RUMO A NOVA CASA - BEJA (PORTUGAL)

09/07/2019

Muito bem, os trens daqui não são como lá. Informei-me e subi de elevador, com minha bagagem, para a plataforma 4. Só que na Estação Sete Rios passam trens para uma diversidade de lugares, usando as 4 linhas ali existentes, certamente com desvios de rotas ao longo do caminho. E qual o meu destino? Só sei a minha parada.

Não tem nenhum funcionário na plataforma para informar. Vejo um casal com muitas malas, então irão viajar também. Uma luz de esperança se acende em meu olhar. Mas quando pergunto, não sabem responder, nem dar nenhuma informação.

Resolvo apelar novamente para o Google Maps. Ah! Que bom, lá consta o destino, Évora (estou escrevendo e improvisando aqui, com uma cadeira e uma mala vazia, uma mesa adequada para digitar em meu quarto, que é o cômodo mais claro pela manhã).

Todos os trens que passaram até agora são suburbanos. De repente ouço no auto-falante:

_ " O trem entre cidades com destino à Évora vai encostar na plataforma 4 às 9h14."

Oba! É o meu. Na minha passagem está escrito vagão 21, assento 66. Nossa! Deve ser um trem enorme. Só que não. Tem 3 vagões. Qual será o meu? E tem 2 degraus para subir. Óh meu Deus. Quanto tempo será que ele fica parado. Tento entrar num vagão em que vi uns números do lado de fora que me pareceram a numeração dos assentos. Não consigo abrir a porta. Um senhor entra pela porta do vagão adjacente e vou naquele mesmo, empurra uma mala, coloca a mochila, volta buscar a outra mala, tudo correndo, mas em tempo. Realmente, ele não fica parado muito tempo.

Bom, para onde vou agora. Encosto as malas e fico por ali mesmo, de pé, até que alguém me informe qual o meu assento. Devo estar perto do banheiro, pelo cheiro de urina, argh!

Não demora muito e aparece o fiscal. Já falei que os portugueses são sérios? Pelo menos enquanto estão trabalhando. Ele diz que estou no vagão correto ao conferir minha passagem, e me diz para colocar minha bagagem num espaço atrás dos bancos, mas não me ajuda. Que pena! Perdeu a oportunidade de fazer uma boa ação.

Coloco minhas malas no lugar indicado e vou procurar meu assento, no outro extremo. Janela. Que bom. E o assento ao lado está livre. Depois que me sento, penso que minhas malas estão de pé, sem travas, e podem sair rodando pelos corredores. Volto lá para deitá-las. Irão dormindo. Kkkk

Agora posso apreciar a paisagem. Atravessamos o Rio Tejo, por isso o lugar para onde me dirijo é chamado Alentejo. Ainda passamos por algumas cidades junto à Lisboa, que devem ser como a grande Lisboa. E depois as casas vão rareando até ficar só vegetação. Como eu já tinha verificado, estamos numa grande planície rumo ao Sul de Portugal.

Depois que me sento, vejo que a janela é meio sujinha e vai atrapalhar as fotos, além da claridade das janelas opostas. Mas, é o que temos pra hoje.

Muitos me perguntam sobre minha escolha por Beja. Foi acidental, mas dentro de alguns critérios. Eu queria, inicialmente, ir para Faro, no Algarve, cidade praiana, bem ao Sul, junto ao Mar Mediterrâneo. Mas quando falei com a corretora e também busquei na internet, observei duas questões. A maior parte dos imóveis, naquele lugar, não são alugados para o ano completo, isso porque é uma região de alta demanda na época de calor (que é o caso), e eles alugam para a temporada. E para os outros 8 meses restantes. Depois porque o aluguel de um imóvel com um quarto, lá, sairia por mais de 550 Euros. :0

Quando falava com a corretora sobre isso ela falou um nome, que não me ocorre agora, mas acho que era de uma imobiliária ou coisa assim. Entrei na internet e ao buscar com aquele nome me apareceu Beja. Fui buscar sua localização no mapa, e dados de relevo, clima, população, distâncias até Lisboa, até a Espanha, até o Algarve. Observei que tratava-se da Capital do 'Estado" com o mesmo nome. Uma planície, há menos de 200 Km de Lisboa e de Faro. Bem pertinho da Espanha. Clima quente com mínima , no inverno, de 3 graus. Gostei.

Ainda assim a Corretora localizou imóveis no Barreiro, em Faro, em Évora, mas todos com valores acima de 350 Euros. E próximos demais de Lisboa. Eu queria um lugar mais tranquilo, onde pudesse deixar minhas coisas, sossegada quando for viajar para outros países. Quando a lembrei da escolha por Beja, ela entrou na internet à procura e uma casa com um dormitório acabara de ser anunciada. Ela mandou-me fotos. Eu em Seattle. Gostei. Ela ligou para a proprietária e marcou para o dia seguinte a visita para 11h da manhã (3horas onde eu estava). Tive que despertar de madrugada para falar com ela, ver o vídeo do lugar e concluir. Aluguel de 280 euros em casa mobiliada, com frigobar e máquina de lavar roupa. Despesas de consumo à parte. Bati o martelo. Já havia pedido a Deus, que conhece meu coração, que preparasse.

Voltando a viagem, muitas oliveiras pelo caminho. Depois observei uma árvore diferente. Não conheço. O que não é nenhuma novidade, não sou 'expert' em árvores. Mas uma característica chamou-me a atenção. Seus troncos descascados. Fantástico! Tratam-se de sobreiros, as árvores de cortiça, de rolhas. Nunca as tinha visto. Estou maravilhada.

Sendo um país tão pequeno, os cultivos são bem variados, e não por grandes extensões de terra. E muitas outras plantações foram surgindo sem que eu as reconhecesse. Mas estava interessada nos campos de girassol que a Corretora me disse ter visto no caminho.

O trem chegou a Casa Branca uma hora depois de sua partida. Fui auxiliada por um senhor para descer a bagagem. E logo que descemos já escutamos o anúncio do atraso do trem para Beja, destinados a nós mesmos, passageiros em baldeação. Anunciou-se para 10h50. Teríamos que aguardar um pouco mais de meia hora.

Conversei um pouco com ele, mas o português que ele fala é bem carregado no sotaque, e ele fala baixinho, difícil de entender. Ajudou-me novamente com as malas para subir os degraus. Este trem já é mais simples ainda, e o lugar marcado serviria se estivesse cheio, o que não é mesmo o caso. Arranjei minhas malas em um lugar qualquer, junto à porta, e fiquei em pé entre os assentos, perto da janela, ainda procurando os campos de girassóis. Ele me disse que o percurso até Beja seria de meia hora. E vi que seriam 3 paradas intermediárias. Quase que só uma freadas. De tão pequenos os lugares. Ele desceu no segundo deles.

Cuba, a cidade anterior a Beja, já me pareceu maiorzinha. Nela entrou um rapazinho que se sentou no mesmo vagão que eu estava. E quando apareceram os tão aguardados girassóis, ele me atrapalhou, sem querer, óbvio, de tirar as fotos. Porque quando os vi, e fui me posicionar, pois estavam do lado oposto ao meu, lá estava ele, no local ideal para a foto. Kkk. Fotógrafo ruim arruma desculpas para tudo. Não consegui uma boa foto, só uma que se observa o amarelo das pétalas, mas sem identificar a flor. Nem vou postar de tão ruim.

Mas houve uma compensação, ele desceu do trem com minha mala grande. Essa composição não havia ninguém nem para conferir as passagens. Mas os passageiros parecem-me mais solícitos do que os funcionários mesmo, então, está bem assim.

A proprietária da casa, em comunicação pelo What'sApp orientou-me a passar no Supermercado Continente novo, mais perto do Monte Januário, meu novo endereço. Pedi a ela pois sabia que seriam necessários alguns utensílios domésticos e alimentos. Ela me disse que ali encontraria de tudo.

Na estação, uma senhora que desceu do mesmo trem, perguntou-me se eu não era filha da Sueli (acho), que é uma brasileira que mora em Beja e, recebeu uma filha, estando ao aguardo da outra por estes dias. Explico que não, mas que estou vindo para morar. Ela me diz que o táxi deve estar à porta. Um acabou de sair, mas antes que ela se vá, outro aponta na esquina. Eles sabem o horário de chegada dos trens e arriscam. Seu Agostinho levou-me até o supermercado e deixou-me um cartão para chamá-lo. Pergunto se tem o aplicativo, pois estou sem telefone. Acho que eles não sabem muito bem o que é What'sApp, não deve ter utilidade. E aqui não tem UBER.

Começo por comer um brioche com frios e um suco de laranja, já estava com fome. E fazer compras com sede ou fome não é bom negócio. Depois peço ajuda, no balcão de informações, para saber como proceder com minhas malas. A mocinha chama o mocinho da segurança e juntos vamos conduzindo-as para sua salinha. É um rapaz muito simpático e bonito, loiro de olhos claros, alto. Deixe-me parar de divagar, kkkk, só queria mesmo oferecer uma descrição para vocês.

O mercado realmente é bem completo, compro 2 panelas pequenas, 1 frigideira, um jogo de talheres com 24 peças, 2 canecas, 3 copos, 3 talheres grandes para uso no fogão, uma faca de corte, pratos, um jogo de vasilhas plásticas com tampas com 12 peças de tamanhos variados, um coador de chá, um edredom de verão, um tapete de banheiro, balde, escovão. Queria também travesseiros, mas não achei.

E depois vou às compras de supermercado, itens de higiene pessoal, higiene doméstica, alimentos frescos e processados, frios, pães, penso que o suficiente para uns 10 a 15 dias, já que estou sozinha. Gastei 217 Euros. Até que não foi muito, considerando os itens obtidos.

Na hora de passar no caixa, nem meu cartão de crédito, nem de débito, funcionaram. Não sei porquê. Mas tinha dinheiro, só que também tinha que sobrar para pagar a caução dos gastos de consumo, no valor de 120 Euros. Mas a caixa indicou-me um Terminal de Caixa ali dentro mesmo, de modo que passei a compra e arrisquei-me a sacar o dinheiro depois. Mas deu certo.

O segurança, quando me viu, já foi buscar as malas, coisa que já não o podia ajudar, pois estava com o carrinho de compras. Ele ajudou-me a levar para fora. Tentei falar com o Sr. Agostinho pelo 'zap' mas percebi que ele não o tem. Deixei minhas coisas lá na frente e voltei para pedir que chamassem um táxi para mim.

Nem lembro o nome do que veio, só sei que eles são em 6 irmãos, todos taxistas na Praça de Beja. Conduziu-me até meu destino onde Dona Rosalita me aguardava. Cobrou-me 14 Euros num percurso que, pelo dia e horário, não ficaria mais que 10 no taxímetro. A dona Rosalita me deu, depois, o número do Sr. Jorge, que faz a corrida por 7 Euros.

E agora, deixe-me conhecer minha nova casa. A Dona Rosalita é uma simpatia de pessoa. A casa está arrumadinha e limpa. Tem até uns itens de decoração, além de cortinas, almofadas, e até colcha na cama.

Tem um inconveniente, como não podia deixar de ser... Moscas. Como estou numa região rural de criação de gado bovino, tem moscas. Mas a casa é lacrada com vidros. Uma casinha branca com janelas azuis, só não fica perto da barranca do Rio Paraná. E para evitar as moscas, basta abrir e fechar janelas e portas rapidamente. Já vivi isso em Juquiratiba. Lá tive que colocar telas nas janelas, às minhas expensas, já que a casa era de meus sogros, que gentilmente, compraram para nós. Aqui tenho janelas de ferro, com furos oblongos para passagem de ar, pintadas de azul; e janelas de vidro, em seis quadros, pintados de branco, internamente. Alterno-os durante o dia ou à noite, mas só no quarto, onde preciso de escuro para dormir. E a luz, por aqui, só anda sumindo por volta de 22 horas, e antes das 6 da manhã, já está na janela.

A água quente, nas torneiras da cozinha e do banheiro é aquecida a gás. O aparelho fica na cozinha e tenho que acender o pavio. A dona Rosalita o fez no primeiro e segundo dia, quando não consegui fazê-lo sozinha. E tenho que terminar o banho e vir desligar para não desperdiçar gás.

A banheira é uma novela à parte. A mangueira do chuveiro não tem extensão suficiente para eu ficar de pé, e não tem engate na parede, como nos hotéis em que já usei este sistema. Se sentar na banheira, minha largura forma uma represa com a água, se ajoelho, fico com dores e ainda tenho dificuldades para levantar. Se sentar na beirada, fico mal acomodada. Até tomar banho a gente aprende pelo costume, desde cedo. Imagino que eles fiquem pouco à vontade com nossas duchas sem a banheira para protegê-los. Mas no quinto dia de uso, uso a banheira. Tampo-a e deito-me, usando o chuveiro como se usa em bebês, para lavar o cabelo e enxaguar o corpo, e não posso desfrutar muito porque não tenho quem desligue o gás para mim, após a banheira estar convenientemente cheia. Snif!

Fiz minha primeira refeição com arroz de 3 tipos, vermelho, preto e selvagem. Usando azeite para temperar. Bife de alcatra dos Açores, muito macio, mas uma carne meio branca e sem muito sabor. Agrião. E estava bom por demais.

E o lugar é silencioso o bastante para dormir e esquecer de acordar. Agora percebo que a passagem por Juquiratiba, 7 anos e meio morando lá, tinha mais objetivos em minha vida. Tudo é preparo para chegar até onde se deseja. É só ter paciência. E observar. Mesmo que, quando em preparação, ainda não saibamos o que vamos querer. Sinto-me bem. Sinto-me em casa.