MADEIRA com chuva

19/12/2019

Quando fiz as reservas para a Ilha da Madeira, projetei um tempo de uns 15 dias, chegando dia 18 e partindo dia 03 de janeiro. As fiz num hostel com possibilidade de cancelamento. E deixei um alerta no Google Flights para acompanhar os preços dos voos. Porém, quando fui adquirir as passagens percebi que poderia pagar 2/3 do valor alterando as datas para o período de 17 de dezembro à 07 de janeiro. O que são 5 dias a mais para quem está com tempo de sobra. E a diferença do valor eu pago na hospedagem, e passeio mais tempo.

Após retornar da viagem pelos países escandinavos, decidi trocar também o hotel. Não queria mais compartilhar quarto. E achei um com um bom preço. Quando comprei as passagens e tive que ajustar as datas, já não havia apartamento disponível. Então fiquei um dia no Stay Inn.

E hoje o Antonio está me ajudando na transferência para o Residencial Melba e depois faremos outros passeios pela Ilha.

Choveu por grande parte da noite, o que foi bem agradável já que estava num quarto de sótão e tinha a impressão que a chuva caia sobre mim. Ótimo para dormir.

O café da manhã do hostel tinha um custo a parte de 5 euros. Achei melhor toma-lo no 'Pingo Doce' mesmo. E o fiz por volta de 10h30, já que o horário combinado com o guia era ao meio dia. Gastei $ 3,80 e tomei suco de laranja, uma média, um sanduíche de presunto e queijo, com pão integral e tomate, e um sonho (que aqui chamam de bola de Berlin). O suficiente para postergar bem o almoço.

Escolhi um quarto no térreo, acho que paguei um com varanda, mas os com varanda são no primeiro e segundo andares, e prefiro economizar minhas pernas para os passeios. O quarto é bem amplo, ainda maior do que o de mi há casa em Beja. O colchão é bom e o chuveiro tem bastante água quente. Oh Glória!

O dia hoje está chove não chove. E com muitas nuvens. Ainda bem que o passeio de hoje é todo de carro. Eu sai sem roupa de chuva porque estava calor.

E o que fizemos foi passar em outros miradouros ao longo da ilha. Onde pude contemplar outros aspectos de relevo, de agricultura, de moradias, de vegetação...

Iniciamos pelo Pico de Barcelos. Ali o tempo estava seco e tive um boa vista da área urbanizada do Funchal, que é uma cidade muito maior do que eu esperava, concentrando 1/3 da população total da ilha. Tem um cruzeiro no Miradouro e também vimos a formação de um arco íris que se aninhava entre duas montanhas.

Depois fomos ao Fajã dos Padres, onde descobri o que é um Fajã. É um terreno plano, em geral cultivável, à beira mar. Considerando as características do solo e as dimensões da ilha, todo terreno agricultável é bem vindo. Ali tem o teleférico com o maior ângulo de inclinação de toda a ilha. Mas ele se destina principalmente ao transporte de mercadorias, insumos que descem, produtos agrícolas que sobem. Mas também é usado pelas pessoas depois que foi atualizado. O esqueleto do teleférico antigo está lá ao lado ainda. E nessa época as pessoas usavam uma trilha. Observem a inclinação dos cabos nas fotos. E lá embaixo, o Fajã. Tivemos que apressar o passo até o carro para não nos molharmos.

O Cabo Girão tem uma estrutura turística bem organizada, possuindo até um avanço em telas de aço e um pedaço em vidro para apreciação da escarpa e do mar lá embaixo. Mesmo sabendo da segurança, tive que andar sobre o vidro sem olhar para baixo. E nesta parada, foi só descermos do carro para iniciar uma chuva mais grossa. Uns minutinhos na lojinha de lembrancinhas e a nuvem foi embora. Neste miradouro é possível chegar através de um trenzinho turístico que sai da Câmara dos Lobos (um dos concelhos da Ilha).

Eu fiz algumas fotos pelo caminho, achando interessantes os degraus que eles fazem nas montanhas agricultáveis, para poder plantar. Técnica usada pelos Incas, no Peru. O Antonio me disse que a zona mais baixa é usada para a plantação de bananas, depois vem a área para as uvas dos famosos vinhos da Madeira, e bem no alto tem uma pequena região onde se planta uma cereja de vermelho claro e menor do que a mais comum, típica daqui, e que só é produzida naquele pedacinho de chão. Anualmente ocorrem duas festas nesta parte, a da florada das cerejas, com atividades desportivas. E a festa da Cereja, uma festa mais gastronômica.

Para chegar ao Fajã do Cabo Girão existe um outro teleférico, um pouco menos inclinado, e lá do alto podemos observar, além do Fajã e da escarpa, um simpático restaurante que nos dá as boas vindas com pedras sobre o telhado. E parte da costa sul, e seus recortes povoados.

Do Miradouro do Pico da Torre podemos observar a simpática Baía da Câmara dos Lobos. Ele está a 205 metros de altitude e na visão 360 graus, temos também uma boa parcela de áreas agrícolas e urbanas, além do mar.

Na Eira do Serrado, que estava no programa, chovia. E tínhamos que caminhar um pouco até o topo da montanha para chegar ao miradouro. Eu preferi não descer.

Pegamos uma estradinha bem tortuosa, com muitos galhos e mato seco caídos na estrada. As chuvas foram intensas nestes dias, e, segundo o Antonio, só está com condição de passagem porque a administração pública faz um trabalho de limpeza e conservação constante. Pedi ao Antonio que no retorno parasse um pouco para eu fotografar as parreiras, que são plantadas aproveitando a inclinação dos terrenos e estão com as folhas todas avermelhadas. Muito lindo.

Chegamos a Boca dos namorados, mas a nebulosidade estava tão alta que eu não vi nem os namorados, quanto mais as suas bocas, kkk. 

E de lá seria possível avistar o Curral das Freiras, região acidentada e que tinha difícil acesso nos séculos passados. Era um local de nômades e foragidos, justo pela dificuldade de acesso. Hoje um túnel construído no governo do Dr. Alberto João Jardim, tornou o acesso fácil ao local.

Aliás, este governador foi reeleito e governou por mais de 37 anos a ilha. Tido por alguns como um ditador, na visão de meu guia, que devo endossar com o que vejo, ele foi um visionário, que possibilitou o desenvolvimento da ilha através da comunicação rodoviária, escolas em todos os povoados, ampliação do aeroporto, e hoje o que consta é que a ilha é a segunda região mais rica de Portugal, com 103% do PIB per capta. Resultados do turismo crescente com o maior número de aviões que aqui pousam e decolam, e do comércio do mundialmente conhecido vinho da Madeira, além de ser um local de clima ameno o ano inteiro e de paisagens naturais espetaculares, que ainda vamos conferir. Todo mês ocorre alguma festividade para proporcionar divertimento à população e aos turistas. Mas são o Natal e Ano-Novo os mais chamativos.

A Madeira teve sua importância histórica também como laboratório de Portugal nas iniciativas que depois implantava no Brasil, por exemplo o do cultivo da cana de açúcar. Até hoje produzido aqui, o açúcar que além de outros usos, também se transforma no tradicional Bolo de Mel da Cana.

Nas 5 horas em que estivemos passeando pela ilha, só paramos numa lanchonete onde comi, por volta de 16 horas, uma queijada de castanhas portuguesas e uma xícara de café. Tinha levado água, que consumi ao longo do caminho.

E fiquei no hotel passando um pouco das 17 horas. Tempo de tomar um banho, ler as mensagens e sair para jantar num restaurante que fica a menos de 100 metros do hotel. O Cá te Espero. Ele tem dois andares, mas o mais utilizado é o superior. Estava todo enfeitado com motivos natalinos.

Fui muito bem atendida por um garçom que me sugeriu o Peixe a Caprice, que efeito com o filé do peixe espada, muito comum aqui na região, e bananas. Prato típico da Ilha. Adorei, leve e tradicional. Ainda comi na entrada o bolo de caco com manteiga de alho. Na verdade é um pão. E é servido nos moldes do nosso pão de alho, aquecido. Muito bom. E foi o que combinou com o meu errôneo pedido de vinho tinto. O peixe tinha um sabor muito suave, que pedia um vinho menos encorpado.

Mas como surpresa e extrema gentileza, ganhei uma pequena taça do vinho seco da Madeira, produzido por um funcionário reformado em sua propriedade particular. A venda deste vinho está proibida no comércio de toda a Madeira, só quem o consome são os locais, de produção própria. E eu o achei fantástico, você sente o aroma e o gosto da uva, É seco e tem um pouco de acidez, e um sabor diferenciado de tudo que já provei na vida em termos de vinho. Não posso dizer que foi o melhor de todos, porque cada um tem uma característica diferenciada. Mas posso dizer que foi um extremo prazer saborear este vinho. Queria manter o último gole na boca, para que não tivesse fim. Mas como a vida, é impossível retê-la, só se pode mesmo é apreciar.

E consegui voltar para o hotel sem trançar as pernas.

E depois de fazer a postagem do primeiro dia, dormi como um anjo, sob chuva, até meio-dia. Perdi o café da manhã e só sai para ir ao Pingo Doce mais próximo almoçar. Mas amanhã o tempo já começa a melhorar...