PORTO e AVEIRO - Final de Viagem em meio a uma pandemia mundial.

23/03/2020

A cidade de Porto era a que apresentava mais casos de Corona vírus quando a doença foi declarada como Pandemia Mundial pela OMS (Organização Mundial de Saúde). E mesmo hoje, olhando o site do SNS (Serviço Nacional de Saúde), temos um total de casos confirmados no país de 7443, e mais da metade destes foram registrados no Distrito de Porto. A cidade em si é a segunda mais populosa de Portugal, com aproximadamente 250 mil habitantes. A área metropolitana do Porto, no entanto, envolve outros 17 municípios, atingindo 1,8 milhões de habitantes. E logicamente aí, com uma maior concentração populacional e o avanço do tempo em relação às restrições de locomoção, nosso movimento foi adequado à gravidade da situação.

Depois de ter passado a primeira tarde só fazendo compras de mercado e lavando a roupa de uso pessoal, o segundo dia, que amanheceu bonito, ainda mostrava algum movimento nas ruas, mesmo que pequeno, comparado a um dia normal nesta cidade que tem sua população aumentada, frequentemente, por turistas que acorrem a ela diariamente, ao longo de todo o ano.

No segundo dia soubemos que só havia 8 apartamentos ocupados. E soubemos na recepção que as medidas do estado de emergência ainda não haviam sido anunciadas para aquele dia. Todos os dias acontece uma coletiva de imprensa onde as novas ações necessárias são divulgadas. Assim sendo, seria provável encontrar ainda algum restaurante aberto.

Decidimos sair, procurando um local distante da cidade, onde poderíamos caminhar um pouco e evitar o contato com as pessoas. E o local escolhido foi a Foz do Rio Douro, rio que atravessa a região norte de Portugal e a cidade do Porto, desaguando no Oceano Atlântico.

Curiosidade: vocês sabiam que a cidade de Porto deu nome ao país? Na antiguidade chamava-se Portus Cale. 

Bem, o Rio Douro, depois de percorrer 897 km, com sua nascente na Espanha, desemboca entre as cidades de Porto e Vila Nova de Gaia.

Encontramos vaga fácil, na rua ao lado do Forte de São João Batista. Seguimos caminhando para chegar até a Foz do rio, passando por uma bonita orla, onde algumas poucas pessoas praticavam exercícios, correndo, ou pedalando, ou ainda levando seus cachorros para um passeio. Um carro de polícia com um aviso luminoso orientava as pessoas a ficar em casa. Mas estava permitido, pelas autoridades, exercitar-se em até duas pessoas, mantendo as distâncias dos demais pedestres. Mas caminhamos só um pouco, para conhecer mesmo, e tomar um pouco de ar para desestressar, principalmente a Cristina, que estava ansiosa sem saber se conseguiria embarcar de volta para o Brasil.

De lá seguimos para o Cais de Vila Nova de Gaia, de onde a Cristina disse termos as mais belas vista da cidade de Porto.

Eu fui passando pela rua beira-mar, do lado de lá só apareciam galpões e prédios industriais. E eu ia parando quando encontrava lugar, para registrar a vista em fotos.

E depois queríamos chegar ao Cais do lado de Porto. E passamos pela Ponte Luís I, onde a Cristina disse ter feito a pé, durante a noite, e ficou muito assustada. 

Do outro lado só conseguimos parar em frente ao prédio da bolsa, mas descobrimos ser um local proibido. Assim só eu desci para fazer umas fotos e seguimos.

Foram as únicas visões que tive do Porto. A partir da cidade do outro lado do rio, e neste pequeno trajeto numa região mais central, procurando, sem encontrar, vaga para estacionar. E quando vimos, já estávamos atravessando novamente a ponte Luís I, que a moça do Google Maps chamava de Luisi. Achamos graça. E conservávamos nosso ânimo e alegria, tão importantes para manter uma boa resistência física.

Mais uma volta pela Vila Nova de Gaia, tentando achar o retorno para a ponte, quando vimos um restaurante aberto, antes da travessia, e à margem do Rio Douro. E local fácil para estacionar.

O simpático  Sr.Toninho, o hostess do Douro Velho Restaurante, nos atendeu com muita alegria, nos conduzindo a uma mesa externa, longe dos fumantes, depois de ter chamado o gerente para receber um elogio da Cristina pelo preenchimento da lousa, com o menu do restaurante, em pequenas letras técnicas, à giz. Realmente um trabalho muito bem feito.

E eu resolvi comer um tagliateli com mariscos. E a Cristina foi de Polvo a Lagareiro. Ela ia pedir uma água com gás quando eu disse que também queria água. E ela mudou para sem gás, sabendo que eu não gosto com gás. Depois entenderão porque cito essa passagem. Pedi um suco de laranja, já que estou conduzindo e a distância é de mais de 3 km até o hotel, de carro. A pé seria bem mais perto.

Enquanto os pratos eram preparados, fui até a Ponte Luís I, sozinha, fazer umas fotos a partir da margem de Vila Nova de Gaia, e bem do centro do rio. E, mesmo com poucos carros passando, tanto no nível que eu estava como lá em cima, a ponte treme. E imagino que, de noite, sabendo que o rio está logo ali e não conseguindo ver direito, deve dar um pouco de medo mesmo.

Quando voltei meu prato acabara de chegar, e estava coberto para não se esfriar. E  minha amiga já tinha mandado mensagem pelo What'sApp avisando-me.

O Senhor Toninho de pouco em pouco passava para saber se estava tudo bem e, conversa vai, conversa vem, descobrimos que ele já é aposentado, e trabalha ali porque gosta de lidar com gente e tem por paixão os idiomas, falando francês, espanhol, inglês, alemão, russo, coreano... e sei lá quantos mais. Fiquei impressionada. Está numa profissão que lhe permite aperfeiçoar e praticar com os clientes de vários países.

Em dado momento, a Cristina me ofereceu a água, e eu recusei. Olhei para a fisionomia dela e me recordei que eu queria água, e tinha feito ela mudar sua opção para com gás por minha causa. Já não tinha sede, por causa do suco, mas bebi a água mesmo assim. A gente até pode mudar de ideia, mas desde que essa mudança não afete o outro, né Cris?

Estava tudo muito gostoso, mas o fim do almoço chegou e com ele o encerramento de nossa atividades em Porto. Quando fui me despedir, esqueci-me e estendi a mão ao sr. Toninho, que a apertou dizendo que não se importava. Ao chegar no carro a Cris já sacou o álcool gel para nós.

Depois de um almoço tardio, e tendo ainda umas guloseimas no quarto, não nos incomodamos com o jantar.

No café da manhã eramos as únicas hóspedes do hotel. Achamos conveniente avisar que no dia seguinte não seria necessário nos aguardar, já que o voo da Cristina sairia às 9h do aeroporto local, e teríamos que lá estar às 6h, considerando que o check-in deveria ser realizado no balcão, dadas todas as mudanças que estão acontecendo. A Cristina tentou falar com a TAP e com a SMILES por telefone. Só conseguiu falar com a segunda, mas que não pode intervir nas operações e registros da operadora de voos. Ela tentou participar do Leilão para up grade, mas não teve sucesso. E depois me contou o porquê. Os preços das passagens de última hora, com pessoas assustadas querendo antecipar sua volta, subiu astronomicamente.

Mas, continuando, estando o gerente do hotel no restaurante, também tomando seu café da manhã, pediu aos funcionários, com o nosso consentimento, que preparasse uma sacola com o café da manhã, que seria deixada na recepção para retirarmos no check-out.

Retornamos ao quarto e passamos a maior provação de nossa amizade. Passar um dia inteiro dentro de um pequeno quarto. E fomos aprovadas com exito. A Cris desceu para a recepção, na hora do almoço, e solicitou uma montanha de comida do KFC. E lá ficou, batendo papo com o recepcionista e o gerente até a comida chegar. Enquanto isso, eu no quarto, colocava em dia as publicações do blog. Quando ela chegou com o nosso almoço, subimos ao restaurante, por recomendação do gerente (no quarto não teríamos condição de fazer uma refeição deste tipo), e nos servimos de prato e talheres, comendo um gostoso frango frito, com puré de batata e molho de gengibre. A Cris gostou, já que não está acostumada a comer frango frito, mas achou que não lhe caiu bem, pois somado aos anseios da viagem, que já provocaria distúrbios em situação normal, provocou algum mal-estar. Ela me pediu que a lembre de nunca mais comer frango frito. Eu acho que merece tentar de novo numa situação menos angustiante.

A ocupação do restante do dia se deu com a arrumação de malas. Achamos que as malas dela nunca voltaram de uma viagem tão bem feitas. E já a levei para o carro, a maior, para facilitar nossa saída de manhã.

E tínhamos que nos deitar cedo para despertar às 4h30. E quando saímos do hotel, pouco depois das 5h, lá estavam nossas sacolinhas com suco em caixinha, lanche, minis: croissant, pastel de nata, queijadinha, pão de queijo. Uma delicadeza inestimável.

Às 5h30 pontualmente, como previsto, saímos da garagem do hotel rumo ao aeroporto. Uns 20 minutos, previa o recepcionista e também o Google. E se confirmaram.

Eu não sabia onde deixar o carro, e parei logo depois dos desembarques. Estava tudo muito vazio e os poucos carros que se aproximavam, deixavam rapidamente os passageiros e se iam. Eu fui saber se podia deixar o carro ali. E podia. Como usei a Via Verde para entrar, na saída o valor seria calculado de acordo com o tempo, e eles diziam que seria caro, o que não se confirmou pelo meu extrato e valor debitado em conta corrente posteriormente. Nada que não valesse a pena e a comodidade.

O check-in foi demorado. O atendente teve que ligar para o balcão central para reemissão de passagem, já que o voo original tinha sido cancelado. E nós chegamos cedo. Outra família, ao lado, passava pelo mesmo processo. E a vigilância do aeroporto passava pedindo distanciamento físico, mesmo entre as pessoas da mesma família.

A Cris tinha tomado parte de seu café da manhã no carro, enquanto eu dirigia. Eu não sinto necessidade de tomar café assim que levanto. Às vezes demoro até 2 horas para fazê-lo. E depois do check-in sentimos necessidade de um café quente. Eu ia pegar os lanches no carro, mas ela me impediu, dizendo que o café seria por sua conta. 

A cafeteria estava aberta, mas sem mesas. Pedir, pagar e levar, para comer nos assentos de espera do aeroporto. Achamos alguns isolados de toda a gente. E por ali ficamos, conversando até perto de 8 horas, quando ela se dirigiu ao portão de embarque. Um misto de alegria e tristeza me invadiu neste momento, e acredito que para ela foi parecido. Nem pudemos nos abraçar. E o choro da despedida, felizes que estávamos pelo reencontro, pelos dias que passamos juntas e por saber que ela voltava, sã e salva, para casa. Este era um compromisso que eu tinha comigo mesma, cuidar para que nada acontecesse de mal. E a tristeza de ficar só novamente. Mas sei que é uma escolha. E assim que sai com o carro em direção as estradas, a caminho de Aveiro, estanquei o choro e fui, ouvindo música, e com o coração transbordando de amor e alegria. 

Eu contratei hotéis para o retorno em Aveiro, Coimbra e Sintra. O de Aveiro era o único pago, e a proprietária não podia me restituir. Entrei em contato com minha amiga de infância, a Vera, que mora em Aveiro, para saber se ela via possibilidade de nos reencontramos, depois de mais de 40 anos sem nos vermos, e saber se era conveniente. Ela confirmou e num primeiro momento, ela iria até o hotel, e poderíamos conversar em alguma Praça, ou café. Mas na sexta ela me perguntou se eu podia ir até a casa dela, pois ela estava sem carro e as restrições de ir e vir estavam mais acentuadas. Eu ainda me preocupava em causar algum incomodo, mas ela disse que não haveria problemas, seu marido estaria ocupado com alguns afazeres na rua, já que ele estava trabalhando em home office.

Eu só ia encontrá-la na segunda feira, dia 23 de março.

Cheguei a Aveiro um pouco depois das 9 horas. Parei o carro perto do endereço do hotel e fui procurá-lo, sem levar malas. E não consegui localizar. Liguei para a proprietária que me disse onde era, mas que eu só poderia fazer o check-in às 17 horas, horário que ela iria para receber outro hóspede. Isso me irritou, pois estava muito distante o horário.

_ " E enquanto isso eu devo ficar na rua?"

_ " A senhora está ciente dos problemas que estamos vivendo, eu estou evitando de sair na rua."

_ " Sim, estou ciente, por isso pedi o cancelamento com reembolso."

_ " Mas eu não tinha como reembolsar, achei até que a senhora não viria."

_ " Mas eu mandei e-mail dizendo que viria, já que o reembolso não era possível."

_ " Eu não recebi este e-mail. Então faço o seguinte: depois do almoço eu pego um UBER e vou até aí para recebê-la."

_ " Tudo bem então. Qual seria o horário aproximado? Vou ficar no carro enquanto isso, e na hora que a senhora vier, me avisa por mensagem."

_ " Por volta de 13 horas."

Bem mais razoável. Seriam só 4 horas dentro do carro. Me arrependi de não ter ido de novo ao banheiro antes de sair do aeroporto. E eu ainda tinha os lanchinhos da sacolinha do hotel, o meu e o que sobrou da Cris, que só tinha comido o lanche.

O tempo estava nublado, com chuviscos vez por outra. Depois de comer alguns pães, e tomar o suco, resolvi mandar mensagens de bom dia para meus amigos e familiares. E mandei o Post abaixo com a seguinte mensagem:

"Quando tudo acontece melhor do que você podia imaginar: AGRADEÇA.

Quando parece que tudo está desmoronando e você está conseguindo sustentar: AGRADEÇA.

Quando você nem mesmo está dando conta do que acontece ao seu redor: AGRADEÇA.

Nunca se esqueça de agradecer e confiar. Nem tudo é o que parece. Mas você continua sendo um filho(a) querido. Bom dia.( isso foi às 9h28)

Às 9h43 ela me mandou um torpedo dizendo que ia apanhar um UBER naquele momento e vir ao alojamento para fazer meu check-in. 

E assim, com as duas se desculpando, ela pela grosseira, eu também por isso, mas por estar ali naquela condição... Fui alojada. Um quarto pequeno, mas cômodo. E o banheiro é compartilhado, mas haviam três casas de banho, como eles chamam, para três quartos ocupados. De modo que olhamos os que estavam sendo ocupados, e eu assumi o terceiro como sendo meu. 

Na tarde de sábado ainda, fui procurar um mercado Spar, bem perto, que estava aberto, para comprar água e suco de laranja. Comprei também chocolate e uma salada de caranguejo. Eu tinha ainda, no quarto, pão de forma, queijo da Serra da Estrela, paio de lombo, e gomas turcas, que sobraram de nossas compras dos últimos dias, além dos pãezinhos do café que foi preparado pelo hotel. Era o suficiente para passar os próximos dias, já que no alojamento não tinha fogão nem forno elétrico.

Passei o resto do sábado escrevendo, e vendo Netflix. E o domingo foi igual. Mas além da expectativa de rever minha amiga Vera na segunda feira, os banhos quentes foram reconfortantes. Essa ainda é minha diferença com minha casa em Beja. E só vi a faxineira no sábado, quando saia para o mercado. Ela não voltaria até terça, depois de minha saída. Os demais hóspedes sairiam na segunda. Eu ainda os vi, em momentos diferentes, de relance, quando ia comer na cozinha ou ao banheiro.

Na segunda acordei mais tarde, para chegar logo o horário que combinei com a Vera. Às 14 horas. Eu queria muito ter comprado uma lembrança para ela durante a viagem, mas conforme o tempo foi passando, fomos encontrando os comércios fechados e já não houve mais tempo.

Pensei em abastecer o carro antes, mas quando vi, já não havia mais tempo. Sai do hotel às 13h50 e logo cheguei à sua casa. 

Ela me recebeu alegremente, mas nem pudemos nos abraçar. A primeira providência que tomei foi ir ao toilete para lavar as mãos. Depois nos sentamos na sala, em poltronas com a devida distância segura. E começamos a fazer um resumo dos últimos 40 anos. Ela veio para Portugal, com seus pais, duas irmãs e um irmão, aos 18 anos. Ela é a mais velha entre eles. Casou-se, tem duas filhas, uma com 25 e outra com 15. A mais velha estava em casa e a conheci quando estava de saída. A mais nova passa a quarentena com sua irmã mais nova, já que lá tem um primo de 13 anos, para poderem se entreter um com o outro. Seu marido estava ausente, fazendo algumas tarefas na rua, mas ele está trabalhando home office, enquanto ela vai diariamente ao seu serviço, mas só tem feito atendimentos por telefone, e não são todos os funcionários que estão indo ao escritório. Ela ainda não aposentou porque em Portugal, a aposentadoria é só com 66 anos e alguns meses. E acreditem, ela tirou um dia de férias antecipadas para estar comigo. Já o tinha solicitado quando reservamos esta data para nosso encontro, em novembro do ano passado.

Foi interessante ver que temos muito em comum, principalmente no que diz respeito a nossa fé. Ela é alegre, mesmo tendo vivido muitos momentos difíceis, uma guerreira vitoriosa. E vejo nela o semblante da menina, meiga, quieta, serena. Não mudou quase nada. E a conversa estava tão gostosa, depois acompanhada de um delicioso chá com brioches, que o tempo passou e uma visita que devia ser breve se transformou em 3 horas, e ainda foi pouco. Como temos muitos amigos em comum, levei o recado da Regiane, que disse ter morado na mesma rua que ela, mesmo não tendo estudado juntas. Ela se lembrou do nome mas não da fisionomia. E nossa amiga Dalva, que foi quem me forneceu o contato para nos reaproximarmos, estudou com ela nos primeiros anos do ginásio, e fizemos uma ligação de vídeo pelo What'sApp para ela, porque sabíamos que estaria de quarentena em casa. Pena que não consegui acessar o WiFi da casa da Vera e meus dados móveis não propiciaram uma conversa adequada, com cortes da fala e congelamento da imagem. Mas foi uma alegria falarmos todas. 

E ainda descobrimos que nossas irmãs estudaram juntas, minha falecida irmã Eliane, e a irmã dela, Elizabeth, que atualmente mora na França. Eu mostrei uma foto da turma de minha irmã, com a impressão de reconhecer a menina ao lado dela como sendo muito parecida com minha amiga. E ela confirmou. Que legal!

Foi uma pena sermos pegas no meio de uma pandemia e não termos podido desfrutar mais da companhia uma da outra, mas por outro lado, demonstra ainda mais como são fortes os laços de amizade da primeira infância. E a vontade de estar juntas prevaleceu. E Deus há de recompensar a força dessa amizade e a pureza deste sentimento.

Hora de ir embora, lá fui para o carro. E quando coloco os dados do hotel no Google Maps, não havia sinal. E agora? Não tenho a mínima ideia de como retornar... Sai para qualquer lado e deixei os dados móveis ligados até perceber que entravam mensagens nas redes sociais, encostei o carro e apertei o botão de iniciar no Maps. E deixei para abastecer quando saísse de Aveiro, na terça. 

No dia seguinte acordei por volta de 9 horas e às 10 horas já saia para percorrer os pouco mais de 400 km de distância até Beja. Levaria um pouco mais de 4 horas seguindo pelas estradas com pedágio. E eu queria ir direto ao supermercado, já que pretendia entrar em quarentena, como solicitado pelo governo daqui.  E assim o fiz.

Depois de dito e feito toda essa jornada, que iniciou dia 06 de março e terminou antecipadamente dia 24 de março (era para terminar dia 29) e tendo a próxima viagem já cancelada pelos próprios contratados, só posso agradecer.

Graças à visita de minha querida amiga Cristina, estava em Portugal, e não em qualquer outro lugar do mundo, quando tudo isso começou. Estava 'em casa'.

Graças também a ela, não estava sozinha quando recebi a notícia da morte de minha sogra. Certamente, com as saudades e o vazio que esta forma dentro da gente, se estivesse só, iria me afundar em tristeza. E ela chegou a tempo de reabastecer meu coração de esperança e alegria. Tornando mais fácil essa passagem. 

E o melhor de tudo, foi uma viagem que só fortaleceu nossos laços de amizade, levando-nos à profundas reflexões sobre a vida, e incluso o momento vivido. Tenho certeza que saímos mais sábias e mais fortes dessa quinzena sabática.

Encontrar a nova amiga Claudia, e a velha amiga, Vera, também foi um bálsamo para o meu coração. Graças a estes contatos que pude me fortalecer para viver a minha quarentena, muito, muito distante de todas as pessoas, que amo, e também as que nem conheço, mas que desejo o melhor.

E agradeço, sobretudo, a Deus, por preparar-me o caminho de forma tão especial. E por isso eu creio que devemos ter paciência e fé. Na minha humilde condição humana, não tenho nem ideia do que o futuro nos reserva, mas tenho aprendido a cada dia que, o importante é o que vivemos agora. Ninguém tem certeza alguma sobre o dia de amanhã. E estamos indo, todos, cada qual em seu dia. Mas nenhum de nós pode evitar a morte física. Nem nossa e nem de ninguém que amamos. O que podemos sim fazer é desfrutar dos momentos com essas pessoas, amá-las, demonstrar o que sentimos, sem medo de rejeição ou de acusações até. E viver em paz. 

SAÚDE, PAZ E BEM!