NÁPOLES – muita história em meio ao caos urbano.   .                                             .

08/02/2020

Ao contrário da Sardenha e da Sicília, em Nápoles consegui reservar atrações para todos os dias de permanência. Mas sempre pela manhã. Marquei a entrega do café da manhã para às 8h e já estava pronta esperando por ele. Às 8h25 sai em direção às Catacumbas de San Genaro, para percorrer uma distância de 3,3 km que o Google previa em 43 minutos. Resolvi dar um tempo de tolerância para caminhar com calma e chegar antes do horário. A atração só abre às 10 horas. Comprei o ingresso pelo GetYourGuide para fazer a visita guiada com guia do próprio Museu. E as opções eram em inglês ou italiano.

Fui andando logo cedo, com um frio de 3 graus, mas a rua já cheia de gente e automóveis, buzinando. Um alvoroço.

Muitas pessoas comentaram que Nápoles é amar ou odiar. Devo confessar que este caos no trânsito já havia me desgostado em 2010, quando estive em Roma. O trânsito aqui consegue ser pior do que o de São Paulo pela total ausência de regras. E ao caminhar, tanto na calçada como na rua, quando precisa atravessar ou desviar de interrupções na calçada, ou mesmo por falta destas, você tem que se preocupar em não ser atropelado por motos, bicicletas, carros e outros veículos; tem que se preocupar para não torcer o pé nos calçamentos irregulares; tem que se preocupar em não pisar em cacas ou cacos de vidro; tem que se preocupar em não trombar com outras pessoas acostumadas com este caos e que avançam destemidamente pelas ruas.

Digamos que tirando tudo isso...

A cidade apresenta aquela cara de Itália, com ruelas e varandas, roupas nas janelas, burburinho, feiras, gente apaixonada, calorosa, que não consegue ser regrado pela própria natureza. Regras demais massificam, plastificam, uniformizam. E Nápoles não me parece uniformizável.

Eu tinha pensado em não parar para fotos, e deixar para fazer isso na volta, com alguns pontos marcados pelo caminho. Mas de repente vi uma igreja que me chamou muito a atenção. Olhei para o Google Maps e ele previa que eu chegaria ao destino em 17 minutos. E ainda eram 9 horas. Dá tempo de eu entrar.

Era a Basílica Santa Maria de la Sanita. Localizada sobre as Catacumbas de San Gaudioso. Estive ali um tempo breve suficiente para fazer meus agradecimentos e tirar algumas fotos. Não pensava em visitar estas Catacumbas.

E segui adiante. E apareceu um grande grupo de crianças conduzidas pelas professoras. E considerei-as verdadeiras heroínas. Se eu achava difícil andar sozinha pelas ruas dados todos os aspectos acima citados, imagina andar com um grupo de crianças disperso e barulhento. Mas talvez os motoristas tenham mais respeito quando veem que são crianças.

Sei que acelerei o passo para não ficar no meio deles. E logo em seguida eu chegava às Catacumbas de San Genaro. Este Santo é o padroeiro da cidade de Nápoles e seu sepulcro também está nas Catacumbas. Antes de iniciar a visita guiada, fui ao banheiro, e quando sai, o grupo de crianças chegava para fazer o mesmo que eu. Mas eles entraram antes do horário de abertura. Já eram aguardados pelos guias locais.

Troquei meu voucher por um bilhete e fui tomar um café e um chá gelado na cafeteria ao lado. E fiquei conversando com o dono. Que delícia de café. Kkkk. Falamos um pouco sobre o Brasil e sobre Nápoles. Mas o café e o chá acabaram e a hora de iniciar a visita se aproximava. Assim me afastei do balcão e aguardei ser chamada, sentada em um banco junto às mesas. E o home veio até mim e perguntou-me:

_ " Falaram para você na bilheteria que este ingresso dá direito a entrar também nas Catacumbas de San Gaudioso?"

_ " Sim. Falaram. Eu até já passei por lá, na igreja, quando caminhava para cá. Estou na Piazza Garibaldi."

_ " Ah. Então você veio pela Sanita?"

_ " Sim."

_ " O ingresso também dá desconto de 50 por cento na entrada do Museu Arqueológico."

- " Ah. Que bom. Obrigada."

Que raiva, eu não sei mais flertar. Se é que algum dia eu soube. Eu podia ter feito de conta que não sabia de nada para ele poder me explicar melhor. Mas...

Logo uma moça falou algo e todos que por ali estavam se levantaram, e eu também. Não entendi nada, mas devia estar nos chamando. Elas estavam um pouco rápidas para meu gosto, e o caminho para as Catacumbas era com degraus. E depois de 20 dias andando mais de 7km por dia, meus joelhos, pés, e juntas já não me obedecem prontamente.

Quando chegamos lá embaixo, o grupo se dividiu em dois, um casal e eu com as meninas que falavam italiano. Outros dois casais com o rapaz que falava em inglês.

O chão das Catacumbas é coberto com uma espécie de carpete e ainda assim é bem irregular. Tal medida melhora a segurança visto que o local é um pouco escuro.

Vou dizer que fiquei impressionada com o que vi. A guia foi contando a história do local e eu tentava acompanhar o melhor que podia. Ela fez o favor de falar mais devagar quando viu que eu não falo italiano.

Antigamente os cemitérios não podiam ser feitos perto das cidades, por questões higiênicas, e as catacumbas foram construídas, em dois pisos, em épocas diferentes, na colina Capodimonte. Ela ocupa uma área de 5800 m2. E acredita-se que iniciou como cemitério pagão, convertendo-se em cemitério cristão no século seguinte (século III).

Nos anos entre 413 e 431 foram transladadas para lá as relíquias de San Genaro. Estudos posteriores as escavações identificaram a tumba em função do teto e da decoração.

As escavações mostram os locais onde eram sepultados os mortos. Algumas valas profundas, como as valas comuns de época de guerra, onde se coloca o corpo, terra, outro corpo, mais terra. Mas também se notam alguns arcos distintos, que aparentemente marcam espaços destinados a gente mais abonada em vida.

Dois afrescos mostram San Genaro junto com São Pedro e São Paulo, recebendo coroa de louros.

Pelo tamanho do local pensei que podia ter abrigado vítimas da peste negra na Europa. E perguntei à guia. Ela nos disse que as vítimas da cólera, em meados do século XIX. Mas pelas datas das catacumbas, suas proporções e a época da peste, no século XIV, eu acredito que as vítimas desta epidemia que matou 2/3 da população europeia também ali estão enterradas.

Ela nos explicou também que a restauração e todo o movimento cultural que envolve as catacumbas são realizados por cooperativas de napolitanos, com ajuda da iniciativa privada, que vêm promovendo o restauro e a incursão no mapa turístico da cidade.

Eu não sabia o que esperar do local e encontrei muito mais do que jamais esperei.

Conta a história que em uma das erupções do Vesúvio, em dezembro de 1631, as pessoas se esconderam onde estava seu corpo, na Catacumba, e rezaram fervorosamente pedindo a proteção do santo. E a cidade foi salva. E 3 vezes ao ano, uma relíquia, que é o sangue sólido de San Genaro, que foi recuperado por uma mulher piedosa quando ele foi decapitado, e se conserva em frascos na Catedral, é apresentado aos fiéis que esperam sua liquefação para saber que o santo continua protegendo a cidade. O ritual é realizado no dia 19 de setembro, aniversário de morte do Santo, no primeiro sábado de maio e no dia 16 de dezembro.

Encerrada a visita, o casal saiu lá por baixo mesmo, em direção ao centro. Eu voltei com a Titty e a outra aprendiz porque queria ir ao Museu Real Bosco di Capodimonte.

Fiz umas fotos externas da Basílica dell'Incoronata ou Madre del Buon Consiglio porque está em reforma e não achei como entrar.

E contornei um jardim para subir os 142 degraus até a rua que leva ao Museu.

Lá chegando, vi que é um prédio imenso, no meio de um lindo jardim. E na bilheteria paguei 14 euros e na hora achei um pouco caro.

Estão acontecendo algumas exposições temporárias e tem o acervo fixo, em dois pavimentos do edifício.

Comecei no primeiro andar olhando as esculturas e pinturas, na maior parte com motivos sacros, o que era permitido na época Medieval. Já devo ter dito que as esculturas sempre me agradam mais. Ou mesmo quadros com alto relevo.

Alguns bustos em mármore são impressionantes na riqueza de detalhes, em especial das vestes.

Depois fui para a área das porcelanas e outros objetos. E fiquei encantada com a capacidade dos artistas de realizaram com tanta minúcia os trabalhos em materiais nem sempre maleáveis. Bronze, porcelana, cera, madrepérola. Que encanto!

Mas os homens não ficam entediados. Há um espaço reservado às armas de fogo e brancas, às armaduras, e tudo em perfeito estado.

Um cavalo quis fazer uma selfie comigo. E depois ficou todo agradecido e sorridente.

Por último, ainda neste andar, fui entrar na exposição temporária: Napoli di lava, porcellana e música, cuja temporada vai até 21 de junho. A mocinha que estava na porta me falou que eu precisaria de um áudio-guia, e teria que ir buscar na bilheteria. Ela não tinha autorização para me deixar entrar sem ele.

Desci, agora pelo elevador, porque a subida eu fiz pelos 4 lances de escadas com 17 degraus cada.

Quando comecei a caminhar pela exposição o áudio-guia já inicia com uma música. Ele vai explicando cada sala e o movimento artístico com suas tendências, nas diversas formas de arte.

E quando a gente muda de ambiente, algum dispositivo aciona meu áudio-guia e ele troca as informações para as do ambiente que ingressei. Isso sim é tecnologia. Parabéns!

E eu adorei essa parte da exposição. Os bonecos teatralizados são inseridos nos cenários para nos dar a ideia do como fazer, ou como usar, enfim, eles fazem com que a apreciação da arte fique mais leve, mais suave. Natural eu diria.

E são vários os temas que vão surgindo ao longo do tempo e das salas: tendências.

Primeiro fala da música Sacra.

Depois da música profana.

A sala do Grand Tour apresenta as diversas manifestações da arte.

Depois há o tempo da mania por motivos egípcios.

O movimento teatral.

A sala de coisas com motivos chineses.

E havia uma sala com as paredes tão ricamente decoradas que me causaram uma emoção indescritível. Fico tão feliz quando vejo o capricho e o amor que o artista, de qualquer campo, dedica à sua obra. Que parece que vemos o amor transbordando no resultado.

E tinha uma sala com motivos da natureza, onde pássaros, flores e frutas ganham espaço na decoração de louças...

E a sala da erupção, onde me parece que as pessoas ficaram acorrentadas no tempo.

E em outra sala com poltronas para a assistência, e muitos bonecos dando ênfase à produção cinematográfica, e na tela passa as fazes da vida de Pulcinella, desde o paraíso até a morte, sendo Pulsinella um personagem burlesco da comédia italiana. Eu parei para ver porque achei realmente cômico, na tipologia de filme mudo, tem uma grande teatralidade para se fazer entender.

E numa das últimas salas, os bonecos parecem que ampliam as cenas retratadas, dando continuidade.

E na última sala, projetores transformam as janelas em auditórios, e as cenas do cotidiano da cidade de ontem e de hoje, inclusive com a ação de incêndios, vai aparecendo como cenas de teatro, até com alçar de cortinas. Muito criativo.

E ainda tinha o segundo andar para ver. E era enorme também. Uma grande parte dedicada às pinturas. Algumas salas com os nomes dos autores famosos e suas obras. Em algumas obras, restauradas certamente, ainda é possível perceber a ação do tempo com um olhar mais minucioso.

E de outro lado as maquetes arquitetônicas de gênios da atualidade. E eu já estava exausta. Andei 4,3 km até o Museu, e dentro dele eu rodei mais uns 2 km. E ainda tinha a volta. E acreditem, fiquei umas duas horas e meia no Museu.

E na hora que sai, foi um choque de realidade. Lá dentro eu me senti em outro mundo, inquietante, porém cheio de paz. Propício à reflexão. Num palácio encantado. E lá fora o caos continua.

E comi uma mini pizza com chá num bar em frente ao portão de saída, chamado Porta Grande.

E voltei para ver o Palácio Sanfelicius com sua impressionante escadaria.

E passei em frente a Igreja si San Carlo All'Arena.

E também a Igreja dela Pietatella.

E por último na Igreja Renascentista Santa Caterina o Formiello, que me chamou a atenção na ida. E ainda estava aberta. Então nela eu entrei. E gostei muito, principalmente dos murinhos ornamentados, feitos com mármores coloridos, marchetados.

E já estava no hotel, louca para descansar. Mas ainda sem comer.

Estava no quarto esperando dar 19 horas para ir jantar quando lembrei-me de avisar que não iria tomar o café da manhã do dia seguinte no hotel.

E em seguida recebi um convite, pelo What'sApp para jantar. Apreciei e aceitei.

_ " Podíamos pedir uma comida e jantar na câmera."

Minha cara de espanto :o

_ " Mas o quarto é um pouco pequeno."

_ " Comemos em outra câmera."

_ " O que você quer comer?"

_ " O que você preferir."

_ " Preferia comer fora."

_ " Se me pegam posso ter problemas."

_ " Mas quem?"

_ " Minha mulher."

_ " Penso que é melhor eu comer sozinha."

_ " Pecado. Eu teria apreciado."

_ " Não é apropriado nesta situação. Não quero problemas e nem você certamente."

_ " Está bem, como você diz. Respeito sua ideia."

_ " Melhor assim. Mas fiquei feliz com o convite."

E assim, acabei indo jantar sozinha, uma pizza Marguerita com vinho tinto e água, no restaurante Amoroso, na mesma praça onde estou hospedada. Significativo o no me do restaurante não?

E a pizza estava boa, o garçom muito atencioso se desculpou por não falar português, só falava, além do italiano, espanhol, francês, inglês e alemão. Fantástico!

Mas vou dizer que mesmo com o ótimo atendimento, gostei mais da pizza na Sardenha.

E termino a noite cedo porque amanhã sairei às 8h para a Costa Amalfitana.