ILHA DE ARMONA, OLHÃO – UM DIA DE PRAIA

27/07/2019

Minha programação incluía a cidade de Olhão, pertencente ao Distrito de Faro, a menos de 9 km daqui. Mesmo ainda não estando bem, não vou ficar parada no hotel, já que tal atitude nada irá resolver.

Tem um comboio a cada hora aproximadamente. Pensei em ir no das 8h59, porém resolvi fazer tudo com calma, tomar o café da manhã na padaria em vez de trazer o pão, voltar, ir ao banheiro de novo, ver como me sentia.

Não sentia mais dor, mas estava tudo do mesmo jeito. Para não ter problemas, o jeito é não comer. Ainda assim tomei um café com pão puro e uma tortinha de morango que chamei por Catalina, mas é Constantina. Junto à Padaria notei pela primeira vez, um ninho de cegonha sobre o poste de luz. Elas são bem atrevidas por aqui. Mas respeitadas.

O céu está particularmente estranho. Todo avião que passa deixa seu rastro de fumaça que se espalha. Não sei ao que se deve este fenômeno. Inclinação do sol em relação à Terra?

Tomei o terceiro sachê do pro-biótico e fui embora. Peguei o trem das 10h55. O trajeto é bem curto, cerca de 20 minutos.

 A Estação Ferroviária de Olhão, um brinco. Um senhor, todo solícito, ficava dando informações a todos que aparentavam dúvidas, antes mesmo de ser requerido.

Eu tinha programado um montão de lugares, desde cedo, e ir a Ilha de Armona mais para o meio da tarde. Porém lembrei-me da tábua das marés e achei melhor ir logo, além de que, o sol do meio dia, aqui, é mais suave do que o das 16h. O caminho de embarque contempla alguns dos pontos que marquei, um deles para fazer até às 14 horas, horário de encerramento do Mercado Municipal. Essa é outra tara que tenho, além das igrejas. Nos mercados você encontra o povo local. Eles dizem muito sobre a cultura do povo, sua higiene, seus modos, suas preferências.

O caminho é pela Avenida da República, que considerando ser em todas as cidades uma das principais vias, suponho ser a data comemorativa mais importante do país. Achei interessante uma banca de jornal e outros, no caminho, servir até de sex shop.

Passo pela Igreja, que está fechada, mas não teria tempo de vê-la agora.

E por uma rua de comércio, calçadão, que não tem nenhuma árvore para fornecer uma sombra agradável para os clientes, no calor que faz aqui, com sol mais de 300 dias por ano, mesmo no frio, e quase nunca chove. Mas os comerciantes ou o município, ou ambos, arrumaram uma simpática e barata solução. Sombrinhas coloridas estão penduradas por toda a passagem, fornecendo graça e sombra. Lógico que, conforme o horário do dia, os próprios prédios fornecem a sombra.

Avisto o mercado, mas antes quero me hidratar. Paro numa lanchonete na esquina em frente ao mesmo e peço um suco de pera com maçã.

Atravesso a rua e entro no mercado dos diversos primeiro.

Fiquei impressionada com a limpeza e organização de todos os mercados que vi até agora em Portugal. Mesmo no Mercado de Peixes, que tem um prédio só para o produto, tudo muito limpo. E a diversidade de ofertas é grande. Outra coisa a ser notada. Tem terminal de saque para todo lado, aqui tem um na porta de cada prédio. Isso passa a sensação de segurança.

No exterior direito para quem vem da cidade está uma Praça com uma feira de artesanato e roupas, não sei se é frequente. E estão montando uma estrutura para alguma festa popular que deve ocorrer no final de semana.

Ali tem um painel falando do caíque português que veio ao Brasil avisar Dom João VI da desocupação francesa.

Peço orientação e vou para o lado esquerdo do Mercado, onde após outro jardim, encontro a bilheteria para compra de passagem até a Ilha de Armona. Paguei 3,70 euros na viagem de ida e volta. E o Ferry já estava estacionado, desembarcando que vinha de lá. 

Não circulam carros nas ilhas, assim, os ferrys só transportam gente, todos munidos de cadeiras, guarda-sóis, coolers, chapéus, carrinhos de bebês. Os animais de estimação também são permitidos, desde que engaiolados.

A viagem é de um pouco mais do que 20 minutos. Sem muita diferença do que já vi até agora da Ria Formosa.

Quando ele atraca, e desembarcamos, já vejo a praia logo ali ao lado. E do outro lado da Ria, a Ilha do Farol.

Mas vou seguindo por um caminho de concreto, como muitas gente. E não acho por onde chegar até aquela praia. Mas vejo uma ruela onde ao fundo está escrito: WC. Sinto que estou precisando, de novo. E também posso aproveitar para tirar o tênis (pensei que ia caminhar mais pela cidade), passar protetor solar e tirar a roupa de cima trocando por uma saída de praia.

O caminho cheio de casas que surpreendem, como as da Ilha do Farol, pelos detalhes que parecem carinho aos moradores e visitantes.

Uma placa indica Lagoa dos Patos, e bifurca para a direita. Vou por ali, pois para a esquerda vai direto a Praia. Mas pergunto-me: " Numa ilha, algum lugar não vai dar na praia?"

A Lagoa dos Patos não tinha patos, mas tem algumas poucas pessoas sentadas na beiradinha, onde a água é clarinha. Tem até uma mulher sentada com um livro, lendo, o que já é impressionante hoje em dia, dentro da água. De longe imaginei que a parte escura fosse profunda, mas ao me aproximar constato que, na verdade, o centro da lagoa é repleto de vegetação. Uma grama toda emaranhada. Mas na parte rasa, pude ver peixinho e até um caranguejo.

E adiante dela vejo baixas dunas, cobertas de vegetação desértica, toda florida. Não tem nenhum caminho visível por ali. Me arrisco? Sozinha? É irresistível. Lá vou eu. Será que o mar está longe? Mas de um dos altos, veho a ponta da vela de um barco. Não parece distante. E olhando bem entre a vegetação rsteira, parece que se forma um trilho, não sei se casual ou de tantas passagens humanas.

Saio na praia da Ria. Sem ondas, multicolorida, e com um tipo de vegeação que parece grama e vai ficando à margem. Tenho pelo menos uns 300 metro de praia só para mim. As poucas pessoas que avisto estão longe, e as em maior número, mais longe ainda.

Vou fazer meu book de praia. Tem um degrau de areia com pouco mais do que 20 centímetros. Acomodo minha mochila encostada nele. E o celular sobre ela, apontando para a praia, e programado para disparar em 10 segundos. Corro e faço pose, mas não sei se a foto já foi tirada ou não quando lá chego. Dou um tempinho na posição e vou lá conferir o resultado. Kkkk, até que ficou bom. E repito a operação mais algumas verzes. Não tem ninguém olhando mesmo. Dá até pra fazer uns nudes, se eu quiser. Mas não quero, nem eu mereço isso, kkkk.

Depois pego o celular e vou para dentro da água, que não está fria como a da Ilha Deserta e do Farol, ontem. Tem menos profundidade também, o que ajuda a aquecer melhor a água. É hora de seguir adiante, afinal tem muito mar bonito para ver.

Vou em direção ao povo. Vou pela areia, que tem caminhos de vegetação que ficaram para trás quando a maré baixou.

Quando começo a me aproximar das pessoas, paro novamente para comer minha pera e tomar água. Depois resolvo entrar novamente na água, num buraco entre a vegetação que fica flutuando na margem, mas vejo uma mancha grande e escura se aproximando e fico amedrontada. Penso que pode ser mais mato vindo, mas e se....

Saio e pego o celular filmando a aproximação da massa de vegetação se fundir com a que já estava à margem (veja no meu Instagram @lessa meyre). E continuo minha caminhada. Mesmo aumentando o número de pessoas, nem parece verão, num dos locais mais procurados pelos europeus pelo clima e águas quentes e pelo custo de vida baixo.

Lá bem adiante tem uma ponta de praia com a água bem clarinha, vou em frente e vejo que ali começa o oceano. Então esta deve ser uma das portas da Ria.´

E impressionante, mas a praia já está limpa. Vejo uma lagoinha que emenda com o mar e decido caminhar dentro dela, de tão quentinha está a água. Ótima para quem tem bebês. Rasinha, limpinha, quentinha. Mas não tiha ninguém com os bebês por ali. Também fiz um filminho.

Olhando para a esquerda então, do lado do mar, um enorme banco de areia. Tinha uma porção de homens, lá longe, sei lá fazendo o que, mas numa parte mais alta do banco de areia, que formava uma pequena faixa de ilha.

Novamente não resisti. É meu dia de praia. E pra quem tem medo de água como eu, não dá para dispensar uma praia rasa, sem ondas, limpa e de água quente. Além de tudo segura. Coloquei minha mochila sobre os chinelos e fui em frente, só com o celular, porque queria fotos de uma outra perspectiva, e pra mostrar a distância que percorri caminhando dentro da água.

Lembrei-me de minha amiga Elisa. Tenho certeza que se sentiria cômoda, com o eu estou, nestas águas tranquilas. Uma família avistou algum peixe e mostravam uns para os outros. Eu continuei em frente até a água bater no meu cotovelo, com o braço dobrado para segurar o celular. Daria aonda para seguir mais uns 100 metros, acho eu. Via minha mochila sozinha lá ao longe. Resolvi contar os passos na volta, para ter uma noção de distância. Foram 172 passos, uns 150 metros?

Mais adiante começaram a aparecer aquela alga tipo alface de novo. Um pai loiro e lindo, de rabo de cavalo, ajudava seu filho de uns 10 anos, a manobrar aquele paraglide acho, na areia. Estavam esticando o fio quando eu passava. Corri na areia, para não atrapalhar, quase tropeçando e me embolando toda, e ganhei um:

_ " Calma, não tenha pressa."

Hahaha, como sou boba. Mais adiante me voltei e eles já haviam colocado no ar. Depois estavam manobrando de dentro da água.

E ando, ando. Engraçado, eu preferi esta parte da praia, mas está bem dividida a quantidade de pessoas. Para ver que tem gosto para tudo. Talvez façam como eu, uma parte do dia de um lado, depois do outro.

Tem outra lagoinha, agora cheia de alga de alface. Uma mãe passa com o filho pequeno por dentro do mar E grita pela filha maior que a acompanhe, pois está longe:

_ " Giovanna, venha." A menina, de uns 5 anos talvez, corre, se detém e grita de volta:

_ " Tenho medo mamãe, de passar por aqui."

A mãe continua caminhando e responde de longe:

_ " Passe por cima então, Dê a volta."

O caminho mais curto de passar por cima seria por onde eu vinha, no sentido oposto. Parei e fiquei observando,porque a mãe continuou seu caminho, absorta com o celular e levando o outro filho pequeno no colo. A menina escolheu ir por cima da duna, que formava um degrau arenoso e escorregadio. Ela insegura procurava um lugar que lhe permitisse passar sem perigo, e ia na carreira. Que energia boa que têm as crianças. Em todos os sentidos. Fiquei ali parada, observando, se precisasse eu estava a meio caminho entre as duas. Mas não foi necessário. Essas meninas são mesmo bem resolvidas, desde cedo.

Cheguei a um pedaço de praia repleto de espreguiçadeiras e quiosques de palha. Mas pouca gente. E um caminho de tábuas. O que é necessário porque ali a areia é fofa e quente. O caminho é enorme, e tem bifurcações para alcançar diversos pontos diferenciados da praia. Tem até WC e lixeiras pelo caminho. Mas nenhuma sombra; Estou sem água e com sede. A que trouxe já acabou.

Logo chego a um restaurante. Uma sombra bem vinda. Já são quase 16 horas. Vou almoçar. Tem espaguete a moda Armona, com frutos do mar. Snif. Não vou poder.

Mas tem um com vegetais. Será minha opção. E uma cerveja. Será que posso? Vou descobrir depois. Acho que o levedo é bom para o que tenho.

Acho que não tinha nenhum vegetal naquele molho, era só tomate mesmo, talvez cenoura, tão cozida que se misturou, e uns raminhos de alfafa? Agrião? Algum broto? Sei lá. Comi metade da massa e todo o molho.

E volto a caminhar. Agora vou precisar do banheiro de novo. Já estou no caminho de concreto, mas não reconheço nenhum lugar. Passam das 16 horas e a intensidade do sol é ainda maior. E o banheiro não chega nunca. Passo por uma indicação para a Lagos dos Patos. Mas ainda não é aquela. Passo por outra, mas ainda tenho que andar um bocado até achar o banheiro.

Caramba, que calor. Lembrei-me que trouxe uma toalhinha. Vou molhá-la e me limpar. Estou toda suada, mas se for tomar banho agora, vou perder o Ferry das 17 horas. Me troquei mas continuei de chinelo. Ao caminhar sinto um incômodo na virilha, como se fosse de uma torção. Acho que fiquei muito tempo caminhando de chinelo. A maior parte do tempo foi descalça, o que é bom, mas de chinelo, nem tanto. Vou colocar o tênis quando estiver no Ferry.

Lá chegando ainda faltavam uns 20 minutos para às 17 horas, mas já tinha uma fila na sombra da cobertura. Me acomodei na sobra e decidi já fazer a troca do sapato. A sacolinha onde estava o tênis voou para a praia e parou. Ainda bem, fique aí que eu vou buscá-la. E ela me obedeceu. Dei a volta poque me pareceu difícil descer pela proteção, mas para subir achei mais fácil ir direto. Ainda tinha um 15 minutos e estava com sede. Abandonei a fila e fui a uma lanchonete que estava mais vazia para ser atendida mais rapidamente. Chego lá, ninguém no balcão. No balcão da sorveteria, no mesmo estabelecimento, a menina não tem água ali. Tem que ver com ele lá dentro. Lá vem ele com uma bandeja cheia de almeijoas. Peço a água. Ele responde e vai colocar a bandeja no freezer. Primeiro tampado com dois pedaços de plástico duro, difíceis de manejar com uma só mão, ele os tira e quer ajeitar os peixes para colocar a bandeja, sem se desfazer dela, acomoda-a, o conteúdo escorrega e algumas caem por cima dos peixes, ele as pega com a mão livre, pequenas, uma a uma, e vai depositando na bandeja. Um senhor se aproxima e penso que vai ajuda-lo. Fica conversando e ele lá, passando os peixes para aqui e para acolá. Até que finaliza a manobra e volta para o balcão. Nisso entre um outro senhor e começa a falar de alguém que mandou dizer alguma coisa... Você já perdeu a paciência? Demorei né? Virei as costas e fui no lugar mais cheio, ao lado. Agora está explicado porque está mais cheio, não é mesmo? Eu já sabia disso, mas tive que passar à prova.

Quando volto para fila, no final não tem mais lugar à sombra. Vou pela lateral. Não me importo de esperar todo mundo subir, se necessário, mas não vou ficar mais no sol.

Enquanto aguardo vejo uma família brincando de bola. O senhor pega um emaranhado daquela alga grama e coloca na cabeça como se fosse uma peruca. E quando a perde, volta a procura-la. Talvez sirva também para proteger o couro cabeludo, não só para fazer graça. Tiro uma última foto do mar prateado pelo sol.

Em pouco tempo o Ferry atraca e todos podemos entrar e sentarmo-nos. Vim na parte de cima, no descoberto, mas agora vou voltar na sobra, até porque meu celular está quase sem bateria.

Uma família que suponho italiana, sentou-se ao meu entorno. Duas crianças, um menino de uns 8 anos e a irmã mais jovem um ano ou dois, ele com um boné na mão e ela com o cabelo envolvido por um lenço. Branquinho e loirinhos, na posição que estavam, pegavam o sol no pescoço, E eu pensando: " Menino, põe este boné na cabeça, com a aba virada para trás. Mãe, manda ele colocar o boné." Depois de um tempo ela o orientou e ele obedeceu. Sem contestar. Depois ofereceu banana para ele, e maçã para sua irmâ. Quando terminou ele estendeu a casca para ela que a tomou, abriu uma vasilha plática com tampa, e depositou a casca ali dentro. O mesmo fez com o miolo da maçã quando a menina a terminou. Eu carregava o meu miolo de pera na sacola, dentro da mochila. E sabem por que? Porque minha mãe fazia como a deles, carregava consigo o lixo que fazíamos, e o descarregava nas lixeiras de casa. Assim se ensina. Só o fato de eles não ficarem discutindo com a mãe já demonstra que eles aprenderam a ter respeito e educação, e foi com a própria mãe que aprenderam.

Chegamos ao cais em Olhão 17h30. O trem passaria às 17h55. Se não pegasse este, só 18h59, que era o horário previsto inicialmente, em meu programa. Sebo nas canelas. Mas não cheguei a tempo. E fiquei fazendo hora na lanchonete Estação. Tomei um suco de ananás e dpois um sorvete. 18h30 fui para o banco da plataforma um.

Já falei que me incomoda bastante o fato de eles fumarem em qualquer lugar aqui. Penso que neste aspecto, estamos mais evoluídos. Às 18h59 um aviso no autofalante diz que o comboio só vai passar às 19h30. O sol ardente está invadindo por baixo da cobertura da plataforma, por causa de sua altura no ceú. Todos decidem se locomover para dentro da estação, ocupando os bancos que ali estão até o anúncio de chegada do trem.

Acho que estou um pouco ácida. Preciso me controlar para não julgar. Quando me dou conta estou julgando a personalidade de uma pessoa baseada em seus gostos de vestuário, ou forma de falar, o formato de seus óculos, ou o jeito de carregar um livro. Credo! Não quero fazer isso, é resultado da falta do que fazer. Uma hora e meia esperando, sem celular porque agora a bateria arriou de vez... Vejam como estou comprovando mais um ditado aqui: " Cabeça vazia é sinagoga de Satanás."

Rapidamente estou de volta. E louca para ir ao banheiro de novo. Precisando também de um bom banho. E nem vou jantar porque o almoço foi tarde.

Mas depois de finalmente conseguir publicar os relatos de terça e quarta, bateu uma fominha, e só tenho um mix de uvas passas e castanhas. Mas algumas poucas são suficientes para enganar meu louco estômago.

O fim de semana de aproxima e a música lá fora vai até tarde. O quarto agora está cheio de homens, São quatro mulheres e cinco homens. E estou desassossegada. Acho que me esforcei muito. Quatro horas andando, na areia, no mar, e no sol. Por mais devagar que tenha ido, devo ter andado no mínimo uns 10 quilômetros. E o corpo cansado mais a debilidade do organismo infeccioso, não formaram uma boa dupla para descansar.

Mas o dia foi lindo. Maravilhoso eu diria. AMAZING.