HERDADE DO ESPORÃO - REGUENGOS DE MONSARAZ

24/06/2020

Estou morando no Alentejo, uma das regiões mais prolíferas em Portugal em matéria de bons vinhos. E ainda não tinha visitado nenhuma vinícola. Resolvi reparar este erro no final de semana passado. Convidei minha vizinha de porta para um passeio no sábado, e como os locais são próximos e o dia longo, é possível fazer um bate e volta. Achei um local próximo que é a Herdade da Malhadinha, mas eles ainda não reabriram por causa do Covid. E como usei um intermediário online para a compra do ingresso, recebei um e-mail sugerindo a Herdade do Esporão e aceitei a troca sem muita explicação.

Confirmei com a Catarina o agendamento para às 17 horas, e na sexta-feira fui olhar onde ficava, descobrindo ser um pouco mais longe do que eu pensava, na cidade de Reguengos de Monsaraz, onde já estive hospedada para conhecer a região.

Levantei em meu horário habitual, no sábado, e fui até o centro da cidade de Beja para abastecer o carro. Quando cheguei, liguei para a Herdade confirmando a reserva e o local. E saímos por volta de 14h30, assim eu poderia dirigir com calma e aproveitarmos o dia para conhecermos outros locais.

Fiz um caminho diferente do feito em 2019. E entramos um pouco antes de Portel, cidade que quero visitar no próximo fim de semana, por conta de um bonito Castelo, e passamos por belos lugares, avistando a Represa de Alqueva, depósito de água que abastece toda a região, e embeleza a vista.

Mas não paramos no caminho, fomos conversando e apreciando a paisagem até chegar em Reguengos. E nossa primeira parada foi para sondar a Praça de Touros daquela cidade. Está em reforma, pelo que pudemos observar.

Assim como também está a Praça em frente à Igreja de Santo Antonio, no centro da cidade. Um local que nos chamou a atenção pela beleza, pouco prejudicada pelos materiais que se aglomeravam na vizinhança e pelas cercas de proteção das obras. Nas calçadas, quase ninguém. O comércio, todo fechado, com exceção à loja de chineses. E o calor derretendo o cimento e o cérebro dos que se atrevem a passar muito tempo sob ele, sem proteção.

Como ainda nos restasse uma hora até a visita guiada, fui me deslocando pela estrada até a famosa Vila de Monsaraz, vila histórica preservada, e de onde se tem uma vista panorâmica da região, já que ela está no topo da colina. Ali fizemos alguns ensaios fotográficos. Descobri que a Catarina também não gosta de tirar fotos de si mesma. Vocês devem dizer: " Como assim, também?" Já que, ao que parece, tiro muitas fotos de mim mesma. Na verdade eu tiro muitas fotos. Chego tirar duzentas fotos em um bom dia de passeio. E dessas, pelo menos 10 serão selfies. Proporcionalmente, tiro poucas fotos minhas.

E quando saímos de lá, o horário já estava apertado, e acelerei um pouco no retorno. E às 17h01 já caminhávamos no estacionamento em direção à recepção da vinícola. Pena que tive que passar por dentro da propriedade com pressa. Mas ainda estaria claro no nosso retorno, e aí eu teria tempo de fotografar.

Ainda bem que a pontualidade do início não foi britânica. E foi o tempo exato de pedirmos orientação na bilheteria, a minha acompanhante comprar uma água, e nos reunirmos com outras seis pessoas no saguão para chegar a guia e nos conduzir até a área externa, onde foi passar informações da propriedade.

A Herdade é uma área antiga, e sempre teve os mesmos 1800 ha. Em 1963  ela foi adquirida pelo atual proprietário já com a intenção de montar a vinícola. Mas por circunstâncias diversas, somente em 1985 iniciaram as movimentações, e em 1987 a  fábrica foi inaugurada e produziu seu primeiro vinho. A fábrica foi toda renovada a questão de dois anos, e foi a primeira vez que vi, num processo fabril, um sistema onde o mosto é colocado num tanque de aço, o líquido sobe. E depois o tanque é esvaziado rapidamente, e em função dessa força relativa à velocidade e ao peso, o líquido se choca com as cascas e caroços, liberando cor e tanino, e agilizando o processo de fabricação. Depois da fermentação é que podemos chamar de vinho, pois é em virtude dessa que o álcool surge. Deste processo eles conseguem produzir de 12 a 14 milhões de litros de vinho ao ano.

Em um galpão alto, com o forro enfeitado por tiras de velhos tonéis de carvalho, encontramos umas piscinas de mármore e uns tonéis de cimento, além de seis cântaros de argila. Esse galpão foi construído em 2014 e nestas piscinas ocorre o processo mais tradicional de fabricação  do vinho, com a pisa pé. E nos tonéis de cimento alguns dos vinhos são conservados por seis meses. Estes tonéis são chamados também de tulipas, pelo seu formato, e conferem aos vinhos ali armazenados algumas características específicas dada a permeabilidade das paredes de cimento.

Nossa guia nos explicou ainda que a pisa pé confere também uma característica única aos vinhos, já que os pés não rompem os caroços, e isso torna o vinho menos ácido, já que a uva teria que estar muito madura para que o tanino do caroço não atribuísse essa acidez ao vinho. Mas a produção feita por este processo não passa de 120 mil litros ao ano. 

Eles usam os tonéis de carvalho para envelhecimento do vinho tinto, por no máximo 5 anos. Mas está área não pudemos visitar por causa das regras da pandemia.

E o vinho que envelhece nos cântaros é certificado, feito com uvas só de origem alentejana, e vendido somente na loja da Herdade, devido à pequena produção. Deve ser delicioso, mas imagino o preço.

Nós tivemos muitas curiosidades ao longo da visita, e a guia falava com muita propriedade e conhecimento. A Catarina aprovou a plantação orgânica, sem uso de agrotóxicos, e usando morcegos para combater as pragas. Gostamos de saber também que a empresa emprega cem funcionários fixos, e mais um bom tanto de trabalhadores da região na colheita das uvas. Na colheita da oliva não é necessária esta mão de obra sazonal. Eu percebi que os pés continham muitos cachos de uva, e estranhei, pois em visitas que fiz em outras propriedades, em outros países, eles conservam somente três ou quatro cachos em cada pé. A guia me explicou que aquele vinhedo é jovem, e as condições do solo e de irrigação propiciam a manutenção de todos os cachos, só sendo descartados mesmo os que estiverem danificados. Certamente isso ajuda a manter a alta quantidade de produção para uma área até pequena, proporcionalmente ao volume fabricado. 

Tivemos direito a degustação de quatro tipos de vinho sendo, branco e tinto, colheita e reserva. Apreciei todos, mas gostei muito do branco colheita, e dele comprei uma garrafa, na lojinha ao lado. Como a guia citou que todos eram misturas de várias castas de uvas, normalmente três tipos, eu quis saber o porquê.

Ela explicou que a mistura proporciona ao vinho a qualidade que se lhe queira impor. E foi mais fácil de entender. O vinho misturado é uma arte de mestre e confere ao enólogo a possibilidade de criação de uma obra. É certo que os vinhos de mono casta, dos quais gosto mais, também precisam do acompanhamento dos mestres no cultivo da uva, desde a preparação do solo até o momento da colheita, passando pela quantidade de água de rega. Mas a uva vai atribuir ao vinho a sua característica única, com menos nuances, eu diria. Não sou uma enófila, e posso estar fazendo conjecturas errôneas.

Na lojinha eu comprei ainda azeite e espargos trigueiros, em conserva, é amargo para caramba. A Catarina comprou vinho, azeite e mel. Na volta parei para fazer as fotos que eu queria, inclusive do olival, dentro da propriedade.

E, infelizmente, minha companheira de viagem teve náuseas no retorno. Ela já havia me prevenido. Por isso preferia vir com o carro dela. Mas considerando que eu padeço do mesmo mal, e que o convite foi meu, achei melhor ir com o meu carro. Ainda bem que foi só uma horinha de viagem. Mas ela chegou e foi direto para a cama, e disse que a sensação demorou a passar. Mas no dia seguinte estava pronta para ir a Lisboa, buscar uma amiga de escola, que mora nos Açores e chegava de viagem. 

Bom passeio, boa companhia. E como disseram algumas amigas, fico feliz de passear acompanhada, ainda mais com uma pessoa inteligente, de boa índole, e que me apresenta alguns dos costumes portugueses, como o não chamar de você a quem não conhecemos bem. Você é informal. Eles usam o tu. Eu sei que o você é informal também no Brasil, mas não estou acostumada com o tu, e de senhora e senhor só chamo às pessoas mais velhas que eu.

E com esta visita posso dizer que já estive em vinícolas brasileiras, uruguaias, argentinas, chilenas, californianas (EUA), e agora alentejanas (Portugal). Pena que não fui ao Douro.