ÓLBIA cidade da SARDENHA e suas praias.                                                  .

03/02/2020

Saindo de Cagliari, em pleno domingo, com o comércio todo aberto, um rapaz que está fazendo algum tipo de abordagem comercial na rua, vendo-me com malas, pergunta:

_ " Férias? Está indo ou voltando?

_ " Indo."

_ " E para onde?"

_ " Ólbia."

_ " E por que Ólbia?"

_ " Pelas praias", e não parei de andar enquanto falava.

Se a Sicília me causava uma preocupação com o ritmo acelerado a que me propus, trocando de cidade diariamente, a Sardenha por outro lado causava-me preocupação, pela falta de planejamento. Só ficarei em duas cidades pelos 6 dias que aqui permanecerei, mas não consegui comprar nada antecipadamente.

Por que escolhi Ólbia? Porque é uma cidade grande, e próxima às belas praias do Norte da Sardenha, mas não tão próximas que não necessite de algum meio de transporte que esperava encontrar aqui.

Outro fato interessante é que, muitas pessoas que ouço comentar sobre viagens, consideram o deslocamento de ônibus ou trem, um desperdício de tempo. Eu ao contrário, vejo como uma boa forma de observar um pouco mais do país sem necessariamente conhecer. E em último caso, como uma possibilidade de descanso entre um local e outro. De Cagliari à Ólbia foram 4 horas de trem. Pareceu-me uma composição mais velha do que as que viajei na Sicília. E o trem parou em muitos lugares, estações que pareciam perdidas no meio do nada, mas certamente atendem à muitas comunidades rurais.

E falando em rural, em relevo, passar de trem entre os vales e montanhas daqui me fez sentir em casa. O relevo é mais suave. Acho que ficamos viajando umas duas horas numa extensa planície, com as montanhas aparecendo ao fundo, ao longe. Depois começamos atravessar uma região mais montanhosa, mas nada de picos altíssimo. E vi muitas ovelhas, muitas mesmo. E algum gado bovino. Muitos pastos e plantações diversas. E aqui tem muita água. Cruzamos vários pequenos rios.

O que li sobre Ólbia é que é uma cidade industrial. Ela tem um pouco mais que 50 mil habitantes. A estação de trem fica na região central e a minha hospedagem fica a um quilômetro mais ou menos. E cada vez fica mais difícil arrastar as malas pelo caminho, eles vão parecendo mais longos. Mas basicamente andei por uma rua principal até chegar a rua Lombardia, na Casa Solmes.

Apertei a campainha e o portão se abriu para mim. Na recepção uma lousa indicava o número do meu quarto e informava que a chave estava na porta. Subi rezando para ser uma acomodação confortável para os meus próximos 3 dias. E adorei. O quarto é pintado em verde água e branco, com toda a roupa de cama e banho em branco. O banheiro me surpreendeu. Ele é comprido, e as peças sanitárias vão se colocando numa das paredes, com o vaso sanitário na parede do fundo, e na outra extremidade, perto da porta, o box, usando a largura do banheiro que deve ser de, no máximo, 1,5 metro. Mas ficou super funcional, parecendo as cozinhas dos mini apartamentos de hoje em dia.

E, com exceção do colchão, que é um pouco mole para meu gosto, o quarto oferece todas as comodidades por um preço razoável de 31 euros diários. Estou feliz.

Logo depois que cheguei, uma batida na porta. Demorei um pouco a abrir e ouvi uma conversa ao longe. Era a proprietária, por coincidência Susi, como minha nova amiga de Catânia, conversando com um hóspede que chegou agora também. Esperei um pouco, e como ela não subiu, terminei de me ajeitar para descer e sair, procurar um mercado.

Ela fez meu check-in, e comentou conosco que é de Budapeste. Então não fala espanhol. E me entende pouco, mas fala italiano e francês, além do inglês. Mas me orientou sobre o mercado, sobre a pizzaria próxima, se eu quisesse jantar mais tarde, e também me deu dicas das praias que posso visitar por aqui, incluindo as informações de transporte. E pronto, não irei mais ao norte para conhecer os badalados destinos do norte da Sardenha.

Não tendo almoçado, fui jantar na Family Pizza, e pedi uma pizza de atum com cebola e muçarela. A pizza estava estupenda. Aqui a fazem com a massa fina, pouco recheio, mas muito bem assada, e vem cortada em oito pedaços, servida sobre papel cartão e com guardanapos, ou seja, é para comer na mão. Peguei ainda um acha gelado e gastei 8 euros, tendo sobrado 2 pedaços de pizza para eu levar de lanche no passeio pelas praias. E eu não como as bordas, mesmo que pequenas, e somando-as deu um pedaço. De modo que comi 5 pedaços sozinha, e não fiquei estufada e nem passei mal à noite. Penso que justamente por ser fina a massa e ficar bem assada.

A hospedagem incluiu café da manhã na contratação. E o café é bem bom. Só não tem frios. que acho não ser mesmo de costume.

E umas 9h30 eu comprei os bilhetes de ônibus por um euro cada. Ele dá direito a 90 minutos de utilização. Mas hoje precisarei só de um para ida e outro para volta. E amanhã vou precisar de outros quatro. Então já comprei os seis. E fui para o ponto, mas procurando um ATM para pegar dinheiro que o meu acabou.

Fui encontrar um banco quase dois quilômetros a frente, com a ajuda de uns moradores.

E o banco era bem em frente ao Parque Regional Noce. Como vi pelo aplicativo do Google que o ônibus ainda ia demorar 35 minutos, resolvi dar uma pequena volta no Parque Fausto Noce. E apreciei. Mas só vi um pequeno pedaço. Pelo mapa ele é bem completo, oferecendo várias áreas de lazer.

E voltei para o ponto. A Susi me alertou para ter cuidado com o horário do ônibus, porque no inverno são poucos. E vi que, realmente eles tem 3 períodos no ano com horários diferenciados. E a placa com os horários estava em cada ponto de ônibus. E é cumprido quase que a risca.

Eu ia descer na última parada, na Praia de Bados, mas mesmo assim fiquei acompanhando o percurso pelo Google. Adorei esta funcionalidade.

E adorei a Praia. A areia é branca e fina, tem algumas rochas pela beirada, e o mar é multicolorido, de uma forma que a câmera não pode captar. Fiz uns vídeos para tentar dividir com vocês a maravilha que é este mar. E andei por toda a praia até chegar a ponta e perceber uma trilha que levava para a outra praia. As casas à beira mar têm saída para estas trilhas e assim as pessoas podem chegar até a praia. Mas como é inverno e elas não estão sendo usadas, os arbustos estão um pouco crescidos e os caminhos um pouco estreitos.

Fui passando por pequenas praias que apareciam nos recortes do mar e terra. E cada lugar mais encantador que o outro, com aquela água transparente de tão limpa. E encontrei gente em todas as praias, mas 2 ou 3 pessoas no máximo em cada uma delas.

E eu já tinha observado que podia fazer 5 praias maiores, só não sabia que conseguiria ir pelas trilhas, rochas e areias e chegar pelo litoral à todas elas. O Google mostrava as ruas de asfalto. E representaria um pouco mais de 3 km de caminhada. Mas pelas praias em arco eu fiz muito mais.

E fui para a Spiagia Mare Rocce. E a cada praia eu ficava mais encantada, e só registrando com os olhos e com a câmera tudo o que eu conseguia captar.

Acho que foi quando passei para a Praia do Pelicano que tive que, inicialmente, fazer um esforço danado para alguns passos na rocha muito alta. E não tem onde se segurar. Mas me ajeitei e consegui ir em frente. 

Só que, mais adiante tinha um pedaço que me pareceu muito difícil. Mas voltar não se apresentava como uma possibilidade, justo por causa daquele grande degrau. Descer seria ainda mais difícil. Aí fiz algo que nunca fiz, e não gosto de fazer. Uma casa na beira da trilha tinha um portão de madeira junto ao muro de pedra, com uma altura baixa. E de onde eu estava vi um outro portão que pareceu da garagem, e aberto. Então, pulei o portão. Mas chegando ao outro não era o da garagem, e sim um enfeite de madeira. E o terreno era bem grande, dava até para se perder em meio ao jardim. E as casas são de veraneio, e pouca gente mora por ali, então a casa estava vazia. Quando achei o portão da garagem além de alto tinha lanças. Mas na beirada dele tinha um pedaço de muro em que as lanças eram mais curtas. Como sou alta, talvez conseguisse por o pé de um lado e do outro sem me furar. E subi no muro. Mas quando medi vi que iria me machucar. E o jeito foi descer e voltar a pular, agora o muro de pedra, e sair um pouco a frente. E vi que um vizinho me observava. E ele viu que eu o vi.

E tive que descer um trecho com pedras, bem difícil. E lá embaixo tinha bastante folhas secas, mas que estavam na água. E quando notei isso, não queria molhar meu sapato. E tive que procurar um caminho alternativo, subindo pela rocha para o outro lado, e em dado momento, minha única alternativa foi sentar no chão para conseguir terminar a subida. Não ia conseguir alçar meu corpo naquela altura. E o medo de me machucar. O vizinho que tinha visto, foi para fora e entrou no mar. Ao menos eu acho que era ele. Quando eu finalmente consegui chegar num trecho que poderia continuar com facilidade, falei com ele que tinha escolhido um mau caminho.

E decidi evitar mais trabalho para meu anjo da guarda.

Depois desta praia tive que entrar para o asfalto para chegar a próxima, e entrei por meio a um jardim bonito, numa trilha junto a um muro, mas curtinha e tranquila. Ali estava o restaurante Lo Squalo, na praia de mesmo nome. E foi onde encontrei mais gente.

O restaurante estava fechado, mas tinhas mesas e cadeiras na parte exterior. Aproveitei para sentar-me e tirar minha pizza de almoço, com água com gás, que comprei por engano e de sobremesa um bolinho de Kinder Bueno. E de onde estava sentada vi uma jovem, com equipamentos de mergulho, caminhando de cá para lá nas verdes águas.

E também vi uma senhora, de cabelos já brancos, caminhando na areia. E quando segui meu caminho a vi sentada numa rocha, desfrutando do vento e da vista.

E eu continuei andando. A próxima e última praia, Pittulongu, pude acessar também pela beira do mar, numa trilha bem fácil. E era a mais longa de todas. Eu até pensei em fazer só metade do percurso. Mas uma moça passou com a mochila nas costas, caminhando pela areia dura que a água do mar molhou, a passos largos e num instante tomou distância.

E estas 4 mulheres, entre as quais me incluo, me fizeram refletir a vida. E como a gente se coloca e desloca dentro dela. São certamente 4 mulheres aventureiras, que passam pela vida e sim a consome, desfrutando, aproveitando. São quatro mulheres, mas talvez seja uma só. E cada uma de nós foi a outra ou será. A mais jovem não tem medo, ela encara a vida se enfiando dentro dela, para ela não basta observar de longe ou mesmo caminhar pela beirada. Ela tem pressa, quer sentir, absorver e ser tomada pela vida. A outra mulher, um pouco mais madura já passou desta fase, ela se sente confortável caminhando com passos seguros pela beirada, já viu e sentiu bastante, não precisa mais mergulhar na vida. Mas quem apressadamente estar ali, e acolá e chegar rápido a algum lugar. Depois estou eu, que já não me atiro mais, e já diminui a passada, perdi muita coisa ao passar ao largo, caminhando depressa, mas não tenho mais a coragem e a audácia de me molhar. E vou devagar, absorvendo e entranhando-me de vida. E por último a mais velha senhora, que vai a passos miúdos, mas não crê que possa ir muito longe, está cansada. Mas não deixa de ir em frente, caminhar, e de vez em quando parar, descansar e sentir, refletindo talvez tudo aquilo que já está dentro dela e que não tem mais pressa de chegar, pelo contrário, quer que a vida escoe lentamente, como a onda que vai e que vem e a brisa em seus cabelos. Elas sou eu. E até me pergunto se realmente havia mais alguém lá. Ou foram os fantasmas do passado e do futuro?

Saindo de perto do mar, procurando a estrada para obter sinal de internet e descobrir onde seria o ponto de ônibus, vi várias lagoas internas, habitadas por muitos pássaros de diferentes espécies, que ficam confortáveis com a solidão do lugar. E flores, e as mini margaridas, balançando ao sabor do vento, junto com bambus secos que, ao se tocarem, tocam uma canção desconhecida. Foi tudo tão bonito, tão bonito foi, que eu até fiz um vídeo que vocês podem apreciar no Instagram ou no Facebook, estão em modo público (@lessa meyre e Meyre Lessa).

Um pássaro preto e cinza que grasna como um corvo e que acho que é uma espécie de corvo, é visto em todo o lugar.

E depois de uma boa caminhada em direção às casas, achei o ponto de ônibus sem ajuda de nenhum aplicativo humano. E fiquei quase uma hora aguardando o ônibus, que pelo horário que cheguei, tinha passado há 8 minutos.

E quando cheguei à cidade, desci no ponto perto da Basílica de San Simplício e avistei externamente a bela igreja de pedra construída no século XI. E ainda era cedo. Voltei ao hotel, tomei banho, enrolei um pouco e sai para jantar.

O restaurante escolhido fica há mais de um quilômetro. Aqui perto so tem pizza e japonês. O Anticas Licanzias me pareceu uma boa opção. E isso se confirmou no ambiente agradável, na massa fresca de ravióli com recheio de ricota e molho de quatro queijos, preparada na hora, no excelente vinho Encontru Rosso que tomei, e na sobremesa servida com um café curto, feita de casca de cítrico e amêndoas. E o melhor, por apenas 19 euros.

Queria poder explicar porque alguns lugares te fazem sentir melhor que outros, independente do que você vê. Ólbia me faz sentir em casa. O povo Sardo é mais educado no trânsito e nas relações, pelo que pude perceber, mas é também muito acolhedor. As ruas são mais largas, o terreno é plano, e parece que estou em Itu. E me sinto confortável. E para um lugar que eu não tinha planos, acho que está dando muito certo. E rezo para que continue assim. E incluo minha filha, aniversariante de hoje, nas minhas orações. A foto abaixo eu fiz oferecendo a ela em pensamento. Com um nome que significa abelha, precisa de flores e é responsável pela polinização e sobrevivência de muitas espécies vegetais. E ela está se descobrindo uma verdadeira 'Menina do Dedo Verde', em referência ao livro de Maurice Druon.