Pico Ruivo e Floresta Laurissilva – ILHA DA MADEIRA

31/12/2019

Hoje vou iniciar meu relato esclarecendo um pouco mais sobre o Arquipélago da Madeira, que é composto por sete ilhas e dois ilhéus, sendo somente quatro delas habitadas. As Ilhas da Madeira e de Porto Santo, e a Selvagem Grande e Pequena, que são consideradas reservas nacionais e possuem habitação só para guardas ambientais e cientistas. As outras ilhas são as Desertas, e o próprio nome já as classifica. O arquipélago dista 878 km de Lisboa e 700 km da Costa africana, ou seja, está bem no meio do mar, e muito próximo das ilhas Canárias, que fazem parte da Espanha.

Por sua localização geográfica possui clima subtropical, muito agradável o ano inteiro, tornando-a atraente principalmente para os europeus que buscam climas mais amenos no inverno. E faz parte da Macaronésia, nome moderno dado ao grupo de ilhas do Atlântico Norte e costa da África, desde o Marrocos até o Senegal. Este nome de construção etimológica grega quer dizer ilhas da felicidade e estão no grupo os Açores, Madeira, Canárias, e Cabo Verde.

Além de partilharem de um clima agradável, o mesmo acontece com a fauna e a flora. Aliás, o Antonio me disse que aqui não há animais de grande porte, são pássaros endêmicos ou migratórios, lagartinhos do tamanho das lagartixas e insetos. Não tem nem cobras, e isso deve ser animador para os caminhantes das veredas. E são todas vulcânicas.

Nós iniciamos nossa expedição pelo Parque das Queimadas, onde logo no início do caminho vemos uma casa de aspecto muito singular e agradável que serve de alojamento a quem desejar passar ali uns dias, mas é necessário fazer a solicitação ao órgão competente. Junto dela um presépio encantador montado na encosta, aproveitando as raízes das árvores.

E pelo caminho pude observar a vegetação que compõe a preservada Floresta Laurissilva na ilha. Ela faz parte do Patrimônio Mundial e segue muitas regras de conservação. As árvores mais comuns são os loureiros (do tempero), o vinhático e o barbusano.E representa 20% do território da Ilha da Madeira. Diferentemente das regiões de eucaliptos e pinheiros, aqui a mistura de aromas confunde o olfato, se misturando com o cheiro da terra através do vento fresco pela altitude e pela imensa cobertura arbórea.

Os riachos que a atravessam são de água cristalina e gélida, em terreno pedregoso. E os olhos ficam alertas e impressionados pela beleza.

Este é meu tipo de passeio, onde posso sentir além de ver, e ficaria ali, horas, explorando a floresta, se não fosse a necessidade de seguir para uma trilha um tanto mais pesada até o Pico Ruivo, mais acima.

Nossa próxima para foi numa área onde as famílias se reúnem em torno de churrasqueiras para comer e festejar. Apesar de ser segunda feira, havia ali algumas pessoas a preparar frango. O hábito alimentar por aqui, em termos de carnes, consiste em frutos do mar, principalmente o peixe espada, frango, cordeiro e porco.

E depois fomos até o estacionamento junto à trilha para o Pico Ruivo. Nesta base está o Abrigo da Heidi, que oferece uma estrutura om banheiros pagos e um restaurante com comidas nórdicas. E, pelo painel solar instalado na casa, o Antonio supôs que está locado por um nórdico. Não é a forma como os portugueses costumam instalar seus painéis.

Andando por pequenas trilhas entre os arbustos, próximos ao abrigo, avistamos as Vilas de São Jorge, à direita na foto, e a de Santana, a esquerda. São povoados bastante extensos e espalhados também.

E bem perto, entre eles na foto, um aglomerado de pedras que chamam o Homem de Pé. Vejo a cabeça, mas o corpo deve estar escondido atrás das pedras, ou será um barrigudo?

O caminho até o Pico Ruivo, o mais alto da Ilha, com 1862 metros de altitude, deve ser percorrido por uma trilha relativamente larga, de piso de pedras chatas, por quase 3 quilômetros. Como é um caminho árduo na ida, com mais subidas, fui fazendo as fotos e aproveitando para descansar e tomar fôlego. E registrando as Urzes Arbóreas ou Madeirenses. As arbóreas são usadas para fazer vassouras e vemos somente os troncos ressequidos. As demais são estes arbustos verdinhos, que parecem galhos de pinheiro.

Em um dos pontos conseguimos observar o povoado que chamam de Ilha de São Jorge, e dali se justifica o nome, pois ele está num pequeno platô, num pico isolado por vales em toda a volta.

Aqui chamam os platôs de Pauls, então, ao invés de planalto ou planície dizem, Paul da Serra, ou Paul do Mar.

E também tirei fotos do caminho que foi ficando para trás.

Quando avistava o Pico Ruivo de outras localidades, podia ver uma manchinha branca que o Antonio dizia ser uma casa. E foi uma glória chegar até ela, e beber uns goles da gelada água, na pia do banheiro. Não quis carregar a garrafa de água para ter as mãos livres. Só levei o celular e um rolo de papel higiênico para assoar o nariz que fica obstruído quando o corpo aquece pelo esforço físico.

Foi engraçado chegar ali e encontrar um grupo de rapazes estrangeiros esperando para usar os banheiros, eu vi um dos locais em que achei que seria o banheiro das mulheres e entrei, e eles ficaram com caras admiradas. Pensei que achavam que era preciso pagar para entrar. Mas o Antonio me disse que eles estavam esperando o banheiro ser desocupado, e ficaram admirados quando entrei pois viram que estava vazio. Já passei por isso também nas minhas andanças.

Do ponto de apoio, a casinha branca, em diante, a trilha aumenta a dificuldade. É mais estreita e tem muitos degraus de pedra, em geral, sem nenhum local para segurar. Senti falta daqueles bastões de trekking. Muitos estrangeiros os utilizam e, principalmente no caminho de volta, seriam muitos úteis.

Fiz esta trilha no meu ritmo, e demoramos 3 vezes o tempo que o Antonio costuma fazer sozinho. Demoramos quase uma hora e meia, mas além de não me cansar tanto, pude observar com mais cuidado o que a natureza me apresentava, como esta folha que parece serralha, mas aparece em forma de buquê. E acho que era serralha mesmo.

As poucas nuvens no céu de intenso azul fazem um contraste extraordinário na construção dos cenários. E ao longo do caminho surgem umas casinhas de pedra com assentos. Que hoje servem de ponto de descanso, mas que já tiveram, além desta finalidade, utilidade para armazenar produtos em transporte.

Existem ainda marcações, que antes eram feitas nas pedras e árvores pelas veredas, e que estão catalogados para ajudar os percursos pedestres sendo, os das Grandes Rotas ( acima de 30km) em vermelho e branco, e os da Pequenas Rotas ( com até 30 km) em vermelho e amarelo. Dada uma mudança nas características dos turistas, que procuram o denominado: Turismo Ativo, assim como eu, estas marcações assim como a manutenção das trilhas e a criação de estruturas de apoio é muito importante para a principal atividade econômica da ilha.

Não foi fácil chegar lá em cima, mas grande a recompensa. Foi o único lugar de onde pude avistar tanto as Ilhas Desertas como o Porto Santo.

E também foi a primeira vez que vi o sol fazer reflexo nas nuvens abaixo dele, parecendo um sol poente. Yeeessss!!!!

Lá em cima tem um marco com uma cruz. Estamos no ponto mais alto da ilha, e por ser na parte central da ilha, se tem realmente uma visão 360 graus.

O Antonio me disse que não havia pegado ainda a visão toda limpa como agora, e só viu o Porto Santo porque um garoto alertou, e ele confirmou. Disse que é comum pegar um mar de nuvens, ou parte sob neblina e a outra parte limpa... E também as Desertas.

E a casinha branca no alto da serra, vista de cima, parece estar pertinho. Mas tira o fôlego de muita gente. E é bom ver o caminho de quem volta, sentindo-se vitorioso e agradecido.

Menos do tentilhão, que parece cômodo após voar até lá em cima, equilibrando-se na corda ainda, sem querer se esnobar.

A descida foi bem rápida, com o corpo já aquecido e os músculos acostumados ao movimento, mas meus pés estavam um tanto doloridos. Nada, nada, foram uns 6 km só lá em cima, entre ida e volta.

Pedi para o Antonio me deixar na Estrada Monumental e me presenteei uma pizza, feliz e agradecida.

Foi como chegar ao fim do ano e experimentar a apoteose, bem no alto, o mais próximo de Deus que quero estar fisicamente, por enquanto, mas sabendo que, em energia e amor, cada vez me sinto mais perto de minha verdadeira essência!