PRAIAS DE PENICHE E RETORNO PARA CASA

16/08/2019

Já fiz quase tudo que programei em fazer por aqui. Ontem, enquanto caminhava pela rua, vi um estabelecimento de cuidados com as unhas e cabelos. Então vou começar meu dia por lá, já que tem quase 40 dias que fiz pedicure em  Beja, e com o tempo seco daqui, mesmo usando o tal do óleo de amêndoas doces, se faz necessário.

Às 9h começa a ser servido o café no hostel. Uma família de casal e duas crianças tomou conta do espaço destinado ao nosso pavilhão de quartos, então fui para a outra cozinha, o que me deu a oportunidade de conversar com espanhóis, portugueses e até uma brasileira, saber o que fizeram e assim trocarmos experiências para os novos afazeres. 

Antes de ir até a manicure, resolvi pegar mais dinheiro, já que o hostel foi pago em dinheiro, pois não aceitam cartão. E lá fui eu achando que no meio da semana ia ser atendida na hora. Engraçado que não é bem assim. Duas manicures e a Bia só ia ter vaga às 17 horas. Deixei marcado e pensei: " O dia está tão quente, vou visitar as praias que faltam e deixar Museu e Igrejas para amanhã cedo, antes de sair. Ou para a parte da tarde, se der tempo."

Assim, programei meu Google Maps procurando a Praia da Gâmboa primeiro, por ser bem próxima a Zona Central. Tão próxima que fica logo ali, ao lado da Fortaleza. Nada especial, mas prática.

Meu próximo destino seria Supertubos, onde acontece o Campeonato Mundial de Surf etapa Portugal ( fiquei sabendo pela recepcionista do Museu, o de Nazaré tem outro nome). Só que o lugar que o Google me levou indicando a Prais do Medão ou Supertubos não tinha nenhum acesso. Nem estacionamento. Nem indicação. Assim que continuei seguindo adiante e vi algumas placas. Cheguei numa praia onde há várias dunas. As ondulações na areia demonstram a força dos ventos no lugar. Deu até vontade de surfar... na areia. kkk

Descobri que esta e a Praia da Consolação, tem sua própria infraestrutura de apoio comercial e de hospedagem. 

Mas meu celular está sem dados móveis, e meu próximo destino não carrega, então vou comer algo, que já passa de meio dia, em algum lugar que tenha Wi-Fi.

Num restaurante próximo a praia eles me pasam a senha de acesso e me servem uma coxinha e um risole com cheiro de camarão, além de um suco de laranja.

Programo minha ida para a Praia de Baleal e desisto da de Supertubos, até porque pretendo voltar aqui no inverno quando as ondas gigantes estão presentes.

A praia de Baleal fica ao norte da Península que forma Peniche, onde está localizado o Cabo Carvoeiro. E a do Supertubos fica ao Sul.

O Baleal também tem uma ponta de areia que divide uma praia com ondas super tranquilas, e a outra usada para aprendizagem de surf , windsurf e kitesurf, com ondas bem mais agitadas. Estar na ponta de areia e olhar o comportamento da maré nas duas praias é algo incrível! ( ver vídeo no Instagram e no Facebook)

Ali as formações rochosa dão mesmo a sensação de ruptura, com camadas de rochas sedimentares com mais de 200 milhões de anos, como se uma grande planície de rocha tivesse se rompido em função das forças e pressões interiores do planeta. É um pedaço pequeno de terra, fácil de fazer a pé e registrar tamanha beleza.

Nessa minha andança, vi um homem jovem com seu filho pequeno, nos degraus e rochas sedimentares, e achei perigoso. O menino era bem jovem, e ali um lugar perigoso, pensei eu. 

Andei um pouco mais fazendo as fotos e quando estou retornando vejo que o menino está sozinho, num local, aparentemente mais seguro. Pergunto a ele se posso tirar uma foto dele. Faço-o e ele vem em minha direção para que eu mostre a foto. Não ficou muito boa porque ele estava contra a luz, mas mostrava bem os degraus e sua pequenez diante daquela imensidão.

Enquanto estou saindo, o pai dele me aborda, de longe, e me questiona:

_ " Você tirou foto do meu filho?"

_ " Sim, tirei."

Ele se aproxima, deixando o menino sozinho. Nessa hora todo nosso foco fica centrado em nossa conversa. Eu perdi totalmente  a noção de onde estava a criança. E ele também.

Mostro a foto para ele ver e pergunto se ele quer que eu a apague. Num primeiro momento ele diz que não preciso apagar, mas achou estranho, e notadamente, deve-se tomar cuidado. Depois pede que eu apague pois eu nem os conheço. Faço  o que ele me pediu e me afasto com uma tristeza muito grande. A foto abaixo mostra o menino de costas, que tirei antes.

Em que momento do mundo uma foto passou a ser mais perigosa do que estar pendurado numa escarpa com uma criança?  Eu entendi, depois de conversar com ele, apesar de ele não dizer claramente, que posso querer usar a foto com pedofilia infantil, através dos tantos recursos de imagem que existem hoje em dia; ou para mostrar para um provável comprador de crianças para venda a pais adotivos; ou sei lá quantas outras possibilidades. Eu sei de minhas reais intenções. Mas ele não sabia. Ainda assim, naqueles poucos minutos de nosso interlóquio, ele corria perigo onde quer que estivesse, sem supervisão. Até agora me dói o coração em pensar que esse mundo nojento existe, e que por um descuido de ação, fui colocada no meio dele. 

Continuei meu caminho, mas as lágrimas agora turvavam a paisagem. O lugar perdeu um pouco sua beleza por alguns instantes. Ainda bem que a maior parte dos turistas gostam mesmo é de se concentrar na praia, assim pude ter meu momento de tristeza e dor em paz. Até que encontrei outras duas turistas que se ofereceram para fazer fotos minhas, me recompus, escondi os olhos molhados atrás do óculos de sol e pensei: " Já passou!"

Continuei meu caminho até o extremo possível, fiz a volta na ponta da península e voltei por um caminho diferente, em parte, passando por uma pequena vila que se forma lá na ponta.  Hora de voltar para o Hostel. E pensar no que mais fazer no dia de hoje.

Ainda não eram 15 horas e eu em dúvida se ia até o Museu ou até a Gelataria Mor para tomar um sorvete de jantar. Tocou meu celular e era a Bia perguntando se eu podia adiantar meu horário já que sua cliente das 15 horas não iria. Ela decidiu por mim, rs.

A Bia é mineira, chegou há seis meses, bem no começo do outono, e disse que passou frio. A outra manicure também é mineira, são da mesma cidade, aliás, próxima a Diamantina. As músicas que tocavam eram sertanejas, e quando mencionei isso, me disseram que a Lu, dona do estabelecimento, também é brasileira. A manicure mais antiga já está há onze anos em Portugal, e olha que ela só tem 29 anos. A outra cliente também era brasileira, mas mora na França, ao sul de Paris já tem 12 anos. Então a conversa foi sobre o Brasil, o que sentimos falta, o que preferimos em Portugal. A Bia me perguntou sobre a segurança, e eu comentei que já percebia uma mudança de comportamento em mim, estava mais relaxada e portanto, mais descuidada.

A que está na França é paulista e irá de férias para o Brasil em Setembro. AS outras duas disseram;

_ " Uau!"

Ela disse que irá conhecer Fernando de Noronha e Porto de Galinhas, pis com tanto tempo morando no Brasil, nunca teve a oportunidade. Agora fará. Agora ela ganha em euros né?

Ela comentou que na época de frio, na França, ela sente muito a falta do sol, e sua folga é de quarta-feira. Dia que ela não sai de casa para nada na época do frio. A mineira que já é quase portuguesa diz se achar estranha porque ela gosta do frio e do tempo nublado.

E falando do que a gente sente falta, disse que sinto falta de farinha de mandioca, mas elas disseram que no Meu Super elas encontram. Então irei atrás. A Bia sente falta de banana verde. Sim, pois as bananas daqui, mesmo verdes, têm outra textura. São moles, e tem um sabor diferente também. Não sei de onde vêm.

Saio dali passando das 17 horas. Agora vou tomar meu sorvete, mas queria comer algo salgado também. Não é que eles fazem lanches... Pedi uma tostada de fiambre e queijo, um suco, e depois um sorvete com cerejas amareno.

O sorvete vem servido numa taça, o sabor é de creme, coberto com chantilly, e muitas, muitas cerejas ao licor amareno. As cerejas ficam escuras, e o licor as deixa mais doces que ao marrasquino, como eu gosto e estou acostumada. Ainda assim, é espetacular!

Agora assim está na hora de descansar, meu pescoço voltou a doer. Tem mais coisas pelo caminho que preciso resolver.

Já estava toda espalhada no quarto quando a recepcionista chega com mais dois franceses jovens. Eles mal se instalam, tomam seus banhos e área. Voltam às 2h45 da madrugada. Espero que bêbados. Ainda estou traumatizada com o lance do ronco. Snif!

Acho que dormimos todos bem. Eu pelo menos dormi. Coloquei o despertador para 8 horas. Vou tomar o café às 9h, sair para a loja da MEO e tentar resolver a falta de dados, comprar a farinha de mandioca, ir ao Museu de Bilros e a Igreja de São Pedro.

O lance dos dados foi fácil, por algum motivo ou dedo desconhecido, o sistema estava entendendo que os dados estavam conectados ao chip 1, e não ao 2, da MEO. A moça corrigiu e eu sai dali com dados para chegar no Meu Super. Achei a farinha e comprei.

E no caminho para o Museu passo por uma rua toda enfeitada, e alguns cartazes falavam sobre o dia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Será que terão festa no próximo final de semana? Afinal, ouvi no rádio que dia 15 é feriado  Nacional, Dia de Nossa Senhora.

Mas a indicação para o Museu é antes do término da decoração, assim, viro a esquerda e logo a seguir estou no Museu. Todas as artistas das mãos certamente se deliciam com este museu. O acervo fixo conta a história da renda de bilros em Peniche, intimamente ligada a arte da pesca e do cuidado com as redes. Era como uma segunda fonte de renda das famílias de pescadores que, enquanto seus homens estavam n o mar, a pescar, distraiam-se e ocupavam-se as mulheres com suas manufaturas tão delicadas.

Houve tempo em que a arte era tão importante para o município, constituindo-se na segunda principal fonte de renda, que várias escolas formavam as moças nesta arte. Depois foi decaindo até quase se perder. Hoje existe ainda um curso regular para as interessadas em manter a tradição. E a Prefeitura promove concursos em que são premiadas as rendas mais trabalhosas e criativas. O Museu guarda os exemplares premiados em alguns concursos. São realmente lindas. Até lindas e finas bijuterias são feitas com as rendas de bilros.

Na exposição itinerante está um acervo que fala sobro o papel da mulher na família de pescadores, contando a saga familiar de algumas delas, e apresentando inclusive sua árvore genealógica, porque a maioria vem de famílias que se criaram nesta atividade por gerações. A importância da mulher em todos os tempos vem sendo retratada cada vez mais. Enquanto o homem saia a pescar enfrentando o mar bravio e trazendo o produto de seu trabalho, ela ali ficava cuidando da casa, do sustento e educação dos filhos, tecendo, fiando, consertando as redes, e ganhando algum dinheiro com a venda do artesanato e do peixe. Quando ele chega com o peixe, é ela quem limpa, separa as partes e as destina, ela é responsável por transformar o resultado do trabalho do marido em sustento para a família.

Dali sigo para a Igreja de São Pedro e lá encontro a mulher que cuida de manter a Igreja em ordem, abrir e fechar suas portas... A Igreja está cheia de andores montados o que carrega minha mente no tempo e no espaço e me leva a Juquiratiba, Conchas - SP. Cidades menores com forte tradição religiosa onde os dias santos são comemorados com fervor. Dado meu encanto a mulher conversa comigo, me conta que a festa foi no primeiro final de semana de agosto, que as outras igrejas já vieram buscar suas imagens, e que aquelas pertencem mesmo à Igreja de São Pedro. Pergunta-me se eu quero que ela acenda a luz do altar para eu poder apreciar melhor sua formosura. Lógico que aceito. E contemplo com ela o banho de ouro nas paredes com colunas e brocados. Os motivos marinhos nos estandartes azuis também são diferenciais do espaço.

Ela ainda me mostra a Santa de sua devoção, Nossa Senhora da Boa Viagem,  me posicionando sob seu olhar perscrutador. 

_ " É como se Nossa Senhora nos pudesse ver por dentro", diz ela, "aliás, ela pode mesmo."

Vou passar também na Igreja da Misericórdia, pois ambas disseram ser linda, a moça do Museu e a senhora da Igreja de São Pedro, se bem que essa última duvidou de estar aberta, consultando o relógio. E não estava mesmo.

Hora de pegar o carro que já está carregado e partir rumo ao Bacalhoa Budha Eden. Trata-se de um Parque numa região de vinhedos, a pouco mais de 20 quilômetros de Peniche. 

É uma área bem grande. Chego logo ao meio dia, com fome e com sede. Pago 5 euros no ingresso e mais 4 para andar no trenzinho. Achei melhor dado o tamanho do lugar, o calor do sol e o fato de que eu estava a caminho de Beja com mais umas 4 horas de estrada pela frente. 

O restaurante era logo na entrada e por um custo de 14,80 euros você come e bebe a vontade, incluindo vinho e sobremesas. As pessoas chegam ali de carro, então, a maior parte vai se contentar com uma ou duas taças de vinho.

Eles servem o prato, mas colocam o que você pede, na quantidade que você quer. Acho mais higiênico do que a gente mesmo se servir. Peguei só meia taça de vinho e um copo de chá. Só repeti a sobremesa.

O trem estava terminando o embarque, e eu fui a última a subir. O próximo sairia em 30 minutos. Ele tem 3 possíveis paradas, desci só na primeira, junto aos budas dourados. Um bem gigante, deitado. E vários outros sentados em posições diferentes. Meu pai era chamado de Budha por alguns parentes e amigos. E ele tinha um pequeno Budha em gesso, esmaltado com betume e pó dourado, acho, o que lhe conferia um cor acobreada. Um dos Budha me fez lembrar deste enfeite e por consequência, de meu pai. Não foi o que consegui tirar foto com ele, pois era muito concorrido. Quando muito consegui tirar uma foto dele sem ninguém amontoado.

O lugar é muito bonito e interessante. Eles têm ainda uma réplica, em azul, do Exército de Soldados em Terracota chinês, ainda conhecidos como Guerreiros de Xian. 

Várias esculturas de divindades indianas. Lagos. Dragões e estátuas de pedra em meio a muita vegetação.

O jardim encontra-se em Bombarral e foi criado em protesto à destruição dos Budas Gigantes de Bamyam, um com 55 e outro com 38 metros de altura, destruídos em 2001 por ordem do governo fundamentalista talibã. Bamyam fica na rota da seda entre China e Índia, no Afeganistão.

Circulo por pouco mais que duas horas no local e já considero-me satisfeita. Vamos seguir viagem.

Os motoristas de transporte de cargas estão em greve e por isso, medidas governamentais estão sendo tomadas para não haver prejuízo das atividades fundamentais enquanto ocorrem as negociações. Passo perto de um reservatório de combustível, está sendo sobrevoado por helicóptero e tem diversas viaturas cobrindo a área, observando os passantes.

O tanque de meu carro indica que tenho mais de meio tanque, e suficiência para quase 400 km. Mas irei para Mértola no próximo final de semana e não quero arricar chegar na reserva em Beja e não ter onde abastecer.

Paro num posto a beira da estrada, lembrem-se que estou percorrendo o país pelas vicinais, evitando pedágios. Sem fila, mas uma aviso diz que o limite é de 25 litros por pessoa. Começa a perceber a diferença? Fui até a atendente, no caixa e disse que ia precisar de meio tanque, mas que o tanque é pequeno. Ela liberou os 25 litros para eu colocar o quanto precisasse até este limite. Vou fazer meu primeiro abastecimento sozinha. Peguei o revólver com a mangueira, aperto e não sai nada. Aperto de novo e nada. Ela grita de lá de entro mas não a compreendo. Um cliente que está pagando me passa uma instrução que entendi para descruzar a mangueira. Não entendi nada mas coloquei de volta no lugar. Quando voltei a pegar, estava liberada. Acho que ela tinha liberado a gasolina de 98 octanas, mas o vendedor da Toyota me disse que eu não precisava usar além da de 95. Abasteci 18 litros.

Continuei meu caminho mais feliz e tranquila.

Passei de novo pelo  Catarxo e consegui fazer um filminho da Ponte Dona Amélia, sobre o Rio Tejo. Está lá no Instagram (@ lessa meyre). Só dá para ver a estrutura da ponte e o céu, e o tempo que leva para atravessar, e o barulho que o carro faz ao passar por aquele chão de grades de ferro, o trem passando ao lado e apitando, e o trem indo embora quando termino a ponte. Eu me senti atraída pois desperta um certo medo passar por ali.

E ia passar por Coruche de novo, então tive a oportunidade de fotografar os depósitos de cortiça. Só falta agora fotografar a árvores de cortiça, bem de perto, de preferência comigo abraçada nela.

Rodei 800 quilômetros nesta viagem, isso porque dentro das cidades fiz a maior parte dos atrativos a pé. Foi um bom batismo e inauguração das estradas portuguesas.

Cheguei em Beja às 17h50 mas fui direto ao Supermercado Continente comprar provisões para os próximos dias.

Me aguardem que o próximo final de semana será em Mértola.