LISBOA - FINALMENTE:  e não me canso de te ver.

24/08/2020

Meus últimos dias em Beja foram tranquilos. Preparei tudo com antecipação e pude desfrutar da tranquilidade e beleza do lugar, ativando meus sentidos, para decorar as sensações de paz e aconchego, ouvir os sons da natureza, olhar o nascer e o por do sol, as nuvens no céu, o sacudir das árvores pelo vento. Sentir o cheiro da terra seca. E me despedir da senhoria que me recebeu com confiança e gentileza. E se tornou uma das poucas amigas que fiz em Portugal, além do Sr. Jorge, o taxista, e da vizinha Catarina. Pessoas amáveis que tornaram a minha estada em Beja um tempo muito agradável.

E os inúmeros gatos... E o cãozinho preto, que também se mudou para outro monte, uns dias antes de minha partida. Infelizmente, sem se despedir.

E uma semana antes de sair, notei a ausência do grande gato cinza e da pequena mamãe recente, a gatinha dengosa, de duas cores. E ouvia miados como se estivessem no forro da casa. Mas dona Rosalita me disse que não era possível. Que, no máximo, caiam pássaros pela chaminé, sobre o fogão.

- Nunca lhe aconteceu?

- Sim, mas foi um lagartinho, que agora vive comigo.

- Ah. É bom. Eles são inofensivos e comem outros insetos.

Mas os miados continuavam, e os gatinhos sumidos. O irmão dela, o com mancha de bigode no nariz, aparecia, e muitos outros desconhecidos. Mas nada dos dois pelos quais desenvolvi maior afeição. E quando eu estava no banheiro, e ouvia o miado, parecia que me respondiam pelo tubo de ventilação da casa de banho.

Voltei a falar com Dona Rosalita, explicando que a porta do sótão estava fechada. Isso despertou a preocupação dela, porque os gatos realmente entram lá, mas a porta fica sempre aberta. Mas ela, evidentemente, assim como eu mesma, não tinha condição de subir lá. E só no dia seguinte, o anterior a minha saída para Lisboa, o neto dela estaria por ali e poderia ver o que fazer.

E no dia 18, o Antônio foi lá, mas a porta é de fechamento automático, e o puxador é para dentro, sendo chaveado por fora. Mas ninguém sabia onde estava a chave. E como eles tinham compromissos, a solução ficou para dia 19. Mas eu não estaria mais lá para ver. E não tranquilizei.

Dentro de casa ouvi um barulho que parecia de uma serra. Saí para verificar e dois homens trabalhavam nos telhados, com um ventilador de folhas, limpando o local. Expliquei o que aconteceu e o mais velho subiu para olhar, pedindo ao mais jovem que trouxesse um cano longo que eles traziam, com uma das pontas achatadas. E com o utensílio certo e um pouco de força, ele conseguiu abrir a porta. Fiquei tão agradecida. Eles desceram. E eu chamei a gata. E ela desceu rapidamente. Peguei-a e levei até a comida. Mas ela é tão meiga que comia um pouco e vinha se alisar em minhas pernas. Até que entrei na casa e a deixei comer sossegada.

Mais tarde, mesmo com as vasilhas de comida ainda cheias, ouvi miados e fui olhar. Pois eram o gato cinza e ela, e não tinham motivo para me chamar, a não ser para agradecer e se despedir. Até agora, enquanto escrevo, me emociono. Eu comprei uns 10 quilos de ração e deixei com a vizinha, para alimentar os gatos. Eles têm um cachorrinho, e parecem gostar dos bichinhos. Só deve ser suficiente para dois meses, mas os bichinhos comem também passarinhos, ratos, sapos, e coisas que gatos de sítio comem. A ração é um complemento, e o cuidado com a água é importante, já que este é um item de menor disponibilidade. E, no mais, só pude abençoar as pessoas, os bichinhos, e desejar que sejam protegidos e sigam seus caminhos. E agradecer, pela acolhida, desde à casa até aos animais, passando pelo meu anjo da guarda, e pela senhoria. E era hora de deixar para trás este espaço que me acolheu por mais de um ano.

No dia 19, na parte da tarde, depois de me instalar no My Home in the City, no Campo Pequeno, fui devolver o aparelho da Via Verde que instalara no carro e cancelar o contrato. E passei em frente a uma casa de lingeries com tamanhos de A ao KKK. Eu adoro lingerie, é uma coisa em que tenho prazer em gastar. Passei mais de um ano viajando e só comprei, de coisas de valor, um óculos de sol, tênis e lingerie. As poucas roupas que eu comprei, eram tão descartáveis, que quase nenhuma entrou na mala de viagem. E passei umas horas agradáveis experimentando peças com uma consultora, que, por sinal, me ensinou a vestir o sutiã. Misericórdia! Tenho 56 anos de idade, e só agora aprendi. Creio que é bom para quem tem seios fartos. E vou ensinar, quem sabe tem mais gente na mesma situação que eu. Passe os braços pelos buracos apropriados, incline o corpo para baixo e para a frente, deixando os peitos pendurados. E aí pegue as pontas para fechar, às costas, fechando quando volta à posição inicial. Depois é só ajeitar. Achei bem mais fácil.

E tirei fotos de uns lindos casarões ali na Avenida República, voltando para o hotel. E do Campo Pequeno, que parece uma Arena de touros.E jantei artigos que adquiri no Pingo Doce, em uma das lojas desta rede de supermercados, localizada no complexo comercial do Campo Pequeno, bem pertinho do hotel.

O dia seguinte eu reservei para cortar o cabelo e fazer algumas mechas, como chamam por aqui, que fiz no Shopping Vasco da Gama, no estúdio Jean Louis David, com a excelente cabeleireira Ana Paula, uma mineira que além de mãos de fada, tem uma simpatia de dar inveja. E conversamos por três horas enquanto ela fazia a minha transformação. Antes disso passeei pelo shopping a procura dos últimos itens que ainda queria acrescentar à minha bagagem. Levei uma mala grande e uma pequena. Voltei com uma grande, uma média, e uma pequena. Até que não aumentei muito o volume de pertences né? E como neste dia chovia, achei o passeio satisfatório e suficiente.

A sexta-feira estava reservada para a despedida das amigas brasileiras que moram em Lisboa. A Aline e a Monalisa, ambas trabalharam comigo em Cotia - SP, e estão há dois anos em Portugal, mas ainda não tinham conseguido se encontrar. Precisei partir para me despedir de ambas e elas se encontrarem. Mas são jovens, e quando a gente é jovem, a vida é cheia de preocupações e responsabilidades com o mundo, e os poucos momentos que sobram para se dedicar a si mesmo e aos relacionamentos, se esvaem rapidamente, num eterno recarregar de energias. E nem sempre resta mais tempo do que aquele dedicado pelos meios virtuais de comunicação àqueles tantos que te ajudaram a construir a sua história. Eu sei. Também já fui assim. Hoje, quanto mais o tempo passa, mais sinto a importância de abraços e beijos, de contato presencial, de conversas longas, gargalhadas, choros no ombro, ou simplesmente o silêncio da cumplicidade, da intimidade de quem se permite.

E, às 15h30 horas nos encontramos no El Corte Inglês, na estação São Sebastião do metro. E para onde fui a pé, pois estava muito perto de minha hospedagem.

Cheguei um pouco antes e explorei o local, e pude constatar que é mesmo o Shopping que minha mão gostaria de passear e fazer umas comprinhas. Depois aguardei as meninas na calçada exterior, junto à porta principal. A Aline chegou primeiro, e no Starbucks, logo ali ao lado, ficamos colocando as conversas em dia e aguardando a Monalisa, que chegou com um pouco de atraso porque vinha de mais longe, e tinha um compromisso que se alongou um pouco além do previsto.

Meninas, que deliciosa conversa. Toda mulher precisa de amigas com quem conversar trivialidades, ou desabafar, é mesmo como uma terapia. Certamente, as mulheres que não têm essa oportunidade, são mais ariscas, ou nervosas, ou têm mesmo que procurar terapia profissional. As minhas últimas gargalhadas foram quando me encontrei com as amigas brasileiras, Cristina, e Cláudia, em março. Ficamos até 19h30 aproximadamente, conversando e comendo algo. E pudemos atualizar-nos quanto aos aspectos principais da vida de cada uma. E estamos nos acertando.

Como a Aline tinha um compromisso noturno, a Monalisa a deixou na estação Sete Rios e nós duas fomos para a LX Factory, que eu desejava conhecer. Achamos uma vaga na rua, bem fácil, já ultrapassado o horário de pagamento.

E fomos caminhando pelo local. Eu tinha a impressão que era como um grande baixo, recuperado, com muitos comércios, mas são duas ruas e travessas, onde foi conservada a aparência meio decadente, e transformada com tintas coloridas e plantas. Alguns bares, e lojas de artigos diversos, mas em pequeno número. Até um bar, o Rio Maravilha, que prometia uma bonita vista da Ponte 25 de Abril, fechou definitivamente pelo que nos informaram. Não é o consta na internet. Mas enfim, matei a minha curiosidade, tirei bonitas fotos dos grafites e pichações do lugar. E, o mais importante, em companhia de uma grande amiga, conversando muito.

E já era quase oito horas quando fomos para o Cais do Sodré, apreciar as luzes do por do sol, o movimento e escolher um local para nosso jantar.

O Restaurante Mano a Mano foi o eleito. Uma proposta de comida italiana. Não tendo reservado, pedimos uma entrada e vinhos e aguardamos a liberação de uma mesa, enquanto preparavam nossos pedidos. Minha amiga queria uma massa recheada, e pediu o ravióli ao funghi. Que também gostei. Mas decidi por um espaguete ao molho de gorgonzola e pistache. Minha escolha foi, principalmente pelo queijo que, infelizmente não se fez notar no paladar e no olfato. Mas a massa é artesanal e estava muito boa, apesar de adocicada. Eu provei o ravióli da Mona e estava muito giro, conforme gíria daqui. Mas meu vinho tinto italiano Chiantio estava sensacional. E ao nosso lado, dois belos italianos deixaram a vista mais bonita. Na hora de pagar, informei minha impressão sobre o prato, para que o corrijam. Vejam: não como comida salgada, e não tenho um bom paladar, mas senti a comida doce. A explicação é a de que, por ser o gorgonzola um queijo muito forte, para não se sobrepor ao sabor do pistache, tem que ser em pequena quantidade. Eu sei disso, mas acredito que o pistache, que essencialmente é uma castanha cozida em sal, mas adocicada também, faria um bom contrate com o queijo. E quem gosta de gorgonzola, quer sentir o seu sabor. Não me convenceu a explicação. Mas não acinzentou nem um pouco o meu dia colorido de amizades.

Minha amiga me levou até a porta de minha hospedagem, e como se não bastasse estarmos conversando desde as 16 horas, ainda tínhamos assuntos infinitos, e relevantes, para conversar. E sendo minha jovem amiga uma mulher que muito admiro por sua coragem e determinação, que luta pelo que quer, e alcança sonhos que para muitos parecem impossíveis, ela tem uma bagagem de conhecimentos que proporcionam uma troca produtiva. E assim, ficamos até às 3h30 conversando. E depois ela foi para Sintra, onde reside. Por sorte, sem trânsito, em vinte minutos ela estava em casa. E eu só posso agradecer a estas duas queridas amigas por uma despedida tão amável. E oferecer meus préstimos no que estiver ao meu alcance.

No último dia, o sábado, eu queria ver a Feira da Ladra, e o Francisco, do My Home in the City, muito prestativo e gentil, descobriu para mim que a feira retornava neste mesmo sábado, depois de um grande período de inatividade por causa da pandemia. Sorte grande. Ou não?

Como levantei tarde, temi por a feira estar com horário diferenciado. Ainda assim, fui para lá. Usando o metro. Eu tive a oportunidade de usar as quatro linhas do metro de Lisboa, classificada por cores, como em São Paulo. 

E, saindo sem café da manhã, parei já no destino, no Restaurante Allfama, e comi uma Açorda de Camarão, porque minha amiga Aline me disse tratar-se de um prato alentejano, a açorda, e que não tive a oportunidade de provar antes. Parece-me que é feito com carnes diferentes, mas sua base é de molho e pão amassado. Delicioso ! E a apresentação estava linda. E tomei uma taça imensa de sangria. O local é pequeno, mas apreciei muito a comida e o serviço. E foi a primeira oportunidade de conhecer toda a fama de Alfama, um bairro muito badalado de Lisboa.

A Feira da Ladra não estava a todo vapor, mas é um local interessante para comprar lembrancinhas e algum artesanato diferenciado. Mas o público estava bem pequeno. Aliás, como em todos os locais turísticos. Ela é montada ao lado do Panteão Nacional, prédio bonito afogado no meio do bairro por tantas outras construções residenciais. E saí por outro lado, passando em frente ao Mosteiro de São Vicente de Fora.

Dali eu fui até o Mirante da Graça, onde esta a Igreja da Graça e o Museu. E dali nós temos uma bonita vista da Ponte 25 de Abril e do Castelo de São Jorge. E de todo o casario que se espalha ao longo do caminho até o horizonte.

E na Igreja fiz meu costumeiro agradecimento enquanto se realizava um casamento em época de Corona vírus, com pouquíssimos convidados.

Fiz um caminho diferente, passando por dentro de Alfama, e descobrindo muitos bares e restaurante sem todos os cantinhos, e algumas lojinhas. Muito convidativo. Explica-se porque é tão atraente aos turistas e, talvez até aos lisboetas que gostam de badalação. E logo cheguei à Estação Santa Apolônia, com comboios e metro. E por várias vezes vi o bonde passar.

Às 17 horas chegava de volta à estação do Campo Pequeno rumo ao hotel, para um banho, um lanchinho de restos, e uma soneca, despertando às 20h15 para me ajeitar e sair para o aeroporto.

E encontrei um UBER simpático e aparentemente bonitão, por trás da máscara, é difícil afirmar, que me levou rapidamente até ao aeroporto. E, uma vez lá dentro, percebi muitas mudanças no acolhimento de bagagens. As máquinas de autoatendimento resolvem tudo, desde o check-in, como a conferência de passaporte, a emissão de bilhete e de etiquetas para a bagagem. Depois levei as malas, já etiquetadas (nesta parte necessitei de ajuda) até as esteiras, onde uma funcionária conferiu o peso das malas, uma com 24,7 Kg, a outra com pouco mais de 20 kg, e isso não gerou nenhum comentário. O que foi um alívio. A mala mais leve travou e eu não consegui abrir o fecho. Ia ser um transtorno se eu tivesse que remanejar bagagem.

E o aeroporto estava bem vazio, por causa do horário também. E não tinha fila em lugar nenhum. E tive que esperar bem pouco até o portão de embarque ser definido. E lá chegando, em poucos minutos o embarque foi autorizado. E eu notei poucos passageiros. E a aeronave era grande, daquelas com fileiras de dois lugares nas laterais, e de quatro no centro. Com três banheiros, um exclusivo para os passageiros da primeira classe. Mas a quantidade de passageiros se espalhou confortavelmente pelo pelos diversos lugares disponíveis. E eu não tinha ninguém ao meu lado, nem atrás ou na frente. E fiquei feito uma ilha, com espaço e tranquilidade. Estava tão preocupada com isso. E o voo transcorreu às mil maravilhas. E a aterrizagem em São Paulo foi com dia de poucas nuvens, sem chuva. No dia anterior me disseram que chovia muito na cidade. Então só me resta agradecer, mais uma vez, pela ida, pelo decurso do ano, e pela volta, na mais completa paz, saúde e alegria.

E agora vou fazer a quarentena salutar, garantindo assim a segurança de minha família ao me recepcionar.

Obrigada a vocês todos que viajaram como "Por Essa Linda Jornada Chamada Vida." E aguardem o livro, que já está quase finalizado, mas que ainda não sei como será a publicação, virtual ou não. Mas o título é esse aí.