SERPA - FIM DE SEMANA

15/07/2019

Serpa, logo ali, à meia hora de ônibus, fica a vizinha cidade, em direção à Espanha. A gerente do Banco aqui de Beja, que lá reside, informou-me que lá também tem um bonito Castelo. E que nos finais de semana de verão eles promovem o NNN-Noites Na Nora. Procurei na programação e reservei pelo Booking novamente, um hotel.

Aliás, preciso contar-lhes. Tive um imprevisto com uma reserva que fiz por este aplicativo no Hotel de Liz, em Junqueirópoilis, para os dias 06 a 09 de julho, para uso de minha mãe e sua amiga, que iam para uma festa da minha família. O Hotel, no dia 04 me enviou um e-mail informando o cancelamento da reserva, a revelia. Disse que pensou ter cancelado junto à Booking e como viu que não havia sido providenciado o cancelamento, resolveu, de última hora, cancelar por e-mail direto comigo. Imaginem o estresse. Minha mãe, já senhora, ser informada na última hora que não teria onde dormir. Pedi ajuda para minha tia, que ligou no hotel para confirmar o dito e-mail. Confirmada a informação só conseguimos reserva em Adamantina, a 50 km de Junqueirópolis, mais caro, e com custo adicional de transporte. Elas usaram ônibus quando foi possível, e táxi. Ficaram um dia nesta outra cidade e depois conseguiram vaga em outro hotel em Junqueirópolis mesmo. Contou-me minha mãe que, outras duas primas tiveram situações similares no mesmo hotel. Uma idêntica a de minha mãe. A outra, chegou à tarde com a reserva em mãos e o atendente a acomodou. No dia seguinte foi expulsa pelo proprietário, que carimbou pago em sua ficha, e não cobrou pela noite dormida, dizendo que ela não devia ter dormido ali nem naquela noite, pois precisava do quarto. E por que lhes conto tudo isso? Primeiro porque este irresponsável e descompromissado merece que saibam como trata os clientes. E depois porque a Booking, não podendo obrigar o Hotel recebê-las, reembolsou, talvez através do próprio hotel, a maior parte do gasto extra. Isso sim é exemplo de compromisso. Agora, todo o estresse e perda de tempo, isso não se recupera. Espero que, no mínimo, este estabelecimento seja descadastrado.

Voltando a alegria e aos bons momentos, já com a passagem em mãos, e afoita como sou, não querendo passar pelos apuros que já passei ao longo dos caminhos, 9h20 estava na Rodoviária de Beja para pegar o ônibus às 10h30. Vi pelo painel de partidas que o auto carro, pois é assim que o chamam por aqui, tem destino final Vila Verde do Ficalho.

Sentei-me num murinho junto à passarela de ligação entre o saguão e o embarque, pousei minha mochila e fiquei no aguardo, sem muito usar o celular para não gastar dados nem bateria.

Um bom tempo depois um homem, de camiseta verde, se aproxima, desembrulha um lanche, e depois me oferece.

_ " Você quer? Não vou poder comê-lo."

_ " Não, obrigada."

_ " Que pena! Não quer mesmo? Vou ter que jogar fora."

_ " Não, obrigada. Já tomei meu café da manhã."

Acho que ele não entendeu, porque por aqui chamam de pequeno almoço.

_ " Por que não vê ali fora se tem alguém que o quer?"

Ele faz caras e bocas. Abre o lanche, ameaça tirar coisas de dentro e depois ameaça jogar fora, insistindo:

_ " Não quer mesmo?"

_ " Não."

_ " Então vou jogar, fora."

Dou de ombros e ele joga fora o lanche. Se aproxima mais e pergunta se sou brasileira. Confirmo. Ele diz ser romeno, mas mora em Portugal há 22 anos. Tem uma empresa aqui. 

_ " Mas aqui é melhor que lá?"

_ " Não." (Muxoxo)

_ " O custo de vida é melhor aqui?", pois foi o que ouvi falar.

_ " Também não. Aqui o salário mínimo é menor."

Ah. Então deve ser este o motivo que o leva a ter a empresa aqui. Talvez.

_ " Estou indo para a Romênia."

_ " Agora?"

_ " Sim."

_ " Tem ônibus para o estrangeiro a partir daqui?"

_ " Não sei. Vou até Lisboa."

_ E de lá toma um avião?"

_ " Sim. Será que posso fumar aqui? Não estou vendo nenhuma placa. Acho que posso, então vou fumar. Aceita?"

_ " Não, não gosto. Com licença, vou afastar-me um pouco pois não gosto do cheiro."

Observo que ele tem alguns hábitos que considero pouco higiênicos, como o de ficar cuspindo no chão toda hora, e em qualquer lugar, e também não está com um cheiro muito bom, mas enfim... Me afasto.  Porém continuamos conversando e ele perguntando o que estou fazendo por aqui. Digo que estou morando em Beja mas minha intenção é passear. 

_ " Ah. Entendi. E para onde vai agora?"

_ " Para Serpa."

_ " Fazer o que lá?"

_ " Passear."

o tempo demorou mais a passar do que na maioria das vezes, pois não adiantou eu me afastar por causa da fumaça, ele voltou a se aproximar.

_ " Se não se importa, eu não gosto do cheiro da fumaça."

_ " Eu também não, mas fazer o que? Tenho que mamar.", e apagou o pouquinho que restava jogando a bituca no lixo.

Fiquei olhando o Facebook, mesmo sem sinal para me isolar um pouco. Depois vi um ônibus encostando na plataforma 12 e me despedi, já eram 10h15. Ele abriu a carteira, pegou 20 euros e o estendeu para mim.

_ " Toma."

_ " Não. Não preciso."

Ele com cara admirada:

_ " Não quer? Eu gosto de ajudar. Principalmente os estrangeiros. O pessoal daqui não ajudo não."

_ Não. Não quero. Obrigada."

Nisso passou um senhor negro, magro e algo, todos os adjetivos no superlativo. Ele olhou com desdém e falou algo depreciativo. Não entendi as palavras, só sua expressão. Aquele senhor me pareceu um estrangeiro necessitado da ajuda que ele me ofereceu. Ou será que estou com aparência de necessitada.

Mas vou para minha plataforma, desejando-lhe boa viagem.

Ainda não era o meu ônibus. Uma senhora vem me perguntar se aquela era a plataforma correta porque me ouviu dizer que Serpa era o meu destino. Confirmo. É o que vi no painel, mas deixe-me conferir se não houve mudanças. O romeno já tinha embarcado na plataforma 10. O ônibus para Lisboa também parte às 10h30.

O nosso ônibus atrasou um pouco, chegou 10h36, e já vem cheio pois passa em várias cidades desde Lisboa. Enquanto esperávamos ela disse-me estar indo para Moura, e que antes havia auto carro direto, mas foi surpreendida no dia anterior ao saber que aos sábados não tem mais. Ela terá que tomar um táxi a partir de Serpa, pois Moura fica ainda uns 20 Km além desta cidade. Ainda assim era sua melhor opção.

No caminho para Serpa fiquei observando a sinalização da estrada. Se quero comprar um carro, melhor ir me acostumando. A estrada é de uma única pista para os dois sentidos. Só tem uma faixa contínua, aparecendo a faixa seccionada do lado que se permite a ultrapassagem, ou no meio, se a ultrapassagem é permitida para os dois lados. Interessante, economiza tinta. Próximo ao término da permissão, iniciam umas setas indicando que o motorista deve voltar para sua mão de direção. E junto às entradas e saídas de sítios, ou montes, como são chamados, pois sítio é qualquer lugar, tem também a faixa seccionada indicando que ali se pode cruzar a faixa que está vindo continuada.

E a paisagem também vai mudando. Menos pastos e mais área agricultada, com uma mar de oliveiras. Vejo algumas ovelhas. Li na internet que não devo deixar de provar o queijo de ovelha produzido em Serpa.

Mas em meia hora chego ao meu destino. O ônibus permaneceu com bastante gente. Estou imaginando aqui e agora, é um lugar pequeno, mas talvez dali seja fácil atravessar para a Espanha e pegar ônibus para outras localidades daquele país a partir de lá. Preciso verificar isso.

Tem um táxi na Rodoviária, mas verifico pelo Google Maps que estou distante somente 700 metros do Hotel Casa de Serpa Turismo Rural. Vou a pé mesmo, a mochila está bem leve.

 Acho que se auto denominam Turismo rural por considerar Serpa como uma cidade inserida na parte rural, não tão cosmopolita, de Portugal.

O check in seria às 15h.  Passam um pouco das 11 horas mas quero deixar minha mochila. É melhor do que ficar carregando. Demoro um pouco a ser atendida, mas já me permitem a entrada, fazer o check in, nem documento precisei apresentar. Pago 35 euros pela estadia e já deixo pago os 5 euros do café da manhã. Como chegarei de madrugada, já quero deixar garantido.

Estou junto à Igreja do Salvador que, evidentemente, está fechada. Um pequeno mercado no mesmo largo para eu comprar água, umas tais de pipas, que não denunciam o que vem dentro mas parece algo de se comer como pipoca, e uns brownies, que descubro depois serem biscoitos brownie, bons, mas fiquei frustrada. Adoro o bolo. E tive que voltar ao Hotel, mas agora já munida de chave. Deixo o biscoito e aproveito para passar no banheiro.

Agora volto ao mercado e, olhando o Maps, pergunto a uma mulher se posso ir por ali para o Castelo. 

_ " Sim. É possível, você desce por aqui até encontrar não sei o que lá, vira a esquerda, depois anda mais um não sei quanto, e vira de novo e vai chegar nas escadas de Santa Maria."

Agradeço e vou contando com a ajuda do Maps. Passo por uma Praça bonitinha.

Viro a esquerda e vejo casas construídas encostadas às muralhas do Castelo, mas as ruas acabam ali. Vou pra aqui e acolá. Dou de cara com uma placa que diz que aquela rua foi eleita a mais branca de 1987. Daí me dou conta que as casas são todas brancas. No máximo tem uma base ou um contorno de janelas ou portas em outra cor discreta, como cinza ou bege.

Enfim encontro as escadas de Santa Maria e a igreja do mesmo nome.

E vou caminhando até um arco que me leva para a parte o lado externo e mais longo das muralhas. Sento-me e pergunto a um senhor que está passando de carro e teve que parar para manobrar na esquina, antes de ingressar na rua principal. Ele diz para eu retornar por onde vim. Vou voltando e passando pelos mesmos lugares, ou não, tudo é tão branco e parecido. kkkk

Pergunto a outro senhor que está entrando em sua casa e ele me orienta a seguir em frente e virar a direita onde vir uma pedra grande. Saio de novo em frente a Igreja Santa Maria. Mas quando giro em torno de mim mesma, avisto umas placas indicando o Castelo, e vejo a tal pedra, que já tinha fotografado.

Ela é parte dos destroços da Torre de Menagem. O Castelo é maior que o de Beja, mas tem mais inserções recentes para visitação, como corrimão e elevador, até a reconstrução de parte da escadaria em Caracol, com blocos de concreto. 

Comecei pelas muralhas, após ver o mapa das instalações na entrada. Esta atração também não cobra ingresso, mas é monitorada, tem portão e horário de visitação.

Do alto das muralhas também pode-se avistar toda a cidade ao redor, uma vila bem típica dos tempos medievais, e não se expande muito mais em zonas recentes, com ruas mais largas.

Algumas pedras representativas estão expostas na arena interna.

Tem banheiros e lanchonete internamente.

Caminho por todo o entorno filmando, também publiquei no Instagram (@ lessa meyre).  Quando estou na última parte, no alto, a responsável pelo local vem me avisar que a atração vai fechar para o almoço. Mas foi suficiente. Desço e dirijo-me ao portão, sendo a última a passar, logo atrás de um grande grupo de jovens.

Vou em direção as escadas pois li que ali perto encontraria o tal do queijo de ovelha. Na praça da República vejo vários estabelecimentos de venda de queijos e outros quitutes, lanchonetes, restaurantes. O restaurante Alentejano chamou-me a atenção. Tem um menu na entrada. Os preços estão bons e eles têm meia porção. Confirmo com dois homens que estão conversando à porta e subo as escadas. 

Um ambiente agradável, mas não muito grande. Verifico com o garçom se necessito reserva. Ainda bem que não. Já tinha escolhido o que quero comer lá embaixo, mas ele me traz o cardápio e escolho também uma entrada de queijo de ovelha e meio litro de vinho da casa em jarro. Tinto. E o bacalhau à Brás. 

Ele traz logo o queijo, mas não o vinho. Aproveito o Wi-Fi para ver minhas mensagens, tiro algumas fotos da decoração. 

Logo outro garçom vem com meu pedido, e pergunta se não quero o queijo. E já ia recolhendo.

_ " Quero, foi eu que o pedi. Só estou esperando o vinho."

_ " Branco ou tinto?", adoro branco, mas com o queijo acho que combina melhor o tinto, e mesmo com o bacalhau, apesar de ser peixe, tem sabor acentuado. Então...

_ " Tinto."

Inicio pelo queijo com vinho, brindando sozinha com meu copo de água que está sobre a mesa. Mas como só algumas fatias. Será que ele mandou uma porção inteira de bacalhau? É muita comida. E ainda acompanha uma salada. Só vou descobrir na hora de pagar, pois esqueci de avisar que queria só meia porção, apesar de ser deduzível, já que estou só. E ele também não me perguntou. Mas, tudo bem, se sobrar vou levar mesmo...

Que delícia de bacalhau. Tão bom que vou na hora procurar os ingredientes. Bacalhau desfiado, batatas palha e ovos. É como um salpicão feito de bacalhau ao invés de frango, e ovos em vez de maionese. Sem outros temperos que acho dispensáveis no salpicão. Nunca como melhor preparo. Só achei duas espinhas em todo o prato. E li também que é a forma mais consumida em Portugal.

Não consegui tomar mais que metade do jarro de vinho. Peço um café, forte, delicioso. Será bom pra me conservar alerta até mais tarde. Que embrulhem o queijo restante e o bacalhau. E a conta. Era só meia porção mesmo. Ufa! Mas comeriam dois tranquilamente. Gastei 16,60, paguei 18. Um pouco menos que 80 reais por duas refeiçoes de bacalhau, meio litro de vinho e uma ótima porção de queijo de leite de ovelhas. Seria uns 40 por pessoa. Excelente, fala sério?

Ainda é cedo e vou procurar um lugar, ali na Praça mesmo, para comprar o queijo de leite de ovelhas. É muito macio. E leve. Gostei muito. E procurar uma sobremesa. Na esquina, no outro lado do Alentejano, tem um estabelecimento do meu agrado. Pedi o queijo. Eles têm em dois tamanhos, escolhi o menor. E já ia pedir uma sobremesa quando me é oferecida uma queijadinha de requeijão. Doce típico do lugar. Sentei-me a uma mesa interna e comecei a conversar com a Cristina. Ela tem 49 anos e 3 filhos, o mais novo com 20 anos ainda está na Universidade. Já é avó. 

Começamos a falar de nosso gosto por doces. Ela diz que não consegue resistir àquelas queijadinhas, comendo uma toda manhã. Conta ainda de um pão doce que, na época em que se produzia trigo na região, e  a pobreza era grande, as mulheres faziam o pão e com as sobras da massa, juntavam açúcar e canela e assavam em formato de um bolachão, chamando-as de pilas se não me engano. 

Depois falamos de aproveitar bem o tempo, conto que estou aposentada e conhecendo vários lugares. Ela conta que ainda não o faz por causa do filho que ainda está estudando. E falou de uma senhora, de 50 anos que ali esteve dizendo que decidiram, ela e o marido, trabalhar só meio período diário. Ganhavam menos, mas tinham tempo para cultivar uma horta e dela comer, reduzindo os gastos e aumentando a qualidade de vida, estando extremamente felizes com o resultado. A Cristina sonha em fazer algo mais prazeroso assim como nós, a senhora da horta, ou eu.

Já são quase 14 horas, e as atrações estão reabrindo. Dirijo-me ao Museu do Relógio, um dos 5 no mundo a se dedicar a esta atividade especificamente. Mas estarão de férias até dia 14 de julho, ou seja, não será desta vez.

Já que é assim vou ver as Muralhas e a porta de Beja, mais o aqueduto. É o lugar mais impressionante da cidade. E procurando o Palácio dos Condes de Ficalho, passo para cima e para baixo várias vezes. Inclusive pela Fonte Santa.

Depois de fazer um caminho muito doido e subir novamente as escadas de Santa Maria, passar de novo pelo portal, descubro que estava na rua paralela e bastava ter subido a ladeirinha onde encontrei o motorista do carro que me deu informações pela manhã para chegar ao Palácio. Nessas e outras andei uns 5 km neste primeiro período de passeios. O palácio dos Condes não estava aberto, pelo menos não achei por onde entrar na Praça do mesmo nome.

Volto para o Hotel, quem sabe consigo dormir um pouco antes das atividades noturnas. 

Dormi das 17 as 19 horas. Estou louca para tomar uma ducha. Quando ligo a água, com uma torneira de água fria e outra quente, cadê a água quente? Não acredito, vou ter que tomar banho frio? Não. me recuso. Visto-me novamente e vou para fora solicitar ajuda. Toco a sinetinha por duas vezes e ninguém aparece. Decido explorar o quintal do fundo, já que ouço a passarinhada cantando e procurando uma árvore para se abrigar e dormir. Fiz um vídeo que também publiquei no Instagram. (@ lessa meyre)

E fotografei a parreira crescendo solta, o pé de romã cheio de pequenos frutos. Uma varandinha simpática com um banco de madeira para o quintal.

Na parte interna uma sala com lareira, uma sala com uma mesa grande, boa para jogos ou leitura.

Mas ninguém aparecia. De repente, ouço passos de alguém descendo a escada. Uma jovem aparece e diz: Hello.

Em inglês... mas lá vou eu atrás dela na cozinha.

_ " Please, have you hot water in your shower, in your bathroom?

_ " Yes." e pergunta se no meu não.

_ " Can i trie?"

_ " Yes, please."

mostro a torneira que supus ser de água quente, pois dela saia a água mais quente entre as duas, e lea me diz que é a outra. Abre e um pouco depois começa a sair a água quente. Penso que quando tentei, ainda havia muita água fria no cano, e um pouco mais tarde, depois de eu ter esgotado muita água e de várias pessoas terem tomado banho, a água já estava vindo quente, já que o aquecimento é solar.

Corro tomar meu banho já que a primeira atração é as 21 horas e nem sei onde fica o tal Centro Cultura Viva. Tarde depois descubro que não sou só eu que não sei. Não tem no Google, os moradores não conhecem, apesar de fazerem seus melhores esforços para me ajudar. Acabo dando mais voltas pela cidade, conhecendo uma capela próxima ao velório municipal, e passar de novo pelas portas de Beja, só que estando ela agora iluminada e com a lua quase cheia aparecendo em uma das janelas do aqueduto. Lindíssima!

Muitas voltas, vejo que já são quase 22 horas, desisto da busca e vou procurar meu próximo destino. Este pelo menos está no mapa e já tenho noção de onde fica. Quero ver o Fado Bixa da programação do Festival Cultural Noites na Nora. Nora é o nome de uma rua. Quando estou chegando, ouço música, e logo palmas, descubro o lugar que procurava anteriormente. o Centro Cultura Viva está sendo resgatado como espaço cultural e fica ao lado do Local denominado Nora.

Assim, pego o público quase saindo, após ver uma grande lâmpada de advertência onde fica clara a proibição de entrada, já que o espetáculo já estava em curso.

Sou uma das primeiras a chegar no espaço adjacente, escolhendo uma mesa bem perto do palco e pagando 3 eros na entrada.  Vou fotografando. Estou deslumbrada com a muralha e o aqueduto em arcos fazendo cenário para o palco, que está cheio de abajours, que contribuirão na iluminação de palco.

Ali farei meu jantar, na opção aceitável tenho bruscheta de queijo de ovelha. E pedi cidra, de novo, para beber. Só que, desta vez consciente do que seria. Terminei de alimentar-me um pouco antes de iniciar a apresentação, que começou com um pequeno atraso, às 10h45. 

Os dois rapazes, assumidamente gays, encontraram naquele palco, um lugar alternativo onde é possível se manifestar livremente. O show foi todo em tom de protesto. Contra o racismo, a homofobia, a tradição... Falou-se de história e política, passando pela história de vida dos cantores, e de personagens de suas músicas. Muito bem cantado o fado, muito bem tocados os instrumentos. Fiquei impressionada. Ele caminhou entre o cômico, o sarcástico, o irônico e o crítico com graça, desenvoltura e tenacidade, mostrando ser dotado de conhecimentos práticos e teóricos dos assuntos que tratou. Fez-me enxergar, pela primeira vez na vida, creio eu, que o fardo da escravatura no Brasil, dos tempos coloniais, é português. É uma herança que nós, brasileiros, trazemos, e até hoje sofrem os negros de nosso país, vítimas da forma que foram introduzidos em nossa sociedade. Mas o fardo não é nosso, somos responsáveis, no entanto, por mudar o curso desta história.

Depois teria o movimento É para dançar, com o DJ Monsieur Papillon, e o ambiente estava bastante alternativo. Dancei um pouco mas as músicas foram ficando cada vez mais sem graça, muito techno, e assim passava um pouco de uma hora quando fui para o hotel, que ficava a uns 700 metros, caminhando.

Coloquei o celular para despertar às 9h30 pois o café seria servido até 10h30. Arrumo-me num instante e vou ao café. A Rita me oferece ovos mexidos e aceito. Uma mesa bem posta, no aparador estão café, leite, suco, frutas na fruteira, iogurte, cereal, queijo e fiambre (nosso apresuntado) enroladinhos, água quente, chá, chocolate em pó. 

Sobre a mesa o pão italiano, manteiga, açúcar, mel, geleia, queijo branco. Ali faço reflexões sobre a existência das diferenças e como tendem ao equilíbrio no mundo.

Tiro duas metades de uma fatia de pão italiano que, como a maioria deve saber, tem uma casca muito dura. Passo manteiga em cada uma das partes sem pensar, e quando vou sobrepô-las, estão invertidas. Passei manteiga supostamente, em uma lado errado. Mas quando decido ajeitar colocando os recheios e encaixando-as inversamente, descubro que ficou melhor de comer pois o lado macio do miolo de uma metade está sobreposto pela casca da outra metade. 

Assim nasce a seguinte reflexão:

" Os opostos se equilibram. São eles dois pontos na mesma reta.como dia e noite, frio e calor, amor e ódio. Mas no círculo da vida eles se tocam para suavizar e aprender. Duas fatias de pão de casca dura, colocadas uma sobre a outra em igual formato e posição serão difíceis de comer as bordas ou o miolo, que vai se esfacelar em suas mãos. Mas se cortar a fatia ao meio e promover o desencontro dos iguais, terá um ótimo resultado. Como manhã e noite se tocam para o renascer de cada dia, busquemos nós também o equilíbrio , interior e com os demais  a nossa volta."

E, pensando bem, este final de semana propiciou-me bem este contato com as diferenças.

Depois do pequeno almoço, fui até a igreja em frente imaginando que estivesse aberta para a missa dominical. Não estava. Mas, quando já desistia, ouvi o barulho da trava da porta sendo tirada, por dentro. Entrei e perguntei sobre a missa. O padre, que estava abrindo a porta, me disse que só às 11h30, após o casamento. Ele estava abrindo a outra porta central, como é costume nestas igrejas mais antigas, é como um pequeno saguão, e os convidados entram pelas portas laterais, que costumam ser de molas. Pelo meio só entram os anfitriões. Quando me manifestei para entrar, ele indicou-me a porta lateral, mesmo estando abrindo a port do meiobem naquele momento. Respeite as tradições esse gesto indicou-me. Como boa visitante que sou, entrei pela porta lateral, ajoelhei-me e rezei. Ao término fui fotografar a Igreja do Salvador. Entraram duas senhoras, uma de cada vez, depois de eu ter tirado umas 4 ou cinco fotos, fui tirar do altar, e o padre me disse de lá que eu não podia fotografar. Desculpei-me, já com as fotos, e sai pensando: " Pobre noiva, não terá fotos de seu casamento. Ou será que aí a regra muda?" Ainda fui verificar os avisos pregados na porta porque se realmente há restrição, não vou publicar as fotos. Mas só vejo um cartaz pedindo para que sejam desligados os aparelhos móveis.

Fui do mais tradicional ao mais alternativo possível em uma pequena cidade de pouco mais de 14 mil habitantes. E viva a diferença. Que venha o equilíbrio e a paz.

Volto ao hotel tomar um banho gostoso antes de partir. Chego a conclusão que preciso resolver este aspecto em casa, para torná-la mais confortável. Gosto muito de banho quente de chuveiro.  E saio antes do meio dia, horário do check out. Indo em direção a Rodoviária mas com a intenção de parar no caminho, no Jardim Público que vi quando cheguei. 

Domingo é um ótimo dia para parques. As famílias aproveitam o sol, que por sinal só apareceu agora a pouco. Todo dia amanhece nublado e fresco. E depois o céu fica limpinho e o dia quente. Tem um parquinho infantil e um para cães. Muitos jardins floridos, uma pequena fonte, uma lanchonete, onde compro um sorvete da Opa, que é nossa Kibon, que na verdade agora é Nestlé. E uma água. Procuro um banco a sombra e fico ali, saboreando o dia. Até 13 horas, quando vou para a Rodoviária, pegar o ônibus das 14h15. Devagar vai enchendo de gente, pois o ônibus vai até Lisboa. Muitos devem ter vindo passar o final de semana com a família. Uma senhora está indo para um funeral. Ainda bem que comprei a passagem antecipada porque lá são vendidas pela lanchonete ao lado, que está fechada. A senhora me diz que, se ele não abrir ela compra em Beja, mas eu ficaria desesperada se estivesse só. Mas às 14 horas o dono apareceu só para vender as passagens. 

No caminho para a Rodoviária vou observando a parte mais nova da cidade, suas ruelas entre as ruas maiores, de fluxo único, cheias de charme... 

Na volta faço uma fotos diferentes das plantações de oliveiras, e do Rio Guadiana. Para não pegar o reflexo da janela oposta, mudo o ângulo de disparo e as fotos ficam mais azuladas. Tem campos com árvores grandes, outros com plantação de oliveira, mas percebe-se que esta cultura domina a região. 

Passamos também por um vilarejo, acho, no caminho. Agradável como tudo o mais por aqui.

Em Beja tem dois táxis à porta da Rodoviária, mesmo assim chamos o Sr. Jorge. Sei o preço dele. Quando vejo quem são os motoristas que lá estão, Sr.Jacinto e Sr.Agostinho. De 17 taxistas que a cidade tem, conheço 4, e três deles estarão no mesmo lugar dentro dos próximos minutos. É coincidência demais, não?

E não quero fazer mais nada. Vou almoçar ou jantar as sobras do bacalhau e assistir a série Suits no Netflix até cansar e ir dormir.