UM DIA APURADO - de Monterey a San Francisco

09/06/2019

Uma noite bem dormida, um café da manhã razoável, hoje comi as tradicionais panquecas americanas, com pasta de amendoim. A água fervendo estava fria, e meu chá ficou com gosto de água. Coloquei meu celular e óculos de grau numa mesa vazia, e quando retornei, dois cavalheiros a ocupavam também. Que bom que um deles era mexicano, assim conversei um pouco. Ele falou para eu praticar o inglês que irei melhorando aos poucos. Disse-lhe que é o que pretendo fazer, mas estou passando alguns apuros, e contei-lhe o episódio do pão no café da manhã de ontem. Ele riu bastante e compartilhou com o outro senhor, que não fala espanhol. Explicou-me que só o café da manhã é oferecido pelo Hostel, os demais itens são particulares. Eu disse que sabia, mas foi no café da manhã mesmo a confusão. E ele me falou que essas coisas acontecem, contou para o outro homem que um dia ele pegou um barco e se assentou na proa da embarcação, colocou fones de ouvido, fechou os olhos e estava bem tranquilo. O comandante pediu para uma mulher falar para seu amigo sair da proa senão a lancha não conseguiria deslanchar... Ela:

_ " Quem?"

_ " Seu amigo ali."

_ " Ele não é meu amigo."

_ " Então acho que temos um 'bicão' aqui.

Ela gentilmente tocou o braço dele e falou:

_ " Temos um bicão aqui?" e ele,

_ " Não. Eu paguei a passagem..."

_ " Mas este é um passeio privado..."

Aí falaram para ele tudo que aconteceu, ele se desculpou, muito sem graça e desceu da embarcação. Toda essa história só para fazer-me sentir melhor.

Enquanto ele contava em inglês eu entendi até o comandante falar com a mulher. E ele me contou o resto em espanhol, mas também não conhecia a palavra espanhola para bicão, colados em alguns países, metidos ou bolseros.

É um artista e sua obra ia estar exposta a partir de hoje às 11 horas no Museu de Salvador Dali. Eu desejei sorte mas não poderia ver porque já estava indo embora.

E por falar em ir embora, deixe-me chamar o UBER pois às 9h45 sai o Airbus para San Francisco e não quero passar o apuro de antes. São 8h30 e posso até tomar um café ou olhar as redes sociais enquanto espero.

Um negro daqueles alegres, que dão altas e gostosas gargalhadas, me levou até o lugar indicado, falava também espanhol, o que facilitou minha comunicação. Quando chegamos ao destino, era um banco na calçada. Ele ainda mostrou-me a Van que já estava lá, parada.

Já tinha um homem sentado, aguardando. Sentei-me também. Estou lendo minhas mensagens e a Van é ligada. Chego junto a janela, o motorista a abre e tentamos nos entender. Ele diz que o Airbus rumo à San Francisco só parte às 9h45. Bem, coincide com a informação que eu tinha.

Sinto-me estranha, insatisfeita. Procuro no Google tradutor uma forma de abordar o homem que está la esperando, também olhando seu celular, se compro a passagem com o motorista, pois não vejo um guichê, uma máquina...

Ele diz que tenho que comprar pela internet ou telefonar. Óh, não. De novo não.

Começo uma frenética busca por alternativas no Google Maps. Pergunto para ele um endereço, ele olha no Maps do celular dele e me diz para pegar a próxima rua a direita e andar 2 quarteirões (nossa aula de inglês está servindo viu teacher Jaqueline?).

Pego minhas malas e vou seguindo pelo trajeto indicado. Ele me deseja boa sorte e vai ao encontro de sua mulher que acaba de chegar de carro para busca-lo.

Ainda bem que as ruas são planas e as calçadas bem pavimentadas, sem buracos.

Quando chego no cruzamento indicado, olho para as quatro esquinas tentando decidir em qual devo ficar. Vejo um ponto de ônibus e sigo para lá. Em seguida um ônibus local, conduzido por uma mulher (já falei que tem muitas mulheres conduzindo transporte público por aqui?), quando ela para, pergunto sobre o ônibus 55 para San José, pois esta foi a opção que achei no Maps, e ela fala para eu subir que me levará até o ponto inicial, logo adiante. Quanta gentileza! O ônibus é grande e só tem dois passageiros no fundo. Tento manejar minhas malas, mas elas saem passeando pelo ônibus, contra a minha vontade. O trecho era curto, só mais uns 3 quarteirões de onde eu estava, mas a ajuda foi bem vinda. Ela, em espanhol, me indica para virar a esquina pois o ponto está do outro lado.

Vou caminhando e percebo que nos pontos constam a numeração dos ônibus que fazem parada em cada local. Não. Não. Não. Viro mais uma vez a direita, já estou no fim do quarteirão e não acho. De repente um garoto me chama:

_ " Você. Você. O homem falou que o San José é aqui."

Sigo-o. Chego a um ônibus e o motorista fala comigo que é ali o ponto do 55, para aguardar. Até agora não entendi como ele sabia que eu estava procurando o San José? Será que a motorista passou com o ônibus, viu que eu fui além do local indicado e pediu sua ajuda?

Minha blusa laranja deve ter ajudado na minha localização. Siga aquela mulher de blusa Orange... kkkk

Sentei-me, ajeitei minha bagagem e aguardei. O ônibus para San José passa às 9h45. Mesmo horário que o tal do Airbus, que na verdade é um serviço oferecido pelas companhias aéreas ou pelo aeroporto.

Uma jovem negra que também aguardava o ônibus e levava uma mala grande me falou o valor. 12 dólares. Já retirei US$ 20 da bolsa para facilitar, não sabia como era o ônibus.

O condutor também falava espanhol e brincou comigo igual ao motorista do UBER de Pismo Beach, pegou o dinheiro e perguntou se era para ele, mas ainda falando em inglês, pois foi nessa hora que eu disse que apesar de não falar bem o inglês, entendi o que ele disse. Ele me devolveu um cartão com US$ 8 porque disse que não davam troco em espécie. Não tenho o que fazer com o cartão, passe-o para alguém que precisar.

A paisagem foi se modificando e tornando-se mais exuberante em suas árvores e plantas, sinal de maior umidade. Também atravessamos as montanhas e não ficamos andando só nos grandes vales. O embalo das curvas fez a maior parte da gente adormecer. O ônibus é no estilo Transporte Coletivo, mas seus bancos são mais confortáveis e com mais espaço para as pernas do que o ônibus intermunicipal que já usei aqui.

Quando os passageiros começam a entrar em outras paradas, de outras cidades, entendo o porquê da brincadeira. As notas ou moedas são inseridas numa máquina, que emite o cupom de troco. Como eu entreguei o dinheiro para ele em vez de por na máquina...

Numa parada de 4 minutos, alguns passageiros desceram para fumar e ficaram conversando lá fora. Quando entraram, a moça negra perguntou se alguém podia trocar com ela um dólar pelo cartão de troco, explicando que ficou sem dinheiro porque a máquina só dá troco em cartão. Um senhor fez a troca. Aí o condutor aproveitou e perguntou se alguém trocaria o meu cartão de US$ 8, e explicou o que aconteceu. O mesmo senhor foi lá e pegou o cartão por US%. Bom para ele e para mim também. Minha passagem acabou ficando por US$ 15. Uma senhora oriental, que estava com andador e sentava na parte da frente destiana ao desabilitados, brincou:

_ " Alguém mais?" e todos riram... até eu. Kkkk

Na mesma fileira de assentos que eu estava um homem muito falante, que conversava com o motorista o tempo todo. Dirigiu-se a mim e eu, presumindo que não saberia outro idioma e não ia querer perder tempo comigo fui logo dizendo que não falo inglês, nem acrescentei o muito bem, era mesmo para encerrar o assunto.

Mas ele insitiu, perguntando então qual o idioma que eu falo.

_ " Spanish. Portuguese."

_ " Wow! São Paulo. Ubatuba."

Sim, sou brasileira. São Paulo. Ubatuba.

_ " Eu morar dois anos em Ubatuba. São Paulo is very traffic."

Esse assunto surgiu porque estávamos chegando a San José e o trânsito começou a aumentar.

O ônibus começou a fazer paradas solicitadas por alguns passageiros. Logo chegou a San José Diridon Station, e sabia que era minha parada pois vi o trem. Jã era meio dia. A moça negra e o morador de Ubatuba também desceram, e cada qual tomou seu caminho. Fui para a bilheteria com minhas malas, tinha fila mas eu estava feliz por poder falar com alguém. Quando chegou minha vez, o moço chamou um ajudante da estação e pediu que me ajudasse. Ele foi comigo até uma máquina para obter a passagem, foi explicando em espanhol cada passo da compra. Coloquei US$ 20 na máquina para comprar a passagem de US$ 10,50 e recebi o troco em um monte de moedas. Catei tudo de qualquer jeito, junto com o bilhete, joguei na bolsa pois não tinha como ficar arrumando naquele momento. 

Ele perguntou se podia me ajudar com as malas, e eu concordei. Interessante observar que, por aqui, se alguém esbarra em você, fica no seu caminho sem querer, faz qualquer movimento que possa te atrapalhar, beirando ao exagero, dizem:

_ " Sorry!"

E também não te ajudam sem sua permissão. Isso eu preciso aprender, vou logo metendo a mão para ajudar, sem que necessariamente a pessoa deseje isso.

Fomos até o corredor 5B e ele me ajudou a subir as escadas do trem com as malas. Quis lhe dar uma gorjeta, mas ele não aceitou, fez de bom coração. Perguntei-lhe onde eu podia por as malas e ele disse que em qualquer lugar.

Este trem é mais como um Suburbano, do tipo a linha Santos-Jundiaí, em São Paulo. A diferença é que não vão passageiros em pé, tem um fiscal dos vagões que fica olhando tudo, o tempo todo. Quando passou por mim perguntou para onde eu ia, como não entendi a pergunta, começou a falar nomes de estações do trem. Entendi e disse:

_ " I'm going to San Francisco."

Ele apontou a bagagem, que eu tinha acomodado nos bancos à minha frente. 

_ " My." e me movimentei, preocupada se tinha feito o correto.

Ele viu minha expressão e sinalizou com a mão que estava tudo OK.

O trem só chegaria a San Francisco 1h30 minutos depois. Só que, notem, ele saiu às 12h13 de San José. Ou seja, minhas conexões foram perfeitas. 

De Monterey a San Francisco não tem nem 200 km e eu demorei 4 horas para chegar. Não posso mais criticar os transportes rodoviários à distância no Brasil. Sempre digo que para pedestres é muito difícil e demorado se locomover usando ônibus e trem. Então, lá é como cá.

As cidades pelas quais fomos passando se acercam da linha de trem, e quase todos os lugares têm nomes de santos em espanhol. Vocês notaram que eu só fui à igrejas no Panamá? Estamos num país de maioria protestante, mas acho que os E.U.A não tem religião oficial, e não vi muitas igrejas por aqui, ou não as reconheci.

Dada toda essa balburdia pela manhã, quando cheguei necessitava demais de um banheiro. Dentro da estação fui orientada facilmente. Apesar de ser um banheiro muito frequentado, estava razoavelmente limpo. O que devera é impressionante também.

Já do lado de fora, saquei meu celular, ativei os dados móveis (que costumo desativar para economizar bateria) e chamei o UBER. Passei minhas características e... pouco depois... viagem cancelada. Chamei outro, e nisso a Patricia passou por mim com o marido, conversavam e aguardavam também um UBER. Brasileiros. 

_ " Estou com dificuldade de chamar o UBER porque perguntam coisas e eu não falo inglês e demoro responder."

_ " Você não fala inglês. Corajosa você! Ah.O nosso motorista está ligando para saber onde estamos."

_ " Outro UBER cancelou. Ele disse que não pode parar aqui. Vou mudar de lugar."

_ " Ah. Eu te ajudo. Nós vamos para lá."

_ " Eu estou vindo de Monterey, já vim desde Los Angeles de ônibus e trem."

_ " Nós viemos do Hawaí, mas já passamos por Las Vegas."

_ " Eu estou com toda essa bagagem porque estou indo morar em Portugal."

_ " Sério, que coincidência, nós também iremos, mas em novembro. Ah! Nosso UBER chegou. Me passa seu nome e te acho no Facebook."

_ " Meyre, com y, Lessa, com dois s."

_ " Olha amor, ela também vai morar em Portugal."

_ " Você pegou o contato dela?" já brindo a porta do carro.

_ " Tchau."

_ " Tchau."

Eu fiquei ali e mais dois motoristas cancelaram a viagem de mais de US$ 50 até San Rafael. Um queria saber se eu ia para o Sul. Sei lá que direção está o Sul.

Resolvi andar e achar algo para comer. Um grande quarteirão depois vejo um Taco Bell na esquina. Ah. Vou aqui mesmo pelo menos está mais fácil de parar. Já que eu estava caminhando com toda minha bagagem. Pedi uma salada com frango, mas esta foi bem diferente da de Los Angeles. Primeiro porque o frango paracia uma pasta de frango processado, cozido, um creme verde sem gosto, um pouco de alface, um vinagrete que foi o que mais gostei porque continha coentro, arroz e feijão preto. Estava horrível, até para quem não tem paladar tão apurado, como é meu caso. Mas me alimentou.

Lá dentro tive a ideia de olhar o meio de transporte mais rápido para chegar ao meu destino. A pé. O que? Como assim a pé é mais rápido? O trânsito da sexta feira estava caótico, com muitos congestionamentos. Mas a pé passava por dentro da água. Será que tem alguma ponte para pedestres? Olhei a rota e indicava o uso do Ferry Boat. Ainda assim, mais uma hora e meia para chegar.

Finalmente consegui um UBER, até o Ferry Boat por US$ 11,93. Pergunto se ele fala espanhol e descubro que fala português pois, tem muitos amigos brasileiros. Está divorciado após a traição de sua esposa, tem um filho e pensa em se mudar para a Colômbia. Digo que não o faça sem antes conhecer o Brasil. Ele disse que queria sair há muito tempo de San Francisco, pois o custo de vida está muito elevado. Tanto os brasileiros como os demais latinos que aqui moravam, conhecidos seus, mudaram-se por causa disso. Antes ele não podia pois sua ex o ameaçava romper se assim o fizesse, agora que está solteiro, pode ir aonde quiser. Sofreu, mas agora acha que foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Disse que descobriu que é mais fácil para um bom homem achar uma boa mulher, do que o contrário. Eu digo que é porque tem mais mulher do que homem. Esta não foi uma boa constatação.

Entro na conturbada estação de San Francisco para procurar onde comprar passagem para o Ferry. Um simpático moço que também falava português me ajuda adquirir o bilhete na máquina, e ainda coloca o de menor valor, para crianças e idosos, US$ 6,00. Digo que estou me sentindo mesmo uma criança, perdida e sem saber falar.

Embarco, fico do lado de fora, sentada e agarrando as malas para não correrem. A moça em frente percebe e comenta, achando engraçado.

O Ferry na verdade é como uma lancha grande, ele inicia o percurso devagar e depois voa... /venta muito e apesar do sol, sinto frio. Mas a vista é linda. A cidade que veem abaixo é na chegada a Larkspur.

O moço me disse que chegando em Larkspur, tomasse a linha 31 do ônibus gratuito que me levaria até San Rafael. Quando desci do ônibus, andei um pouco para procurar o melhor lugar para chamar o UBER, já que, com tantas grandes avenidas, não é qualquer lugar em que eles podem parar.

Logo um chega, e ainda assim, tenho que atravessar a rua e sair da esquina para chegar no veículo. Ele me leva até o Travelodge San Rafael, que eu reservei pela Bancorbras, porque em San Francisco as hospedagens estava muito caras.  Mas é bem longe. E vou acabar gastando bastante em condução.

Mas o quarto é confortável, o banheiro possui uma pequena banheira, e fico bem acomodada. Já são 16h. Passei o dia todo em trânsito. 

Não será mais possível fazer minha programação para o dia em San Francisco, então deixe-me conhecer a Baía de San Rafael. Olho no mapa e saio procurando. Acho um  Mexico Market que tem várias lojas, solicito um capuccino, um donut e uma panqueca com syrup, que ela chama de mel, mas acho que é xarope de milho. Será meu jantar. 

Saio caminhando e perguntando, olhando as casas e seus belos jardins e lindos carros, uma moça me informa que tenho que chegar ao parque para ver a água. 

Aqui já tem muita gente que fala espanhol, deve ser um refúgio de latinos e asiáticos. Lá dentro vejo uma menção de que aqui as coisas já não são ão seguras...

 Na sede do Parque o moço me diz que vou ter que andar uma duas milhas. 

_ " Tudo isso?"

_ " Mas vale a pena" diz ele.

_ " É que já caminhei uma duas..."

Mesmo assim vou em frente, animada por sua descrição.

Mas as duas milhas já são no entorno do mar, ou lago, ou sei lá o que seja... E assim o tempo passa em ritmo diferente, quando a gente não tem mais pressa de chegar, porque o caminho já se pode desfrutar. Muita gente passeando com crianças, com cachorros, de bicicleta, correndo, num fim de tarde de sexta feira.

Lá ao longe uma ponte, enorme, linda. Não é a Golden Gates, mas o que descobri é que, pontes por aqui não faltam. Todas imensas, atravessando os mares para ligar várias porções de terra de forma mais rápida. 

E a vida sisvestre, muitos pássaros e flores...

Uma cegonha me chamou a atenção dentro de um laguinho meio pantanoso. E muitos patos...

Também achei interessante a quantidade de erva-doce em todo o entorno. Até comi um pedaço.

Vou andando admirada. Realmente, se não venho para em San Rafael, chegado tarde, esse pedaço de chão ficaria desconhecido. Lamentavelmente. E quando digo que Deus escreve certo por linha tortas...

Cheguei a quase me desesperar quando não conseguia um UBER para vir. Depois tudo foi solucionado melhor do que a encomenda, desde Monterey. Gastei menos, aproveitei mais e não tenho do que reclamar.

Voltando para o hotel, vejo mais algumas bandeiras americanas, que boa parte dos moradores têm orgulho de colocar frente à suas casas. Demonstra bem este patriotismo que tão bem faz a eles e a Nação. Peço ajuda do Google para voltar ao hotel pelo menor caminho, só mais 1,5 km. Acho que andei mais de 6 km hoje. Só em San Rafael.

Agora banho de banheira e descanso.