Último dia em NÁPOLES, caminhando na cidade.

16/02/2020

Desculpem-me a demora em encerrar este capítulo de viagem. É que quando chego em casa, as obrigações são tantas e o período até a viagem seguinte foi tão curto que deixei para escrever quando já tivesse tudo preparado. E...

Depois de tantas descobertas surpreendentes, para meu último dia na cidade eu reservei uma visita à Capela de San Severo, direto no site deles. No meu ingresso estava marcado o horário de 10h30, eu dei uma verificada no caminho e vi que seria possível visitar Al Duomo, que é a Catedral Santa Maria Assunta, onde estão guardadas as relíquias de San Genaro.

Recebi meu café às 8h07 e já me preparei para sair às 9 horas, acreditando que seria tempo suficiente para fazer a caminhada e chegar no horário na Capela de San Severo.

Mal eu saí da Praça Garibaldi, um homem falou comigo, e começamos a conversar, e me perguntou aonde eu ia. Pois ele disse que ia me ciceronear. O Google Maps indicava um caminho a seguir, e ele me disse:

_ " Pode confiar em mim, eu sei o caminho."

E lá fui eu. Mas mais que acompanhar pelo caminho, fui observando seu jeito napolitano de lidar com o trânsito, e caminhei no mesmo ritmo, sem parar para nada, sem olhar o que está fazendo, só seguindo em frente, assim como fazem as outras pessoas, as motos, as bicicletas e os carros. Muito me admira não ter gente atropelada o tempo todo. Não tenho ideia qual a estatística de acidentes de trânsito em Nápoles, mas a julgar pelo comportamento e todos, devia ser altíssimo.

Entramos no Duomo e ele foi me conduzindo aos locais mais importantes, as Capelas Laterais, uma igreja grande e lindíssima.

Na pia batismal, logo na entrada, ele molhou os dedos na água benta, se benzeu. Molhou de novo e colocou na minha nuca, dizendo algo como que para eu voltar a Nápoles.

E me conduziu por umas escadas que levavam a um andar inferior, onde estavam as relíquias. Admito que, se estivesse sozinha, dado o pouco tempo que destinei a essa atração, eu provavelmente não teria visto o relicário.

Ele queria parar para tomar um café, mas eu disse que queria ir a San Severo.

Aí ele me levou a outra igreja, e chegando lá eu fui procurar a bilheteria. Fomos até um local onde vendiam os artigos religiosos e ele perguntou. Eu entendi parte da explicação que a pessoas deu a ele. Mas ao sair, em vez de irmos para o lado que eu entendi, fomos para outro, e novamente entrou em outra igreja ainda.

Nessa vez, eu também falei aonde queria ir, mas como ele falava italiano, a explicação era dirigida a ele. E outra vez ele falou do café.

_ " Não dá, tenho um ingresso para às 10h30 na Capela e já são 10h24", e eu já estava ficando irritada. Ele disse que sabia onde era, mas não era certo.

Só então começamos a seguir o caminho indicado, e quando lá chegamos, um homem mostrou-nos onde comprava o bilhete. E lá ia ele querendo que eu fosse para lá. Saquei meu ingresso da pochete e fui direto para a entrada. Ele ficou do lado de fora, dizendo que me esperaria. Eu não tinha ideia do tempo de demora.

O ingresso dava direito a um áudio-guia, e escolhi em espanhol. Quase nenhum lugar tem a opção de português. Recebi a recomendação para não tirar fotos. E lembrei-me que eu tinha lido sobre isso ( as imagens que coloquei abaixo são da internet).

A Capela de San Severo de Sangro é particular. Foi construída no século XVI para abrigar o corpo do Duque de Torremaggiore, nobre da família de Sangro. Sua forma definitiva foi dada por Raimondo di Sangro, príncipe de Sansevero. As obras em mármore que ali encontramos são de uma maestria estupenda.

No centro da Capela está Cristo sob o véu. O véu de mármore revela uma transparência tão impressionante que chegaram a duvidar que fosse deste material, mas várias provas o confirmaram. Seu escultor tinha 33 anos quando a produziu e foi sua obra maior, Giuseppe SanMartino.

Ao lado esquerdo de quem entra, logo após o Cristo, está uma escultura dedicada à mãe do Príncipe, chamada a Castidade, que também usa a técnica do véu e também muito interessante, mas não produz o mesmo efeito visual da outra. O artista e criador da técnica foi Antonio Corradini.

E do outro lado, em frente a ela está o Desengano, enredado no pecado e ajudado por um anjo a livrar-se do mesmo. Essa obra realizada por Francesco Queirolo homenageia o pai do Príncipe. E eu adorei esta simbologia.

A capela se resume praticamente a um grande salão, mas são tantos detalhes e tantas esculturas e pinturas. O príncipe era maçon e ajudou a escolher os temas e símbolos que foram inseridos na Capela.

Vários são os túmulos de cavaleiros nas laterais da Capela.

E no andar de baixo, duas caveiras, chamadas máquinas anatômicas, com os sistemas nervoso e alguns órgãos. Uma comprada pelo Príncipe, que se interessou pela obra de Giuseppe Salerno e encomendou a do sexo feminino. Diz a lenda popular que ele matou dois seus criados e usou uma substância para endurecer as artérias. Mas testes comprovaram que o material é cera de abelha com fios de metal e seda. Considerando a época da confecção (1760), também impressionam.

Eu devo ter demorado mais de uma hora lá dentro, e eu saí e o Mássimo ainda estava lá. E me convidando para o café. Eu achei que era dia de folga dele. Enquanto andava ao meu lado, rapidamente, reclamava do cansaço porque não estava acostumado a caminhar, pois tem uma moto.

Eu olhei no relógio e disse que o café teria que ficar para depois porque eu queria chegar nas catacumbas de San Gaudioso. Coloquei o Google Maps para funcionar e desta vez quem me acompanhou foi ele.

Quando, em dado momento, ele compreendeu qual era o local, pediu que o seguisse até o elevador. Mas quando chegamos lá estava fora de serviço. E tivemos que voltar e fazer o caminho indicado pelo Google.

Aí ele disse que não podia mais me acompanhar porque tinha que trabalhar. E queria se despedir. Hora de cobrar o serviço. Queria beijo. Como o preço não foi tratado antes, e na verdade eu em solicitei o serviço, coloquei meu braço em posição de distanciamento. Ele insistiu umas 3 vezes, mas não usou a força. E ainda o chamei para tomar o café então, mas aí já não tinha mais tempo e foi-se em bora. E eu já estava bem perto de San Gaudioso.

E cheguei lá com o mesmo ingresso que usei em San Genaro. E perguntei se havia banheiro

_ " Sim, ali atrás, mas não dá tempo se quiser acompanhar a próxima visita."

_ " Quando começa?"

_ " Dentro de um minuto."

_ " Tudo bem, vou me aguentar", afinal, a próxima visita guiada seria em uma hora.

Dois grupos se formaram e eu fui com o guia falando italiano, lógico. No meu grupo haviam quatro senhores que estavam juntos, um deles usando muletas, e três mulheres, todas desacompanhadas, incluindo-me.

AS Catacumbas de San Gaudioso são muito menores do que as de San Genaro, mas fazem parte do mesmo projeto de recuperação da memória e da dignidade da região. Ficou evidente a falta de popularidade entre os napolitanos pelo total desconhecimento do meu cicerone improvisado.

Nosso guia nos falou que de um ano para o outro, o número de visitantes subiu de 5mil para 160 mil. Eles eram inicialmente em 5 guias, para os dois espaços, e hoje são quarenta. E notei nos guias das duas atrações uma paixão contagiante pelo que fazem, pelo local, pelo projeto. E talvez essa paixão tenha me contaminado, porque foram, sem nenhuma dúvida, os locais que mais gostei em Nápoles.

Ela está construída embaixo da Igreja Santa Maria alla Sanita, que visitei e fotografei no primeiro dia em Nápoles. São do período denominado paleocristiano, ou seja, do primeiro século depois do cristianismo e possui afrescos dos séculos V e VI.

E também é possível observar a intervenção religiosa da ordem domenicana, que alteram o desenho da planta das catacumbas originais e cobrem os símbolos com figuras mais recentes de adoração.

Minha capacidade de entender o italiano é limitada, então vou escrever sobre o que me pareceu mais claro.

Dentro da Igreja, descendo os primeiros degraus no centro, saímos no que poderíamos denominar Cripta, no estilo católico, com seus túmulos no solo, e figuras de santos e mártires, 4 masculinos de um lado e 4 femininos do outro.

Ao descer encontramos, no primeiro piso, outra representação do visto acima, onde nobres pagavam em ouro pelo direito de ali serem sepultados. E a repetição do visto acima, 4 de cada lado, mulheres e homens de renome. Tinham o crânio fixado no alto, porque acreditavam que o crânio é a moradia da alma. Abaixo uma pintura de um mestre da época, que incluía uma frase de impacto. A arte e o escrito revelavam a posição social do morto, bem como sua atividade em vida. Disse ele que pelos registros encontrados, o valor de um sepultamento como este equivale hoje a 3 milhões de euros.

No andar de baixo, mais antigo, os sepultamentos eram feitos colocando o morto num buraco na parede, sentado sobre uma urna, para que os líquidos corporais escorressem para esta. O corpo do morto era perfurado para que isso ocorresse. É muita informação?

Terminamos nosso pequeno tour, que ainda assim levou uns 45 a 50 minutos. E aí pude finalmente usar o banheiro.

Quando fui sair, a porta da Igreja já estava fechada. Eles fecham às 13 horas, quando inicia a última visita. E tanto eu como os próximos visitantes saímos pela porta lateral.

Eu tinha a intenção de visitar a Galeria Umberto I, o Palácio Real e o Quartier Spagnol, mas o dia amanheceu nublado. Havia chovido a noite, e eu teria que andar mais três vezes o que já caminhara até aqui. Uma vez para voltar ao ponto inicial, e outro tanto de ida e volta a estes lugares, que ficavam do lado oposto da cidade. E eu já estava tão cansada, que desisti.

E sentia fome agora.

Entrei numa espécie de padaria, a Pasticceria Popella. E eles têm salgados e doces.

Já eram 13h30, eu queria almoçar. Já não tinha jantado na noite anterior... Pedi um salgado que parecia um pão enrolado com bacon. Um doce chamado éclair, que lembra uma bomba. E uma tortinha com uns mini morangos em cima, muito lindinha. Um chocolate quente e um chá gelado. A moça disse que eu podia sentar que levava na mesa.

Passados uns minutos ela chegou com a bandeja, e ficou olhando em volta, curiosa. E me perguntou:

_ " Você está sozinha? Isso tudo é para você?"

Até agora, lembrando, dou risada.

_ " Sim. É só para mim. É meu almoço."

E cai na risada. E falei para ela:

_ " Você me fez sentir mal agora", em tom de brincadeira.

Estava muito gostoso. O salgado tinha uma massa parecida com a dos salgados brasileiros. E os doces estavam também muito bons.

Fiz um registro no TripAdvisor porque gostei muito. E comentei com o dono quando estava saindo, que apreciei e que elogiei no aplicativo.

Segui para o Hotel e fui arranjar minhas coisas para a viagem. Tive que rearranjar tudo, fazendo rolinhos mais apertados com a roupa, para evitar problemas com a companhia aérea. Afinal, comprei coisas pelo caminho, e me desfiz de coisas menos volumosas.

Já de volta em casa, fui até a manicure e, conversando com uma mulher, ela comentou que seu marido trabalhou em Nápoles. E ela ficou morando em Veneza nesta época. Mas ele nunca deixou-a ficar lá com ele. Dizia que os homens em Nápoles são desrespeitosos. Chegam a perguntar o preço das mulheres desacompanhadas. Eu disse:

_ " Comigo não chegou a tanto."

_ " Certamente porque você ficou em bairros mais turísticos. Ele me disse que algumas esposas de amigos dele tinham tido episódios desagradáveis."

Resumindo, foi bom te conhecer, mas, assim como muitos lugares, já vi e foi o suficiente. Tenho outros locais ainda para conhecer. Mas como disseram-me que Nápoles é amor ou ódio, não sou de odiar a nada e nem ninguém, mas também não amei.