ISLÂNDIA - SEXTO E SÉTIMO DIAS DE TOUR - Céu de Sol e de Aurora Boreal

25/10/2019

Sexto Dia

Vou escrever o sexto e o sétimo dias juntos, porque as atividades ficaram mais concentradas, mais por minhas escolhas do que pela programação.

Quero já informar que achei muito interessante a programação destes 8 dias que contratei através do Guide to Iceland. Eles são muito profissionais, os serviços são cumpridos a risca, como vocês estão acompanhando, os hotéis são de ótima qualidade, dentro do padrão oferecido, e tive muita sorte, gostei demais da competência e profissionalismo do Robert. Não sei quanto aos demais guias das empresas parceira do Guide. Mas, fora a questão de empatia, tenho certeza que são todos ótimos profissionais.

Ainda estamos aqui, na parte mais fria da Islândia, e a neve continua.

Hoje seria o dia para observação de baleias. E digo seria, porque não foi mesmo. Logo depois do café da manhã, horário marcado para 9h30, no ônibus, o Robert comunica a todos que o passeio foi cancelado por causa das condições climáticas. Depois escreveu no Translate para eu entender. E falou para todos que podiam ir à Fábrica de Cerveja ou ficar no centro da cidade passeando.

Pensei rápido, ficar passeando no centro da cidade com este frio, andando na neve, e arriscando-me a cair de novo. Não, vou para a fábrica de cerveja, aliás, na hora de contratar fiquei triste porque os dois passeios eram no mesmo dia. AÍ perguntei:

_ " Can I opcion between downtown and beer?"

_ " Yes."

_ " Beer."

E todos riram, mas dos 18 passageiros, só permanecemos no ônibus o casal de americanos: Justin e esposa, e eu. Eu fui explicando que não gosto de cerveja, só queria conhecer a fábrica, pois me interessam os processos fabris.

Só que, quando lá chegamos, eu vi escrito SPA Beer. Daí o Robert me perguntou se eu trouxe roupa de banho. Sim, eu trouxe, mas está na mala, e não carece pegar. Não tenho nenhum desejo de tomar banho de cerveja. Eu queria era conhecer a fábrica e degustar.

Mas eu já esteva lá mesmo, então entrei com o Robert e ficamos no bar. Ele me fez um presente. E eu tomei uma tulipa ou algo que o valha de uma deliciosa cerveja preta.

Ficamos conversando novamente e foi quando pedi que me explicasse tudo que aconteceu no dia anterior, e contei minha angústia e sentimento de impotência. Também aproveitei para agradecer pelo cuidado. E voltamos ao jogo de português/inglês que tanto me ajuda a aprender.

Ele me disse que fez, numa ocasião, um tour particular com um casal de coreanos que não falavam nada de inglês, e que usou o tradutor o tempo todo. Daí foi que descobri que ele também atende como particular, que o preço é o mesmo, mas o serviço personalizado. Contei que tenho um casal de amigos que quer conhecer a Islândia no próximo ano e está esperando o resultado de minha experiência para decidir o que e como fazer. Ele disse que também prepara pacotes para auto-driver, ou seja, quem quer dirigir, mas não quer ter o trabalho de fazer a programação. Devia ter perguntado quanto ele cobra por este serviço. É o que faço para mim. E algumas pessoas dizem para eu fazer e cobrar para outros. Mas não acho que compense. Faço para mim por prazer.

Se alguém se interessar por um dos pacotes do Gide to Iceland, aqui vai o link:

Se, por outro lado, preferir um serviço personalizado som um excelente profissional, abaixo o What'sApp do Robert:

+354 7896355

O papo estava tão bom que, perguntei como seria a questão do almoço, já que os demais que ficaram na cidade, certamente já teriam almoçado. Foi quando ele falou para eu escolher um lanche rápido e saiu para manobrar o carro. Menos de 20 minutos depois eu já estava pronta. Fiquei numa poltrona junto à saída esperando o  casal sair do SPA. De repente o Robert entra me chamando. O casal já estava no ônibus.

Pegamos o pessoal semicongelado na esquina combinada, e dali seguimos para uma padaria. O Robert explicou que tínhamos 3 aniversariantes na semana, dia 20 foi a Joy, dia 24 seria o Justin e eu no dia 27. Assim, cada um deveria pedir uma bebida no balcão e ele encomendou um bolo para cada um dos aniversariantes, todos de chocolate, atendendo nossa preferência de sabor, e cantamos parabéns com direito a velinha e tudo. Parece-me que o Justin estava completando 35, a Pink, 47, e eu, 56. O Robert comentou que a Pink estava muito bem, foi quando ela falou para ele a minha idade, e vi que ele falou um monte de coisas, me pareceu que sobre os latinos. Pedi que ela me explicasse e ela disse que ele pensou que eu tinha no máximo 46 anos. OK. Fico feliz assim.

Mas o caminho de volta seria longo, e fomos para a estrada. Ele parou para abastecer. Nesta mesma cidade eu vi alguns carros rodando com quase 20 centímetros de neve sobre o capô. No posto consegui registrar um com uma grande quantidade de neve, que também parou para abastecer.

Fomos viajando e a noite foi chegando, o vento continuava muito forte. E conforme escureceu, eu via neve passando na frente do para-brisa do carro e não grudando, fiquei intrigada. Tinha vários carros trafegando na rodovia naquele horário, e com as condições climáticas, todo cuidado seria pouco. Depois começou a nevar forte, e aí os motoristas tiveram que ligar o limpador de para-brisa. Ao contrário da chuva, a neve não desliza, ela gruda no vidro e o limpador funciona mais como um rastelo. Se deixar ficar muito grossa a camada, tem que tirar com uma escovinha que eles carregam dentro dos carros. De um lado parece uma escova de aço, do outro é como um rodo, e serve inclusive pra tirar a neve fofa por baixo dos pneus de carros atolados. Daí que entendi que os flocos que eu via, refletindo a luz do farol, era aquela poeira de neve carregada pelo vento, como no deserto. Não era chuva de neve.

Estava todo mundo quieto, talvez alguns dormindo, outros prestando a atenção na estrada, e, de repente, o Robert colocou o microfone e começou a contar histórias que envolviam o Wilston Churchill, a Islândia, os Estados Unidos, a Inglaterra, crianças, e depois a idade escolar das crianças daqui, o tempo que passam na escola, até que a moça do Taiwan falou que os estudantes lá ficam, se não me engano, 7 horas e meia diárias na escola, durante 6 dias de cada semana. Todos admiraram. Mas o que todos percebemos também, ou ele até pode ter falado, é que precisava conversar para não ter sono. E foi uma conversação geral. Menos eu, lógico. Mas permaneci acordada.

Depois de uma longa jornada, chegamos ao hotel por volta de 20 horas. Mas alguns dos passageiros encerravam neste dia o seu tour de 6 dias. Um dos casais australianos, a moça do Taiwan, a outra oriental que viajava sozinha, a única com quem não conversei nadinha, o casal chinês e o casal americano. Despedimo-nos na porta do hotel e o Robert foi levá-los para Reiquiavique, permanecendo por lá. Troquei mensagens com ele por Whats'App para saber que, no dia seguinte, partiríamos às 9h30.

Depois de ter comido dois pedaços de bolo de chocolate às 15 horas, não tinha fome para jantar e fiquei no quarto. Não tinha esperança de ver a Aurora Boreal neste dia, estava nublado, nevava. Mas pedia a Deus para não passar da sétima e última noite.

Sétimo dia

Preparei minhas coisas, tomei um excelente café da manhã, comi pequenas salsichas, bacon em fatias grandes, panquecas com pasta de amendoim, abacaxi, melão com presunto, suco de laranja e chá. Foi o café mais caprichado que tomei até então. Não que em outros hotéis não houvesse estas opções, mas eu não tive vontade.

Terminei mais cedo e fui para os sofás do saguão, o Robert chegou por volta de 9h20, e fui indo com minha mala quando uma das coreanas me perguntou se eu ia levar minha bagagem, me explicando que permaneceríamos por duas noites neste hotel. Ótimo, é o melhor hotel de toda a viagem.

Peguei de volta o cartão do quarto e lá deixei minha mala. Aproveitei para escrever no Google Tradutor que o lavatório estava com uma tampa e a água não escoava, e eu não consegui abrir. Mostrei para a recepcionista que assentiu.

Saímos então por mais lugares gelados, a temperatura estava novamente abaixo de zero (-3), com sensação térmica de -9 por causa do vento, mas acho que, conforme a força do vento, ficava ainda pior.

A primeira para foi num mirante para ver o penhasco Gerouberg, um precipício formado por lava basáltica fluída que foi solidificada pelo mar em colunas uniformes. Não desci, já que eram só 5 minutos e para observar e fotografar, fiz do carro mesmo.


Paramos numa cachoeira lindinha,a Kirkjufellfoss,  e em uma das laterais tem uma grande rocha de nome Kirjufell, cenário do seriado Guerra dos Tronos, com o nome de 'Montanha como uma Ponta de Flecha' por causa de seu formato. Consta que seja o rochedo mais fotografado da Islândia.

Ganhei neste lugar, além de experiência, alegria por estar aqui, e lindas paisagens, meu segundo tombo, só que agora, de joelho, e não tinha ninguém ao meu alcance. Tentei me levantar sozinha, mas não conseguia me apoiar, tanto a mão como os pés escorregavam. Sentei-me e aceitei a ajuda da Elen, que veio devagar evitando cair também. Estendeu-me o braço e eu impulsionei meu corpo e consegui ficar de pé. Mas agora com mais medo.

Ao lado da ponte sobre a cachoeira, tirei fotos com o casal australiano. Agora, os homens no micro, são só o Robert e o Warren.

Outro presente neste lugar foi o jardim de gelo. Tão peculiar e lindo.

Voltei para o carro, empurrada pelo vento, antes que os demais. Estava com toda a roupa de frio que trouxe na mala, mas nariz, queixo, e mão do celular estão sempre gelados quando estou nas áreas externas.

Vestia a segunda pele, uma camiseta de manga longa, a blusa de lã de lhama, a jaqueta de chuva e a corta vento, duas calças, duas meias, um cachecol...

Estamos na Península Snaefellsnes. Depois disso fomos a cratera de Saxoll. Ao lado dela uma grande escadaria de ferro nos leva para o alto. Mas nem seria necessário, bastava amarrar uma corda no pé para não perder a direção e deixar o vento nos alçar voo. E não estou brincando, lá no alto, literalmente ele me tirou do lugar, e olha que eu sou meio âncora. Aconselho muito cuidado, sempre, e ainda mais neste local.

Hoje senti algo que não gostaria de sentir. Estou vivendo uma magia; realizando sonhos meus e de muitos, mas trocaria tudo para estar viajando em São Paulo, ao lado de meu marido. Como senti falta dele, ou de alguém querido ao meu lado, alguém que me abraçasse e aquecesse. E ajudasse a espantar o medo. E a dor. Principalmente as dores emocionais.

E foi neste momento que a viagem mudou. Eu não queria mais sentir frio, nem escorregar e cair, e percebi o porquê de não ter contratado os passeios que considerei perigosos de uma forma mais concreta. Eu sou meio aventureira, sou de arriscar-me, mas o gelo é hostil para mim, não é um meio que eu conheça, e os tombos me confirmaram isso. Mas faria tudo diferente se estivesse com um companheiro.

E dali para frente não saí mais do carro, corrigindo, sai uma vez para ir ao banheiro e outra para comprar lanches. Mas porque íamos entrar num ambiente fechado e quente e porque não tinha neve em volta.

O próximo destino era um passeio opcional que não contratei, e só desceram O Warren e a Gil, a Pink, Elen e Joy. Iriam visitar a Caverna Vatnshellir. E usar a entrada para o Centro da Terra, usada no filme deste nome. É a caverna de lava mais extensa da Islândia. Ela está localizada na Geleira Snaefellsjokull.

Enquanto este companheiros fazer este passeio, paramos num local próximo onde as coreanas desceram para fotografias. Eu não. Fiquei olhando minhas redes sociais, já que o micro tem Wi-Fi.

Quando pegamos os demais companheiros eu revelei que, neste dia, o que eu mais gostaria era de estar em meu lar. O Robert falou que ainda teríamos mais três paradas.

A Baía de Djupalonssandur, que já foi vila de pescadores e tem uma bela praia de areia negra. Não fui porque o acesso era difícil, entre as rochas e com neve. E agora o joelho doía. Mas registrei a descida dos companheiros de viagem.

Depois paramos em uma junto a umas rochas bonitas  e o pessoal desceu para a única praia de areia clara da Islândia, YtriTunga, e sua areia dourada, mas o que mais chama a atenção neste lugar é a possibilidade de avistar as focas em seus ambiente natural. Como não desci, o registro abaixo foi feito pela coreana, Elka Lao. Ela me disse que foram avistadas bem ao longe. Eu queria muito ter visto esta praia. Mas era um longo percurso, e o micro se deslocou entre o ponto inicial, junto a uma escultura de pedras, e as bonitas rochas que registrei.

O último lugar foi a famosa Igreja Negra de Budir, de concepção minimalista, diferente em sua coloração, atrai muitos casais islandeses em busca da celebração do matrimônio. 

Ainda deu tempo de ver o por do sol, de dentro do ônibus.

Olhando depois a programação, vi que está invertido, e fizemos hoje o que seria o oitavo dia,  no meu roteiro. 

Meu joelho doía e estava inchado, eu queria primeiro jantar para depois tomar banho e não mais sair do quarto. Mas o Robert nos avisou que este hotel tem um pessoal que fica atento ao céu e avisa se houver ocorrência de Aurora Boreal, e lembrei, com tanta ventania hoje, certamente o céu estará limpo durante a noite, e será minha última oportunidade de ver a aurora. Então vou tomar meu banho, e depois jantar. Assim estarei vestida quando eles chamarem para ver a Aurora. Fiz como a menininha que levou guarda-chuva para a Igreja no dia que iam orar para chover.

O restaurante inicia o jantar às 19h. Passando um pouco de 19h30 eu fui jantar. Pedi um prato de fusili com queijo derretido, e um molho espetacular. Recebi o pão de entrada, e bebi meio litro de água, tanta era a minha sede. O meu prato foi servido um pouco antes das 20h30. Estou dizendo os horários porque são importantes para esclarecer os fatos. Por volta de 20h40 o garçom se dirige à mesa ao lado, onde estão o Warren e a Gil, eles se levantam, passam por mim e dizem que está ocorrendo movimentos no céu. E saem. Eu estou meio manca e vou saindo também, e tive que voltar para pegar a jaqueta, vou até a recepção e me informo qual o melhor local para avistá-la. E o mesmo garçom que estava me atendendo aponta para um lado, por onde vou.

A roupa que estou vestindo é inadequada para o frio que está lá fora. Mas, não me importo. Não posso perder este momento pelo qual pedi e estou sendo atendida. Um presente de aniversário oferecido antecipadamente pelo criador, sabendo que seria a minha última noite num local com menos iluminação.

Num cantinho coberto e com menos luz, fiquei a olhar o céu estrelado, e uma fumaça verde, como que saindo da boca do gênio e se espalhando pelo céu, tênue, verde, formando figuras fantasmagóricas no céu escuro e estrelado. Estamos na lua minguante, quase nova, data cuidadosamente escolhida por mim para ter um céu mais escuro. E lembro de ter lido o comentário de um blogueiro que viu uma aurora fraquinha, tudo bem, pode ser fraquinha, mas é a minha aurora verde. A cor é determinada pelo tipo de material desprendido das explosões solares, que lança partículas no espaço, e estas são repelidas pelo campo magnético da Terra. As que penetram no ovário da mãe Terra, se transformam em nuances coloridas no céu, durante todo o dia isso acontece, mas nem todo os dias. Só que só são visíveis durante a noite. E o verão por aqui tem dias muito extensos, em compensação, o inverno, tem luz somente entre meio dia e 4 da tarde, se não houver nuvens. Mais ao Norte da Ilha fica ainda pior. Por isso dizem que as melhores estações para observar Aurora Boreal são outono e inverno. A Aurora Austral acontece nos mesmos dias que a Boreal, mas não são tão procuradas porque não exitem terras habitadas nesta parte do círculo antártico.

Fiquei lá a observar por um tempo, entrei, peguei mais uma blusa, voltei. Olhei mais um tempo agradecendo o privilégio e a oportunidade. Lá ao fundo apareciam formas diferentes, iluminando o topo da montanha. Fiquei satisfeita e entrei para terminar meu jantar. Findo o delicioso jantar, volto para o saguão e encontro todos os meus companheiros, dizendo que ainda estava visível. Saí com eles, e vi as fotos tiradas ela Elka. Uau! O brilho que aparece nas fotos é espetacular. Tentei de novo. Nada. Coloquei o flash. Nada.

Ela se ofereceu para tirar minha foto com o celular dela. Glória a Deus! Então minha aurora não foi fraquinha? Não, foi espetacular. Mas igual os aquários de Monterrey, que ficavam no escuro e pareciam sem graça, e que no olho mecânico da lente desvenda cores exuberantes, assim é a Aurora Boreal. Então, não espere ver o céu todo iluminado de verde ou rosa. Na verdade é como fumaça colorida, nuvens tênues, verdes e/ou rosas, se espalhando por um céu estrelado, e criando figuras de acordo com a sua imaginação. Pode ser de pura adrenalina, ou frustrante, depende de como você encara a vida. É só isso? Ou, tudo isso? Para mim foi tudo isso, e constatar que meu presente foi bem maior do que eu imaginava, é impagável. Fotos da Irene Tong.

De manhã descobri que o fenômeno voltou a ocorrer por volta de 23 horas. Mas nesta hora eu já estava feliz da vida, em meu quarto, banho tomado, malas quase prontas, post dos dias anteriores compartilhados, e querendo cama para descansar meu joelho.