QUINTA DA REGALEIRA EM SINTRA e PRAIA DAS MAÇAS EM COLARES.

10/07/2020

Hoje o dia começou igual ontem, mas sem pesadelos e sem travesseiro no café da manhã, substituído por um pastel de nata que continua sendo o doce português que mais me agrada, pelo creme.

E aproximadamente no mesmo horário estacionava o carro quase na mesma vaga da terça-feira. Descobri que o valor máximo a ser pago no paquímetro é de 4,40 euros e dá direito a 4 horas de estacionamento. Mas considero este tempo insuficiente, com as atrações distantes e que merecem ser exploradas sem pressa.

E hoje resolvi chamar o UBER e verificar o preço do serviço. E por 4,08 euros o motorista me deixou na porta da Quinta da Regaleira. Este foi o local melhor preparado para o pós-pandemia que vi entre as atrações visitadas. Tem um porta-álcool em gel em todas as entradas, e o mecanismo é acionado com o pé. Até nas portas dos banheiros. E eu tinha a opção de fazer a visita livre ou guiada. Escolhi a segunda, mas ainda era meio dia e a visita em português só iniciaria às 14 horas.

Então peguei o mapa, depois de pedir orientação à moça da bilheteria e fui me aventurando pelas rotas e pelas trilhas no meio do bosque. E fui achando as coisas e as placas indicativas onde algumas pessoas ouviam áudios explicativos. Mas nos corredores de estradas via algo no nível de cima, e não conseguia achá-lo quando estava embaixo. Ainda assim descobri o local de um dos marcos da Quinta: o Poço Iniciático.

Trata-se de um túnel com quase vinte e sete metros de profundidade, com uma escada espiralada em torno dele, e vários buracos ao longo do caminho, que parecem portas ovaladas. O número de visitantes está limitado a sete neste local. E a saída ocorre por baixo, numa gruta que é parte de um labirinto e o percurso utilizado para sair é denominado Gruta do Oriente.

Continuei meu caminho tentando achar o Portal dos Guardiões, que foi um dos locais que explorei e queria ter a visão da fachada dele, no nível inferior, mas o que achei foi a Fonte da Abundância e a Torre da Regaleira, seguidas pela Capela Mariana e o Palácio, que não quis entrar, pois acreditava que a visita guiada me proporcionaria uma visão mais apurada do local. Ao olhar o relógio, ainda faltavam 45 minutos para a visita. Mas a cafeteria do local fica logo junto ao Palácio, aos pés da Casa da Renascença. Tinha sede e tomei um sumo de laranja (que para os brasileiros é suco), e pedi uma água para viagem. Ainda circulei um pouco mais por ali e logo voltei ao portão de entrada para aguardar o guia.

Uns minutos antes das 14 horas o Antônio se apresentou e eu era a única visitante a fazer o percurso guiado. Ele começo falando da história recente da Quinta, que hoje tem quatro hectares, que seu executor e proprietário era da família Carvalho Monteiro, um brasileiro nascido no Rio de Janeiro, filho de português que fez fortuna no Brasil com o café. O jovem estudou direito em Coimbra, não exercendo nunca a profissão, devido sua condição social. Casou-se no Brasil e depois veio morar em Portugal. A Quinta da Regaleira já tinha este nome quando ele a adquiriu, e anexou um terreno que comprou antes, ao lado, para assim executar o projeto que imaginou. Era um apaixonado por botânica. E na verdade era um homem muito culto, com várias paixões que conseguiu realizar, muitas através deste maravilhoso jardim, que conserva parte da vegetação natural, e tem muitas espécies de plantas trazidas de vários lugares do mundo, como o manacá, do Brasil.

A Quinta da Regaleira é na verdade uma obra de arte que oculta diversos segredos filosóficos. E como eu já tinha passado por parte dos locais, as explicações dadas antecipadamente já criava associações em minha mente. O Poço Iniciático é um dos elementos importantes deste simbolismo, com sua entrada oculta entre as pedras, com a entrada no lado Norte, o lado mais escuro da Terra, representa um túmulo. Ali você morre para o que é, e realiza a descida até as profundezas do seio da Terra, saindo pela gruta do leste, que é onde habita a luz do sol nascente. Ele me explicou que a verdadeira saída oriental é no Lago da Cascata, onde ali o novo ser caminha sobre as águas, que também tem uma simbologia muito forte, em pedras que são dispostas para as passadas (compensa agora voltar nas imagens do poço para fazer também a conexão w melhorar o entendimento).

Passamos pela fonte da abundância, onde antes em vira apenas um lindo mosaico e um trono. E ele me alertou que ali era como um templo, com o trono, e o formato circular do espaço. No alto da Fonte estão as duas torres da entrada do Templo do Rei Salomão, fazendo uma clara alusão à maçonaria.

E na gruta da Leda, um grande espaço como um iglu, proporciona um local aprazível, sombreado e protegido, para abrigar convidados. E no fundo, ao centro, está a Leda, mordida por um cisne, que representa Zeus, em sua perna direita e com uma pomba na mão, representando o divino. Essa é uma história que faz parte da mitologia grega. Aprendi aqui que hierogamia é o casamento com deuses. Dessa união com Zeus nasceram Helena de Tróia e Pólux. Dos ovos que Leda chocou.

Outra fonte também traz símbolos mitológicos, com dois tritões (macho da sereia) rodeando um Búzio. O local é uma das entradas do Poço Iniciático, e leva ao meio dele. E este fica justo no Portal dos Guardiões que eu procurava sem achar.

Passamos também pela Torre da Regaleira, e fiquei sabendo que aquela não era a torre original. Mas sua importância se nota ao conhecer o nome completo do local: Quinta da Torre da Regaleira.

E a estufa, onde as queridas orquídeas eram cultivadas, fica mais uma vez evidente a paixão do proprietário pelas plantas. Até uma chaminé é observável em um canto, fonte de calor para manutenção de uma temperatura idêntica à tropical.

A Capela, que eu tinha visto com admiração, causou-me ainda maior assombro após a explicação. Os santos representados na torre sineira foram escolhidos de acordo com os nomes dos membros da família do Senhor Antônio Augusto de Carvalho Monteiro.

E dentro dela, no altar está uma imagem da coroação de Maria por Jesus. O mosaico do chão apresenta símbolos templários, a Cruz Pátea e a Cruz da Ordem de Cristo. E no atrium, espaço entre a porta de entrada e o espaço religioso, no teto, o Olho Onividente do GAU, já que a maçonaria não é uma religião, ela não entra na Capela.

O Antônio mencionou algum filósofo que dizia que diante de restrições e perseguição, o disfarce. E o melhor disfarce está em apresentar o alvo da perseguição, simbolicamente, nas coisas mais visíveis. Disse ainda, que qualquer movimento no campo ideológico, se não for representado por símbolos, morre, desaparece.

E isso me faz lembrar que nos tempos de repressão, a expressão, as artes são mais criativas para representar, através de símbolos, aquilo que se tolhe.

O último local que visitamos foi e Palácio. Nele a expressão neo Manuelina, que segundo meu guia é o gótico tardio de Portugal, decora toda a parte exterior com símbolos estudados por Manini, o responsável pela construção do jardim, que usava a máquina fotográfica para registrar os monumentos mundo afora, e depois fazia as composições para sua obra na Quinta.

O Palácio era, a princípio, casa de Veraneio da família CM, no entanto, após a porte de sua mulher, o Senhor Antonio Augusto fez dele sua residência.

A Sala de Caça, logo à entrada possui animais decorativos até no mosaico do chão. E na Sala de Jantar uma enorme lareira que nunca viu uma lenha a queimar, já que o sistema de aquecimento já era elétrico.

Os forros do Palácio são todos em Carvalho, exceção feita ao da sala de música, que é feito em castanheira, por ser madeira mais macia e de melhor efeito acústico. Este era um espaço destinado ao convívio das mulheres. Ao lado o salão de jogos anexado à sala de fumo, leva na junta rente ao teto as fotos de vinte reis e quatro rainhas, portugueses, desprezando um período de sessenta anos de reis de uma dinastia espanhola.

Eu tinha avisado ao Antônio do tempo de estacionamento, e tendo pulado a descida do Poço Iniciático, ou Torre Invertida, ele me deixou logo depois das 15 horas perto do portão de saída.

E novamente chamei o UBER, e o preço pareceu-me bem atrativo, mesmo notando que o motorista viria de longe. Um rapaz de nome estranho chegou depois de uns seis minutos. Mas era simpático e falante. Um ucraniano que já esta há cinco anos em Portugal. Pelo nome notei que não era português, mas não consegui detectar o R forte dos povos nórdicos. Ele tem o sotaque bem parecido ao português. Perguntei por que gostava de viver aqui:

- Porque existe menos corrupção política.

- Sério? Mas Portugal não é tido como um modelo, nesse quesito, na Europa. Se bem que não posso falar nada, já que no Brasil a coisa é feia.

- Então, a Ucrânia é como o Brasil.

- Eu já me sinto bem aqui pela segurança. É como um peso retirado de suas costas. Poder andar sem pensar na segurança pessoal.

- Na Ucrânia também não é seguro. Justamente pela mentalidade corrupta. Uma pessoa pensa que para ter algo muito bom não vai conseguir através do trabalho.

- Então rouba?

- Isso.

- Mas já vi muitos ucranianos aqui em Portugal.

- Por volta do ano 2000 vieram muitos. Conheço gente que veio para ganhar dinheiro e comprar um micro-ondas. E está aqui já há vinte anos e não quer mais voltar.

- E não deve ter comprado o micro-ondas só para ter motivo para ficar.

- Hahaha. Sim, já comprou casa, e tudo o mais, menos o micro-ondas. Eu não sou patriota. Sinto falta de algumas coisas na minha terra, principalmente minha família. Mas não tenho vontade de voltar.

- Eu entendo.

Ele me deixou no lugar desejado, mas por causa do espaço percorrido e do tempo transcorrido, a viagem acabou saindo por 8,34 euros. Ainda assim é um bom preço, considerando tudo que ele andou.

Cheguei passando um único minuto do tempo pago. Até que enfim não tive problemas. E resolvi conhecer a Praia das Maçãs, em Colares, já que amanhã vou para Cascais. O tempo não parecia estar para praia, mas fui assim mesmo, só olhar, de longe. E no fim estava agradável, e fiquei olhando algumas pessoas curtindo a areia, uns surfistas aproveitando as ondas, o vento morno em meu rosto e a fome apertou. 

Mas ali ao lado havia vários restaurantes. Olhei o cardápio de um deles e avancei. Consegui uma mesa externa, perto do muro, apreciando o mar. Quase não tinha nenhum comensal e, pelo horário, não era possível encher e ter algum fumante a me perturbar.

Pedi uma espetada de lula e camarão. Uma porção de queijo de ovelha como entrada, e outro sumo de laranja, já que faz dias que não tomo. E a aparência da espetada estava ótima. Mas as aparências enganam. E achei a lula mal passada. Fiquei na verdade enojada com a mesma. Molenga para meu gosto. O camarão estava bom, mas era pouco. E tinha uma verdura cozida muito gostosa, além de batatas, que comi duas. Ficou caro na relação custo/benefício. Nem deixei gorjeta.

E antes de voltar ao carro ainda fui ver o mar para além dele, já que só vira aquém. E surpreendentemente, o céu estava limpo de novo.

E antes de 18 horas estava no Meu Canto. E hoje, finalmente descobri o barulho de arranhão. Aquele que pensei, no sonho, que era um cachorro embaixo da cama. Pois não é um spray de aroma? Programado para soltar a nuvem de cheiro ruim de tempos em tempos. E achei num único aparelho as duas únicas coisas que me incomodavam no quarto, o barulho e o cheiro doce. Sou alérgica aos cheiros de perfume, fico com dor de cabeça. Ainda bem que esse incomodou, porém não afetou minha cabeça. O colchão, eu já me acostumei.