HOSPEDANDO-ME EM COLARES, Portugal

06/07/2020

Eu ainda não entendi como foi que meti em minha cabeça que dia 04 de julho seria domingo. É o aniversário de minha filha mais jovem. E se você me pergunta? "Então você passou batido o aniversário dela?" Não, eu respondo. Conversei com ela no sábado e no domingo. Mas como achei que era domingo e iniciaria essa viagem em 06 de julho, avisei minha senhoria e mais algumas pessoas que na terça começaria outra viagem.

E pela intervenção de meu anjo, sempre presente e cuidador, me levantei às 8 horas para ir ao banheiro, depois de ter me deitado às 3 horas. E fiquei intrigada. Olhei no celular e confirmei que já era dia seis. Fui verificar no aplicativo do Booking qual o dia de início de hospedagem: dia seis. Valha-me Deus. Ainda bem que as malas estavam prontas, e também o roteiro. Só não consegui pedir para nenhum vizinho cuidar dos gatos e do cachorro. Mas deixei várias vasilhas com ração e um bom porte de água, que deve ser suficiente para uns três dias, e pedi a minha senhoria, por mensagem de What'sApp se pode falar com um dos inquilinos e pegar a ração na minha casa. Ela eu sei que está sem tempo, pois tem ajudado o filho no restaurante.

O que eu tinha deixado para fazer hoje também era lavar o carro e abastecê-lo. Mas passei no Intermarché e fiz tudo isso, além de pegar um pouco de dinheiro. E, efetivamente, comecei a viagem às 11 horas. A maior parte do percurso foi pela autoestrada. Tedioso e cansativo. Prefiro as vicinais, são mais lentas, mas nos brindam com lindas surpresas.

Meu primeiro destino foi a Lagoa Azul, na Serra de Sintra, fica numa propriedade particular e logo à entrada um cartaz proíbe nadar em suas águas. Mas o caminho está aberto e algumas pessoas faziam ali um piquenique com amigos, em pequenos grupos. E os únicos que vi nadando foram os patos. Logo que cheguei e vi a lagoa não entendi o seu nome, já que as águas, apesar de limpas, me pareciam da cor de terra. Mas fui avançando pela estrada que a margeia, cheia de árvores frondosas, e ao chegar ao que parecia uma prainha, do outro lado e olhar novamente, lá estava o azul. Um lugar pequeno, mas muito bonito e agradável. Certamente muito bom para passear com a família ou amigos.

Ainda tinha que avançar bastante para chegar ao próximo destino. E ficou pior quando, numa bifurcação, a continuação da estrada me pareceu à esquerda. O GPS recalculou a rota e nem me alertou. Rodei uns três quilômetros até que ele me mandou pegar a quarta saída na rotatória. Isso equivalia a retornar. Ainda pensei que talvez tivesse que virar à direita em algum local que não fosse possível cruzar a pista, mas quando vi, ele me mandava virar à esquerda uns oito quilômetros para frente. Bom, quando se está passeando não vale se irritar. E ainda me lembro da recepcionista do hotel em São Roque, na Espanha, que me contou que seu marido dizia: nessa situação que não existe caminho errado, e sim novos lugares conhecidos.

Eu coloco os vários destinos no Google Maps e depois já me recordo quais são e muito menos a sequência. Sendo assim, só soube que ia ao Cabo da Roca quando cheguei lá. E vi logo seu imponente Farol.

E mais adiante, um amplo espaço com uma cruz e uma cerca de madeira fazia às vezes de mirante. Mas o mais legal era que gostei de mirar tanto o mar como a Serra de Sintra, com uma cidade encravada, e um vale. Sério, não sei dizer o que achei mais bonito, já que o verde da vegetação contra o azul do céu também me parece genial! Avancei o máximo que pude para ver o mar à esquerda do Farol, e o mesmo para o outro lado. O tom de azul do mar sempre me surpreende. Hoje estava em um tom azul mais claro.

O litro de água e chá que tomei logo cedo já forçava a saída. E o restaurante que vi ali perto estava fechado. Ia ter que me aguentar até achar um banheiro. Mas me parecia que se eu voltasse por baixo, em vez de passar de novo na Rua do Farol, chegaria ao carro do mesmo jeito, fazendo um caminho diferente. E eis que ali tem um posto de informação turística, um ATM e banheiros. Hiper limpos por apenas 50 centavos a utilização. Vocês também são agraciados assim? Ou sou eu que vejo graça em tudo o tempo todo?

Peguei o carro e rodei menos de um quilômetro quando o Maps me indicou para virar à esquerda em 400 metros. Onde? Ah. Achei. Uma minúscula estrada de terra batida. Mas no acostamento, do lado direito, vi três carros parados e espaço para o meu, logo atrás deles. E só teria que caminhar um quilômetro e meio até a Praia da Ursa. Uns metros após vi um local com mais alguns carros parados. Só porque estamos muito perto de Lisboa, e já é verão, com férias escolares, mesmo com os resquícios da pandemia, o movimento ainda é grande, para uma segunda-feira.

Continuei meu caminho e logo após, sob a sombra de uns pinheiros que lembram um pouco as nossas araucárias, tinha uma grande barraca montada. E uns metros adiante eu cruzei com quatro garotas que voltavam pela trilha. E como cumprimento todas as pessoas com que topo pelo caminho, também falei com elas:

- Boa tarde!

Todas responderam, mas uma delas parou e me perguntou:

- Você sabe por onde é a trilha para chegar até a praia?

- Não sei. É minha primeira vez aqui. Mas o GPS indica que é este o caminho.

- Não é. Já fomos até o fim e não vimos nada.

- Nem a areia da praia?

- Não.

- Que pena. E vocês vieram prontas para tomar um banho de mar.

- Foi.

- Que pena! Mas eu seguirei adiante assim mesmo. Boa sorte!

- Boa sorte, disseram elas.

Eu só estava imaginando a minha volta. Era uma boa descida na estrada de terra. Fez me lembrar da descida para a Praia de Atalaia, em Fernando de Noronha, que só não foi nada fácil porque estava toda enlameada. Ainda bem que aqui está tudo sequinho. E o sol está muito quente, mas o vento não para de cantar, e não sinto nem calor.

Lá na frente havia um rapaz, passei por ele e também o cumprimentei. É o único jeito de eu ouvir minha própria voz. Ele estava mexendo com a mochila e eu avancei. E olhando para baixo vi um pouco de areia e muitos seixos. Perguntei:

- Ali é a Praia da Ursa?

- Sim.

- Mas a maré deve estar alta, né? Quase não tem areia.

- Tem sim, veja um pouco mais para lá.

Assim avancei na direção indicada e sim, dava para ver a areia, e até uma boa porção. Mas até onde foram as meninas então, que não viram nada além de pedras?

Ele falou ainda que estava um pouco longe. E eu disse que imaginava que as trilhas ideais eram aquelas que víamos dali, com algumas pessoas descendo. Mas que eu não tinha intenção de chegar até a praia. Queria só avistar e fazer fotos. E para isso, ali estava ótimo.

Passei de novo por ele e fui retornando, No mesmo ponto onde encontrei as meninas, lá vinham elas de volta, mas desta vez acompanhadas de dois rapazes. Um deles dizia:

- Da outra vez que eu vim...

E parei para conversar com a mesma, comentando que eu vi a praia, e que talvez tivesse uma trilha por ali, mas me pareceu de difícil acesso. Mas agora elas estavam acompanhadas. E eram todos jovens. Um ajuda o outro.

Queria ainda ver outra Praia, mas de novo o GPS não me ajudou. E já eram quase 15 horas. E eu comecei a ficar com fome e preocupada. Não vi pelo caminho nenhum lugar onde pudesse parar para comer. E não achei a entrada para a praia. Resolvi para no primeiro recuo possível, já que a estreita e tortuosa estrada, onde transita inclusive ônibus e caminhões, não tem acostamento. E coloquei o endereço da minha hospedagem. Pois eu tive que andar uns dez metros e virar à esquerda. De novo. Parei no local exato para o acesso necessário. Só por Deus mesmo!

E quando vi estava em Colares, num trecho plano, depois de tanta serra. E vi uma churrascaria, e um pequeno mercado. Mas já estava bem perto do Meu Canto. E segui para ver onde era. Retornei, parei perto do mercado e fui comer na suposta churrascaria. Ainda bem que eles funcionam desde o meio dia até às 22 horas, todos os dias. E só tinha a funcionária, almoçando. Mas parou para me servir o Prato Feito.

Pedi peixe frito e linguiça. Ela disse que não podia misturar as carnes. Tinha que ser só uma escolha. Então pedi para colocar três unidades de uma pescada diferente. O couro estava muito salgado, e não o comi, mas a carne era muito fácil de comer, e só a coluna central de espinhos, também fácil de extrair. E tinha arroz, purê, e mais não sei o que. Mas eu só queria carne.

- Mas você vai pagar igual.

- Não tem problema.

- E tem direito a um café depois.

- Ok, obrigada.

E até que estava tudo bom, e gastei 8,50 euros, contando com um Ice Tea. Ainda tirei umas fotos das belas construções que vi na avenida. 

E depois de ligar, encontrei a Helena no quarto. Por sinal, uma gracinha. Duas camas de solteiro colocadas na extensão do quarto, e coberta com colchas claras, e tanto o chão como as paredes também bem claras, deixam uma aparência de limpeza. Um frigobar, e chá, cafeteira elétrica, bolachinhas, pequenos mimos que deixam a gente feliz. E a Helena é muito simpática. Ainda me deu algumas instruções de visita à Sintra, a partir de amanhã, a meu pedido. Ah. E do lado externo tem um cantinho bem aconchegante, com guarda sol, e fica numa rua calma, travessa da principal. Todo um charme.

E o WiFi está funcionando bem, o que, por si só, já me deixa feliz. E assim aproveito para escrever o relato do dia, porque sei que terei sono mais cedo que o de costume. E mais um dia de realização.