SINTRA – PALÁCIO DA PENA E CASTELO DOS MOUROS

08/07/2020

Como nada no mundo é perfeito, o quarto estava quase assim, mas o colchão é muito mole e deixou a desejar. Tive câimbra durante a noite e, após acordar às 7h30 com o relógio e colocá-lo para despertar de novo às 9h, dormi. Acordei com um barulho de arranhado. Já o ouvira durante a noite de ontem, e não consigo perceber ao certo de onde vem. Mas vejo que a parede junto ao banheiro, foi uma porta um dia, e acho que está agora fechada com uma placa de madeira ou algo assim, grafitada, mas a maior parte dos sons estranhos vem de lá. Mas senti meu colchão se movimentar, e ouvi o arranhado. E tive certeza de que era um cão embaixo da cama. Mas como ele entrou aí? Talvez enquanto a porta estivesse aberta. Levantei-me antes do despertador tocar novamente. Abri a porta e tirei meus pés do chão. Até o chinelo eu recolhi para o cão poder sair antes que tivesse vontade de fazer xixi. E como ele não saía, comecei a tirar fotos com o celular, com cuidado, pois temia que ele se assustasse e viesse em direção ao meu rosto. Vi uma sombra escura sob a cama, e usando o zoom, identifiquei como um pequeno cão escuro. Mas nada de ele sair. Fui para a outra extremidade da cama e de frente para a porta do banheiro, fiz outras fotos. Mas nestas já não via nada. E encarei este último pesadelo como consequência de preocupação dos bichinhos abandonados lá no Monte, em Beja, misturado com cansaço. Mais tarde recebi a noticia da senhoria de que eles estão sendo cuidados.

Depois dessa trapalhada toda, me arrumei e fui tomar meu café da manhã na Pastelaria O Moinho, a um quilômetro e meio de distância. Um lugar extraordinário para o padrão da cidade de Colares, onde estou hospedada. E foi indicação da Helena, minha anfitriã.

E de lá segui para Sintra, para fazer os passeios de hoje, sem praias e sim com muita história e muita paisagem natural.

Quando vi pela primeira vez uma foto do Palácio da Pena, o lugar tornou-se alvo de meu desejo, dadas as cores vibrantes que colorem a edificação. E tratei que ele fosse meu primeiro destino. Estacionei o carro na rua, mas num local pago. Coloquei os quatro euros, que eu tinha em moeda, no paquímetro e o sistema me informou que teria até as 15h16. Ainda não era meio dia. 

Eu ia tentar localizar o centro de informações turísticas para saber que transporte usar para subir ao Palácio, já que a Helena me disse que não era possível chegar de carro até lá. Mas mal saí do carro eu vi um tuk-tuk estacionado. Perguntei o preço e a motorista me perguntou se era só eu.

- Sim.

- Sete e cinquenta.

Como não sou de regatear, e não sabia se era longe, e queria viver essa experiência por aqui (já tinha andado de Tuk-Tuk no Peru), aceitei. Ela logo me mostrou o paquímetro, que eu estava ciente, mas entusiasmada, já ia me esquecendo.

A Delfina foi me conduzindo e fomos conversando. Ambas usando máscaras, com cintos de segurança. E falei para ela que de lá eu iria até o Castelo dos Mouros e a volta faria a pé.

Ela me deu todas as orientações de como voltar a pé, perguntando se eu gostava de caminhar. Parou na Rua da Igreja de Santa Maria, me explicando que eu sairia ali, e dali teria que virar à esquerda e depois à direita, para ir ao Centro Histórico, e que meu carro estava atrás da Estação de Comboios. Ainda bem que ela me disse, senão eu ia ficar vagando pela cidade, como uma tonta, tentando explicar como era o local. Mas ela já deve estar acostumada com esse arrebatamento dos turistas, e por isso já inclui este cuidado em seu repertório. Ainda parou junto na entrada do Castelo dos Mouros, dizendo que seriam somente 300 metros de caminha e descendo, e junto ao Portão do Jardim dos Lagos, onde desci para fotografar, para que as grades não interferissem na foto.

Soube que ela é argentina, mas não perguntei de que cidade, está há um ano e meio em Portugal, e veio com o noivo para viajar. Depois conseguiu a residência em Portugal e começaram a trabalhar. Contei um pouco das minhas aventuras e no final da viagem ela me achou no Instagram e começou a me seguir. No final do relato coloco o contato dela para os que desejarem um excelente serviço de transporte, com uma profissional cuidadosa, simpática e competente. Ela me disse que foi a primeira vez que ela subiu com um cliente por preço tão baixo, mas que a cidade está muito vazia por causa do COVID-19, e que tem dias que volta para casa sem ter feito nenhuma viagem. A concorrência está muito grande. Enquanto eu colocava o papel do estacionamento no carro, outro motorista já passou oferecendo o serviço.

Vou dizer que para os turistas que estão se aventurando por Portugal neste momento, está muito bom. Vagas para estacionar. O preço das atrações não mudou, mas tem menos gente circulando pelos locais, e facilita tirar fotos e se locomover. É ruim na hora de comer, pois muitos estabelecimentos ainda estão fechados, pois acham que os gastos não compensam a abertura para poucos clientes.

Eu já tinha ingresso para o Palácio, que comprei pelo Ticket, do próprio aplicativo do Google Maps que, aliás, recomendo. Eu comprei para março os ingressos, e com o estado de emergência decretado, todas as atrações fecharam. E tive a devolução dos valores dos ingressos. Mas tive que ir até a bilheteria comprar a passagem para o ônibus. Três euros ida e volta. Mas eu só queria fazer a ida, que é subida. Passei pela recepção, onde foi conferido meu ingresso, todos mascarados e fui para o ponto do ônibus. Eu fui a única passageira naquele momento e o motorista me orientou a chamar na lojinha caso eu decidisse voltar de condução.

Que bonito é o Palácio, com amarelo, vermelho, azulejos. E numa profusão de formas também. Fui subindo pelos terraços, e como a Delfina me disse que o ingresso para a parte exterior custava 7,50 e com o Museu era 14 euros, sabia ao olhar meu ingresso que faria o Palácio completo.

Passeei primeiro pelos terraços, em vários níveis, e depois fui comprar uma água na cafeteria. Fui até a Capela onde registei a foto de seu lindo vitral. E dos arcos amarelos na parte exterior, tive uma privilegiada visão dos arredores. E com a informação de uma funcionária, atravessei de volta por um dos vários tuneis e virei à esquerda, para ao lado da parede também amarela, encontrar a entrada para o Museu.

Logicamente que tive que apresentar novamente o ingresso ali. E também fui informada que as fotos sem flash, e que o caminho está todo demarcado por cordas. Não sei se sempre foi assim, mas isso protege o patrimônio e evita que as pessoas se contaminem. E a máscara é obrigatória em todo o percurso.

Passei por lindos cômodos ricamente mobiliados. E sempre me admiro com os trabalhos dos forros. Talvez porque atualmente os forros, ou lajes, sejam tão sem graça. Lisos e brancos. Ali alguns até eram brancos, mas sempre com alto relevo. Outros são em madeira marchetada, ou pintados. Enfim, lindos!

E tinha um quarto da dama de companhia da rainha que me pareceu de uma soberana. Quanta pompa. Aliás, em todos os cômodos. Quartos de vestir, dormitórios, gabinetes, e até casas de banho, pois o rei fez questão de criar espaços para este fim. E vi uma peça que me chamou a atenção. E assim que achei uma funcionária, perguntei o que era:

- Um bidê portátil.

Eu imaginei que seria peça do banheiro, mas não consegui supor qual seria a função.

Das dependências do museu também é possível chegar ao terraço mais alto, e lá tinha uma curiosa peça que achei ser um relógio do sol. E não deixa de ser, segundo o funcionário, mas marca só o meio-dia.

Já do lado de fora novamente, passei pelo Corredor da Ronda, de onde avistei o Castelo dos Mouros (filmei).

Estava preocupada com o horário por causa do estacionamento. A Delfina disse que os fiscais têm sido rigorosos e lavrado a infração. Na hora que estava saindo, já mais de 14 horas, vi uma placa que indicava a saída principal a 370 metros e o Jardim dos Lagos a 560 metros. Titubeei. Mas decidi conhecer os lagos. E lá fui eu pelos mais longos 560 metros que já andei. No meio do lindo bosque, cheio de flores e pedras, uma trilha calçada de pedra. Lindíssimo, mas longe.

Eu via um casal descendo um pouco adiante de mim. E no caminho vi o chamado Jardim das Camélias, mas sem estas flores. No entanto eu vi muitas hortênsias, maravilhosas (tive o vislumbre de minha filha falando essa palavra agora, ela dá muita ênfase).

E os lagos estão em sequência, com a água se comunicando entre eles por finos dutos, e aproveitando a inclinação do terreno. Até cisnes nadavam bem dispostos naqueles lagos verdes. Algumas construções os decoram, além da exuberante vegetação. Eu apreciei muito o caminho. E no meio dele descobri que não precisaria voltar por ali, já que existe uma saída no Jardim dos Lagos. E logo avistei o Castelinho do Lago, que já tinha fotografado pelo lado de fora, na paradinha que a Delfina deu.

Mas foi uma grande decepção vê-la fechada, devido ao pouco movimento de turistas no Palácio. E tive que subir, dessa vez usando outra trilha, mais estreita, e que não vê gente faz tempo. Notei por causa de alguns galhos que avançavam pelo caminho. E ali me senti quase como a Jane, do Tarzan, personagem de filme. As imensas árvores recobertas por trepadeiras deixavam o local com aparência de floresta tropical. E essa subida cansou, pela inclinação, pelo sol, pelo acúmulo de atividade. Mas mal sabia eu o que ainda estava por vir.

Logo achei o caminho do ônibus e a porta de saída. E desci para o Castelo dos Mouros. No caminho encontrei a recepcionista do Palácio que me perguntou se gostei de lá.

- Sim e muito, fui até conhecer os lagos.

E segui meu caminho. Fiz um pequeno vídeo da entrada principal até a recepção do Castelo dos Mouros. E depois vi que a recepção ainda não era ali. E andei mais um pouco. E novo vídeo. (vejam no Instagram lessa meyre ou no Facebook, Meyre Lessa).

E na entrada do Castelo, com um ingresso comprado para janeiro, mas que tem validade de um ano, no valor de 6,50 euros, fui informada pelo atendente que tinha dois caminhos para subir. Eu apontei para cima e perguntei:

- Vou ter que chegar até lá em cima.

- Se você veio até aqui, é conveniente. Mas pode ir parando para descansar e tomar fôlego no caminho.

- Qual o melhor caminho?

- Se quiser ir pela muralha, você vira à direita ali na frente, se não, vira à esquerda. Pela muralha é um pouco mais longo.

- E qual o mais fácil.

- É relativo. É tudo subida. E são 500 degraus.

Eu estava mesmo muito cansada. Assim sendo, quando tive que decidir para que lado ir, eu virei para???

Quem disse direita, acertou. Era mais longo, mas eu adoro um desafio. E, quem sai na chuva pode se molhar.

Mas acho que os 500 degraus seriam somente por esse caminho. Andei por estreitas passagens junto ao muro, e sem proteção do lado de dentro. E subi e desci. Mas a paisagem é linda, tanto do exterior como do interior do Castelo dos Mouros (forma de se referir aos árabes muçulmanos que dominaram o sul de Portugal e Espanha por aproximadamente 400 anos).

E dali se tem uma preciosa vista do Palácio da Pena. O Castelo visto do Palácio parece pequeno. Mas o Palácio visto do Castelo é mesmo majestoso. E está escrito lá no alto da Torre Real do Castelo que o rei de Portugal gostava de ver o Palácio dali.

A volta foi por outro caminho, sempre que possível. Para matar minha sede de novidade. Um casal, ela portuguesa e ele francês, passeavam no mesmo ritmo que eu, e fotografavam com câmeras profissionais. E de repente eu vi um pé de penas. E quando a moça se aproximou, perguntei se ela sabia o que era.

Ela disse desconhecer, mas parecia uma pequena vagem. E o era, mas peludinha, e ao sol pareciam pequenas penas de pássaros presas aos galhos. Até cogitei se não era por essa vegetação o nome do Palácio, mas parece que assim é chamado por que ali havia uma Capela dedicada a Nossa Senhora da Penha. O Palácio é relativamente novo, comparado aos demais monumentos de Portugal, data do meio do século XIX. Enquanto o Castelo dos Mouros já é do século X.

Dali fui até a cafeteria, comprei um chá gelado e depois fui ao banheiro. E comecei minha decida a pé até o carro. A placa dizia que seriam 1,4 km até a Vila Histórica, por dentro do bosque. Mas a minha impressão que eles fazem o cálculo de distância em linha reta. E o caminho é muito sinuoso, também cheio de degraus. E minhas pernas começaram a amolecer de cansaço. Mas também imperdível. Em cada cantinho tem um amontoado de pedras simpáticas. Às vezes um banquinho acolhedor aparece no caminho, mas eu não me sentei nenhuma vez, com medo de parar, esfriar o corpo e não conseguir mais sair do lugar.

Passei em frente à Igreja de Santa Maria que a Delfina me indicou. E ainda tinha um estradão até a placa que ela mostrou.

E quando finalmente cheguei à Vila Histórica e perguntei sobre a estação de comboios, a resposta foi:

- IIIh! Mas está longe.

- Não tem problema, mas por onde é.

- Segue por ali, sempre em frente.

E acho que foram mais uns 2,5 km de asfalto, pra lá e pra cá, nas curvas da montanha abaixo. E muitas coisas belas ainda pelo caminho, como uma exposição de estátuas em mármore ou pedra sabão. Até uma engraçada com um cone de alerta de trânsito na cabeça.

E ando, ando, até que vejo a estação Ferroviária. Então meu carro tinha que estar lá atrás. E estava. Fui ao paquímetro direto e coloquei um euro. Já eram quase 17 horas. E o papel saiu para permanência até às 18 horas. Mas quando fui colocar no carro, vi que havia um envelope preso no vidro, pelo lado externo. Às 16 horas o agente de trânsito me notificou a infração. E a instrução para pagar o valor de 4,40 euros em cinco dias. Ou seria multada. Fiz isso pelo aplicativo do Banco português assim que cheguei ao hotel.

Mas ainda tinha que comer algo antes de voltar para o quarto. E mesmo procurando algum restaurante aberto, não achei. E fui obrigada a comer um lanche com recheio de frango empanado, frio, e um chá gelado. Ainda bem que o empanado estava bem gostoso. Ou seria a fome que temperou a comida?

Antes das 18 horas estava de novo no carro. E tive que passar por estreitas ruas para sair da cidade. E fiquei feliz por estar hospedada em Colares. Na Avenida do Atlântico, planinha.

Cheguei e depois do banho tomei logo um AAS, porque sei que o cansaço pode atrapalhar meu sono. E fiquei uma hora e meia com as pernas para cima, conversando parte deste tempo com minha mãe, em chamada de vídeo pelo celular. E agora já é quase uma da manhã e nem vou ter tempo de publicar o relato, pois ainda tenho que juntar as fotos. E o que posso dizer sobre este dia? Foi intenso, emocionante, rendeu-me paz e alegria, muito gasto de energia e me satisfez. Mas amanhã tem mais.