RUMO A ÓBIDOS - SEXTA-FEIRA

02/08/2019

O que aconteceu de diferente nesta semana?

Bem, como a entrevista no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras deu certo, e minha Autorização de Residência deve chegar pelo Correio qualquer dia destes, resolvi comprar um carrinho para facilitar minha vida. Principalmente no deslocamento entre minha casa e a cidade de Beja. Uma economia entre 14 e 24 euros por dia de visita à cidade. E, lembrando, hoje estou completando um mês de residência em Beja, 67 dias fora do Brasil. Já é meu recorde.

Aqui é possível comprar um bom carro por valores a partir de 1500 euros, até achei um, mas bastante rodado, indicado para rodar só na cidade. E já que vou ter carro, vou aproveitá-lo para rodar pelas redondezas, pelo menos Portugal e Espanha. Pensando nisso, acabei optando por um mais novo, ainda na garantia de fábrica, até porque, não conheço nada de mecânica, não conheço nenhum mecânico por aqui, e não tenho ninguém que possa me ajudar, nem na escolha, nem no conserto, se for o caso. 

Comprei um Aygo, da Toyota, 2017, a gasolina. Não sei se existe este modelo aí no Brasil, o fato é que é pequeno, do jeito que gosto, tem 4 lugares com um porta-malas bem pequeno, mas o banco de trás rebate, aumentando o espaço. E agora estou motorizada.

Minha viagem já está toda planejada, na quarta a mala já está pronta, peguei o carro na quinta de manhã. Em Portugal, o seguro de veículos é obrigatório. Já sai com a Carta Verde e tudo, para poder circular fora do território nacional. Se o guarda de trânsito te parar, você tem que entregar os documentos do carro, os pessoais e os do seguro. Vai um selo no para brisa indicando a cobertura para circulação nos demais países do continente.

Tudo prontinho, menos o espírito. Bate uma insegurança danada de sair viajando sozinha de carro por estradas desconhecidas, com sinalização de trânsito desconhecida. Eu tenho habilitação para dirigir há 37 anos. Estou acostumada com estradas, com trânsito pesado como o de São Paulo e ainda assim, não da para controlar o medo e a insegurança. Posso nem estar pensando a respeito, mas meu pescoço travou com um torcicolo, e o nervo ciático da perna direita inflamou, assim do nada. Não é a primeira vez que o emocional ataca meu ciático. Alongo dali, massageio o lugar, e vou dormir. Primeiro acordei no meio da madrugada com a Brenda, minha filha, me chamando. E de novo, um pouco antes das  7 horas e tinha me programado para levantar às 8 horas. Voltei a deitar e sonhei. Saí viajar por Portugal, de trem, com minha mãe e filhas. Quando descemos em nosso destino, falei para elas: "Agora vamos colocar nossas malas no carro." Mas que carro. Esqueci o carro em casa. "Então vocês ficam aqui que eu vou voltar para buscá-lo."Mas a bateria de meu celular estava a 25% somente. E quando reviso os planos, não era a cidade em que íamos iniciar nossa jornada. Acordei. Ciente de meus medos e o que causam com  minha saúde. Mas enfrento. E tudo passa.

Me arrumo rapidamente pela manhã, instalo o celular conectado no USB recarregando 'full time', e programo o Google Maps para fazer um caminho sem pedágios, ou portagens, como chamam por aqui. Assim que irei por estradas vicinais, num caminho mais longo e mais demorado, mas cheio de charme.

Vou em direção à Évora, e passando por algumas cidades bem próximas a Beja que certamente voltarei para visitar com calma, quando estiver fazendo nada em casa, kkkk

Évora é um encanto. Mas este sítio deixarei para conhecer quando minha filha Débora vier em novembro.

Passei por Coruche, capital da cortiça, e por lá vi caminhões carregados da mesma. E uma indústria, com o pátio cheio de cortiça, parecendo tapetes marrons. Não tinha acostamento para encostar e fazer umas fotos.

Passei também por um grande rio, cuja ponte de aço pintada de vermelho, só permite o tráfego em uma direção por vez, com um farol de cada lado que regula o trânsito. Me arrependi de não ter colocado o celular para filmar. Uma sensação e tanto.

E vi plantações de tomates. E, de repente, um campo de girassóis. E uma entradinha onde poderia parar sem atrapalhar na estrada. Deus conhecia meu desejo de registrar um campo de girassóis.

Depois fui vendo umas árvores diferentes, com um fruto que me parecia pera. E sim, são peras. Mais um cantinho, depois de muitas áreas com peras que não pude registrar. E, que lindas. Não sei se vocês se sentem assim ao ver a produção de nossos alimentos. Eu me encanto.

Cruzei algumas vezes a linha de trem, mas só uma delas tive que para com o farol vermelho para a passagem da composição.

E aí já passava de meio dia, a previsão de chegada pelo aplicativo era após às 14 horas. Eu precisava ir ao banheiro, pois vinha me hidratando ao longo do caminho. E, de repente, um pequeno restaurante à beira da estrada. Notem que eu passei por dentro de várias pequenas cidades, as estradas foram ficando cada vez mais simples, chegando a nem ter sinalização no chão. Mas ali estava um cantinho para comer um prato do dia, com estacionamento fácil e tudo.

Celular carregado 100%, a atendente, que também era a cozinheira, de nome Fátima, me ofereceu a senha do Wi-Fi. E estou eu conectada. Pedi uma vitela, acompanhada de batatas fritas, arroz e salada. Um chá em lata. E de sobremesa um arroz doce bem amarelinho. Eles colocam gema até no arroz doce. Gastei 8,40 euros.

Às 15 horas eu chegava a Óbidos. Um pouco de trânsito na entrada, afinal, está acontecendo o Festival Medieval que ocorre anualmente. Fui parar num estacionamento pago a uns 500 metros do Hostel. Mas li que tem estacionamento gratuito próximo e dali não conseguia me aproximar mais pelo caminho indicado no Google pois a porta de acesso estava bloqueada para a festa. Liguei para a minha hospedagem e a moça me deu umas orientações para chegar no Arco Nossa Senhora das Graças. Uma erradinha aqui, tive que refazer o caminho, mas achei o arco. O problema era, tinha uma placa que entendo dizer que é contramão para entrar, e a porta é bem estreita, não me parece ser possível entrar ali de carro. Sigo adiante e dou uma baita volta. Refaço o caminho. Não vai ter jeito, vou ter que deixar o carro na estrada, acompanhando a muralha, pelo lado externo. Não está muito longe, é descida, e asfalto. Fica fácil descer com a mala e a mochila.

O Hostel Vila de Óbidos fica bem próximo ao Arco. Meu quarto é no térreo e só tem um beliche. A Paula, que está ocupando a cama de baixo, é de Montreal, e fala espanhol, entendendo o português. Conto que estive em Montreal e me apaixonei. Ela diz que tem vontade de morar na Espanha ou em Portugal. Fazer uma experiência de um ano, e quem sabe ficar em definitivo. Por causa do clima. Gosta de Montreal, mas considera o inverno muito limitante. Que as pessoas ficam restritas às suas obrigações. Não têm 'clima' para fazer mais nada.

Depois de conhecer as instalações do hostel, vou conhecer a Vila por dentro das muralhas. De onde estou, subo duas pequenas quadras e chego à rua principal, onde ficam os comércio, os restaurantes, onde se chega a Porta da Vila e ao espaço onde acontece o Festival. Mas meu ingresso é para amanhã. De modo que vou explorar tudo que puder enquanto estiver claro.

Tem bastante gente na rua principal. Já saio junto à Capela de São Martinho e a Igreja de São Pedro.

Pensei que estava indo em direção contrária à festa, mas depois percebi que meu mapa estava ao contrário. 

Passo pela Igreja Matriz de Santa Maria. Ao lado tem um restaurante com uma curiosa decoração de barris de laranjas. 

Estou louca de vontade de tomar um café com leite. Já são quase 17 horas. Encontro uma cafeteria. Peço um doce de massa folhada com recheio de doce de gema para comer junto. Comprei também mais uma água e gasto 5, 50 euros.

Vou até a Igreja de Santiago, onde uma banda Medieval composta por mulheres está fazendo uma apresentação. Show!

Muitas pessoas estão caracterizadas, pois os visitantes podem alugar roupas para viajar no tempo.

Vejo um senhor carregando um dog alemão, me pareceu tão medieval aquele cão ali, quase do tamanho de um bezerro, ou sou eu que já entrei no clima?

Ao lado da igreja um caminho leva ao Castelo, que hoje é uma hospedaria, mas de onde se tem uma bela vista da cidade. 

Exploro o espaço e retorno, mas agora desço por uma rua, logo ali, ao lado do Castelo, e vou descendo, descendo, até chegar ao Arco de Nossa Senhora das Graças. E vejo uns carros entrando por ali. Ou seja, é possível. E aquela placa não quer dizer contramão. Então o que significa?

Vou até o hostel para deixar a água e dar uma recarga no celular. E agora vou pela rua de baixo, acompanhando a muralha que, normalmente, pode-se caminhar por cima, mas está em manutenção. Perto da Porta da Vila, no extremo oposto à festa, tem uma pessoa representando um estátua prateada. Que faz pequenos movimentos. Está muito bonita, sentada ali na escada. Contribuo com sua caixinha e tiro umas fotos, além de fazer um filminho ( que irá para o Instagram - @lessa meyre).

Este é um lado ainda não explorado, vejo um restaurante que tem sopa no cardápio, voltarei. Vejo uma doceria num nível abaixo, voltarei. A rua principal está cheia de travessas sem saída. Mas de repente vejo uma que se refere a um miradouro, E tem continuidade. Subo. E tenho uma bonita e diferente vista das redondezas. Mas tem uma passagem para o lado externo da muralha. Já que não posso andar sobre ela irei ao lado dela. E a vista do outro lado é completamente diferente. São áreas agricultadas. E em sua base, destroços e vegetação. Tudo muito lindo! Vou seguindo e quando vejo estou na entrada do Festival, passo pelo arco e estou em frente a Igreja de Santiago novamente, não sem antes ter registrado algumas figuras devidamente caracterizadas. Uma moça até escondeu o celular quando disse que ia fotografá-la. 

Além das muralhas, das pessoas, das igrejas, vou registrando suas encantadoras casinhas, sempre cheia de flores e enfeites. Tem muitas primaveras e bougainvilles. A diferença que sei entre as duas é que a primeira se espalha ao longo do galho, enquanto a segunda forma cachos. As folhas ficam coloridas e entre elas surge as pequenas flores brancas de miolo amarelo. Sim, todo aquele lindo colorido são de folhas. Até um comércio com este nome encontrei aqui.

Passei por uma biblioteca, onde numa das pontas vendem produtos orgânicos 'in natura'.

Depois passei por uma loja de conservaria que adota um conceito de biblioteca, Comur. A atendente me explica que cada loja da rede se caracteriza de acordo com o local onde está instalada. O conceito de biblioteca está muito arraigado à Vila de Óbidos, então o estabelecimento tem esta apresentação. Diz que em Lisboa tem uma no mesmo estilo. As conservas são de peixes, mas tem dois tipos só de legumes. Ela achou para mim uma lata de sardinhas que nasceram no mesmo ano que eu. Pasmem!!! kkkkk

Brincadeirinha. Eles fazem latas como se fossem lembranças, e estampam o ano em sua tampa, indicando também alguma celebridade que nasceu no mesmo ano. Na minha constava o nome do Brad Pitt. Não tive como abandoná-la a própria sorte. kkkk. Além destas, vendem uma infinidades de peixes e frutos do mar enlatados, linguado, corvina, mexilhões, peixe-espada, atum, enguias, anchovas, carapau, bacalhau, robalo, dourada, truta, salmão, lula, polvo, gambas ou camarões, os preços são bem salgados, mas ela garante a qualidade. Disse que são produtos em azeite finíssimo e tem validade de 5 anos. Nem vou confessar a pequena fortuna que paguei, terei que comer até a lata para valer a pena. Ou mandar embalsamá-la, hahahaha. É o tal do agregar valor à marca, fazer virar fonte do desejo.

Vou retornando e quando chego à Rua que dá acesso ao hostel, vejo uma movimentação e está acontecendo o Desfile Medieval. Aciono o vídeo do celular e vou tirando fotos. O que mais me encantou é um grupo de gansos que seguem a procissão. Tem até cachorro e dromedário. E representantes de todas as classes sociais da Idade das Trevas, como é chamada essa época, pois depois o mundo explode nas artes e ciências através do renascentismo e iluminismo. 

Decido tomar minha Ginginha, de novo, pois a conheci em Faro, mas ela é originária daqui. Um licor servido em copo de chocolate, por um euro. Quase todo estabelecimento tem um serviço deste à porta.

Agora vou procurar a sopa, já passam de 20 horas. O tempo voa não? Na verdade é um creme de legumes, do jeito que gosto. Tomo com um suco da Copal de ananás. Gastei 5 euros na refeição, mas não comi a sobremesa, pois vou procurar a doceria do subsolo.

Você já viu suspiro tamanho família? Eu vi hoje pela primeira vez. São Lindos. 

Mas não será isso que vou comer, tem uns pães-de-ló recheados. Parece ser a especialidade da casa, então decido por um de chocolate. E fico batendo papo com a dona até chegarem outros cliente.  Cada doce custa 2,50 euros.

De novo, faço uma caminho diferente, e chego à Igreja da Misericórdia. Que, subindo vai dar no Largo da Matriz, e descendo, sair ao lado do hostel, praticamente. Acho que posso dizer que fiz uma boa exploração, não passei por todas as ruas, obviamente, mas tive uma boa noção do que é a vila por dentro das muralhas e vi todos os seus pontos turísticos, além de acompanhar o desfile. Agora voltarei ao hostel para tomar um banho e escrever.

Amanhã quero ir para o lado de dentro da festa, que inicia às 11 horas. Não preciso ficar lá dentro o tempo todo, mas tem muitos eventos acontecendo durante todo o dia e a noite.

E  meu ciático, agora que parei e o corpo esfriou, tá doeeeeendo... E a internet para carregar as fotos está tão lenta.