seja New Orleans, no EUA.

Passamos ainda em frente ao Museu Alberto Sampaio e vimos também, anunciado o local onde ele nasceu, ilustre cidadão português nascido nesta localidade, importante por sua atuação socioeconômica.

Já fomos pegar o carro na rua, que em situações normais, é com estacionamento pago, mas os paquímetros estavam cobertos por plástico.

E voltamos a estrada, rumo a Porto. Guimarães está na metade do caminho entre a Viila de Rio Caldo, no Parque Nacional e Porto, por vias com pedágio.

E chegamos em Porto do meio para o final da tarde, ficando hospedadas no Premium Downtown Hotel, na região central, bem perto do Shopping Via Catarina.

O recepcionista nos informou que o shopping estava funcionando normalmente. Eu precisava comprar mais roupa ou lavar, porque até então não encontrara, no tempo adequado, nada aberto para nenhuma das duas ações.

Estacionei o carro após retirar a bagagem, tendo que fazer uma volta no quarteirão pois o estacionamento não ficava no mesmo prédio que o hotel. Fomos acomodadas em um quarto onde se ouvia muito alto o barulho da obra no prédio ao lado. A Cristida solicitou a mudança, e trocamos de andar também, ficando agora mais no centro do prédio.

E lá fomos nós ao shopping, comprar água e outros alimentos pois as primeiras medidas do estado de emergência acabaram de ser anunciadas, e talvez não houvesse onde comer no dia seguinte. E ver se tinha alguma loja aberta.

Só estava aberta a área de alimentação, o supermercado, a lavandeira, e um ou outro serviço. Fui ao mercado sozinha, enquanto a minha companheira de viagem aguardava, do lado de fora, já que havia limitação da quantidade de pessoas no interior do mercado. Eu queria comprar umas sopas prontas que sempre acho nos mercados daqui, mas não tinha. Só consegui comprar pão de forma, presunto serrano, água (2,5 litros), e bananas. E a fila para sair, com só dois caixas atuando, e mantendo distância de mais de um metro entre as pessoas, foi demorada. Quando sai encontri minha amiga sentada numa cadeira, dentro de um dos locais de serviços que estava aberto, pois o processo foi demorado.

Compramos ainda, no shopping, umas gomas árabes, caras... Mas ainda as estou comendo enquanto escrevo o blog.

E voltamos ligeiro porque achei que, a lavandeira selfie-service que vimos no caminho, fecharia às 19h30. E eu tinha que pegar a roupa. Não arrisquei levar antes porque não sabia o que encontraria aberto.

Deixei a Cris descansando e lá fui eu, com algumas roupas, não muitas para não pesar, e descobri que o horário era 21h30. Tanto melhor. Coloquei a roupa pagando 4,90 pela lavagem a quente, com sabão e amaciante. E como ia demorar uma hora para terminar, fui até uma Starbucks Cofee, que tinha em frente ao Shopping Via Catarina.

Chegando lá vi que ela estava em frente a um outro shopping, mas não entrei neste. Só queria tomar algo quente e já comer meu jantar, já que ia demorar a voltar para o hotel. Avisei a Cristina, que aproveitou para também fazer seu lanche no quarto.

Tomei um Moka médio e comi um bolo de chocolate recheado. E voltei àa lavanderia. Ainda ia demorar para acabar. Um homem, talvez, indiano, entrou para passar os cobertores que lavara para a secadora. E se foi.

Uns 15 minutos depois, minha roupa terminou, e quem disse que eu conseguia abrir a máquina? Tive que ligar no telefone que constava no cartaz para pedir ajuda. A moça me explicou que tinha que apertar um botão laranja, com um desenho de chave. Já o tinha visto, mas fiquei com receio de apertar e fazer algo errado.

Passei a roupa para a secadora e não sabia ligá-la. Ainda bem que o homem voltou e eu pedi ajuda. E depois ajudei-o a colocar os cobertores secos nas sacolas. E antes dele sair, me ensinou em que momento e como tirar as roupas da secadora, onde gastei mais 1, 90 por 15 minutos de secagem à 60 graus. A roupa ficou limpa e desinfetada.

Acho que cheguei de volta ao apartamento por volta de 20h30. Ainda bem que a segurança em Portugal é boa. Agora era tomar banho e descansar.