MÉRTOLA E ALCOUTIM - FIM DE SEMANA

21/08/2019

Demorei um pouco para relatar como foi meu fim de semana porque me envolvi no planejamento inicial da próxima viagem, mas isto merece um capítulo à parte.

Mértola é logo ali, e não senti necessidade de ir tão cedo. Deixei para arrumar minha mochila pela manhã, o que não é nada comum, considerando minha preocupação e ansiedade. Mas só 2 dias fora, tão pertinho. Tudo bem! Já estava no carro quando lembrei que não tinha colocado biquíni  na mochila, e ia a lugares com praias fluviais, será que iria me arriscar? Por via das dúvidas, ainda estava na garagem, em tempo de corrigir o esquecimento.

Saí um pouco depois das 10 horas do sábado, fui conduzindo por estradas cada vez menores e entrei no Parque Natural do Vale da Guadiana. O rio Guadiana é volumoso, nasce em território espanhol e deságua no Oceano Atlântico entre Portugal e Espanha, e representa um  limite entre estes países ao sul de Portugal.

O Vale me fez pensar no cerrado brasileiro, com árvores de pequenos porte, terra seca, arbustos que até pareciam sarça ardente. Aqui e acolá se observa alguma plantação, mais de oliveiras. Lugar quente e seco, muito seco. Não avistei o Rio da estrada e meu primeiro destino foi a Cascata do Pulo do Lobo.

O Google Maps me levou por 2 km de estrada de terra até um largo que pareceu-me próprio para estacionamento. Deixei ali o carro, sem nenhuma sombra, e desci por uma outra estrada, um pouco mais precária, mas que talvez o carro fosse capaz de vencer também, com o solo seco como estava.  No final desta um outro espaço menor, mas que também abrigaria bem o carro. Não importa, já deixei lá em cima mesmo. 

Agora tenho que descer uma estradinha íngreme, reta, cheia de pedras, e terra seca e arenosa, com pequenos fragmentos de pedra que, mal posicionado o pé, te levam a escorregar. Tenho mais medo das descidas, mas são as subidas que me tiram o fôlego.

Chegando lá embaixo, o rio corre entre uma infinidade de rochas que se amontoam formando um bonito cenário.  A estradinha termina bem antes do rio. Vejo na outra margem as pessoas se aproximando bastante, tem até uma estrutura de concreto como um mirante. Mas não sei como chegar lá, então vou explorar o meu lado. 

Caminho com cuidado por sobre as pedras até que consigo chegar no rio. Mas dali só avisto o início da queda, não a vejo.

Vou tentar circundar as pedras e atingir um ponto melhor de visão. Bem cansativo embaixo de um sol de mais de 40 graus. Minha boca começa a secar e a água ficou no carro. Vou rodeando, é bem bonito o lugar, apesar da dificuldade. Faltou uma mão para auxiliar e uma companhia para dar tranquilidade. Fui até o meu limite, consciente de que ainda tinha que retornar. E por fim só vi mesmo a rabiola do lobo depois que pulou. Mas não fico insatisfeita. Fui até onde supus poder ir sem me exceder. Não posso esquecer em nenhum momento de minha condição de viajante solitária.

Quando comecei a voltar chegou um casal, pareciam ter idade aproximada à minha. Num instante chegaram às margens do rio, e caminharam por sobre suas pedras, naquela margem e foram se aproximando da cascata, não fiquei observando muito para ver onde chegariam. Tinha que preocupar-me com meu próprio caminho, mas vi o homem auxiliando a companheira nas travessias. E tem momentos que não aprecio estar sozinha. Mas acho que todos somos assim né?

A subida foi longa e lenta. E nessa hora também me importou não ter levado o carro até o segundo estacionamento. Foram muitas paradas tomar fôlego, quando meu corpo aquece, meu nariz transpira e não consigo respirar por ele. Isso só piorou a secura na boca. Mas a água no carro ainda estava fresca. E a beleza do lugar superou qualquer desagrado.

Meu próximo destino é a Mina de São Domingos, uma freguesia pertencente ao Concelho de Mértola. Foi um lugar muito recomendado. Parece que faz as vezes de praia neste lugar quente e seco. O lugar foi explorado na extração de minérios como cobre e ouro até 1965, quando esgotaram os mesmos. A Praia é conhecida como Praia da Albufeira da Tapada Grande em virtude do nome da barragem, que foi construída no rio Guadiana para prover de água a vila que ali se formou para extração dos minérios. Albufeira é como os portugueses se referem às represas ou barragens. Serve também para designar uma depressão pouco profunda, coberta de água, que se comunica com o mar, na maré cheia. Assim existe também uma praia no Algarve chamada Albufeira. O rio Guadiana ou Odiana tem nessa região a barragem de Alqueva, que criou o maior lago artificial da Europa.

O lugar é bem popular mesmo. Tem uma grande área de estacionamento junto às árvores grandes. E tem até areia para o povo estender a toalha e tomar um solzinho. Na água as pessoas se divertem nadando, andando de caiaque, de barco ou de stand up. Há também um restaurante que abastece o local com diversos tipos de bebidas e lanches e aperitivos, e alguns pratos rápidos. 

Depois de ter passado 1h20 na Cascata, tinha sede ainda e achei conveniente comer algo. Pedi 3 salgados e expliquei, coxinha, croquete e risole. Quero um de cada. E recebi 5 salgados, pois ainda tinham empada e um outro tipo de croquete. Ainda não tive sorte com este tipo de salgado em Portugal. Acho que não é a área deles. Foram servidos frios. E são comíveis apenas. Comi os três que eu queria e deixei os demais para mais tarde. Tomei um Ice Tea e uma dose de Moscatel de Setúbal, que parece um licor, ou um vinho do Porto.

Não me animei a tomar banho no meio de toda aquela gente, não conseguiria nem passar entre tantos. O único que ainda despertou-me a atenção foi o caiaque, mas estava muito sol ainda, ou mais, e minha cabeça tendia a doer pela insolação. Não fui.

Passei uma hora mais ou menos na Praia Fluvial, um lugar para encontrar o povo alentejano e conhecer seus hábitos e costumes.

A caminho de Mértola passei por uma ponte sobre o Rio. E encontrei um lugar para parar o carro antes da travessia.

Na rua do Hotel o estacionamento é libre e não pago aos finais de semana. Observei que as árvores daqui não passam frio. Estão todas agasalhadas com trabalhos em chochê. Depois observei que ao pé de cada árvore tem uma placa com o nome de uma freguesia, o que me fez imaginar que talvez tenha sido alguma espécie de concurso.

A hospedagem teria check-in às 16 horas, o que acho tarde, considerando o check-out às 11 horas. Eles ganham 7 horas de uma diária. É quase  como o que chamamos de pernoite. Mas fui atendida mesmo assim. E instalada. A Paula, proprietária da Casa Rosmaninho, me passou orientações sobre o lugar. Questionei quanto aos horários de funcionamento.

_ " Até às 17h30, a maioria."

Pelo horário, convinha eu já iniciar as visitas, mas precisava de um banho. Mas nem troquei de roupa, foi só uma ducha para tirar o suor do corpo mesmo.

Depois segui ladeira de rua de pedra acima para conhecer o Castelo de Mértola, e no caminho encontrei a Igreja Matriz. Aproveitei para visitá-la. Muito simples, mas um aproveitamento do que foi uma mesquita, o que fica claro ao observar os arcos do teto, internamente. E assim, ímpar.

Ao pé do Castelo algumas ruínas.

Paguei 2 euros no ingresso pois o Castelo é hoje um Museu. Ele foi construído em nos anos de 1200, para abrigar a Ordem Ibérica de Santiago. Depois esteve por 5 séculos sob domínio islâmico. Você pode assistir um pequeno filme que situa as edificações do Castelo, as ruínas e a Igreja no tempo e na história. E depois subir. Ainda há uma antessala com outro filme e mais quadros explicativos e um último lance de escada para o topo, e de lá poder observar a cidade, caiada de branco entre dois rios, o Guadiana e seu afluente Ribeira de Oeiras.

Resolvi fazer um filme da parte externa, caminhando, durante 6 minutos aproximadamente, e quase a final do caminho o celular me informa que a câmera será desligada pois encontra-se superaquecida. E depois nem foto eu conseguia tirar. Realmente dava para sentir o celular todo quente. Comentei com um homem que visitava o local com sua família:

_ " Estou tentando tirar foto da estátua e não consigo porque o celular disse estar superaquecido. Nunca vi isso."

_ " Também, disse ele, estamos com 45 graus." Olhei o celular e me dizia 39 graus, mas na sombra né?

Voltei para perto do Hotel onde tem um Café Guadiana. Já tinha tomado um sorvete ali. Pensei em jantar mas disseram-me em outra lanchonete, que não fui muito com a cara, que os restaurantes só iniciariam as atividades por volta de 19h30. O que é razoável. Com calor e luz, ninguém deve ter vontade de jantar muito cedo. E Mértola é uma pequena cidade com pouco mais do que 7 mil habitantes.

No Café Guadiana optei por uma salada com camarões, tomei uma cerveja pequena e uma água, e comi um pedaço de torta de chocolate.

Pouco depois das 18 horas eu já me acomodei em meu quarto. Tinha pensando em ir as Festas Populares de Picoitos, outra freguesia de Mértola, mas desanimei pelo cansaço e por saber que a maior parte da estrada é de terra. Decidi não me aventurar mais por hoje. Um lugar desconhecido, à noite, por uma estrada de terra. Se as de asfalto, nas redondezas, já são quase sem movimento, imagine esta. Apesar da festa. Não. Melhor dormir porque amanhã irei para Alcoutim.

Depois de uma boa noite de sono, apesar das cortinas da janela serem transparentes e a luz da rua, durante a noite, e do sol, durante o dia, incomodarem um pouco.

Ontem tomei bem uns 3 litros de líquido por causa do excesso de sol. E hoje o dia, às 9 horas da manhã e já está bem quente.

Fui tomar café no mesmo Guadiana. É o mais próximo e tem bom serviço.

Pedi um croissant com queijo e uma queijadinha de requeijão e dois leites com chocolate da Ucal. O dono do lugar é 'simpaticão'. Mas ontem foi sua filha que me atendeu, então, melhor não olhar muito.

Alcoutim fica mais ao sul e já pertence ao Algarve, ligada ao Distrito de Faro. O município que envolve a Vila de Alcoutim e suas freguesias, possui cerca de 3 mil habitantes, mas a vila mesmo tem aproximadamente 900.

Fica à margem do Rio Guadiana e por sua importância geográfica possui as ruínas de um Castelo Velho, construído pelos árabes, fora dos limites da cidade. E foi o primeiro lugar pelo qual passei, pegando novamente 1,5 km de estrada de terra até ele. E pior, quando lá cheguei, não conseguia avistar sua localização.

Subi uma pequena ladeira a pé porque de lá de baixo via como que as pontas de uma muralha fortificada. Lá chegando vi que eram caixotes de apicultura. Mas a vista do rio a partir dali era estupenda. Também consegui ver as ruínas do Castelo Valho, agora, só me resta saber por onde subir.

Do outro lado da estrada tem uma outra pequena ladeira, que vai dar numa cerca de metal pintada de verde, e um portão fechado. Não acredito. Mas chegando perto vi que era só um graveto que detinha o portão. Depois soube que ali é um lugar que está sendo explorado ainda como sítio arqueológico.

Pude fazer minha própria exploração sem danificar nada . Do outro lado do Rio Guadiana, um ajuntamento espanhol, ou uma pequena vila. Dessa vez levei minha água.

O caminho até Alcoutim era adiante, na estrada de terra. Mas chegando na cidade, um quilômetro depois, já entrei nas ruas de pedras. No Centro não consegui uma vaga para estacionamento. Dei a volta e achei um lugar no alto bem agradável e com sombra, pelo menos naquele momento. Fui descendo pelas ruas estreitas observando as bonitas casas.

Cheguei ao Castelo de Alcoutim por volta de 11 horas e o calor ainda não tinha atingido seu pico. Também este é um Museu e tem um custo de 2,60 euros, e crianças até 14 anos não pagam, mas também não se interessam muito, kkkk

O atendente me disse em espanhol que havia um vídeo de 20 minutos, as instalações internas do museu, uma casinha onde têm jogos islâmicos do tempo de domínio árabe, e toda a área externa. Pedi para começar por esta, aproveitando que ainda não estava  tão quente o tempo.

É todo bonito e bem conservado. Fiz o filme que pelo tempo de duração publiquei no Facebook (Meyre Lessa). As redondezas também são belas e ele está inserido na vila. 

Com orientação do próprio atendente do museu, cheguei ao Cais Velho. Queria fazer um passeio de barco pelo Rio Guadiana. Mas o mínimo de pessoas são duas. Eles t~em diversos passeios, com preços e tempos diferenciados, pelo que observei numa tabela, depois. Pois, naquele momento, saía um barco para fazer só a travessia do rio, cobrando 2,50 por ida e volta. E tinha lugar para mim ainda. 

Chegando à Espanha, minha primeira incursão estrangeira desde que cheguei em Portugal, descobri estar no Ayuntamento de Saluncar de Guadiana. Estava de novo morrendo de sede. E havia uma festa, bem ali, na beira do rio, junto ao cais. As pessoas se juntavam em mesas, trazendo bebidas e comidas, como num piquenique.  Fui rodeando e descobri o lugar das bebidas, quando perguntei pelo preço, era de graça, pois estavam comemorando o dia do ayuntamento. Estavam dando pão também, mas não peguei. Tinha alguns lugares com grelhas em estruturas no chão, assando sardinhas, e algumas pessoas saindo com pratos deste tão apreciado peixe. Umas os levavam para a mesa, outros para o carro, e iam comer em suas casas. Mas era possível perceber a familiaridade de um lugar pequenos em que todos se conhecem. Já morei em lugares assim.

Eles também têm um Castelo, o Google informa que a 2 km, de subida, e de sol. Iniciei a caminhada, mas estou ficando fraca, e desisti depois de andar menos de um quilometro. De onde estava avistava o Castelo, mas corria o risco de estar fechado, já que era dia de festa. E olhando para baixo vi uma torre de igreja. Vou até lá então, pelo menos é voltando.

A Iglesia Virgin de las Flores também estava fechada. Tirei foto e procurei um lugar para sentar. Só vi um degrau formado por uma rampa de garagem, num terreno acidentado. E o carro estava na rampa, de modo que me proporcionava um esconderijo e uma sombra. Fiquei ali uns instantes para descansar e voltei ao cais.

O barco para retorno se encontrava na margem oposta, e sei que só viria quando houvesse alguém para atravessar. Pedi licença a um senhor para desfrutar de um pedaço da sombra da árvore que ele aproveitava. Ele deu um passo para o lado, para que eu pudesse me acomodar. Fiquei ali só olhando o rio e o movimento da festa, com a cabeça no nada, no vazio até que o barco saiu de Alcoutim.

Já passam de 14 horas e quero almoçar. Num restaurante bem frequentado, ali juntinho ao cais, peço um mix de carne de porco que é servido com salada e batatas fritas. E de bebida, uma água e uma ginger ale. Uau! Quando a vi no cardápio não pude resistir, nem lembrava o sabor. A sobra do porco eu trouxe para o almoço de segunda feira.

Agora vou tentar achar o carro. Só sei que está no alto, a cidade não é grande, e fico orgulhosa de mim, este ser sem orientação espacial que vos fala, quando consegui achá-lo indo por caminho diferente do da ida ou mesmo de quando sai de lá até o Castelo.

Coloco o Campo de Tiro de Beja como destino e lá vou eu. Mas pera aí... Essa rua é contramão? Parece que sim. Então acho que é por ali. Fui... Fui... Fui. Até que o caminho ficou estreito demais para o carro. Tive que voltar de ré, e o pescoço ainda não está aquela 'Brastemp'.  Daí me meti por outra ruela, e... mesma coisa. Só que nessa nem dava para voltar de ré. E para manobrar num espacinho de nada, foi um sufoco. E pego a subidinha de volta, naquelas ruas de pedra. Chegou na metade o carro parou e morreu. Desliguei o ar-condicionado para ganhar força no motor. Religuei, desci um pouco. E volta tentar subir, agora já rezando. Queimei embreagem, sentia o cheiro, mas consegui sair daquele buraco em que me meti. E enfim, estrada. 

Vim direto para casa e só fui chegar perto de 18 horas. Quando abro a porta da casa, um envelope. Estou esperando 3 documentos. Mas um é o mais importante. E quando abro o envelope, sim é ele. Meu cartão com a Autorização de Residência Temporária, com vencimento em 24 de julho de 2020.

Agora já posso sair do país. 

Amanhã mesmo já vou pensar para onde quero ir.