Natal e, um dia antes e um depois na ILHA DA MADEIRA

26/12/2019

Quando chegava, à meia noite e meia, mais ou menos, bem perto do hotel, notei uma movimentação estranha dentro de um carro. O motorista me viu e começou a rir muito. E atrás, no banco dos passageiros, havia outro homem. E ele estava com o corpo vibrando um pouco. Deu-me a impressão que rolava algum tipo de sexo no banco de trás, não sei se solitário oi havia mais alguém que eu não vi, e passei ao lado, cega, surda e muda.

Levantei a tempo para o café da manhã e minha intenção, pela manhã, era resolver o assunto da MEO, minha operadora de dados, pois, como o Wi-Fi do hotel é ruim, usei já todo o meu limite de dados móveis, e a MEO me encaminhou uma mensagem cia SMS oferecendo uma gratuidade de 15 GB para uso entre 20 e 31 de dezembro, com adesão pelo aplicativo. Como acabei de me cadastrar, não consegui fazer a adesão sozinha, e o Sr, Manuel, dono do Residencial Melba, me informou que a loja mais próxima da MEO é dentro do Centro Comercial Fórum.

Assim, lá vou eu, comprar umas lembrancinhas para as 3 pessoas que estão me atendendo no hotel, recepção, café e faxina, e resolver a adesão aos dados, senão vou pagar 1,99 de euros ao dia.

Cheguei mais rápido do que esperava. Olhei as decorações do Natal. Ali tem a casa do Papai Noel e seu acesso é por uma pequena ponte. O shopping é pequeno, mas agradável. Não achei loja de lembrancinhas, então não consegui ser muito criativa e entrei numa loja tipo C&A onde improvisei os regalos, e comprei para mim uma pochete nova, um par de brincos e uma legging de malha.

Comi lá mesmo, no 2. andar, uma mini pizza de queijo, cogumelos, bacon e azeitonas.

E voltei ao hotel, passando antes no pingo doce para refazer as provisões de quarto. Comprei água, meia garrafa de vinho tinto seco, dois tipos de queijo, chocolate amargo, bananas, tangerinas e bolachas. E sai com uma sacola bem pesada, mas não me incomodou.

De volta ao hotel, além de atualizar o blog, tomei meu banho para que o cabelo secasse a tempo e descansei um pouco já que a ceia de Natal estava reservada para às 21 horas no Restaurante Le Jardin.

Às 20h30 eu pedi para o rapaz da recepção pedir um táxi para mim, já que eu estava de salto. Ele até tentou, mas sem sucesso e me sugeriu ir até a Estrada Monumental onde, com certeza eu conseguiria um. Eu coloquei uma sapatilha, a sandália numa sacola e lá fui eu. Desci os dois quarteirões que separam a rua do hotel da Estrada, bem inclinados, por isso tirar o salto. E um pouco que andei na Estrada, muitos táxis passando ocupados, mas um já voltava da viagem anterior e parou para me levar até o restaurante. Gastei 7 euros na ida.

O Restaurante Le Jardin não estava cheio. Minha mesa foi separada no lado de fora, onde estavam a maior parte das pessoas, mas eu preferi ficar dentro e evitar os fumantes. Lá dentro só havia outras duas mesas ocupadas, cada uma com um casal de estrangeiros.

Aqui, nos restaurantes, não fazem o esquema de ceia como no Brasil. O pedido é a La Carte. E eles tinham duas alternativas de carne especiais para a ocasião, que não faziam parte do cardápio tradicional. Eu pedi um vinho Madeira Seco para abrir o apetite. Uma salada Caprese e um pão com manteiga de alho, como couvert e primeiro prato, e filé de peixe robalo com batatas assadas e brócolis como prato principal, acompanhado de de um taçavinho branco seco e uma água.

Vou te dizer que só a salada e o pão, divinos, já seriam jantar suficiente, mas é Natal... E a gula está prevista. A faca de peixe funciona muito bem para separar a carne da pele, mas é uma faca para destros, usada com a mão direita. Ainda assim, eu a manejei bem. E, como pedi que os legumes estivessem temperados, difícil foi decidir o que estava mais saboroso. Ainda assim, não consegui comer tudo. Na salada ficaram uns tantos croutons... No prato principal só não sobraram as batatas. E quando o gentil garçom me ofereceu a sobremesa, eu, que adoro doce, tive que recusar dizendo que, não cabia. Não soa muito elegante, mas verdadeiro. Ele me disse acreditar. Sim, porque os pratos são muito bem servidos. E gastei 45 euros já com a gorjeta.

Dali segui a pé, em calçada plana, por um quilômetro até a Igreja da Sé, com a intenção de assistir à missa do Galo. A rua estava bem vazia, e eu encontrei um ou outro passante até me aproximar da igreja, já às 22h30 e com algumas pessoas já entrando.

Quando entrei, metade dos bancos da igreja já estavam ocupados. Até achei que a missa começaria antes. Sentei-me sozinha no banco, na ponta externa ao corredor.

Por volta de 23 horas iniciaram muitos cânticos, as leituras, e a igreja enchendo. De repente todos que estavam no altar saíram, mas todas as pessoas permaneceram tranquilas. Ao meu lado, de pé, estava um Senhor.

Não consegui ficar sentada vendo o Senhor ali, de pé, um pouco atrás, encostado na coluna. Ao iniciar as leituras, peguei em minha sacola de papel a sapatilha, e comecei a trocar os sapatos. Uma menina que estava sentada no suporte para os joelhos, num banco um pouco a frente, ficou curiosa. A senhora sentada no banco a frente se irritou com o barulho do papel da sacola. E o moço que estava ao meu lado, com a filha adormecida nos braços, espantou-se quando levantei e cedi meu lugar para o Senhor.

Alguns minutos depois uma nova canção e uma procissão de entrada onde o sacerdote carregava a imagem do menino Jesus, alguém com um incensório. A missa iniciou, na verdade, neste momento. Tudo o mais era ensaio. Mas até as aberturas das leituras eram cantadas, e o povo só ouvia.

Ficar ali de pé, não estava muito gostoso, e me incomodava o fato de tudo ser cantado, e só pelo coro, porque as vozes de sopranos e barítonos não eram fáceis de ser acompanhadas. Algumas pessoas receberam o papel com os cânticos, mas era impossível acompanhar. O rapaz com a menina decidiu sair quando a menina adormeceu, e o senhor, gentilmente, me ofereceu novamente o lugar. Acho que uma mulher, de pé próxima a mim, deve ter olhado para ele de forma que ele sentiu-se obrigado a oferecer também o lugar. E, já que eu aceitei, ela também sentiu-se no direito. E lá estava o senhorzinho novamente de pé. Olhei para ele agoniada.

E assim fiquei ali, me sentindo incomodada. As músicas não diziam nada ao meu coração, senti-me como num teatro onde fui para participar e fui obrigada a só olhar e ouvir. E a agonia pelo homem ali... de pé. Quando as pessoas se levantaram para ouvir o Evangelho, pedi licença à moça, sai e disse ao homem:

_ "Devolvo-lhe o seu lugar."

E fui saindo por entre o povo de pé, para não incomodar os atores que podiam se sentirem desmotivados, com a saída da audiência.

Era para ser um momento prazeroso, de conhecimento de hábitos. Consegui ver um pouco. Mas já que não me sentia à vontade, não tinha sentido permanecer.

E fui direto ao ponto de táxi junto à Catedral. O motorista me deixou na frente do Restaurante Cá Te Espero e eu subi a Azinhaga da Casa Branca de sapatilha e sem novas ocorrências em carros estacionados na vizinhança. E cobrou-me 11 euros, por um caminho mais curto, mas  num horário mais avançado.

Ainda assisti um pouco de TV antes de dormir.

E levantei às 9h30, a tempo de tomar o café da manhã. Entreguei a lembrancinha do senhor do café, o fã do Nelson Ned. A da senhora da faxina já tinha entregado no dia anterior, voltando do shopping.

Foi oferecida uma rosca de Natal como diferencial no café da manhã, e um papai Noel de chocolate. Além dos pães normais, cereais, frios, geleia e manteiga, oferecidos diariamente.

Depois desci e voltei a dormir. O almoço eu só iria no Restaurante La Paella, aqui perto, após às 14 horas.

Quando estava saindo, entreguei a lembrancinha do Sr. Manuel, e mostrei meus braços picados.

O dia está gostoso, quente e agradável, mas devido ao calor, arrumei um problema ao deixar os vidros da janelo abertos durante a noite. Aqui como em Beja, há um mosquitinho que não vejo e não ouço, mas que me perfurou toda. E parece que estou com sarampo de tantas bolas vermelhas, inchadas e com comichão, como dizem por aqui.

Já tinha comprado um inseticida, mas com o vidro aberto, não fez o efeito desejado. O Sr. Manuel ficou de aplicá-lo enquanto eu estiver fora, e fechar os vidros. E eu achei uma farmácia junto ao Lido, que abre todos os dias, da 9h às 24h. Comprei uma pomada e um repelente.

O almoço foi no mesmo padrão do jantar, mas não pedi a entrada, nem o vinho para abrir o apetite. Comi lasanha com molho a bolonhesa, bolo do caco com manteiga d'alho e uma taça de vinho tinto, e uma torta gelada de sobremesa.

Parece que muita gente teve a mesma ideia que eu, e foi almoçar tarde. Então o restaurante estava bem ocupado, e inclusive com portugueses.

Após o almoço, passei num mini mercado para comprar mais água, e minu bolo de mel. Por sinal, deliciosos.

E fiquei assistindo desenhos por o resto da tarde. Durante o dia, falei com minha filha mais nova, que passou a véspera sozinha também. Quando estava no shopping, consegui falar um pouco com minha mãe, aproveitando o Wi-Fi de lá, mas a ligação caiu várias vezes, levando-nos a desistência. E com a filha mais velha, só troquei mensagens.

E, por incrível que pareça, não me senti emocionada e triste, nem solitária. Aquele abraço nas pessoas que gostamos, que vem carregado de memórias e lembranças, dos ausentes, na vida ou na morte, não acontecem. E todos os que estavam por perto, viviam essa distância também. Estavam, quando muito, com o parceiro. E o ar não estava carregado de emoção. Então, foi uma passagem tranquila. Ainda bem. Gratidão também por isso Senhor.

E enfim o Natal passou.

E a vida volta ao normal. Volto ao shopping para trocar o brinco, que descolou ao soltá-lo da cartela. E comprei umas camisetas no lugar, já que meus braços estão muito feios manchados de vermelho e quero deixá-los um pouco mais cobertos. Almocei por lá de novo, um hambúrguer gourmet no prato, à carbonara, acompanhado por deliciosas batatas chips, feitas por eles. E, de um arroz, que reguei com azeite, e ficou melhor que a carne. E uma mousse de chocolate.

E fui olhar no Google Maps como chegar à Câmara dos Lobos de ônibus, e descobri que a UBER já está operando aqui. A viagem ficou por um pouco menos de 7 euros, e descobri que faz um mês que o aplicativo está disponível na Ilha, e o jovem motorista começou junto com o sistema e já completou 650 viagens. Disse que já tinha feito 3 viagens até o aeroporto no dia, e que fica pou um pouco mais que 20 euros, enquanto os táxis cobram por volta de 50 euros, e cobram as sacolas e malas a parte. Óhhh! Não creio.

Eu estou fazendo o Transfer com o Antonio por 25 euros, incluindo os passeios no mesmo dia. Assim, os transfer que cobram este valor sem oferecer nada a mais, estão fadados a serem substituídos pelos UBER. Os táxis atenderão os mesmos clientes de outros locais do mundo onde a UBER já opera normalmente, pessoas que tem receio de andar com um motorista desconhecido ou não sabem usar o aplicativo.

A Baía da Câmara dos Lobos é graciosa. Pequenina. Tem um farol. E a Marina.

Junto dela a parte antiga da cidade. E a pequena e acolhedora Igreja Matriz de São Sebastião. O presépio dela está dentro de um barco, e uma fonte de água da vida ao cenário. Ela tem um cheiro de flores, que não vejo, e um ar aconchegante, que faz a gente ficar com vontade de permanecer.

Na rua em frente a ela, painéis com figuras ilustres, super-heróis, flores e insetos, todos construídos com latinhas de refrigerantes e chás, embalagens de salgadinhos, etc. Muito convincente, com algumas mensagens para bons entendedores. O mundo precisa mudar. A gente não precisa consumir deste jeito. Mas está mudando. E eu creio que, bem a tempo.

Caixa de som espalhas nos postes, das ruas, levavam os sons do Natal para todos os cantos. E os bares e restaurantes estavam bem frequentados.

Ainda fui olhar a baía por outro ângulo, apreciar as buganvílias coloridas do estacionamento, e subir uma escadaria que levou-me a uma linda vista e a uma praça onde a estátua usa chapéu de palha.

E chamei outro UBER para o retorno, agora sendo atendida por um rapaz com 5 dias de serviço, e que me deixou na porta do hotel. Pelos mesmos quase 7 euros.

E agora vou só tomar meu banho, comer o resto do queijo e tomar o resto do vinho que foi meu jantar de Natal, e escrever... e descansar.

Amanhã vou conhecer a Costa Este da Ilha em outro passeio de dia inteiro,