LISBOA CENTRAL - 2 dias

16/10/2019

Começo agora uma nova aventura. E por necessidade e vontade, inicio por Lisboa esta minha aventura. Por aqui, pois foi o aeroporto escolhido para a próxima viagem. E Escolhi este em função dos preços das passagens e porque necessitava vir ao Consulado brasileiro para obter a validação da CNH brasileira para troca por licença para dirigir em Portugal, já que minha CNH só tem validade de uso de 6 meses aqui, e ouvi dizer que uma mudança na legislação alterou para 3 meses este período. Podia ficar só um dia, mas ainda não explorei quase nada da capital deste lindo país que está me acolhendo.

Vim, novamente, de autocarro. E reservei um quarto na Baixa do Chiado, pelo preço e pela pressa, sem conseguir tomar muitas informações da acomodação, e fiquei contente quando constatei a localização, posteriormente.

Procurei também o endereço da Embaixada do Brasil em Lisboa e vi que era bem próxima à Estação Sete Rios, que é onde fica tembém o terminal de comboio. Tudo anotado. Agendei para chamar o táxi pra quinta cedinho, e só liguei na quarta bem tarde. Queria chamar o Sr.Jorge que tem preço pré-combinado. Liguei para Sr.Agostinho, por engano. Quando não reconheci a voz, pedi desculpas e desliguei. Tentei de novo, agora o Sr.Jorge, mas o telefone dele estava fora da área de cobertura. Chamei então o Sr. Agostinho mesmo. E por que estou contando tudo isso? Porque de manhã, quando deu o horário combinado vi que ele não chegava e lembrei-me que o portão agora fica fechado e é aberto por uma ligação telefônica. Fui para fora e de longe fiz a ligação quando vi o táxi parado do lado de fora. São 200 metros de distância. Fui buscar minhas malas e qual não foi minha surpresa quando o Sr.Agostinho saiu do táxi, pois esperava ver o Sr.Antonio. Hahahaha, que confusão que estou fazendo com os nomes destes taxistas daqui.

Mas as confusões deste dia não pararam por aí. Chegando em Lisboa, fui até a bilheteria do comboio e perguntei se eram duas passagens para pegar o comboio e o Metro, ele confirmou e perguntou-me:

_ " Onde a senhora quer ir?"

_ " A Baixa do Chiado."

_ "Então não precisa comboio, a estação de metro é bem aqui, é só descer aquela escada."

Mas engraçado, eu vi que tem uma estação próxima com nome de Jardim Zoológico, mas não tinha no mapa do Metro ( notem que aqui eles não falam Metrô) a estação Sete Rios, mas logo entendi o porquê. Apesar de estarem na mesma instalação, não tem o mesmo nome. Não entendi essa lógica. Mas facilitou-me a vida.

Nas características da hospedagem, no Booking, constava que havia uma estação de trem próxima, com 50 metros de distância. Como no mapa não achei nenhuma assim, mandei um e-mail para a proprietária que me informou tratar-se da Estação Baixa do Chiado. Pelo Google Maps constava uma distância de 950 metros, com mala, isso fica um tanto longe. Esta estação é num buracão e tem uma escada normal logo ao sair da plataforma, depois uma sequência com 3 escadas rolantes bem extensas e mais uns poucos degraus para finalizar.

Cheguei no Largo e fui levar minha mala e mochila para o Central Room para não ter que ir até a Embaixada com elas e porque meu horário estava agendado para 15 horas e ainda eram 11 horas. Eu estava dentro do horário que informei para o check-in, entre 11 e 12 horas.

Fui usando o Google Maps com o endereço que anotei até chegar ao começo da rua. Vi, pelas características da rua, estreita, que passa só um carro por vez em um único sentido, em direção ao mar, que não deveria ter o número 1200. Entrei no Booking e peguei a coordenada fornecida por lá. Cheguei a um lugar que não tinha nenhuma indicação, por volta do número 85. Daí comecei perguntar na vizinhança, porque no número de telefone que constava no cadastro, não me atendiam. Fui procurar as fotos do lugar e só apareciam paisagens da região.

Eu imaginava que era um quarto em uma casa, tipo AirBnB, onde as acomodações são destinadas à hospedagem. Aí entrei num estabelecimento que chamam por aqui de 'talho' e que nós conhecemos por açougue, e o homem me perguntou se eu sabia o nome da dona.

_ " Não sei, não consegui falar com ela ao telefone."

Mas, nesta hora, tentei de novo e ela atendeu. Era a Dona Ivana, disse-me que estava fora de casa porque eu havia informado que chegaria às 14h.

_ " Não, eu informei que chegaria entre 11 e 12 horas pois às 14 horas tenho um compromisso na embaixada mas só quero deixar minha bagagem"

_ " Vou ver se consigo voltar ou que alguém vá te levar a chave."

_ " E a senhora me liga com o resultado?"

_ " Sim."

O Sr. Vitor levou-me até a porta com número 35 e disse que vira a Dona Ivana sair mais cedo com o carro. Muito simpático ainda me deu algumas dicas de turismo. Aí ela ligou de volta.

_" Olha, não vai ter quem leve a chave, mas a senhora pode procurar o Talho da esquina, o pessoal lá é de confiança, e pedir para deixar a bagagem lá. Fale com o Sr.Vitor que é o assistente o com o próprio dono."

_ " Está bem, estou aqui com o Sr.Vitor já."

_ " Quando eu chegar eu pego sua bagagem e coloco no seu quarto."

Caminhamos os dois de volta até o 'Talho' e ele guardou minha bagagem num quartinho. E saí tranquila para meu compromisso.

No caminho passei em frente a uma loja com artigos de vestuário para esportes na neve e entrei para procurar a calça impermeável que me falta na bagagem. Ia fazer isso na sexta-feira mas já que estou aqui... O atendente pegou uma XL feminina, dizendo que era a maior que ele tinha. Provei mas, se fechasse o zíper, corria o risco dele estourar. Pedi uma masculina então, do mesmo tamanho, e ficou perfeita. A diferença entre ambas, o corte, disse ele. E notei aquele bolsinhos atrás, das calças sociais masculinas. Comente:

_ " Estou descobrindo que sou homem, ou tenho corpo de homem, pois não é a primeira peça masculina que compro."

Um cliente que me ouviu:

_ " Não diga isso, você não ia querer ter corpo de homem."

Seguindo ainda para o metro vi um carrinho vendendo castanhas, portuguesas (para nós), assadas. Pedi logo um saquinho de 2,50 euros, coloquei na sacola junto com minha nova calça e saí feliz e realizada.

Peguei o Metro de volta para o Jardim Zoológico, desci, andei, achei a Embaixada. Eram pouco mais de 13 horas, eu tinha tomado café da manhã às 7 horas. Então fui procurar onde almoçar. Logo depois tinha uma grande escola Secundária e encostado, uma pequena lanchonete. A bonita atendente estava almoçando, parou para servir uns cafés e uns pastéis de nata para duas clientes quando a abordei perguntando se serviam refeição.

_ " Não, mas faço baguetes."

_ " Do que?"

_ " Tem de frango e de atum?"

_ " Beleza. Vou querer uma de frango então (apesar de gostar mais de atum), mas pode terminar sua refeição primeiro."

_ " Não Tudo bem."

Levou seu prato para dentro e preparou meu lanche. Que baguete delicioso. Um pão quentinho e crocante, uma maionese de frango, salada e uns crocantes de alho e cebola. Este foi o toque especial do recheio. O pão, já cansei de dizer o que penso.

Ainda era cedo, peguei uma castanha portuguesa assada e ofereci uma para ela, que aceitou, e comi devagar, sem nenhuma pressa.

Fui até a Embaixada e toquei a campainha. O portão se abriu e eu comuniquei:

_ " Tenho horário agendado para pegar a validação da CNH."

_ " Senhora, mas não é aqui, é no Consulado, lá na Baixa do Chiado."

_ " O que? Sério? Acabei de vir de lá." ( tóinoinoin)

Ele me explicou para subir o escadão rolante e virar para esquerda e já ia ver o Consulado. Certamente isso estava escrito quando fiz o agendamento, mas depois me confundi...

_ " Mas dá tempo ainda, disse ele."

Sim, daria, por sorte eu sou de antecipar-me...

E lá fui eu de volta, agora com pressa.

Subi as escadas faltando 15 minutos para 3 horas, mas, como ele disse, era logo ali ao lado mesmo, mas do lado esquerdo. E, na vez anterior que ali passei, saí para a direita.

No Consulado gastei só uns 40 minutos e 16,50 euros.

Voltei para o quarto porque tinha que banhar-me para ir a uma aula de dança que programei.

Toquei a campainha, ela abriu, subi os três lances de escadas, ela já estava com a porta aberta. Mostrou-me meu quarto, mas...

_ " Cadê minhas malas?"

_ " Ah, estão lá no Talho."

_ " Eu não passei lá porque você disse que traria..."

_ " Você vai precisar delas agora? Ligo e peço para o Vitor trazer."

_ " Seria bom, mas ele pode trazer assim que tiver disponibilidade. Ou se preferir, posso ir buscar...(pensando em não dar trabalho e nem criar confusão, afinal, não foi o combinado).

_ " Ah. Agora lembrei-me que o Vitor se machucou. Parece-me que ele caiu na rua..."

_ " Neste caso, deixe que irei buscar."

E lá fui eu 3 andares pra baixo, sem malas, e três andares para cima, com as malas.

Ela me forneceu um molho com duas chaves, para a porta do apartamento e da rua.

Voltei, fui tomar meu banho no minúsculo banheiro. Não teria contratado se soubesse que era um quarto na casa da pessoa. Não gosto de ficar assim, já tive experiência ruim no AirBnB. A casa de cada um tem seu jeito e é o mais aconchegante e prática que a pessoa entende, para si. Uma hospedagem comercial oferece um padrão genérico de comodidades e benefícios que se convencionou como ideal. Desde um hostel barato até um hotel luxuoso, você sabe o que esperar de acordo com o preço pago. Mas numa casa de família esse princípio não é válido, por que é o lar da pessoa, seu 'cafofo'. Neste não existe padrão, pelo contrário, o que existe é personificação. Cada cantinho tem a cara de seu dono. E como criticar este espaço? Mesmo que não atenda às suas expectativas. Só posso criticar a falta de informação no aplicativo.

Ainda assim, após o banho, fiz hora no quarto, pequeno mas arrumado, e depois fui caminhar mais quase 3km em busca de uma aula de forró, só para dançar um pouco. Faz tempo que não o faço.

Não tinha sapato adequado e pensei, vou dançar de meia mesmo. Subi todo o ladeirão, de novo, em direção à Estação Baixa do Chiado, e passei por muitas ruas comerciais, além da estação. Passei por um dos vários elevadores que ligam a parte alta às partes baixas, com uma estrutura lindíssima e um artista fazendo um som no pé da mesma. Ficou um 'climão'.

Mais abaixo vi uma loja de alpargatas, não das havaianas, mas o melhor calçado, para meu gosto, para dançar forró. Entrei, achei uma promoção e tinha o número 39, correspondente ao 37 brasileiro, e comprei. Falei para o vendedor para que era e que estava a caminho da aula.

_ " Onde fica?"

_ " Não sei o nome, acho que é Cruz das Almas, ou Reguengos de sei lá o que, pera aí que vou olhar. Ah! Sim, é Regueirão dos Anjos." Tá! Não errei tanto assim, afinal, anjo é uma espécie de alma, ou não?

_ " E a senhora vai como? De ônibus, de UBER?"

_ " Não. Eu estou indo a pé mesmo. Aqui diz que uns 20 minutos. Agora são quase 19 horas, deve dar certinho."

E deu. Não parei em canto nenhum para tirar fotos, e olha que passei por uns lugares muito lindos. E de repente tive que entrar por uma ruela estranha. Só entrei porque estou em Portugal. Passei sob uns arcos e aí tive que tirar fotos dos grafites.

A aula estava para começar, paguei 10 euros pela aula avulsa e subi. O professor me disse que aquela turma era de avançados e falou para eu olhar se conseguiria fazer. Faria. E melhor do que eles, com mais ginga e entusiasmo. O professor era brasileiro e a professora portuguesa,ambos jovens. Fiquei a aula inteira dançando a margem e ele não voltou a falar comigo. Quando terminou me convidou para a aula de forró zero e iniciados 1, no andar térreo, e entrei num círculo de passos base e alguns outros movimentos de principiantes. Reclamei com ele e depois expliquei que minha aula era avulsa e não experimental, não iria fazer outras aulas na escola pois moro longe. Achei-o preconceituoso e pouco acolhedor. A parte boa é que comecei dançando com um tipo bonitão, fui rodando e quando cheguei nele de volta, senti um certo aconchego, e meio que não me deixou sair. O professor mandou rodar e ele me deteve, assim dois pares antes de nós também não trocaram e uma menina ficou só de uma lado e um rapaz, após nós dois também, eu ia passando adiante e ele falou para o moço:

_ " Mas se a menina está sozinha, segue tu até ela."

E o moço foi.

Terminou a aula e o professor convidou-nos a todos para participar de uma prática que estava acontecendo no primeiro andar, resolvi ficar mais uns minutos. Vários alunos subiram. O professor apresentou os novatos e pediu que os demais os convidassem para dançar. Eu não fui chamada. Até que os dois homens mais interessantes do lugar vieram, ao mesmo tempo, tirar-me para dançar. O bonitão de baixo estava um passo adiante, o que fez com que o outro cedesse a vez. E assim que dancei com o José por mais uns 15 minutos. Saímos quase juntos, ele um pouco adiantado porque eu estava colocando o tênis. Mas eu vim para o Central Room de UBER e ele foi embora sozinho. Não seria possível nada mais que dançar, mas fiquei feliz com o resultado do dia, mesmo após tantas trapalhadas desde cedo. É como se uma cortina se abrisse, e eu pudesse vislumbrar a plateia e ser admirada. Quem sabe já estou pronta para o próximo fã ( numa comparação pouco ortodoxa, mas acho que temos que ser também um pouco ou muito fãs de nossos parceiros).

O motorista do UBER que peguei acabou se mostrando bastante falante e contou-me sobre uma lei que impede a transferência de imóvel por sucessão mais do que 3 vezes. Disse que o intuito é obrigar as famílias detentoras de imóveis históricos, em regiões de forte turismo, que não têm capital para a manutenção dos mesmos dentro do padrão de tombamento, a vender para empresas de maior poder econômico e interesse na especulação imobiliária. Estas mantêm as fachadas, conforme normas do tombamento, e constroem instalações modernas para fins hoteleiros ou gastronômicos. Não sei até que ponto isso é verdade, mas admirei-me. O capital faz estrago em todo lugar, subverte, submete. Em grau diferente, mas o faz.

Minha noite foi agitada, demorei a acostumar-me com o espaço. E dormi menos do que 6 horas. Contando com as pouco mais de 4 do dia anterior, começo a ficar com o sono atrasado.

Mas levantei-me animada. Hoje vou encontrar uma amiga de longa data, comadre de minha falecida irmã, que está visitando sua filha, que está morando com o esposo bem perto de Lisboa. Ela vai tomar um ônibus e um barco a partir Cacilhas e me encontra no Cais do Sodré. Eu irei a pé até lá, percorrendo uma distância de 1km, mas antes preciso achar um lugar para tomar café.

Aqui pertinho tem dois lugares, escolhi o de cima, e eles ainda estavam arrumando. Ia demorar meia hora para abrir. Então farei meu caminho e devo achar um cantinho para fazer meu desjejum, já que o jantar de ontem foi uma maçã, que trouxe de casa, e o restante das castanhas portuguesas.

Vi alguns lugares e um mais ou menos na metade do caminho, me animou. Pedi uma tosta de queijo, um pastel de nata, e uma média de leite.

No caminho que percorri já avistei algumas atrações programadas e outras que não. Igrejas ainda fechadas e praças. Cheguei à margem do rio Tejo. O sol prateando suas águas. Água me encanta, colorida então, melhor ainda.

Mandei uma mensagem para a Marcia e ela me informou que já estava no barco. Dirigi-me ao Cais para só então descobrir que ali existem três portões de desembarque, de origens diferentes. Tentei com um segurança, perguntando onde desembarca quem vem de Setúbal?

_ " Não dá para vir de Setúbal de barco."

Ai, meu Deus, devo ter errado o nome do lugar, "de Sintra então?"

_ " Também não."

Mas pelo tempo que ela disse que ia demorar, vi um barco se aproximando e fiquei próxima ao portão de desembarque em que ele aportava. E uma multidão foi saindo, e eu ao lado daqueles dois metros de homem, achei que ela não ia conseguir me enxergar. Mas logo a avistei, com os olhos feito radar, também a minha procura. E quem diria, encontrar uma amiga de 40 anos de amizade, que mora relativamente perto de mim, e é quase vizinha da minha mãe, numa Terra Tão Tão Distante.

Cumprimentos e registro de nosso encontro, e vamos caminhar, passear, conhecer e conversar porque o papo hoje promete.

Passamos por dentro de uma zona comercial dentro de uma estação de trem. E já em seguida avistamos a entrada do Mercado da Ribeira. Uma imponente porta, diga-se de passagem, e lá dentro é quase outro shopping, de alimentos e outros produtos frescos, que de tão organizados, parecem lojas. Peixes, flores, frutas, hortaliças... No galpão lateral a área de restaurantes, muito linda também.

Nossa conversa já começou com a admiração que temos sentido em relação à limpeza e segurança em Portugal. Mas percebemos que nós saímos do Brasil, mas o Brasil não saiu de nós, e sentimo-nos, por vezes, ameaçadas. Vou contar mais para frente algumas situações. E, por outro lado a Marcia comentou que, certamente por isso mesmo, os europeus são tão facilmente furtados ou assaltados em nossa Pátria amada. A Europa não sai deles e, mesmo sabendo das ameaças, não sabem se comportar como quem tem medo. Oxalá um dia sejamos diferentes, no Brasil.

Passamos por uma pequena igreja que eu já tinha visto fechada, mas agora estava aberta. Entramos para nosso primeiro agradecimento. Meu, da viagem; dela, talvez do dia, já que está viajando desde final do mês de setembro.

O dia de hoje certamente transcorrerá em um ritmo diferenciado, ditado pela nossa necessidade de colocar as conversas em dia. E farei alguns pontos não programados e adiantar parte da programação de sábado, já que hoje pensei em comprar a calça de manhã, mas consegui resolver ontem.

Perguntei se ela já conhecia o Castelo de São Jorge, porque já chegou a uns dias... e alguns passeios sem acessibilidade não pode fazer com suas companheiras de viagem, a mãe, dona Ilda, com 84 anos, e a tia, com 74.

Eu já conheço, mas considero um local imperdível em Lisboa. Mas é lá no alto, e o próprio Castelo está cheio de escadarias.

Quando vim em 2010, fizemos, meus sogros, meu falecido marido e eu, subindo de bondinho, pois minha sogra já tinha 74 anos, sendo a mais velha de nosso pequeno grupo. E hoje subimos a pé, o que nos possibilitou conhecer outros pontos interessantes pelo caminho.

Passamos pela Rua do Arsenal com suas lojas de lembrancinhas e fomos explorando.

Num grande largo com um Pelourinho, o Largo do Julião, vimos o Museu do dinheiro, com entrada gratuita, mas cerrado hoje. Que pena! Ao lado dele uma imponente construção, como, aliás, não faltam por aqui, que descobri, depois, tratar-se dos Paços do Concelho. 

Fora que nas próprias ruas podemos apreciar as casas antigas, com suas fachadas de azulejos, suas eiras, beiras e tribeiras, suas sacadas, por vezes com varais lotados de roupas para secar. Tudo isso é um espetáculo pois, é característica do local, da cultura de seu povo, e diferente do que estamos acostumados, mesmo sentindo um climão de ancestralidade, observamos que eles tratam a história com mais respeito e com nenhuma vergonha. Não que não se envergonhem do papel que muito fizeram enquanto colonizadores, não é isso que digo, mas resgatam seu passado nas festas e tradições, e agem com este respeito. Prova disso é observar a quantidade de idosos e tudo que é feito para favorecer sua autonomia e consequente liberdade.

Comentamos, nós duas, quantas pessoas vemos usando muletas, andadores, com mais de 80 anos, e sozinhas, ou quando muito com um parceiro da mesma idade. Notamos que no Brasil o idoso tem vergonha de assumir sua debilidade publicamente. Prefere se esconder em casa quando isso acontece, porque demonstra o avanço dos anos, e o que é velho para nós, é descartável. Temos muito que aprender ainda. E eles também, é claro. Digo sempre, somos uma sociedade jovem, com pouco mais de 500 anos de história. Como comparar com estes mais de 2000 anos?

Mas continuando em frente passamos pela Catedral da Sé, onde uma vendedora ambulante abordou a Marcia com lindos lenços. Eu que não uso lenço me contentei em só olhar, mas para ela é um artigo muito útil, assim comprou dois com um pequeno desconto e um brinde. Porém entregou 100 euros para a vendedora, ficamos segurando os dois lenços e o brinde enquanto a mesma ia trocar o dinheiro. E comentei:

_ " Nossa, ficamos aqui com estes artigos que somados, a preço de custo, valem uns 20 euros, e ela levou 100 euros."

_ " É, talvez fosse o caso de a gente ter ido trocar o dinheiro né? Mas minha filha falou que podemos confiar. Vamos aguardar."

Sentei e ela ficou de pé, conversando comigo mas mirando o lado que a moça tinha se encaminhado. Demorou um tantão, e a Marcia disse:

_ " Parece que ela se foi com meu dinheiro."

Mas mal ela acabou de falar, a moça surge do meio dos transeuntes, toda preocupada.

_ " Eu falei para a mulher, troca logo, por favor, senão a mulher vai pensar que eu sumi com o dinheiro dela. Começar o dia com 100 euros assim..."

Nessa hora a Marcia viu que tinha uma chamada telefônica não atendida e enquanto nos encaminhávamos para a Catedral da Sé ela foi tentando retornar, já que era da tia. Como a filha e o genro estavam no trabalho, as duas ficaram sozinhas em casa, resolvendo outras necessidades.

A Catedral da Sé é grande, mas nova, porque foi vítima do grande terremoto, e foi reconstruída sobre as bases antigas. Ela não apresenta o encanto e a energia de muitas outras, mas o clima de uma sobrevivente que teve que passar por uma cirurgia plástica.

Mais adiante chegamos ao Miradouro de Santa Luzia, de onde temos uma linda vista do Rio Tejo, a partir de uma área de jardim com esculturas e árvores que só aumentam o encanto.

Um pouco antes, outra igreja. Aqui, como Salvador, deve haver uma ou mais igrejas para cada dia do ano, e cada uma com seu encanto.

Continuamos subindo as ladeiras de estreitas calçadas de pedras polidas por tantas caminhadas e caminhantes ao longo dos séculos. Já chegando ao Castelo paramos num restaurante para pegar uma água e entre duas possíveis alternativas ao destino, escolhemos a da direita, o que nos reservou uma criativa surpresa. Um músico tocava da sacada de seu apartamento, num destes prédios antigos, de 3 andares, tão típicos daqui. De seu lugar descia uma corda com um bonito balde pendurado na ponta, onde os ouvintes satisfeitos poderiam depositar o seu agradecimento. Para completar a cena, no térreo um grafite multicolorido e na sacada superior estava um amontoado de coisas coloridas que davam um aspecto surreal ao cenário, e ainda um vizinho, jovem e observador que, de seu canto parecia pensar: " Meu, o cara tá fazendo um som na janela de casa e tá ganhando uma grana. Tenho que aprender algo para inovar e fazer meu pé de meia também."

Chegamos à bilheteria e tentamos regatear o preço da entrada, de 10 euros, propondo somar nossa idade para pagar o valor correspondente à terceira idade, que aqui é a partir dos 65 anos. O bilheteiro até topou, mas ia nos dar somente um ingresso, kkkk Sugeri até um desconto considerando que subimos a pé. Mas não colou.

O primeiro grande pátio ajardinado leva-nos a um muro com canhões que descortinam um lindo cenário da cidade à margem do rio. Apreciamos um pouco, tiramos fotos e fomos procurar o castelo.

Um autêntico exemplar de princesa de conto de fadas, com ponte fixa sobre um vão que certamente foi um fosso isolante, de segurança.

O Castelo de São Jorge possui várias torres, e em uma delas janelas que, vista de lá de baixo pareceu diminuta, fez a Marcia pensar na Rapunzel e suas tranças...

Fomo-nos deslocando pelos espaços e conhecemos uma brasileira que estava viajando só. Pediu-me para fazer umas fotos dela no cenário. E deve ter gostado, pois esperava-nos chegar a cada novo lugar para pedir outras mais. Ela já vai voltar ao Brasil amanhã. Está com saudades do filho de 9 anos, pois está há trinta dias viajando. Estava até meio chorosa.

Conhecemos também um casal que está visitando Lisboa e ficando na casa de uma amiga, apesar de terem tia morando aqui. Comentei para ela que ontem mesmo conversava com um amigo que disse que tem prima em uma das grandes cidades daqui e que talvez venha visitar. Perguntei a ele;

_ " Sua prima?"

_ " Não. Vou visitar você. Minha prima é muito chata. Kkkkkk

Ela emendou que a tia está aqui há muito tempo, e não são muito íntimas. É de idade e já tem lá suas manias, não se mostrando tão receptiva quanto a amiga.

Penduramo-nos em algumas escadas e subimos em outras tantas, no fim o Castelo foi muito bem explorado. E já era hora de almoçar.

Paramos em uma pequena lanchonete na descida que vende uns pratos feitos, que não sei o nome que dão por aqui. Pedimos arroz com salada e bolinhos de bacalhau. Suco e chá, pastéis de nata de sobremesa e eu tomei café.

Já são quase 16 horas e a Marcia já pensa em ir embora pois tem quase uma hora entre a travessia do rio e o ônibus até a casa. Fizemos um caminho diferente no retorno e passamos por outro grande largo, com quatro enormes prédios amarelos rodeando-o em forma de U, alguns restaurantes na base, uma bonita estátua ao centro, e o rio convidando-nos a sentar e espreguiçar à sua margem, ao sabor do vento e da música proporcionada por algum artista próximo. Muitas pessoas estavam fazendo exatamente isso ali, no Cais da Colunas, fincadas no mar e alinhadas com o Arco, como a primeira menção da entrada para o continente.

O Arco da Rua Augusta visto de frente é muito imponente. Ele completa este conjunto arquitetônico que forma a Praça do Comércio

Quando chegamos de volta ao Cais do Sodré, o barco das 16h30 estava partindo. O próximo saía em 15 minutos. Resolvi comprar um bilhete de ida e volta e fazer a travessia para saber a sensação. E terminarmos nossa conversa eu estava com algum assunto pelo meio. O Barco é todo fechado e parece um ônibus, não de luxo, mas confortável e rápido. Parece-me que foi 1,20 ou 1,50 a passagem.

Voltando de Cacilhas consegui fazer umas fotos de Lisboa a partir do Tejo.

Mas não pense que meu dia terminou. Ainda pelo caminho consegui tirar foto do relógio do Cais do Sodré, subir a ladeira em direção à estação Baixa do Chiado para tomar um café com leite e comer dois salgados. Definitivamente, salgadinho não é o forte dos portugueses. Fazer fotos na Praça Luís de Camões e das ladeiras ao por do sol, e da Igreja de Santa Catarina, bem próxima ao Central Room, onde estou hospedada.

Tomar banho, escrever e ter uma brilhante ideia de colocar o gravador do celular para gravar meu sono. Depois eu conto o resultado.

Mas o saldo destes dois dias foi muito positivo, resolvi a questão do documento, achei a calça que faltava, conheci lindos lugares e reencontrei com muita alegria uma velha amiga e tivemos oportunidade de trazer algumas memórias e questionar a oportunidade, já que pensamos que nada acontece por acaso.

Mas devo confessar-lhes, mesmo acostumada que estou a caminhar por aí, e muito, estas ladeiras escorregadias daqui estão me matando: tornozelos, joelhos e panturrilhas. Tive que fazer muitos alongamentos no final do dia e tomar meus dois AAS para dormir.

P.S. A totalidade das fotos estarão disponíveis ao público no Facebook: Meyre Lessa.

Vou tentar dormir um pouco mais que os dias anteriores porque o final de semana promete.