LISBOA - FINAL DE SEMANA

17/10/2019

SÁBADO

Dormi um pouco melhor nesta noite, certamente devido o cansaço acumulado. Apesar de estar em um quarto individual, as paredes do apartamento me parecem muito finas, e um estreito corredor que faz às vezes de hall, comunicando todas as dependências, também alastra os ruídos das mesmas, e canaliza o vento que entra pela janela do banheiro, abrindo as portas. Assim que, tendo levantado um pouco mais tarde, encontrei minha porta entreaberta ao acordar.

O dia amanheceu quente e bonito, mesmo com as previsões de chuva. Lisboa também tem um ar muito seco, que se faz sentir na pele, nos cabelos e nas narinas dos alérgicos, como eu. Creio que também por influência, ainda, do ar desértico do Saara. Digo ainda porque, no Alentejo, se faz sentir com maior intensidade.

Minha primeira visita é ao Arco da Rua Augusta, que tenho certeza que comprei o ingresso antecipado pelo GetYourGuide, mas não acho. Ainda bem que o valor é de apenas 3 euros. O acesso é pelo elevador até o primeiro andar, de onde se tem uma vista parcial da cidade e das estátuas que fazem a base do conjunto, além do mecanismo do relógio e do sino. O acesso ao topo é feito por uma estreita escada em caracol, com sistema de acesso por acionamento de botão que indica se está livre a passagem sinalizando com luz verde ou vermelha. São 70 degraus. Mas leves e fáceis de transpor. As vistas fazem com que realmente valha a pena o esforço empregado. Em frente temos a Praça do Comércio, aquela que mencionei com os quatro grandes edifícios amarelos fazendo amurada.

Meu próximo destino seria o Elevador de Santa Justa, 7 quadras adentro. Ainda bem que, agora, no plano. E o caminho me proporciona observar mais destes lindos edifícios azulejados e multicoloridos.

O elevador nada mais é que um mirante numa belíssima estrutura de aço, que com fundo azul do céu, como tive o privilégio de ver, torna-o um destes lugares imperdíveis de Lisboa. Subindo-o se chega ao Largo do Carmo. Na ruas do entorno, vários restaurantes com mesas instaladas nas calçadas de pedestres. Um músico brasileiro tocando uma canção francesa. É como o cenário de um filme romântico e a gente se deixa enlevar (vide vídeo no Instagram @ lessa meyre) ou no Facebook: Meyre Lessa).

O músico conversou comigo e se apresentou como Rodolfo, de Curitiba. Já esta aqui pela segunda vez, a primeira por sete anos, e agora a seis meses. Perguntou-me o que farei à noite, fiz-me de desentendida, porém lhe disse a verdade:

_ " Não costumo sair à noite, e fico em minha hospedagem relatando o que fiz durante o dia, até porque estou sozinha."

_ " Mas aqui não perigo nenhum em sair à noite."

_ " Eu sei, mas não tem graça sair só durante a noite."

_ " Mas você não sairá só, estou te convidando para tomar uma cerveja. Hoje estou de folga no hotel em que trabalho e gostaria de sair com uma amiga para tomar uma cerveja."

Pensei. Titubeei. Não tem surgido oportunidades de sair acompanhada a noite, ele disse que quer sair com uma amiga, está bem, acho que posso lidar com isso.

_ " Tudo bem, então. Saímos."

_ " Passe-me o endereço de onde está hospedada."

O nome da rua é difícil e ele fez relação com aquela música da Rita Lee, o trecho que diz "Porra meu...", porrais... Mas é Poiais de São Bento. Kkkk

_ " Às 8h30", disse ele.

_ " Não poderia ser mais cedo? Assim volto a tempo de escrever ."

_ " Você pode me encontrar aqui então?"

_ " Ah! Neste horário ainda estará trabalhando aqui. Não, pode ser às 20h30 mesmo."

Eu estava achando que seguindo em frente , na rua principal, iria sair perto da Estação Baixa do Chiado, mas ele me disse que ali era o Róssio. Que legal, estava em meus planos mesmo. Então deixe-me seguir adiante.

Duas lindas barracas de flores fizeram o enquadramento da Estátua de Dom Pedro IV, no centro da Praça do Róssio. Uma linda fonte e o Teatro Dona Maria Antonia I ao fundo. Gostaria muito de assistir a alguma apresentação neste local.

Logo à direita, no Largo de São Domingos, uma igreja com o mesmo nome foi vítima de um incêndio. Seu interior ainda chamuscado, apesar do ocorrido em 13 de agosto de 1959, ela foi reaberta ao público em 1994, mantendo as marcas de seu passado recente. Ela já foi vítima do terremoto de 1755, e reconstruída. Ela tem um tom cinzento de energia, que me fez ter uma sensação de tristeza, poucas vezes por mim sentida dentro de igrejas.

Dei a volta por trás do Teatro e sai na Praça dos Restauradores, ao lado da Fábrica da Nata. Um café da manhã foi tardio e ainda não estava com fome, mas como resistir a tentação de comer um dos melhores pastéis de nata de Portugal, conforme indicação do proprietário das 'Maltesinhas', em Beja, que também os fabrica. Ou seja, uma boa indicação.

Pedi um bolinho de bacalhau e um pastel de nata e fiquei encantada com o sistema de preparo do pastel, aéreo, passando sobre nossas cabeças e por um forno, até chegar aos nossos pratos. O lugar aqui é mais conhecido pelos locais e não fica fervendo de gente como o dos pastéis de Belém (vídeo no Instagram e Facebook já mencionados acima).

Próximo destino: Igreja do Carmo, ou melhor, as ruínas da mesma. Terminei a volta ao Teatro e subi pelas escadas rolantes da Estação do Róssio, por sinal, esta sim uma bela estação. Um pouco mais de ladeira.

O Largo do Carmo é charmoso e abriga algumas lanchonetes no entorno. A Igreja tem sua estrutura exterior preservada. Esta foi vítima do terremoto. Antes de entrar e apreciar suas ruínas, andei em volta, chegando ao elevador de Santa Justa novamente. Seu último lance é feito por escadas em caracol, em dois de seus lados. Pensei em fazer a visita ao Carmo e retornar por ele.

O ingresso às ruínas do Carmo e ao seus Museu Arqueológico custa 5 euros. E lá dentro tive a sensação de estar na melhor igreja do mundo, mesmo não conhecendo todas. Como todo o teto desabou no terremoto você avista o céu e é lá onde colocamos Deus. O Deus do Universo, que criou o céu e a Terra. E olhando para cima você vê o tempo passando rápido, com as nuvens brincando ao sabor do vento. É uma conexão intensa, verdadeira, emocionante, pelo menos o foi, para mim, até porque tive a sorte de ter um lindo dia com azul vibrante de outono no céu.

No Museu, o que mais me chamou a atenção foram mesmo as estruturas. O acervo possui peças originarias de diversas partes do mundo, inclusive uns esqueletos peruanos. Cenas bíblicas retratadas em azulejos, alguns sarcófagos, na maior parte itens de conotação religiosa. Uma sala apresentava um filme, mas só pude ver os minutos finais da última exposição do dia.

Na saída notei um espelho, chegando perto vi que tem o formato de caixão, não me atrevi a postar-me em frente, mas o usei para refletir a beleza do local.

Um simpático gato apareceu na escadaria de saída, deixando-se acariciar por toda a gente.

Ao sair perguntei ao bilheteiro sobre a Igreja de São Roque, ele me indicou a direção e fez notar sua predilecência por este lugar. No caminho encontrei mais dos mimos da cidade.

Ao lado da igreja está a Santa Casa de Misericóridia e o Museu, este pago.

Mas o acesso à igreja é gratuito e ao entrar entendi porque é a predileta do bilheteiro. São várias capelas com muitos adornos em ouro. A riqueza de detalhes leva ao período do rococó. O teto possui uma magnífica pintura, é um dos itens que mais me chama a atenção. São eles: Estrutura, teto, órgão de tubos, pisos e estilos de decoração, não necessariamente nesta ordem.

E uma sala apresentava uma exposição temporária da vida de São Francisco Xavier pelo pintor André Reinoso (1619).

Olhando no Google Maps, quando sai, percebi que seguindo em frente sairia na Praça Luís de Camões, e vi que não voltaria ao elevador. No final da descida, bem em frente à Praça, está outra igreja não menos impressionante. A Igreja Italiana de Nossa Senhora do Loreto, que completou, no ano passado, 500 anos de história. Nesta tudo tem o mesmo padrão de colorido, do teto ao piso, como que revestido por um único tecido.

E enfim descobri que a Praça Luís de Camões é minha velha conhecida, ao lado do vendedor de castanhas portuguesas, perto da Praça do Chiado. E hoje encontrei um novo agregado, a estátua de Fernando Pessoa, bem em frente ao Café 'A brasileira', onde não fui.

Resolvi ir até o Mercado da Baixa do Chiado, e passei pela Basílica dos Mártires. O destaque desta é um pequeno presépio numa caixa de vidro. Na rua ao lado, uma feira tipo sebo. Só não sei se é permanente ou de final de semana.

Em frente ao Mercado um artista das ruas me chamou a atenção, primeiro porque o lugar que escolheu tinha uma ótima acústica, depois porque seu instrumento era um violoncelo e tocava um clássico, e por último e mais importante, por seu otimismo. Não tinha um chapéu ou uma pequena lata para os donativos. Tinha uma mala, que angariava generosas quantidades de moedas a cada apresentação, e ele as recolhia antes de iniciar nova música. Tentei falar com ele sobre esta admiração mas era estrangeiro e ao verter para o inglês perdeu-se a ênfase.

Voltando para o Central Room ainda entrei por uma das travessas próximas e cheguei ao Miradouro Santa Catarina. Ali pude constatar o que disse sobre o interesse especulativo imobiliário do local. Um grande hotel com sua área de alimentação voltada para as águas do Tejo.

Mesmo depois de tantas andanças e tendo saído já quase 11 horas, cheguei cedo ao meu quarto. Já que vou sair à noite, quero escrever um pouco antes, de sair, e de esquecer. Kkkk

Subi os três andares de escada e quando chego ao apartamento, um guarda-roupa está atravessado no caminho. Toquei a campainha três vezes aé aparecer a Ivana, enrolada numa toalha. Ajudei-a a levar de volta para dentro o armário. Ela pediu desculpas pois estava acontecendo uma mudança. E o danado ficou entalado no corredor que levava ao banheiro. Quando resolvi ir ao banheiro e tomar banho, não tinha por onde passar. Ela perguntou-me se eu não conseguia passar ao lado.

_ " Eu tenho que passar de lado neste corredor, mesmo sem o armário aí."

Pusemps ele entalado na porta de novo, fui para o banheiro e ela, que ficou do lado de fora, foi achar alguém para descer aquele velho guarda-roupa, que estava desmontando todo.

Tomo um banho e fico no meu quarto descansando da caminhada e relatando no Word, se publicar nada porque o Wi-Fi tem o sinal fraco.

Faltando poucos minutos para o horário combinado, desço as escadas e fico na calçada em frente. Quanto tempo devo aguardá-lo? Será que ele vai lembrar o nome da rua?

Mas espero uns 20 minutos e lá vem ele. Uma figura pequena, com seu chapéu escondendo a calvície. Supus erroneamente que ele fosse mais jovem que eu, porém mais judiado. Errei na idade, ele tem 59. Mas ainda me parece judiado. Ele diz que pratica corrida diariamente para manter a saúde e a forma física. Bem magro.

Eu tinha me prometido não subir mais aquela rua até o Largo do Chiado, mas foi naquela direção que ele seguiu. Foi conversando, perguntei se ele queria comer pizza, mas disse que já tinha comido algo e não estava com fome.

_ " Nem eu", disse-lhe, " mas estou com vontade comer um pedaço de pizza e é muito grande para comer só."

_ " Se o que você quer é um pedaço, podemos comprar num outro lugar."

_ " Mas são saborosas?"

_ " Não é a mesma coisa..."

_ " Então deixe quieto."

_ " Você me disse que não gosta muito de cerveja, mas e um vinho?"

_ " Sim. Vinho eu gosto, mas também não tomo mais que uma taça."

Fomos passando pelos lugares e ele falou:

_ " Estes lugares aqui são muito caros, e não tenho muito dinheiro. Você não se incomoda de dividir a conta né?"

Devia ter dito que quem convida paga a conta, pois eu estava quieta no meu canto, mas concordei, afinal, ele é músico vivendo de trocados na rua.

Ele ficava se enroscando no meu braço, daí inverti os papéis e disse-lhe que deixasse que eu dava o braço para ele. Assim ficava menos íntimo.

No caminho ainda ele sugeriu que comprássemos uma garrafa de vinho no mercado, pagaríamos por uma garrafa o preço de uma taça em outro lugar qualquer.

_ " Mas como iremos tomar?" perguntei.

_ " Podemos parar em algum lugar."

_ " E pedir uma água para obter os copos, e tomar o vinho?" falei, ironicamente.

_ " Vamos entrar aqui no Mercado da Baixa do Chiado", que é um shopping na verdade, " e eu te convido a tomar uma taça de vinho. Podemos pedir uns queijinhos..."

_ " OK. Se você está com fome..."

_ " Não estou com fome, mas não posso tomar o vinho sem comer nada."

_ " Ah. Entendi, você fala em forrar o estômago."

Escolhi um restaurante na Praça de Alimentação, olhei o cardápio e sentamo-nos. Pedi uma porção de queijo duro e uma porção de azeitonas, ia pedir meia garrafa de vinho, mas ele pediu a garrafa. Falou que não estava com fome, mas se era para forrar o estômago, sugeriu pegar dois pães, que são baratos.

E comeu como quem estivesse com fome.

Falou muito de si mesmo, e seu eterno sonho de viver em Nova York e conquistar o mercado musical com sua música. Disse que seu instrumento é o piano e que já tocou lá por 3 meses, mas teve que sair quando venceu o visto. Tentou voltar, mas lhe ofereceram um visto de estudante, que achou caro, pois agrega a escola e o alojamento. Então resolveu voltar para Portugal e tentar obter a residência, já que já morou aqui anteriormente por sete anos.

Falou que tem uma casa enorme em Curitiba, que alugaria por uns 400 euros, e que o fará quando voltar ao Brasil, em fevereiro, para tratar destes assuntos.

Não sei o que perguntou que me levou a falar do meu falecido esposo. Comentei, acho, que sentia que uma capa da invisibilidade começava a ser tirada por mim.

_ " Mas quanto tempo faz que seu marido morreu?"

_ " Três anos e meio."

_ " Mas aí já é demais... Se fizesse três meses.."

_ " Veja, eu lidei bem com o luto, estou só dizendo que, num processo inconsciente, não estava pronta e me fiz invisível."

Mas ele não me deixou falar, nem respeitou minha forma de ser. Fala inglês, está melhorando o francês, toca jazz, blues, clássicos e bossa nova. Já morou nos E.U.A., na França, na Suíça e sei lá onde mais, mas sua educação fica só nas palavras. nem o chapéu tirou para comer.

E vou continuar a história para argumentar como cheguei a esta conclusão.

Conversamos ali , no restaurante, até um pouco depois das 22 horas e todos já haviam se retirado, e os funcionários estavam já arrumando as coisas para o fechamento. Tomei duas taças de vinho e não mais pois queria manter meus sentidos intactos.

Ao sair na rua ele tentou me agarrar, mas eu sou bem maior e foi fácil rechaça-lo. Pediu-me um beijo, neguei. Pediu-me um abraço, carinhoso. Neguei. Daí começou um discurso...

_ " Não. Tudo bem, me enganei. Se você tivesse 14 anos etária louca por um beijo, mas mulheres na nossa idade já se acham... mas não querem mais nada. Me enganei, achei que você fosse 'caliente'."

_ " Você disse que queria a companhia de uma amiga para conversar e beber, por isso vim. E, meninas de 14 anos não sabem dizer não, mas mulheres na minha idade já aprenderam. Essa é a diferença."

Pois ele saiu descendo a rua do Mercado e eu voltei meu 1,5 km sozinha. Paguei o jantar do desconhecido, pelo jeito. Mas para mim estava bom, o vinho e os aperitivos. A companhia não foi de todo ruim.

Acho, no entanto, que as mulheres são mais elegantes que os homens. Ele não faz, definitivamente, meu tipo. Faz-me lembrar O Máscara, de Jim Carrey. Não houve nenhuma química de minha parte. Mas em nenhum momento eu disse isso para ele. Ele, ao contrário, ao sentir-se rejeitado, tentou manipular-me ou criticar-me com a perda do desejo. Nem tentei rebater, este é um assunto que me compete. E a quem eu deseje do meu lado, ninguém mais. Ainda assim, além de uma possível tola para pagar o jantar, sinto que minha capa está caindo. Só preciso tomar cuidado por quem sou vista.

DOMINGO

Gente, preciso lhes contar, ontem à tarde, no quarto, aproveitei para ouvir trechos da gravação de 6h30 de meu sono. A primeira meia hora eu estava acordada. Então só ouvia a cama rangendo, e os barulhos da rua e de outros apartamentos, que tinha uma galera jovem bem animada. Daí dormi, e sei disso porque comecei a roncar. Mas era um barulho até baixo, mas o sono foi ficando mais pesado, e a coisa foi piorando... Achei que quando estivesse mais calma, no sono profundo, pararia, mas não, só foi uma alternância de sons mais altos ou mais baixos a noite inteira. Definitivamente, preciso procurar um médico e resolver isso.

Mas, despreocupei, e dormi o quanto pude. Sai do apartamento já perto de 11 horas. Rodei ali em volta procurando onde comer, mas o lugar que queria estava muito cheio, então fui em direção a uma igreja, no lado oposto aos trilhados até então. Dela eu avistava alguma instituição pública, sei disso por causa das bandeiras. Era o Palacete de São Bento. Tirei umas fotos e bem na esquina da Rua da Estrela chamei um UBER para me levar até o Museu dos Coches. Num primeiro momento, pensei em ir a pé, mas seriam 5,4 km pela costa ribeirinha, e mais 1,5 km depois até o Palácio da Ajuda. E minhas pernas e coluna já estão dando sinais do cansaço.

Quando transitava com o meu transporte, passamos em frente à Basílica da Estrela. O motorista até se propôs a dar uma paradinha para eu fazer uma foto, mas disse-lhe para se despreocupar, na volta eu pararia ali.

Fomos conversando e ele falou sobre a admiração que tem das festas brasileiras aos domingos. Disse que não tem tempo ruim, pode acontecer qualquer coisa durante a semana, mas no domingo tem churrasco e música. Disse que o português não é mal humorado e sim pessimista.

Quando chegamos ao museu ele ficou em dúvida onde era a entrada.

_ " Não se preocupe com isso, eu vou procurar um lugar para tomar o café da manhã primeiro."

_ " Ah, Se é assim vou deixá-la em frente a um café muito bom, e pertinho do museu."

E assim o fez. E atendeu às duas promessas. A cafeteria é agradável, tem bom atendimento e bons produtos, e fica justo na esquina em frente ao museu.

Não resisti aos lindos doces, e comi logo dois, sem nenhum salgado e um galão, que é um pouco maior que uma meia de leite.

No museu descobri que aos domingos, até às 14 horas, a entrada é gratuita para portugueses e residentes. Pedi o ingresso conjunto com o outro museu, o rapaz tirou meu ingresso e sugeriu que eu fosse ao outro museu primeiro, pois já eram quase meio dia e o outro fechava às 12h30. Mas ficava ao lado da praça, um minutinho.

Ainda não sei de que museu ele falava. Eu queria o ingresso do Palácio da Ajuda, pois li que o ingresso conjunto era mais barato, e o Palácio fica a 1,5 km morro acima. E eu com pressa achando que fecharia às 12h30. No caminho passei pela entrada do Jardim Botânico, que estava em minha programação, mas ia depender de meu ânimo.

O Palácio da Ajuda segue a mesma gratuidade, e todos os museus federais, no domingo.

Está instalado no alto do morro com uma grande área verde no entorno, tem vista para o Rio Tejo e é imenso.

Logo nos primeiros cômodos senti um clima nostálgico e pensei no filme "E o Vento Levou". Até me aproximei de uma daquelas grossas cortinas de veludo pensando no vestido da personagem Scalett O'Hara, no filme. Comentei com a segurança do setor, e ela se entusiasmou com minha observação, dizendo que era exatamente da época nestes filmes retratada aqueles móveis todos. Falou também da Sissi, e de alguns filmes franceses. Mostrou-me os retratos da família real com roupas exatamente como as dos filmes. Eu não teria captado sozinha àqueles detalhes, e agradeci a gentileza. Ela me disse que foi um prazer já que tive a sensibilidade de perceber o momento.

Fui fazendo fotos que captassem todo o espaço, pois se me detivesse nos detalhes, com uma construção de tantos cômodos, ainda estaria lá. Mas, desde os pisos aos tetos, passando pelas paredes e pela decoração dos interiores, tudo é de extrema beleza e riqueza, além de cuidado com esmero.

Terminada a visita, informei-me sobre o horário de fechamento do Museu dos Coches: 17 horas.

Então meu ânimo para visitar o Jardim Botânico reapareceu, já que para descer todo santo ajuda, e ainda eram 13 horas. O ingresso deste espaço custou 2 euros. Tem uma pequena estufa ce pequenos cactos, e uma feirinha para vendas destes, um estufa ainda menor para orquídeas, vendidas ali mesmo. E muitas árvores e arbustos nomeados. Na parte baixa tem um bonito jardim no estilo dos que contornam os palácios. Não é muito grande, e de lá também se avista o Rio Tejo.

Continuei minha descida e consegui chegar ao Museu passava pouco de 14 horas. Fiquei com receio daquele ingresso não mais ter serventia após este horário. Mas ingressei sem problemas.

Ao entrar ficou-me muito evidente a associação os dois espaços na compra dos ingressos. As carruagens de reis e rainhas, príncipes e princesas, infantes, embaixadores, papa e outros religiosos, até as carruagens dos serviçais e dos correios estavam ali. Magníficas, parecendo que a fada da Cinderela acabara de fazer suas magias num campo de abóboras.

Tem algumas delas que são feitas para ocasiões especiais. Estas esbanjam ainda mais luxo na ornamentação. Faz-me pensar no Carnaval e seus carros alegóricos, certamente tem este referencial histórico. Até os tetos, internamente, são decorados. Muitas das rodas são todas rebordadas. Luxuosos assentos de veludo, com franjas. Eu adorei. Dois locais que considero imperdíveis entre as tantas atrações de Lisboa.

Eu queria fotografar a praça, mas sai para o outro lado, o do rio, e esqueci completamente. Por isso tenho o hábito de fazer quando chego, mas dessa vez foi tudo muito corrido.

Fui andando pela orla do rio e vi uma estrutura moderna que possibilita uma visão diferenciada do rio e da Ponte 25 de Abril. Subindo dei de cara com umas caras enfeitando a porta de alguém. Criativo. Delicado.

E a estrutura chama-se Ponte Pedonal do Museu dos Coches e é mais um lugar a ser visitado. O sol generosamente prateava as águas do rio. O vento rebelde assanhava meus cabelos e assoviava para encantar nossos ouvidos.

Fui seguindo pela Orla, procurando uma saída que desse acesso à rua, para eu poder chamar o UBER.

Mas vi um restaurante chique ali, que parecia ainda servir almoço, apesar de passar de 15h30. Fui conduzida para dentro, sentei-me, mas fiquei incomodada com o cheiro de cigarros, apesar do local coberto e interno. Fui realocada, a meu pedido, para uma área de não fumantes, mais tímida e com uma vista limitada. O hábito de fumar em locais fechados é um dos problemas da cultura local, e bitucas de cigarro são os únicos lixos que se encontram espalhados pelo chão de todo lugar.

Pedi um prato de porco preto com vegetais e nhoque, uma taça de Merlot com Chardonnay, uma água, e encerrei com um descafeinado, pois a garçonete me garantiu que não tiraria meu sono. Qualidade, conforto, localização e bom atendimento têm preço e gastei 50 euros. Considerando que não comia desde sexta feira, e que o almoço com a Marcia foi até bem simples, na média ficou um bom preço.

O garçom quando me trouxe o prato disse:

- " Você fugiu de minha zona, mas eu te achei."

E quando eu estava saindo perguntou-me se eu ficara satisfeita.

_ " Sim, estava tudo ótimo, e diga ao chef que o nhoque estava especialmente fino."

Aí ele recomendou-me subir e conhecer o terraço com piscina.

A moça lá de cima me abordou e não me pareceu muito convencida quando eu disse que já almoçara e que o garçom que me falou para subir.

A piscina fica cheinha, bem na borda do edifício e faz um lindo contraste de cores com o mar. A vista lá de cima é muito linda, e o povo, a nata social. Eu não passei desapercebida com minha roupinha pobre e colorida.

Resolvi continuar e passar por baixo da ponte, ir fazendo fotos do Cristo, lá na outra margem do rio, vendo os pescadores com suas varas de pescar. Imagino que, para quem gosta de pescar, poder morar numa cidade grande e vir pescar no rio aos finais de semana, deve ser muito prazeroso.

Tinha um grande cardume junto a uma folhagem morta, na margem. E logo depois um pescador solitário. Cheguei junto dele e falei:

_ " Ali atrás tem um cardume."

_ " Mas não presta, é de tainhas e elas comem muita sujeira."

Então tá. Ele conhece. Continuei minha caminhada e logo cheguei sob a ponte de estrutura vermelha. Pedi a uma adolescente que tirasse uma foto minha. Ela ficou lá com sua mãe e eu segui meu caminho.

Cheguei ao Embarcadouro Santo Amaro, uma região cheia de restaurantes, com o preço um pouco menor do que onde almocei. Um espaço que o trânsito de bicicletas é proibido, tem que passar desmontado.

E logo depois achei um viaduto, de cuja base chamei o UBER, e fiquei esperando sentada num banco de tronco de árvore. O motorista era indiano e não conversamos muito. Vi que ele ainda tem um pouco de dificuldade com o português.

Desci na Basílica da Estrela, ela tem bonitas naves e uma linda abóboda, que faz figura bonita dentro e fora. Em frente a ela tem um parque, mas não vou mais me aventurar por hoje. Já são quase 18 horas e vou caminhar mais e um quilômetro até minha hospedagem. E ainda tenho que terminar de arrumar minhas coisas e dormir cedo.

Descobri, pela manhã, ao chamar o UBER, que o aplicativo aqui em Lisboa, já permite o agendamento de corridas. E deixei agendada para 4 horas da manhã.

Quando voltei ao quarto, umas mudanças positivas ocorreram. O banheiro estava com uma tampa de sanitário nova, um tapete novo na saída do box, um banco de plástico no interior do box, e várias velinhas acesas por toda a casa. Até o papel higiênico está de melhor qualidade. Quando saia, ouvi um novo inquilino tratar com a dona, disse que esperava que ela não se incomodasse com algumas modificações que ele faria, pois é enjoado. Gostei do enjoamento dele. Era o que faltava para o lugar ficar hospedável.

Não consegui dormir antes de uma da manhã, e às 3 horas eu estava de pé. Viajei pela Ryanair pela primeira vez, em função dos preços, mas o lugar é muito apertado, lateralmente. Minha sorte foi que fiquei na primeira fileira e tive bastante espaço para as pernas. Dormi quase o tempo todo, não sei se ronquei.

P.S. Albúm de fotos aberto ao público no Facebook: Meyre Lessa