ISLÃNDIA - QUINTO DIA DE TOUR DE OITO DIAS - Terra de Neve

24/10/2019

Hoje, inusitadamente, puxei as cortinas do quarto e olhei para fora antes mesmo de me vestir. Minha roupa já estava separada sobre o móvel, mas vi os caros branquinhos e vi que era neve. Assim, tratei de mudar toda a roupa, não que eu tenha trazido muita, mas resolvi incluir a segunda pele, e também usar a blusa de malha de lhama por baixo do impermeável preto. Coisas da providência divina.

Este hotel foi o melhor até agora, mas odos foram bons. Um com um colchão mole, outro com café da manhã mais fraco, mas não falta secador de cabelo, aquecimento que seca toda a roupa de baixo que vou lavando diariamente, e alguns até oferecem cortesias, como shampoo e condicionador. Sempre tem um baita de um edredom quentinho, enfim, confortáveis.

Registrei minha segunda neve da vida, agora em camada mais grossa. E iniciamos a maior aventura da expedição.

O micro foi sendo conduzido por nosso guia, e eu notava uma grande tensão em sua expressão, normalmente calma, pois franzia o cenho para olhar a estrada. O sol se levantou e não mostrava ainda a cara, mas só sua influência no branco da neve, por trás das nuvens, fez com que ele colocasse os óculos de sol para melhorar o contraste e ter melhor visão.

E a neve caindo, e formando uma camada grossa sobre o asfalto, na pista estreita, de duas mãos, sem acostamento, e com uns pauzinhos fincados na lateral. Imaginei que eles servem para mostrar onde está a estrada quando fica tudo branco, porque a neve que está fora do percurso é sempre fofa e em maior volume. O micro sempre está quentinho, às vezes até demais para o meu gosto, e é difícil lutar contra o sono. Mas eu estava atenta à nova paisagem, tão incomum para mim, nascida em um país tropical. Mas a estrada foi longa e em dado momento eu cochilei, e não muito tempo depois, assustei. Algo aconteceu, um movimento abrupto do carro que deslizara e atolara.

Desceu o Robert, desceu nosso amigo australiano, e olharam, e logo se formou algum congestionamento. E foi quando ele decidiu e voltou para o micro dizendo:

_ " Guys, to push."

Não entendi imediatamente, sempre faço confusão com este verbo e o seu contrário. Mas vi que todos começaram a se agasalhar e sair do carro. E fiz o mesmo. Nesta hora a ficha já tinha caído. E lá fomos nós, dar uma mãozinha para sair do atoleiro.

No primeiro movimento, depois de a roda traseira ficar rodando no mesmo lugar e queimando borracha por um tempo, o carro saiu do lugar, mas a traseira deslizou mais para a esquerda e mais para dentro da neve macia. Outra tentativa sem êxito. Não tenho nenhuma experiência com neve, mas sou boa em física experimental, tenho essa visão natural da física, e muita experiência em atoleiros no barro. Temos que empurrar também na lateral esquerda, pensei, e disse, mas sem muita ênfase, já que meu inglês não me ajuda nestas horas. Mas outros dois pensaram da mesma forma e vieram para a lateral comigo. E em vez de usar as mãos eu coloquei o meu braço direito contra a lataria e empurrei com gosto, vi que o colega da frente também mudou de posição, trocando as mãos pelo corpo, o de trás não tive como olhar, mas nesta vez a tentativa virou realidade, e o micro voltou ao caminho de neve segura. O Robert saiu comemorando conosco como se faz em jogos coletivos, batendo palma da mão com palma. Não sei se há um nome para este cumprimento. Ele até tirou uma foto do grupo depois deste esforço conjunto. Eu achei uma ótima experiência. Dificuldades formam laços afetivos.

Entrei no carro, tirei minhas blusas porque com o esforço e tensão aqueci, e poucos minutos depois ele estacionou, para ver neve, pensei, pois tudo que eu via pelos lados era neve. Hesitei. Nem queria sair do carro. Mas vesti minha roupa novamente e perguntei para ele o que fazer. Ele tentou escrever no celular, mas sua mão estava tão gelada que o celular fica insensível ao toque (sabiam disso?) e disse-me:

_ " Follow us."

Entendi, e concordei. Fui então seguindo os demais.

Mas o banheiro estava no caminho, e eu fui a última a entrar, portanto, a última a sair. Então segui o sulco na neve. 

E foi uma experiência interessante. Logo estava com a Joy e a Elen, e desci minha primeira ladeira de neve, fofa, então é mais fácil, fui colocando o pé lateralmente, como minha mãe me ensinou a descer ladeira, e devagar cheguei na parte baixa. E a paisagem é muito bonita. Fica tudo preto e branco, naturalmente. E comecei a ouvir uma barulho de água, e percebi que veríamos uma cachoeria, a Dettifoss.

O caminho também é muito interessante, um sulco vai se formando na neve, por onde as pessoas passam, e este é o local mais seguro a seguir. Em alguns pontos era possível avistar a camada de gelo constante, amarela, que está por baixo da neve. Este sim é escorregadio, pelo que pude perceber. A neve em si é leve, fofa, fria, mas é como sorvete cremoso, tem muito ar dentro, então não é gelada como uma pedra de gelo. 

Outro aspecto interessante, que constatei, é que estar na neve se assemelha a estar no deserto, não vemos muita variação de cor, as temperaturas são extremas, e tanto a neve como a areia são deslocadas pelo vento, formando finas camadas que percorrem os caminhos rentes ao solo. Fora isso, tive que registrar o calçado que estou usando, que faz a diferença na minha segurança. Tem a sola rugosa, mais aderente, o cano alto que evita que eu vire o pé, e um material que mantém aquecido, sendo bastante impermeável também.

Depois de andar bastante, enfim cheguei à cachoeira. Bem larga. E o cenário é todo cinzento. E só olhando a foto consigo observar todos os detalhes, porque aí enxergo algum contraste. Vejam que desbunde!

Vi um mirante a frente, e lá fui eu, sozinha, meio lerda, atrapalhando os mais jovens de andar (outros turistas).

Lá no mirante encontrei o casal australiano, o Warren e sua esposa já voltando. Lá em cima ainda estavam o casal de chineses. A esposa é muito sorridente, não a vi com a cara séria até agora. Quando vi que eles iam retornar ao micro pedi:

_ " Please, wait me. I go with you."

E ela me fez passar a sua frente e andar entre eles, toda cuidadosa. No caminho fomos encontrando os demais, e quando chegamos ao micro, estávamos num grande grupo. O caminho que se forma na neve é tão estreito que quando vem alguém de frente, alguém tem que abrir espaço para não haver choque. Na ida eu fui abrindo espaço, quem volta está cansado. E na volta ainda tínhamos a proteção uns dos outros.

Nesta hora do dia, por volta de 12 horas, tínhamos temperatura negativa em 2 graus, com sensação térmica de menos 9. Gelaaadooo!

Em nossa próxima parada estava ainda mais frio, mas haviam montes de pedras fumegantes, válvulas de escape de enxofre, quente e mal cheirosas, que rendem divertidas fotos de alguns mais ousados. Em alguns destes lugares a fumaça é tanta que quase não se vê nada. E as montanhas continuam rodeando os cenários, cada vez mais altos, ao que me parece.

Agora a neve cai toda hora, e todo o lado que olho vejo neve, tudo branco, com vegetação ressequida, suportando a neve em seus galhos, ou segurando pngentes de gelo. Tão bonito. Não pensei que teria uma experiência de contato com a neve desta forma. Alguns colegas até formaram algumas bolas e arremessaram entre eles.

Já passava da hora do almoço quando paramos numa interessante lanchonete para almoçar. Pedi um beef burguer, e de tudo que comi até então, foi o que menos gostei. O hambúrguer estava muito seco, pouco molho, enfim, não gostei. Só serviu para não ficar com fome. Mas o local é pitoresco porque, além de proporcionar belas vistas através de suas janelas envidraçadas, tem uma mangueira fechada, com o gado, visível também pela janela. Deve ser comum estes lugares junto às casas, para proteger a criação dos rigorosos invernos.

O próximo destino foi junto ao lago Myvatn, um grande lago numa região de águas termais, onde está localizado um SPA, atividade opcional que não contratei. Eu ia ficar no carro, porque estava nevando e com um vento forte e gelado, mas o Robert me disse que 3 outros companheiros não iriam desfrutar do SPA e estavam lá dentro sentados. Perguntei se tinha café, peguei minha pochete com dinheiro, ele me ofereceu suas blusas de frio que não estava usando, mais adequadas para a temperatura externa e lá fui eu, logo atrás dele. Lá chegando sentei junto ao casal de chineses. A mocinha do Taiwan que mora na Austrália estava em outra mesa. O rapaz chinês, como eu já disse, fala um pouco de espanhol, e me disse que não gosta do inglês, enquanto idioma. Acha a gramática muito pobre. Fala também o cantonês. Como seu espanhol também não é muito bom e iniciamos o que chamo de 'papo cabeça', fomos misturando o inglês e o espanhol, e usando o tradutor. Eu disse que no Brasil o inglês ensinado na escola é deficiente, aliás como todo o estudo, de modo geral, porque ele tinha comentado que em países como a Coreia, é muito raro encontrar quem fale inglês. E que nos Estados Unidos o povo mais tradicional, só fala inglês, e até olha feio para quem fala outro idioma. Eu disse que por outros motivos, diferentes dos países pobres, que usam a falta de educação como meio de manipulação das massas. Nos E.U.A. é porque sabem que sua língua é falada no mundo todo em função de seu poderio econômico, então falta um pouco de humildade. E que esta seria a razão de eu não ter aprendido a falar inglês antes, por não dissociar o idioma do poder econômico. Estou vencendo esta barreira. Enquanto isso sua esposa preparava cartões postais.

O povo foi saindo do SPA e sentando-se junto a nós, enquanto não chegavam todos. Quando terminaram, embarcamos para a última atração da noite, formações rochosas que parecem castelos escuros (Dimmuborgum), local que já foi cenário para filmes de extra Terra.

Realmente as rochas contra a paisagem nevada são tão cinzas que até parece que você mexeu sem querer em algum botão do celular e as fotos estão saindo preto e branco. Mas daí parecem as coloridas pessoas e você percebe que está tudo normal, a paisagem que é mesmo de outro mundo.

Na primeira gruta que fui olhar, no alto, após uns poucos degraus gelados, levei meu primeiro e espero que único tombo. Ao descer, escorreguei no degrau e cai batendo a lateral da coxa. Mas é tudo tão frio que já fiz a compressa de gelo simultaneamente, kkkk, e nem ficou roxo.

Tinha uma rocha lá no alto com um buraco em forma de círculo, brinquei com as companheiras:

_ " Vou subir para que vocês tirem uma foto minha." E rimos.

Mas daqui a pouco chega o Robert e convida-nos a todos, a escalar a rocha. E nós fomos, e fiz minha foto no círculo da montanha.

E descemos pelo outro lado, e fomos seguindo uma trilha leve no meio da neve. E ele, que vinha mais atrás, ajudando-nos a subir e descer os degraus gelados sem mais quedas, avisou quem estava na frente para virar na estaca amarela.

E fomos seguindo. E vimos a estaca, e viramos, e ele correndo ao nosso lado, pedindo passagem para ir e voltar e ajudar onde fosse mais necessário. Em dado momento ele estava a frente e falou para regressarmos, pois o caminho não era aquele, voltamos e um pouco mais que ele andou, convocou-nos novamente a seguir aquele outro caminho que achou. E fomos andando muito, eu logo atrás da Joy, e a frente da americana. Quando chegava um lugar mais difícil, juntávamos as mãos fazendo uma corrente de apoio. E andamos, e andamos, começou a escurecer, e o Robert pedindo para apressarmos o passo, e vinha contando e recontando o grupo para ver se estavam os 18 ali. E acelerando o passo, mas não conseguíamos acompanhá-lo. Pessoas de vários tamanhos e idades, com passos mais largos ou mais estreitos, mais ou menos seguros, enfim.

Chegamos perto da boca do vulcão, já na penumbra. Era um local mais aberto, sem interferência das rochas. Eu só via ele pedindo o celular das pessoas, e falando ao telefone. E pediu que nos agrupássemos para nos aquecer. E fizemos círculos abraçados, cantando, contando piadas, e nos movimentado lentamente, para não escorregar. O vento por vezes nos castigava. Mas agradeci a Deus e ao Robert por estar com o agasalho dele. Percebi que estávamos perdidos. Primeiro eu achei que o caminho era comprido mesmo, quando paramos naquele lugar e ficamos esperando foi que tive a certeza de estarmos perdidos. Meu desconforto foi por não falar o idioma e não entender o que estava acontecendo. Não senti medo, nosso guia é muito responsável, atencioso, preocupado, e passou segurança e tranquilidade, pelo menos para mim, e imagino que para os demais também já que estes entendiam sua comunicação verbal.

Escureceu, não tenho ideia de quanto tempo ali ficamos. De repente um carro, que pareceu-me da polícia, chegou, e levou as 4 coreanas para o micro. Era o espaço disponível. Um pouco mais de tempo e apreensão, o vento mais forte ainda, e logo chegaram mais dois ou três carros, nem sei. Fui no bagageiro do primeiro, numa cadeira menor, junto com cadeirinhas de criança, desconfortável, mas seria por pouco tempo, e pelo menos estava aquecida e já sendo resgatada.

Minha primeira atitude ao entrar no ônibus, depois de me sentar, foi agradecer a Deus. Todos no micro seguimos para o hotel. Demorou ainda a chegar. Eram quase 22 horas quando ele parou em frente a um restaurante para jantarmos. Eu não tinha fome e fiquei contente quando mais 6 pessoas permaneceram no micro ansiosos por chegar ao hotel e descansar, como eu.

Ajudamos o Robert com a bagagem, já que os demais não estavam para que cada um carregasse a sua. Peguei minha chave e fui para o quarto. Sentei-me na cama e chorei, copiosamente. Nem tinha me dado conta de toda a tensão que eu estava. E certamente junto a isso o cansaço e a fome, e a sede. Mas foi uma experiência edificante, onde mais uma vez fica provado que as pessoas se ajudam na dificuldade.

Perguntei ao Robert, no dia seguinte o que realmente acontecera, quem nos resgatou?

Ele explicou que há dois caminhos para sair de onde estávamos, um mais longo e outro mais curto, mas as marcações estavam incorretas e com a neve ele acabou se perdendo. Depois precisava ir para um local em campo aberto para conseguir sinal e pedir ajuda. Só que não podia fazer isso sozinho e deixar o grupo perdido para trás, então teve que forçar a marcha para chegarmos juntos a este local. Ainda bem que ele não nos abandonou e teve o bom senso de acompanhar o grupo o tempo todo. Isso demonstra o preparo que ele tem em situações extremas. E é um bom líder.

Quanto ao resgate me disse que se trata de um grupo voluntários de busca e resgate que atua por toda a Islândia, e que ele os acionou por telefone. A solicitação dos telefones dos colegas foi porque iam acabando as baterias.

Só sei que foi assim. E não me arrependo de nenhum momento, e considerando o meu temperamento, talvez tenha sido o dia que mais apreciei, apesar de ficar estremecida, depois. É muita adrenalina.