PELOS TRÊS NÍVEIS DE NAZARÉ

09/08/2019

Ao longo da noite eu fui tocada uma vez pela coleguinha de quarto. Depois ela percebeu que, apesar de roncar, tenho um sono leve, então só fazia um barulhinho qualquer e eu despertava e mudava de posição.

Coitada! Disse que não dormiu quase nada. Me senti muito mal com isso. Perguntei a ela como dorme em quarto compartilhado? Até com o galo ela acordou e foi fechar a janela. Ela disse que escolhe quartos femininos porque mulheres não roncam. Agora ela descobriu a máxima que diz que toda a regra tem exceção. Ela não eve estar acostumada a dormir com gente mais velha e nem fora do peso. Uni as duas características para testá-la, e pra piorar, as dores, que já estão melhores, limitam as posições pra dormir e, deitando de barriga para cima, roncar é fatal.

Mas ela disse que não tem problema, será só mais uma noite dela.

O hostel está todo aprovado. A cama é confortável, eles oferecem toalhas de banho e rosto, sabonete líquido no lavatório e no chuveiro, tem uma banheiro por quarto, tem piscina adulto e criança, no quarto tem espelho, cadeira, no banheiro um banquinho. O armário é bem brande para caber até a mala dentro. A beliche é bem alta e tem uma escada forte, de madeira, para alcançar o andar superior.  Se eu fosse mais baixa não teria batido tantas vezes a cabeça na cama de cima, pois consigo entrar em pé, só dobrando um pouco a cabeça, mas esqueço de fazer isso ao sair.

O café da manhã tinha pães salgados e doces, cereais, frutas, suco, frios, iogurte, café, leite e chá. Completo! O preço é compatível. Considerando que aqui é uma grande cidade. Paguei 30 euros a diária. Preço de alguns quartos individuais em cidades pequenas.

Meu primeiro destino hoje é o Museu José Manso. Ele guarda um pouco dos usos e costumes da cidade, que também viveu da pesca. A entrada é gratuita. Sinto um cheiro de umidade e a atendente justifica que o prédio precisa de manutenção e, por isso, o ingresso não é cobrado, já que todo Museu cobra ingresso. Discordo e recordo-me do Museu da Rua Sembrano, em Beja. Moderno e gratuito.

Depois pego o descidão a partir do Miradouro de Suberco em direção à Fortaleza de São Miguel. Lá, numa ponta de terra e rocha que separa a Praia de Nazaré e a Praia do norte podemos contrastar nitidamente as ondulações diferenciadas do mar em uma e outra praia. Isso tudo graças ao que chamam de canhão marítimo, uma falha geológica que chega a ter 5000 metro de profundidade, no Oceano Atlântico, perto da costa portuguesa, que provoca este comportamento nas ondas. A partir de outubro até março costuma formar as grandes ondas, de até 30 metro de altura. Na praia do Norte ocorre uma das etapas do Campeonato Mundial de Surf.

A Fortaleza serve de Museu explicativo para esclarecer ao visitante o porquê dessa movimentação da maré, possui algumas pranchas de surf dos campões mundiais e vistas lindíssimas de ambas as praias, Também em fotos expostas. E o Farol.

Pode-se descer até a sua base, chegando perto das rochas marítimas e da quebra das grandes ondas, por umas escadinhas bem estreitas. A segunda desci de costas, como em escada de pedreiro, tão juntos eram os degraus. Mas fazendo assim, foi fácil. E fui presenteada com bonitas fotos, inclusive minhas, tiradas por uma espanhola que estava com a família. Ofereci-me para tirar deles juntos e ela tirou as minhas. E foi cuidadosa. Queria pegar uma explosão de água no momento que a onda maior bate na rocha.

Fiquei maravilhada ao perceber que na crista de algumas ondas é possível ver um pedaço de arco-íris, o que dá uma coloração especial para as mesmas. 

Não estou a fim de voltar a pé. Vi que tem um trenzinho para fazer a volta. Espero. Uma família, também falando em espanhol, de mãe com três filhos, sendo uma mocinha, está discutindo para decidir se sobem a pé ou de trem. A mãe justifica que não vai gastar 1,50 por causa de uma subidinha. Final da história, os 3 adolescentes foram de trem e a mãe a pé. Como demoramos a sair, esperando uma lotação mínima, a encontramos já passando a placa de bem-vindos à Praia do Norte, lá no topo da montanha. Nos assustamos quando o trem não parou no Largo. E o motorista estava num vagão diferenciado com janelas fechadas. Pensei até que ele fosse para a Praia, meu próximo destino. Os garotos começaram a ligar para a mãe e falavam que não era possível pedir para ele parar... dei boas risadas. Mais turistas ficaram agoniados. Mas ele só deu foi uma grande volta e retornou para o Largo.

Estava morrendo de sede, com uma garrafa cheia de água no hostel. Mas queria seguir em frente. Assim comprei uma lata de Ice Tea e fui para o elevador, ou funicular. Não tinha fila e comprei de ida e volta. Minha caminhada foi, em parte, até a Fortaleza e depois será para Pederneira.

Chegando na Praia e observando o relógio, achei melhor almoçar logo. Não sabia se lá em cima teria restaurantes ou seria mais um bairro residencial.

Logo encontrei um restaurante em que o primeiro item do menu redigido numa lousa a beira da calçada era sardinha assada. Tinha me comprometido com minha amiga Dilza de comê-la hoje. Vários amigos me indicaram. Trata-se de um prato típico, tanto quanto o bacalhau ou mais. Deu um trabalho enorme de comer, pois tirei toda a pele com algumas escamas, cabeça, rabo, vísceras, e a espinha central. Antes comi um queijinho, uma fatia de pão com patê de sardinha. E só dei contas das sardinhas e uma batata no prato principal, com um suco de maçã da Compal.

O garçom me indicou o caminho, orientando a subir pela estrada por ser mais movimentado e seguro. Disse que a escada é pouco movimentada, e uma mulher sozinha, não seria bom arriscar. Segui seu conselho e no caminho, passando pelas ruelas da parte baixa, chamada de Praia, de Nazaré, vi várias pessoas assando sardinhas em pequenas latas com carvão, no meio da rua, por causa da fumaceira nas casas pequeninas.

Passei por dentro do Parque Pedralva, onde crianças brincavam num gramado com jatos de água, que na volta descobri tratarem-se de regador do jardim. Como a hora é conhecida, alguns pais e muitas crianças se espalham pelo local, estendendo toalhas de banho na grama para tomar banho de sol, os mais velhos deitam, os mais jovens se divertem nos esguichos de água.

Lá nos alto encontrei a Igreja de Pederneira, mas estavam celebrando uma missa funerária. Resolvi explorar o lugar enquanto terminava. Encontrei um Hotel chamado Mar aberto. Li; " Bar aberto". E entrei. Será que oferecem serviço de bar para não hóspedes? Sim. Servem, mas foi coincidência como notei na saída, quando vi o nome correto. kkk. Já estou com sede de novo então pedi um sorvete Oreo e meio litro de água. Sentei-me à sombra e fiquei desfrutando da vista enquanto os hóspedes aproveitavam a piscina. Percebi todo o caminho que tinha percorrido, siando do Miradouro mais alto até a Fortaleza, descendo a encosta até a quebra das ondas, subindo e descendo para a Praia no funicular. Quanto andei... E eu pensei que minha vista e visita estava saindo mais econômica do que a de todos ali. Quando fui pagar comentei sobre a missa e a moça do caixa me informou que havia outra igreja mais acima.

A Igreja da Misericórdia de Pederneira fica justo ao lado do Miradouro de Pederneira. Diferente dos dois outros pontos que havia visto, estamos agora num ponto intermediário em altitude, mas também intermediário entre o Porto de Nazaré e a Fortaleza de São Miguel. Avisto toda a Praia de Nazaré, inclusive o Porto.

Retorno, vejo o Pelourinho, uns gatos pelas ruas, e a saída do cortejo fúnebre, o que me deu a oportunidade de entrar. A foto do falecido ainda se encontra junto ao altar.

A Igreja é simples e bonita. 

Antes de voltar pensei em ver as mulheres que secam os peixes no sal, em varaus espelhados pelas praias, com suas roupas tradicionais: Saia de sete panos, avental, blusa e chale, as vezes cobrindo a cabeça também. Mas tem muita gente e muito sol. Vou até uma estrutura montada para competição de futebol de areia que se realizará a partir do dia 13. Vejo uma escultura de areia bonita, na praia... e a barraca das Bolotas de Berlin com diversos recheios.

Tomo o caminho de volta e agora não preciso pegar fila para o funicular. Entro direto com minha passagem e vou direto para o vagão que está esperando o horário. A fila é pra quem ainda vai comprar o bilhete. Os carros saem junto, e na metade do percurso se encontram onde abrem o trilhos, poi eles iniciam e terminam numa única linha.

De volta ao hostel, passo pela recepção para ver se eles tem algum quarto vazio para eu me mudar. Explico o que aconteceu. Não tem nenhuma vaga disponível. 

O quarto está vazio, tomo meu banho e estou tranquila comendo uma de minhas Bolotas de Berlin, com recheio de ananás quando a canadense chega. Explico-lhe o que tentei fazer e ela diz:

_ " Don't worry."

Mas me preocupo, e disse-lhe que vou ficar fora do quarto até mais tarde para ela dormir, e depois eu entro para dormir. Quem sabe assim, ela já dormindo, ou não acorda, ou descansa um tempo antes de eu chegar. Saio com meu celular para um sofá perto da piscina. Ainda está calor apesar de ser umas 18 horas. Demoro a voltar para  quarto e quando o faço, ela já saiu para o jantar. Já são 19h40. Como a outra Bolota de Chocolate. Troco minha roupa por algo mais quente pois quero ver o sol se por, e já está ventando frio. 

Só que uma muralha de nuvens encostada no mar escondeu o sol de nossa visão antes do mergulho. Acho que ele, o astro, estava envergonhado. E só pudemos ver seu brilho, levemente refletido na água e acima, nas nuvens.

Quando retornei, combinei com a proprietária do hostel de ficar trabalhando na área onde é oferecido o café da manhã. Tem mesas, tomadas, é protegido das intempéries e posso ficar trabalhando com as luzes acesas sem incomodar ninguém. E minha companheira pode sossegar um pouco, sem minha presença. espero que seja suficiente essa ação.