SEVILHA – último dia

14/11/2019

Este quarto é pequeno, mas está aconchegante demais, e não estou conseguindo levantar cedo. Certo que ainda não dormi cedo nenhum dia. Acordei às 6h35 para ir ao banheiro e tinha alguém tomando banho. O banheiro aqui é compartilhado.

E às 10 horas estava tomando meu café da manhã num bar ao lado do Jardim Murillo. Suco de abacaxi, café com leite, pão com presunto, queijo e manteiga, por 4 euros. Bem razoável.

Hoje percebi que no monumento ao Cristóvão Colombo está uma caravela, Isabel. É engraçado como o nosso olhar capta coisas diferentes conforme estão nossas emoções e sentidos.

Pensei que conseguiria chegar a Torre del Oro sem ajuda do Google, mas ledo engano, ainda com ele me perdi. Passando por uma das ruas, um rapaz cubano me pediu um minuto de meu tempo. Ele trabalha para ONG e começou a falar dos países sul africanos e da mutilação do clitóris que sofrem as mulheres, e que em dois países a legislação já proíbe tal prática.

_ " O fato de haver legislação não impede a prática", disse eu.

_ " Não, mas já possibilita que as mulheres demandem na justiça."

_ " E mesmo assim elas não o fazem?"

_ " Por que você acha que não?"

_ " Porque, em geral, como nos casos de maus tratos, são seus parceiros, irmãos ou pais que as molestam, e no dia seguinte a denúncia elas ainda estarão convivendo com eles, ou até dependendo deles."

Quando ele percebeu que nesse campo ele não teria chance de argumentar, partiu para a causa das crianças subnutridas... Aí o interrompi dizendo que não costumo ajudar em causas de gente distante. Procuro fazê-lo com quem estão ao meu redor, com dinheiro, com atenção, com sorrisos, com abraços... Ele concordou, disse que também o faz, e que é muito atrevido, saiu de Cuba sozinho, deixando lá sua família e amigos e está se virando em Sevilha, já tem emprego e ajuda a todos, como pode. Contou até a história de uma garota que estava chorando, num outro dia, por causa de uma dor nas costas que dificultava a ela assistir as aulas da Faculdade. Ele lhe disse que não devia chorar por este motivo, tantas coisas piores acontecem na vida das pessoas pelo mundo. Devia procurar um médico, tomar um medicamento e ficar bem.

Continuei meu caminho. O ônibus já estava no ponto. Não fui para a parte de cima porque estava um dia nublado e frio. Logo depois que o veículo começou a circular, começou também a chuviscar. Eu pretendia descer no ponto 13, e já conhecia o caminho até o ponto 8, de Triana. Coloquei meu fone e fui ouvindo com mais atenção a história de Sevilha. E tentando tirar algumas fotos. Este prédio parecendo um castelinho, com as pontas em forma de torres arredondadas, em vermelho e amarelo é o Costurero de la Reina, presente do rei Afonso XII para sua futura esposa, Mercedes de Órleans. Ele fica nos jardins do Palácio San Temo, hoje denominado Jardim Maria Luísa, e o Palácio está na foto seguinte. Combinam né?

Logo após a parada 8 tem uma grande Torre. Trata-se da Torre de Sevilha, construída em 2008 para abrigar escritórios. Tem 40 andares e 180 metros de altura,

Logo em seguida vemos um grande complexo que, no áudio guia dizia ter sido construída por ocasião da Exposição Universal de 1992, bem como toda uma estrutura de um Parque Tecnológico denominado Cartujo. Junto tem também uma grande área de lazer, chamada Isla Mágica. A Exposição teve duração de 6 meses, encerrando em 12 de outubro daquele ano e seu tema foi a Era dos Descobrimentos.

Achei bem interessante, mas percebi que não teria tempo hábil para explorar esta região.

Ele passou pela região da Macarena e pela Avenida de Hércules. Olhei bem o local da parada, pois iria voltar caminhando até ali, e explorando o caminho.

Desci no ponto 13, o penúltimo, e fui direto para o Museu de Belas Artes, com uma pequena caminhada. Ele fica junto a uma praça, o ingresso custa 1,50 euros, só para estrangeiros. Espanhóis não pagam.

O prédio tem 2 andares e inúmeras salas, onde as obras são, em sua maioria, pinturas. Algumas poucas esculturas, que me atraem mais, uns quadros em alto relevo, na madeira, algum mobiliário... A maior parte com temática religiosa e um tanto sombrios, bem característicos de uma época. Eles estão todos datados entre os séculos XVI e XX. Normalmente, as artes com melhor requadro são as obras mais importantes, de maior valor, de artistas mais conhecidos.

Eles possuem um belíssimo acervo. Nem sei quanto tempo fiquei rodando por aquelas salas todas. Vou colocar fotos só das obras que me causaram uma impressão mais forte. O carro de Netuno, as Santas( Santa Inês, Santa Marina, Santa Catarina e outras),  o Homem com a Cruz (não vi o nome da obra), Retábulo de São João Batista, San Jerônimo penitente. 

Depois eu já queria ir para a Alameda de Hércules, mas estava me estranhando com o Google Maps e literalmente, me perdi pelas ruelas de Sevilha. A cidade tem ruas tão estreitas que me fez pensar em favelas que cresceram e se urbanizaram. É tão antiga que o meio de transporte era cavalo, ou carroça... E fui vendo vários outros locais interessantes que só estas perdidas possibilitam.

O pavilhão de Belas Artes da Universidade de Sevilha foi um deles.

O Palácio da Condessa de Lebrija.

O Centro Cultural de Flamenco.

O Miradouro Metrapol Parasol, conhecido como Las Setas de la Encarnación, no me da Praça onde está situado ( ou os cogumelos de da Encarnação). É a maior estrutura de madeira do mundo, medindo 150mX70mX26m.

A Igreja de San Pedro.

A de San Juan de la Palma.

A Igreja de San Martin.

E a de Santa Catalina.

E ainda encontrei uma Decathlon, onde comprei alguns agasalhos, pensando em minha volta a Portugal. Achei blusas e calças com preço bom, quentinhas, mas não demais. Comprei 2 de cada.

Até que cheguei a Alameda de Hércules. Não estava em meu roteiro, mas quando o ônibus passou ao seu lado eu gostei. É um passeio ao ar livre, cercado de árvores, com duas colunas brancas, bem altas, postadas em cada ponta da alameda.

Quando sai do Museu o sol já estava brilhante e forte, as nuvens tinham sumido, de modo que foi muito prazeroso caminhar por essa alameda, até tive que tirar a blusa de frio. Que nem é de tanto frio assim...

Os próximos destinos eram próximos um do outro: A Iglesia da Virgin de Macarena, a Puerta de Macarena e as muralhas de Sevilha.

Em frente a estas tem um lindo jardim, todo cercado e indisponível ao público. Ele fica em frente ao Parlamento, que também é cercado, com acesso restrito. Uma pena, mas compreensível.

Ali, na Avenida entre estas atrações estava a parada 11, onde aguardei minha condução até o ponto inicial, na Torre del Oro.

Vou comer antes de ir para o hotel. O primeiro lugar que me interessou, portas fechadas. Os últimos clientes encerravam seus almoços.

No seguinte, a cozinha já estava fechada. Somente pratos frios.

No terceiro já entrei perguntando se ainda serviam almoço.

_ " É loógico."

Que maravilha. Restaurante Alianza.

_ " Que tal uma paella?", disse a garçonete.

_ " Maravilha."

_ " E par beber?"

_ " Uma cerveja," para variar.

E quando chegou o lindo prato, estranhei que a carne era de porco. Perguntei ao garçom se a paella pode ser feita com outras carnes que não os frutos do mar? Ele me explicou que eles mesmo a chamam de cerdo com arroz, mas os turistas não entendem assim. Então falam paella de cerdo (que é porco em espanhol), e tudo fica mais claro, pois os condimentos são os mesmos, o único ingrediente que muda é a carne. E pode ser feita com javali, frango, cordeiro...

Depois comi uma deliciosa torta de maçã. E gastei 21 euros. Achei bem razoável.

E voltei ao hotel. Passei por aquelas ruas estreitas que já estou me acostumando...Se fosse um local com problemas de segurança seria impossível morar aqui. Pense naquelas ruas estreitinhas que você não tem para onde escapar. Os prédios todos beirando a rua, não há jardins. As portas estão sempre fechadas. As janelas não estão ao alcance. Mas aqui todo mundo circula tranquilo. E olha que ontem cheguei já eram 22 horas.

Subi, fui direto para o banho. Quando voltei ao quarto, com sede, e fui procurar minha sacola de comidas, cadê? A cama estava arrumada. É feita a limpeza diariamente. Mas a sacola estava fechada e não estava no cesto de lixo. Não creio que pegaram inadvertidamente. De qualquer forma desci e fui relatar o problema ao recepcionista. Ele muito gentilmente perguntou-me o que continha.

- uma garrafa de água grande;

- um pacote de bolachas, parecida com a Oreo, mas coberta de chocolate;

- uma embalagem com queijo curado, em fatias, triangulares;

- uns doces de amendoim que trouxe de Portugal.

O queijo já comi metade, a bolacha comi duas embalagens com duas unidades cada, a água bebi uns 300ml, e os docinhos de amendoim já estavam no fim. Comprei tudo ontem a noite num mercado aqui perto, para não dormir com fome. Vocês não têm café da manhã e estes me serviriam para o café de amanhã, quando vou embora.

Ele foi lá dentro e achou algumas sacolas, que me apresentou. Não era nenhuma delas. Falei que podem ter confundido com lixo, mas como pegam uma sacola sem olhar o que tem dentro? E se viram que ainda tinha alimentos, não era para tirar, pois minhas malas ainda estavam o quarto. Um saquinho plástico que coloquei na guarda da cama para lixo, ainda permanece. O que acham?

Ele me deu uma garrafa nova de água, que resolveu o meu problema mais emergente. Como jantei tarde e comprei alguns confeitos de chocolate, não devo ter problemas para esta noite. Mas gastei 7,50 euros com estas compras, e não gostei nada de terem mexido. Certo que já consumira quase metade... Mas podia ter algo além de alimento... Nem sei se não tinha mesmo.

Quando ia subindo vi a porta do banheiro aberta, do piso térreo, nem sabia que tinha um lá. E lembrei-me que o banheiro do meu andar estava com pouco papel higiênico. Ele me deu dois rolos e falou que seria mais uma coisa para falar com as moças da limpeza. E para, de manhã, eu falar com o moço da recepção quando for sair. E assim termina minha estada em Sevilha. Estava sendo tudo tão perfeito. E gostei muito do hotel, com exceção de seu primeiro lance de escadas, bem pesado. E agora este inconveniente. Mas terá boa solução.

Amanhã volto para a estrada.