Nau Santa Maria de Colombo (Não); Cascata do Risco (Sim)– ILHA DA MADEIRA

05/01/2020

Esqueci-me de contar que o Horácio, da Seaborn, ensinou-me a receita da Sopa de Cavalo Cansado, que serve para evitar náuseas. Consiste de pão, vinho tinto, água e açúcar. Parece-me bom. Mas as náuseas devem ser evitadas pela embriaguez.

E se não tomo o remédio (Vonau) hoje, precisaria certamente dessa sopa.

O passeio de barco estava programado para a parte de manhã e o adquiri também pelo Getyourguide. A saída estava prevista para 10h30 e como são muito pontuais...Levantei-me às 8h30 para ter bastante tempo. Mas, sabendo disso, relaxei. E no café da manhã fiquei batendo papo com um casal de portugueses que residem em Bordeaux, na França, e que estão passando férias por aqui. E quando vi já era quase 10 horas. Apressei-me a caminhar, mas ainda estava sossegada, e resolvi para no Reidi's Palace Hotel para saber se é necessária a reserva para o chá da tarde. Descobri que sim e, ainda bem que consegui reservar para dia 06, quando havia disponibilidade e meu último dia na Madeira. Viajo dia 07 à noite para Portugal, mas não teria como fazer o chá tranquila.

Quando saí do Reidi's já não tinha mais tempo de sobra, e ainda assim decidi fazer uma caminho diferente até a Marina. E caminhei rápido, não para me cansar, mas num ritmo bastante acelerado. Incomodei-me quando um casal nórdico de mais de 60 anos passou por mim caminhando sem resfolegar, e se afastou rapidamente. Estou muito lenta! Ou eles são mesmo bem rápidos. Um outro senhor que estava praticando caminhada alternada com corrida, enquanto andava, estava no mesmo ritmo que eu, mas ele tinha uns 15 cm a manos de pernas. Sei lá!

Cheguei à Marina, junto a embarcação Santa Maria de Colombo às 10h11 e o embarque não havia começado. Acho que não passaram 5 minutos quando liberaram-nos. Eu fui a última pessoa, da primeira leva, a entrar no barco.

Ele é dividido em 3 zonas, a proa e a popa no alto, o meio mais baixo, a nível do mar. A proa já estava totalmente ocupada com 6 pessoas. Então escolhi a popa, e ninguém ficou no meio. Antes da partida uma família de alemães embarcou e sentou-se ao meu redor. Era um casal com filhas e seus respectivos namorados.

Sei que contei e éramos novamente 23 passageiros, mais 4 tripulantes. O diferencial deste navio é que ele é uma réplica das embarcações chamadas caravelas, usadas na época dos descobrimentos. As velas não foram usadas. E o mar estava muito revolto por causa da ventania, que ainda não tinha pego aqui.

Um tripulante deu as instruções de segurança, em inglês, e depois falou que nossa rota seria Sudoeste, depois seguiríamos até o Cabo Girão antes de voltar ao Porto. O comandante ajustou a rota automática e deu partida. E lá fomos nós cortando as ondas ou balançando ao seu bel prazer.

Os catamarãs estavam indo na mesma direção, depois se afastaram. E a gente seguia para um ponto intermediário entre o Cais da Sardinha e as Ilhas Desertas. 

Eu lembrei-me de tomar o remédio hoje, antes de sair do quarto para o café da manhã. E, naquele momento, fiquei muito alegre por isso. Percebi que um dos namorados desceu, pensei que em direção ao banheiro, mas ele não retornou. Depois vi uma das filhas se aninhar num pufe grande e fechar os olhos. E depois desceram um casal e a namorada que ficou para trás. Quando olhei para a mãe, uma mulher da minha idade ou pouco mais, ela estava muito pálida, só se destacando sua boca por causa do batom. Ela estava sentada numa zona central onde o corpo fica solto. Sugeri, com meu inglês precário, que ela trocasse de lugar e se apoiasse na amurada do navio, mas ela disse que não queria se mover.

Logo depois, seu marido procurou um tripulante para pedir sacos plásticos. Nisso, sua última filha, que estava deitada no pufe, desceu com o namorado que viera busca-la dizendo que lá embaixo era melhor. Eu chamei o tripulante e pedi que ele desse orientações a ela para diminuir o mal estar, pois ela já estava vomitando no saco.

_ " Eu já falei para ela que lá embaixo é melhor."

Mas ainda assim ele se dirigiu novamente ao casal e ela aceitou a sugestão. Estendi minha mão para que ela usasse de apoio ao se locomover, e ela, toda envergonhada dizia:

_ " So sorry!"

Coitada, sei bem o que é passar por isso. Seu marido se posicionou mais a frente e logo um tripulante a ajudou na escada. Enquanto ela descia, de costas já que os degraus são bastante estreitos, um cachorrinho mascote do navio, todo solidário, correu até lá e foi descendo por entre as pernas dela. Isso arrancou sorrisos dos passageiros da popa, unclusive os meus.

Depois que eles desceram eu mudei de lugar, para fugir do vento, e olha que eu estava agasalhada. Eu fiz uns vídeos que talvez deixe alguns de vocês enjoados, só para ter ideia do balanço do navio. Vejam no Facebook (Meyre Lessa). Era algo como: Olha o mar... cadê o mar... e repete, repete até seu estômago sair pela boca. Foram bem poucos passageiros que não deram pelo menos algum sinal de indisposição.

Quando mudei de lugar o tripulante que ajudou a senhora veio ter comigo ( ok, admito, estou usando algumas expressões portuguesas), e perguntou se eu estava bem. Disse-lhe que sim pois havia me precavido com medicamento. Só estava mesmo com frio. E ele:

_ " A maior parte dos brasileiros que fazem o passeio não se sentem bem...", mas me deu um acolchoado para colocar nas costas e sentar-me mais cômoda.

Logo depois um outro tripulante trouxe, numa bandeja, mesmo com toda aquela marola, copinhos (de vidro) com vinho Madeira licoroso e Bolo de Mel de cana. Perguntei:

_ " Não vai me deixar enjoada?"

_ " Não sei. Mas acredito que não, já que não ficou até agora."

Assim, comi um pedaço do bolo e bebi o licor, mas muitas pessoas recusaram. Na proa, só restavam duas pessoas das seis que iniciaram o passeio. E um dos que resistiram, estava deitado. E na popa só 7, incluindo a mim. Senti-me pela primeira vez uma pessoa normal, viajando sem passar mal.

Mas vou lhes confessar, foi a pior viagem de navio que já fiz. Totalmente sem propósito. Navegamos por 3 horas e, não vimos golfinhos, não apreciamos a costa, não fomos ao Cabo Girão como havia sido anunciado, e não falaram nada de história, como eu supus que ocorreria, já que a Nau tem este aspecto diferenciado, os tripulantes estavam à caráter, e a Ilha da Madeira tem tenta história para contar. Que decepção! Talvez num dia com menos vento... Mas por que fazer igual quando a proposta seria ser diferente??? Na minha humilde opinião, Nau Santa Maria de Colombo: NÃO.

Por volta de 14 horas eu entrava de novo no Shopping La Vie e reparei que, ao contrário do que eu pensei, ele não tem portas no segundo andar. Foi o Antonio que me alertou, após ler meu relato no blog. Ele foi construído para baixo, fazendo um buraco no chão e, segundo ele, numa das inundações que sofreu a cidade, os carros, que são estacionados no subsolo, ficaram submersos.

Eu não enjoei mas fiquei mareada novamente. Experiências repetidas tiram meu equilíbrio. E não sentia-me bem. O café da manhã já não estava mais no estômago, o licor deve ter contribuído com a sensação de torpor. Depois de usar o banheiro resolvi repetir a dose de massa, ma agora no Sabores da Itália.

Este restaurante apresenta opções de massas do dia com um preço fixo de 6,90 euros, o que é pouco mais caro que o outro, mas num ambiente mais refinado, e com muito melhor qualidade no produto. Eu pedi no cardápio um nhoque com espinafre. Ele veio servido com molho vermelho, fatias de queijo e rúcula. O formato do nhoque não era o convencional, que estou acostumada no Brasil, mas a massa era com muita batata e o molho estava especial. Aprovadíssimo! Isso até restabeleceu meu humor, em parte.

Pois hoje, ao voltar para o quarto, quase às 17 horas, antes de tomar banho, tomei as mesmas precauções que tenho tomado diariamente após as primeiras mordidas do mosquito invisível. Fecho as janelas de vidro, jogo o inseticida e tranco-me no banheiro. Após o banho, que costuma ser demorado o suficiente para diminuir o cheiro do veneno, jogo o inseticida no banheiro e fecho aquela porta enquanto me arrumo no quarto.

Mas hoje foi diferente, pois quando sai e acendi a luz do quarto, vi um bichinho andando no meu travesseiro. Pensei ser um filhote de barata. Peguei e matei. E fotografei. E descobri ser um percevejo.

Ao verificar na internet, vi que eles não são nocivos para a saúde como seus parentes, carrapatos. Mas têm hábitos noturnos, e ficam escondidos durante o dia. Então minha tática de deixar a luz acesa pode estar mesmo dando resultado.

E quando picam, injetam um líquido coagulante e anestésico para que suas vítimas não percebam sua presença. O local picado só terá reações dois dias ou mais após sua picada para os alérgicos. Por isso que não senti nada nos dois primeiros dias aqui, e de repente, acordei toda picada. Algumas pessoas não têm reações alérgicas, e o que posso fazer é o que estou fazendo mesmo. Passar a pomada nas picadas e repelente no corpo.

Mas o hotel tem que tomar providências urgentes se não quer que vire uma infestação, se já não é.

Sei que esta noite já me incomoda um pouco dormir sabendo que eles podem estar no colchão. E podem já estar até nas minhas roupas. Ainda bem que as deixo na mala, sempre.

Ainda encontrei um pequenino sob as minhas pernas, enquanto eu estava sentada na cama escrevendo o relato do dia. De manhã falo com o proprietário.

Mas de manhã não o encontrei, comentei com o senhor do café que descobri o que estava me mordendo e ele:

_ " Mosquito?"

_ " Não, percevejos."

_ " Ah, então tens que avisar ao Sr. Manuel."

E eu:

_ " Sabe dizer se já apareceu em mais algum quarto por aqui?"

_ " Sim, num quarto aqui de cima, onde tinha um casal, mas só a moça foi picada. Muito estranho isso não?"

Eu lhe expliquei que algumas pessoas não têm relação alérgica, ao que ele me respondeu:

_" Eu acho que o bicho tem é bom gosto." E saiu rindo-se.

Como ainda não havia ninguém para eu reclamar quando sai, e tinha horário com o Antonio, deixei a chave e me fui.

Quase cancelo este passeio, pois estava programado fazer as 25 Fontes, o Risco, o Paul da Serra e o Fanal. Mas eu sabia que seria cansativo e perigoso, e meu corpo já está pedindo uma parada. A sequência final de passeios foi um tanto torturante. Mesmo quando apreciada. E não quero sair daqui moída.

Mas o Antonio me disse ser possível descer até a Cascata do Risco de carro e fazer uma caminhada de menos de um quilômetro de planície até a atração. Mas isso aumentaria o preço em 10 euros. E não ir às 25 fontes que apesar de bonito, requer um bom preparo físico pois é realmente extenuante e mais arriscado, já sendo noticiado a perda de vidas de turistas neste local. Ele acha que as pessoas se descuidam ara tirar fotos. Eu acredito. Mas algo me diz para não ir. E vou respeitar minha intuição.

Então subimos até o Paul da Serra, que como falei é como chamam o Planalto. e dali dá para ver a estrada, no meio da vegetação.

E depois descemos de Van por uma estradinha de uns 2 km de asfalto, sinuosa, em meio a vegetação, que achei que mereceria umas duas ou três paradas para fotos, não vale o cansaço e perda de tempo de descer, e menos ainda de subir. O custo de ida e volta por pessoa é de 5 euros.

E naquele pequeno trecho de menos de um quilômetro de caminhada é possível ter Existe a levada de água, e a montanha de rocha, coberta por vegetação e que transpira água por todos os poros, e ouvimos aquele acalentador e calmante som de água pingando ou correndo de mansinho. Sons da floresta. E sentimos o ar puro, o vento fresco...

Para logo em seguida avistar as duas quedas de água, que caem consecutivas, e entre elas se forma a Lagoa do vento, que não conseguimos avistar dali, e que meu guia disse ser a vereda mais perigosa de se realizar.

Conforme vamos nos aproximando, um precipício surge ao nosso lado, disfarçado pela vegetação rasteira, ou pelas urzes que deitam-se procurando a luz do sol. E o suor da montanha se faz mais forte, e respinga no caminho como um corredor que chega a parte mais difícil do caminho, molhando o solo por onde passará (veja vídeo no Facebook ou Instagram).

E agora, quase embaixo da cascata, já não vemos as duas, uma delas ficou encoberta pela rocha, mas posso ver com detalhes as ramificações que a água faz na rocha, parecendo vasos sanguíneos, quase ao pé da queda. Bonito. Quem imita quem? Ou será só a natureza se repetindo em diversas formas de vida?

E posso ver umas cavernas, de uma antiga e perigosa vereda que está bloqueada ao uso por uma porta. Mas é mesmo tentadora. De tão inusitada. E uma porta foi colocada na primeira passagem para impedir os mais audaciosos e ousados de se aventurarem até elas.

Na volta paramos no café, um dos mais novos cedidos à iniciativa privada. E junto a ele algumas árvores parecem estar enfeitadas de musgo. O Antonio disse que depende da estação, às vezes eles somem. Imagino que quando a árvore está com sua folhagem.

E o banco da frente da Van já está tomado quando chegamos, mas o motorista, muito gentil, pede ao cavalheiro se pode sentar-se atrás. Lá estava um casal. Eu disse que esperava a próxima viagem, não me importava, mas ele insistiu em falar com o senhor, e ele aceitou.

A esposa ficou sentada á frente, entre o motorista e eu. E o Antonio foi atrás. Alguém de trás disse-me:

_ " Com ventana é mais caro."

E eu respondi que se eu fosse atrás o prejuízo seria deles, pois eu acabara de comer no bar. Tendo como resposta:

_ " És broma."

Sim, eu entendi, até porque sou brasileira, e fazemos broma com quase tudo.

E vim conversando com o simpático motorista no pequeno percurso de carro. Ele preocupado achou que eu passava mal até em avião, porque além do enjoo lhe disse que sou claustrofóbica. Mas expliquei que preciso sentir o ar frio, e que no avião meu problema são os ouvidos, que doem. Pensando em todas as minhas aflições nos transportes, era para eu ser um ser enraizado. E sou exatamente o oposto. Um ser volante.

Nosso próximo e último destino foi o Fanal, ainda no Paul da Serra, um local deveras interessante. Um gramado com muitas árvores retorcidas. E uma nuvem vinha se aproximando. E o Antonio disse ser a primeira vez que ele via umas árvores ao lado, sem névoa.

E passamos por um pequeno vale como se fosse um percurso de rio. E mais adiante eu avistava uma rocha isolada, contra a paisagem. Não quis puxá-la no zoom da câmera porque estávamos indo em sua direção. E, instantes depois, quando chegamos até lá, já não era possível vê-la.

E a floresta encantada, de simpáticas árvores retorcidas, parecia mais a floresta assombrada, com árvores escuras e tenebrosas em meio a névoa.

Passamos de novo pelo 'leito do rio' que agora era um leito de névoa.

E de repente vi de novo as árvores em frente, e olhei para trás e voltei a ver a rocha. A nuvem já passara, mas eu não tinha nenhuma garantia de voltar e encontrar o tempo aberto e resolvi não arriscar.

E fui tirar fotos nas árvores e das árvores. Algumas parecem querer fugir dali. Outras querem ser abrigo, e umas se propõe até a ser portão. Surpreendentes!

E fizemos o longo caminho de volta.

Mesmo sem ir as 25 fontes, chegamos de volta em torno de 15 horas. E o tempo agora estava nublado e com garoa. Já estou indo embora...

Mas quando fui pegar a chave de meu quarto, onde estava? Não estava no porta-chaves habitual. E não havia ninguém para me falar nada. Fui até a porta e encontrei a chave nela, pelo lado externo, mas não fui eu que fiz isso. E o quarto estava revirado. Num primeiro momento assustei. Depois compreendi que estavam dedetizando o quarto. E que eu devia ter sido realocada. Fiquei chamando até que apareceu o funcionário e me entregou a chave do 310, no primeiro andar. E minhas coisas cá estavam.

Hoje é dia de cantata de Reis, mas depois que entro 'em casa', não tenho mais vontade de sair. Já está mesmo chegando a hora de voltar para casa. E espero que Beja seja o suficiente.

Vou sair só para comer algo que sirva de jantar.

E bem em frente ao Reidi's Hotel, pertinho, tem uma pastelaria. Vou até lá pois ao lado há um mini mercado.

Pedi um sandes de queijo fresco no pão de nozes com passas, mas veio com alface e tomate também. E ficou bom do mesmo jeito. Um bolo de chocolate e chá de ameixa com canela. Considerando que comi um pedaço de quiche de tomate com café no Risco, e comprei queijo para comer enquanto estiver assistindo a Netflix, será suficiente.

E agradeço ao Antonio por ter insistido neste passeio, apesar de minha má vontade após o Não a Nau. E posso lhes dizer: SIM ao risco, que de arriscado não tem nada. Só de estupendo e maravilhoso!

Amanhã eu só tenho a consulta médica, e quero comer o maracujá da terra e a anona. E depois o chá da tarde chique do Reidi's Palace. E já é hora de começar a me despedir da Madeira, de sua hospitalidade e beleza. Do Antonio pela paciência e compromisso, desejando-lhe sucesso na caminhada. Do Melba, que me deixou à vontade, como se em casa estivesse. Os percevejos me judiaram um tanto, mas se tivesse detectado ou reclamado antes, mais veementemente, já teria outro quarto. Tudo aprendizado. Mia um local ticado no mapa. E provavelmente um destino sem retorno, pois há tanto o que se conhecer ainda... 

E encerrei meu passeio de hoje assim: