TURKU - A CIDADE MAIS ANTIGA DA FINLÂNDIA

15/09/2019

Meu objetivo ao procurar alguma outra cidade no país para conhecer é rodas um pouco para ver, através das janelas de ônibus ou trens, um pouco do relevo, da flora e quem sabe da fauna do país. Neste caso, os 170 km e duas horas que separam uma cidade da outra, por uma estrada que não visa o turismo, mostrou-se repetitivo, mas não deixou de fornecer os dados que procuro. Ao longo do caminho vi quase que somente plantações de pinheiros e eucaliptos, muitos mesmo. E, alguns momentos surgiam alguns vales gramados e neles algumas casas, e em alguns deles, alguma outra plantação. Olhando por este trecho, parece que os finlandeses comem madeira ou importam tudo que comem. 

O ônibus veio até bem vazio e, sendo daqueles de dois andares, mais lugares ainda. Na hora de entregar a bagagem para o motorista guardar ele me perguntou onde desceríamos, eu disse que em Turku, ele insistiu, e eu também. Daí ele colocou nossa bagagem num determinado espaço e embarcamos, subindo para o andar mais alto. Não sentamos juntas, e ambas ficamos na janela.

Nas cadeiras ao lado da minha, após o corredor, tinham dois homens que fiz questão de envolver numa selfie minha. Ambos representam o perfil do homem finlandês comum. Lembram o Helsinque do filme A Casa de Papel. Grandes, tatuados, barbudos e claros.

Tive bastante sono ao longo do caminho e devo ter cochilado um pouco. Coloquei o relógio para despertar um pouco antes do horário previsto para chegada. Algo me fez pensar que havia mais de uma parada em Turku, e o ônibus continuaria em frente. Quando vi que aumentavam o número de casas, já imaginando, pelo horário, que chegáramos ao nosso destino, perguntei para uma mulher se havia uma estação Central ou só pontos de ônibus. Ela me disse que a estação central era no ponto após a igreja. E quando foi descer na igreja, nos alertou que era o próximo ponto. 

Maravilha! Deu tudo certo e descemos onde queríamos. Como já eram 14 horas, entendemos que devíamos comer ali mesmo e vimos um Hessburguer atravessando a rua que nos serviria. Comi um hambúrguer com salada de alface, tomates, cebolas, hambúrguer e bacon, uma porção de anéis de cebola e um iogurte com morango e banana. Gostei bastante. A Elizabeth comeu um Wrap também com bastante verduras, batata frita e coca-cola. 

Quando dali saímos já ventava bastante, mas no caminho tive que colocar a capa de chuva. Muito vento gelado e muita água. O hostel fica a uns 900 metros da estação. E na verdade é um apartamento dentro de um edifício que a proprietária ou locatária decidiu transformar em hostel. Tem um quarto comprido que acomoda quatro beliches, dois de cada lado, em linha. Um pequeno hall onde estão as máquinas de lavar e secar roupa, onde deixa os produtos e onde devemos deixar as toalhas usadas. A porta para o único banheiro está também neste hall. E na outra extremidade uma cozinha estilo americano, mas grande. A mesa acomoda 8 pessoas. E tem máquina de lavar louças também. Os itens de cortesia são muitos, e temos que deixar os sapatos numa estante junto à porta de entrada, mas pudemos andar de chinelo enquanto que os demais hóspedes ficam de meias, se não têm chinelos.

Estava combinada a nossa recepção para 16 horas, mas demos sorte de pegar um morador entrando no prédio. Sentamos na escada, protegidas do vento e da chuva. logo depois uma das hóspedes chegou e acabamos entrando, precisando usar o banheiro e descansar. No horário marcado chegou a nossa anfitriã. Explicou o que faltava, entregou-me a chave e disse que recebeu do Booking o valor combinado. Aparentemente, aqui deu certo a cobrança no cartão da Elisabeth.

Falando em Elisabeth, ganhei um cachecol lindo dela, acho até que não demonstrei a devida gratidão pois ela me pegou de surpresa e não queria que gastasse dinheiro comigo. E nem sou tão friorenta assim, mas vocês me verão usando-o na Islândia, provavelmente.

Sentimo-nos em casa, mesmo estando com outros 6 desconhecidos. Duas alemãs, dois franceses, um chinês e uma holandesa. E dormi bem, depois de uma boa ducha e de algum trabalho no blog.

A Elisabeth me disse, pela manhã, que a holandesa delirou durante a noite, um pesadelo sofrível e que eu comecei a murmurar e parecia que eu estava tentando acalmá-la, e provavelmente em holandês pois a ouvinte não entendeu uma palavra. 

Levantei cedo, umas 8 horas, mas chovia e então não tive pressa. Depois de comer um porte de cereal com leite, saímos para conhecer a Catedral de Turku. Mas de um quilômetro nos separava de nosso destino e a chuva fria e fina não nos deu trégua.

Ouvimos o badalar dos sinos e entramos na igreja já cientes da missa. Comentei com a Elisabeth que gostaria de participar e lá fomos nós, de novo, agora ouvindo a missa em finlandês. Li que o povo daqui fala fluentemente também o sueco. E o inglês é comum em todos os lugares que passamos, ao  contrário do pensam alguns por aí. Talvez mais a leste...

Sentei lá para frente, no meio do povo, queria realmente participar da missa. Vi uns números nuns quadros lá na frente e achei que pudesse ser algumas espécies de sorteio. Logo já entendi que se tratava do número dos hinos que seriam cantados no dia, na sequência correta e alguns marcavam até quais seriam os versos.

Fomos acompanhando os movimentos de senta e levanta, identificamos a reza do Pai Nosso, e do Credo. Eles não persignam-se na hora da leitura do Evangelho. A Catedral de Turku  é a Matriz da Igreja Evangélica Luterana da Finlândia. O celebrante consagrou o pão e o vinho de costas para os fiéis. E a comunhão é feita na duas espécies. A senhora que estava ao meu lado disse-me que a comunhão era para todos os cristianos. Falei para ela que nós eramos cristãs. E ela nos indicou o caminho. As pessoas chegam junto ao altar, se aproximam, se ajoelham, um ministro passa oferecendo a hóstia consagrada e outra coloca o vinho em uma pequena taça de prata. De longe eu fiquei pensando que teria que usar uma taça já usada. Mas não, eles têm uma infinidade de tacinhas que vão tirando da prateleira na parte interna do balcão onde nos ajoelhamos, e após o uso, nos mesmos colocamos num desnível adiante. Não se ajoelha para rezar em nenhum momento. Mas as etapas da missa são as mesmas. Atrás de nós eu ouvia duas vozes masculinas afinadas e potentes, e lá no alto, no fundo, um órgão de tubos e um coral. Quando o som se espalhava pelas altas abóbadas da igreja, preenchiam os vazios de maneira tão intensa que eleva nossos corações nas preces, mesmo sem nada entender.

Saímos dali para o Museu Aboa Vetus & Ars Nova, sendo Aboa o nome de Turku em Finlandês. Fomos caminhando pela margem do Rio Aura por um tempo até lá chegar.

 Entramos direto numa lanchonete e já era quase meio dia então resolvemos tomar um complemento do café. Eles já estavam servindo refeição no quilo, por 19,9 euros o quilo, mas preferi pegar um pedaço de torta salgada, com uma aparência maravilhosa, um croissant com recheio doce e um macarron. Pedi um chá para beber. A Elisabeth pediu a torta salgada em um croissant recheado de verdura, e tomou café. Acho que nunca comi tanto caviar e salmão na vida.

Descobrimos com alegria que o domingo é dia de entrada nos Museus daqui. Maravilha, vamos aproveitar. Este Museu, como o próprio nome diz, tem uma parte velha, com as ruínas de uma cidade, esqueletos de animais encontrados no local do século XVI, artefatos cerâmicos e outros. 

Na parte nova está um exposição com retratos e filmes de uma artista que busca a conscientização do povo com os problemas da poluição do meio ambiente. Penso que nos países de primeiro mundo esta consciência tem que ser buscada insistentemente. A produção de lixo nestes países é muito superior ao de cidades como São Paulo, por exemplo, per capita quero dizer. Os produtos de mercado, na Europa, até onde pude observar, vem com o dobro de embalagem dos produtos nos mercados brasileiros. 

Uma foto que mostrava a palma de uma mão e as veias de uma folha mereceu uma dupla interpretação por nós. A Elisabeth viu como a natureza em nossas mãos. Eu já enxerguei a planta como um ser vivo, tanto quanto nós. Somos muito prepotentes em relação à natureza que nos cerca. Achamos que foi criada para nos servir.

Uma coisa interessante que eu ainda não tinha visto é um suporte para casacos e capas molhadas, bem na porta dos museus. Isso demonstra o quanto chove nesta cidade. E pode deixar lá sem nenhuma proteção que vai estar lá quando você voltar.

Nosso próximo destino era um outro Museu mais afastado, mas andamos dois quarteirões e desaguou o mundo. Molhou calça, tênis, meia, mesmo estando de capa de chuva. Paramos sob uma marquise mas depois de ter andado mais dois quarteirões. Não havia uma cobertura para abrigar-nos.

E logo depois diminuiu. E assim continuou por uma meia hora até chegarmos ao Luostarinmaki Handicrafts Museum. Este é um museu a céu aberto. E ainda bem que ao chegarmos lá a chuva deu uma trégua.

São várias casas de madeira em uma vila e em cada uma os utensílios da função do artesão.

A primeira que entramos foi a de um relojoeiro. Muitos relógios e ferramentas, e um funcionário do museu com trajes de época. Na parede tinha um retrato e perguntei se era do avô dele. Ele entrou na brincadeira e disse que era do tataravô.

Já que é assim está de brincadeira, posso tirar uma foto sua. Ele se movimentou como se eu fosse fazer uma selfie. Quando viu que era só dele se aprumou. Mas não ia deixá-lo na mão. Pedi para a Elisabeth tirar uma foto nossa. Quando vi a foto disse:

_ " You handsome. And me, bad."

Ao que ele retrucou com cara de quem gostou, de mim, kkk

_ " No. You well."

Entendi menos o que ele disse do que como ele disse.

Entramos em várias casinhas e tinha diversos ofícios, costureira, pintor, fabricante de cestos, sapateiro, tecelão. Tinha também duas tipografias, e numa delas a funcionária me mostrou diversas fotos antigas para me mostrar porque ela estava com aquelas roupas. Iguais as da foto. Ela disse-me que aquela atividade era o computador da época.

Fomos também a uma cafeteria e tomamos um refrigerante que nos fez lembrar o Jesus do Maranhão, até na cor. A mocinha também simpática e linda, permitiu-me fotografá-la. Dentro da cafeteria já ouvimos o recomeçar da chuva forte. 

Aguardamos sua melhoria mas o próximo destino ficava a 2,5 km a pé. Vamos procurar um táxi porque aqui não tem UBER. Perguntei para um típico finlandês numa esquina e ele chamou o táxi para nós. Mostrei o endereço e fomos para a última atração do dia. O Castelo de Turku. Pagamos 18, 50 euros no táxi. 

Quando olhamos a frente do Castelo a Elisabeth me questionou:

_ " Mas isso é o Castelo?"

Sim, parecia uma fachada muito simplória, mas ao ultrapassarmos a porta já começou a melhorar.E o tempo também melhorou, a chuva já ia distante com o vento a impulsionando para dentro do Continente, e o céu azul com sol começaram a surgir. Lá dentro guardei minha mochila no armário e subimos. Uma das funcionárias, casada com um português é que me aconselhou a deixar a mochila porque seriam muitas escadas. Nem dava para imaginar quantas. Meniiiina! Este Castelo tem mais cômodos do que muito Hotel Palace. E sobe, e sai num quarto qualquer, às vezes com uma decoração, outras com um telhado, ou ainda umas janelas, ou maquetes, ou exposição de vestuário, e é um sobe e desce de deixar qualquer um louco. Parece um labirinto.

Nas maquetes da edificação percebi várias fases da construção, e na última, onde aparece o prédio acabado como é hoje, uma imensidão de lugar. 

As vestimentas mereceram um álbum exclusivo

Na hora de voltar para o hostel comentei com a Elisabeth:

_ " Lembra que quando iniciamos o passeio a beira do rio falei que eu sonhava com uma tarde de sol, onde pudéssemos caminhas pela margem do Rio Aura só curtindo a movimentação de barcos e pessoas, num dia de domingo? Só demorei a pedir." Mas já fui atendida. E assim agradeço a Deus mais uma vez pelas oportunidades e privilégios.

Fomos margeando o rio e vimos ainda um Museu Marítimo que eu não quis entrar. Um carro de 1939 estacionado na frente, uma linda escultura de margarida, enorme, e um fusca azul escondido por uma cerca viva.

Vimos também a forma mais famosa de travessia de pedestres sobre o Rio Aura. Uma embarcação que vai de um lado para o outro o tempo todo. O lado onde fica a Catedral é chamado de: O lado de cá do rio. E evidentemente a outra margem é O lado de lá. Faz-me lembrar na cidade onde fui criada que se dizia : Para baixo das Porteiras ( do trem).

Passado de 17 horas, está bem para jantarmos. Vi um bar e restaurante aberto que estava servindo ainda refeições, pois vi uma moça comendo uma massa. Exatamente a que eu ia querer. Espaguete com verduras e queijo. Tomei ainda uma taça de vinho tinto e comi um bolo de chocolate. No meio deles, junte-se a eles. E tome vinho, ou cerveja.

No caminho de volta ainda pudemos apreciar um pouco mais as belezas às margens do rio.

Um banho quente depois de tanta friagem e chuva, com roupa e sapato secando no corpo, irá cair-me muito bem. É a primeira coisa que faço enquanto a Elisabeth estica o corpo na cama, após umas 7 horas de movimento intenso.

Cheguei e minha roupa não estava lavada. A nossa anfitriã ainda não tinha passado por aqui hoje. Mas logo de´pois do meu banho ela chegou com o irmão para fazer as arrumações e colocou minha roupa para lavar e secar, por 5 euros já previamente combinados.

As meninas foram todas embora, e também os franceses. Ficou o japonês e hoje chegou outro oriental, este bem bonito.

Na hora de ir embora a dona do hostel perguntou-me se tinha alguma questão. Disse-lhe que não, mas agradecia muito as pequenas cortesias. Que ela era muito gentil. Como não sabia como falar este adjetivo, tentei explicar;

_ " The man is Gentleman. She is Gentlewoman."

Ela riu muito. Acho que inventei uma palavra. Ainda na saída ela dizia ao seu irmão que ela era uma Gentlewoman. E se despediram de mim. E minha roupa está lá, ainda lavando. E agora estou com um baita calor.