NORWAY IN A NUTSHELL – PRIMEIRO DIA

07/09/2019

Quero iniciar o relato não recomendando que se faça em um único dia. No sentido Oslo/Bergen os trens não tem como recarregar as baterias dos equipamentos (lógico que você poder ter bateria extra), mas talvez não a tenha para o próprio corpo. Nesta primeira parte, saindo do hostel às 19h15 da manhã, já com café tomado e lanchinho na mochila, dirigi-me sozinha, de ônibus para a Estação Central. O trem parte às 12h03 minutos. Dada a precisão da marcação de horário você já pode supor o nível da pontualidade. Meia hora antes ele já encosta na plataforma e inicia-se o embarque.

Meu assento era o 66 no carro 4, corredor. Injusto para uma turista já que muitos ou a maioria dos passageiros eram locais que ficaram lendo, conversando ou dormindo. Por sorte o banco  atrás do meu ficou vazio e eu mudei de lugar, até porque a janela onde fiquei era a do encontro entre duas, pior ainda.

Só que na estação seguinte entrou uma senhora que sentou-se na cadeira 65 e o fiscal passou, fazendo-me voltar para o meu lugar porque outra pessoa também estava fora por minha causa. Mas o lugar da janela, ao lado desta continuou vazio e ela me autorizou a ocupá-lo.

O começo da viagem tem muitos túneis, e muita escuridão, mas quando as paisagens começam a surgir, são de queixar o queixo caído.

Fiquei pensando e novamente concluo que os trens passam ao lado de rios em terrenos montanhosos pois ali ficam os vales e a parte mais plana do terreno. E o rio ou os rios pois viajei 6 horas de trem e quase o tempo todo tinha água por perto, ou de corredeira, ou calma, ou cachoeira , ou barragem...deixaram as paisagens ainda mais deslumbrantes.

E pinheiros, muitos, inclusive cortados pois este deve ser um dos recursos que geram riqueza ao país e uma das atividades principais da Noruega a sua extração.

Vi alguns pastos com ovelhas ou vacas.

E uma árvore com cachos vermelhos que eu não distinguia serem flores ou frutos, e no hostel descobri serem uma espécie de semente.

Um pouco mais adiante um homem acabou ocupando meu lugar e explicou ao fiscal o que fez, trocamos. Assim fiquei em paz para fotografar.

A moça ao meu lado conversou comigo parte do tempo, perguntando de onde eu era, e até falamos bastante pois expliquei em que condição estou viajando, que normalmente tenho viajado só, sendo esta viagem uma exceção e até que profissão exercia, já que ela perguntou-me, tendo dito que ela trabalha com restauração de imóveis, e até lia uma revista que tinha um artigo sobre uma obra sua. Estava indo visitar a família, irmã e sobrinhos. E me deu uma dica quentíssima. Estávamos viajando do lado direito do trem. Ela desceu e me disse que na estação seguinte muita gente desceria, Ustaoset, para eu trocar de lado pois no esquerdo teria paisagens mais bonitas. Dito e feito, montanhas nevadas, rochas , rio e cascatas. Observei uma via que segue margeando entre o rio e a ferrovia destinada às bicicletas, e vi muitos ciclistas desembarcando com seus capacetes de proteção à tiracolo. Impressionante!


Chegamos a 1222 metros de altitude em Finse, cidade em que houve muitos desembarques , mas onde o trem encheu de novo e o fiscal só passou e deu com a cabeça indicando que eu devia voltar ao meu lugar, coisa que fiz sem perder tempo.

Mas foi bom porque nesta hora, do lado direito apareceram umas rochas esverdeadas por uma vegetação rasteira e logo depois eu chegaria a minha primeira parada e troca de trem.

Fui ao banheiro no trem um pouco antes de chegar a Myrdal, assim quando lá cheguei pude pedir um chá quente e um muffin para fazer passar a dor de cabeça que começava a querer incomodar. Coloquei o celular para carregar e o trem encostou. Nem tinha tomado o café ainda. Saí com tudo pendurado, e carregando os alimentos. Correria desnecessária porque o trem ficou uns 15 minutos parados até dar o horário dele sair, 17h15. 

Desceria 18 km de uma altitude de 808m para 2m, onde se localiza a cidade de Flam e meu destino de hoje.

O trem desce rangendo os dentes e muita gente tampa os ouvidos. Mas eramos poucos passageiros e pudemos ficar passando de uma janela a outra quando o trem saía dos túneis e vislumbramos cenários maravilhosos. No meu vagão estava uma família com 3 casais de 3 gerações, avós, pais e filha com marido. E um outro senhor que talvez fosse amigo ou outro avô viúvo. Faziam bastante barulho e riam muito. Foi divertido vê-los.

O trem faz inclusive uma parada numa cachoeira maior, que tem um mirante e uma mulher aparece cantando, apesar ou mesmo com a chuva que estava, fraca, mas no meio do mato e na montanha. Um frio danado e eu sai só de camiseta de manga comprida porque tinha tirado o casaco, tamanha a empolgação. E pior, após filmar, fotografar e olhar, não sabia mais qual era o meu vagão. Perguntei para o condutor e o fiscal que me ajudaram a achar o meu lugar. Ridícula.

São tantos fios de água descendo as montanhas que mais parecem veias, fruto do degelo, mais finas ou mais calibradas, irrigando todo o corpo da mãe Terra.

Logo chegamos ao povoado e fui direto ao posto de informações para achar o hostel. Bem perto, num lugar lindíssimo. Mas tem lá seus inconvenientes. O banheiro é longe, em outro prédio, sendo necessário sair no tempo. Se precisar levantar de noite para fazer xixi será um Deus nos acuda. Vou até dormir agasalhada hoje pois fatalmente precisarei levantar pelo menos uma vez durante a madrugada.

Já que não comi quase nada ao longo do dia, fazendo aquele pão Rap10, com a salada e o patê, o queijinho e o suco serem suficientes para um jantar, um café da manhã e ainda um almoço, com gasto de 8,50 euros, vou extrapolar no jantar.

A Elizabeth não quis me acompanhar pois o hostel em que ficou, segundo ela, é muito lindo, até recebeu um up grade, mas muito longe, e já fizera a caminhada para lá estando cansada. Deixamos para nos encontrarmos amanhã e tomar o café juntas.

Encontrei pelo Google um único restaurante próximo e aberto. Ficava um pouco após o centro de informações turística, mas no sentido oposto ao do Flam Hostel.

Lá chegando fui atendida por um belo norueguês com o perfil que nós lhes atribuímos, alto, loito de olhos azuis. Solicitei um prato que entendi ser composto de provas de frutos do mar e peixes. E assim o era mesmo.

O prato era composto por camarões empanados, uma espécie de lagostim de casca muito vermelha (que por sinal foi a única coisa que não gostei), salmão e atum cru, escalope de peixe com erva-doce de uma delicadeza (foi meu item preferido), batatinhas, molhos e coisas que nem sei o que. Pedi uma taça de vinhe e eles mandaram branco, por entender que seria a melhor combinação e encerrei com uma versão do 'chef' de cheesecake.  Um sorvete de queijo com gosto um toque de limão, a massa servida como farofa, uma geleia de frutas vermelhas de gosto exótico e lascas de chocolate. Foi muito sensacional. Gastei 50 euros na brincadeira, mas fazendo a média com as refeições anteriores, menos de 15 euros por refeição. E me dei ao luxo e ao prazer, curtindo muito a minha companhia.

Voltei ao hostel, peguei minhas coisas e fui ao banho. Passava de 20 horas. Demorei um tanto porque era a única área que conseguia acessar o WiFi (depois descobri nos detalhes da acomodação, pelo Booking, que o WiFi só estava mesmo disponível nas áreas de convivência), devo ter retornado próximo de 22 horas e quando entrei no quarto a luz já havia sido apagada.

Peguei o notebook que tinha deixado na mala e comecei a escrever no escuro mesmo, na mesinha que tinha no quarto. Já estavam o casal jovem de franceses, deitados na cama superior de um beliche, e sua bagagem na cama de baixo, a alemã e eu. A oriental ainda estava fora. Escrevi por cerca de uma hora quando esta última entrou no quarto, acendendo a luz. Choque!

Ela se ajeitou e voltou a sair. Eu terminei o parágrafo no Word, já que não tinha internet e antes que ela voltasse apagasse a luz novamente eu escalei a escada rumo à minha cama. Mas... Surpresa! Quando cheguei no limite para dar um impulso final e chegar ao colchão, meu crânio encostou no teto. Se eu impulsionar meu corpo vou bater a cabeça. Assim fiquei me retorcendo e trocando de perna para ver como conseguiria essa proeza.

Quando deitei naquele fino colchão com uns estrados grossos e espaçados se enfiando por minhas costelas e com a sensação de estar num caixão de tão perto que estava do teto, começaram os ruídos dos hóspedes que circulavam pela cozinha, exatamente acima. Fiquei com aquela sensação de que o piso poderia vir abaixo e eu ficar ali, soterrada no beliche. Meu celular distante pois não havia tomada por perto para recarregá-lo. Não consegui preparar minhas coisas perto de mim por ter chegado com a luz apagada. Minha narina trancou e o neosoro não estava ali. Nem meus óculos. Enfim, tudo incomodando. 

A bexiga começou a encher e os gases acumulados durante um dia inteiro sentada provocavam cólicas em revoluções internas. E a noite não passava. De repente a oriental levanta e sai. É agora, pensei. Desci rapidamente e ela logo retornou. Mostrei que eu queria colocar o colchão no chão e ela acendeu de novo a luz, e me ajudou com a manobra, apagando a luz novamente e rapidamente. Assim fiquei numa condição bem mais confortável e a única que passaria por ali era ela, e sabia que eu ali estava. Ainda bem que o espaço de circulação era grande e fomos as primeiras a levantar.

Uma coisa que pensei durante todo o percurso: " Mesmo com estas imagens que me deixaram em êxtase, vendo estas casinhas isoladas, com este frio de verão, fiquei imaginando o longo e frio inverno congelante, nesta solidão. Acho que nasci no lugar certo. São Paulo da garoa, São Paulo que terra boa.