Final de semana em MÁLAGA

17/11/2019

Sábado

Tranquei-me no quarto fugindo do cheiro de cigarro. Obstante isso, eu estou bem acomodada. O carro não está pagando estacionamento e a rua é bem servida de pontos comerciais para alimentação.

Já lhes disse que levantar muito cedo só vale a pena em dia de viagem, na época de frio? Sim, porque só lá pelas 10 horas da manhã é que o tempo começa a ficar mais agradável.

Pois tomei meu café da manhã em 'vaso alto' de café com leite, e sanduíche de presunto e queijo, com manteiga. Ainda não consegui comer pães diferenciados na Espanha. Estou querendo confirmar se eles são mesmo os melhores padeiros do mundo. Os pães portugueses eu adoro.

E após o café, segui para o Corralon Santa Sofia, que é aqui pertinho. Tem um bonito pátio florido, comum nas cidades da Andaluzia. Andaluzia é o nome da região ao Sul da Espanha, e nelas estão as províncias de Sevilha, Cádiz, Huelva, Córdoba, Málaga, Granada, Jaén e Almería. Só não passarei nesta viagem por Jaén e Almería. E não conheci a capital de Huelva. As demais capitais, conhecerei todas. E ainda vou para a região de Extremadura, conhecendo Mérida e a capital, Badajoz.

Passei também por uma charmosa Ermida a caminho do Mercado das Atarazanas. Minha amiga Valéria, que morou em uma cidade vizinha, disse-me que eu iria encontrar a cidade já toda enfeitada para o Natal, e isso se confirma, sendo a primeira que vejo com a decoração assim tão grandiosa.

Coloquei o Mercado no roteiro de hoje porque ele não abre aos domingos. Ele não é muito grande, mas tem um atraente vitral em uma belíssima estrutura com treliças de madeira compondo o telhado. As bancas apresentam variedade, principalmente de frutos do mar, mas tudo está muito limpo e arejado. Aproveitei para comprar umas cerejas frescas, uvas passas e castanhas diversas.

De lá fui para a Catedral. Uma construção imponente, cheia de obras de arte, com um bom sistema de áudio-guia e ingresso de 6 euros. 

Fui observando as capelas, que chamo de naves, ouvindo as explicações e registrando as de que mais gostei, por motivo estético ou histórico. A Capela de San Rafael por ser o Arcanjo da saúde.

Depois a de São Sebastião, que, segundo consta, é o santo mais reproduzindo em imagens.

E do Sagrado Coração de Jesus, pelo seu significado de amor.

A pintura da Virgem do Rosário é uma das obras mais importantes da Catedral.

E a decapitação de São Paulo é um tanto violenta.

A Capela de São Francisco pela admiração que tenho por ele.

A Capela de Santa Bárbara porque é a única que conserva o retábulo da primitiva Mesquita.

A Capela de la Encarnación, que dá nome a Catedral e por causa das colunas em mármore pedra d'água.

E por último, e melhor de tudo, os órgãos e El coro, com sues assentos em madeira esculpida, com flores, animais, rostos de mulheres na parte alta e várias esculturas de personagens do povo. Belíssima!

Ainda tem o altar e toda a parte exterior que é invejável.

Eu estava indo para o Centro Pompidou quando passei em frente ao Teatro Romano e vi que ele, assim como o Alcazaba foram por mim programados para visitar amanhã. Mas se já estou aqui...

Na fila vi que podia comprar o ingresso combinado do Alcazaba com o Castelo, por 5,50 euros. Mas não queria ir ao Castelo hoje. O atendente me explicou que amanhã, após às 14 horas, o Castelo é gratuito. E eu já tinha visto isso. Não foi à toa que coloquei para domingo na minha programação. Comprei o ingresso só para o Alcazaba, por 3,50 euros e entrei na fortaleza, que é o que este nome árabe significa. É a mais bem preservada fortaleza palaciana da Espanha, construída no século XI , na dinastia Hammudid.  Ele é construído como um labirinto, com o objetivo de dificultar a ação de inimigos na tomada da fortaleza. Eu vi um senhor com sua mulher reclamando porque não achavam a saída.

Depois da Torre do Cristo o caminho se abre para a esquerda e para a direita. Eu comecei pela direita, onde também havia um bar. Minha esperança era de que houvesse banheiro. Até havia, mas pequeno demais. Não usei.

Por este lado fiquei na parte mais baixa da fortaleza, mas como ela está no meio da montanha, ainda assim avista-se a cidade aos seus pés. E nesta parte está cheio de laranjeiras, carregadas com seus frutos. E de lá eu via as pessoas que escolheram o caminho oposto, lá no alto.

E a gente entra num lugar e não sai em lugar nenhum. E entra em outro que, vira para lá e vira para cá, volta ao mesmo local.

Retornei e peguei a subida para a esquerda. Passei por uns jardins na parte baixa, vi o curso de água por entre as pedras, e fui subindo. Até o ponto mais alto da fortificação. Achei de uma estratégia melhor do que as fortalezas ocidentais.

E vi o caminho do Castelo, que pretendo fazer amanhã.

Agora vou procurar onde comer para achar também o banheiro e um local para recarregar o celular.

Mas primeiro deixe-me apreciar o Teatro Romano, que está em recuperação.

Um festival de cinema está acontecendo num prédio adjacente, e o movimento avança pela praça em frente. Parece-me o lugar mais movimentado da cidade. Os restaurantes ali estão muito cheios. Vamos ao Centro Pompidou e no caminho devo achar algo.

No caminho achei foi a avenida ladeada por jardins, a Universidade de Málaga, o Banco Espanhol e um hotel que via lá de cima e admirava, todo amarelo, enorme, pensei que era algum museu ou igreja. Mas nada de restaurante até o Centro Pompidou, que está a beira do Mar Mediterrâneo, todo colorido, com o sol passando por seus quadros transparentes e refletindo a cor no chão.

Mas uma rampa ao seu lado leva em direção ao cais, ou Muelle em espanhol. E muitos restaurantes e lojas de roupas e presentes. Entrei no Hard Rock e logo achei o banheiro. Mas eles estavam com fila de espera para o restaurante e já passava das 15 horas.

Caminhando pelo cais, uma moça me ofereceu um tour de barco pela Baía de Málaga, de uma hora, por 12 euros, mas era sem almoço.

Segui e acabei achando o Lounge Bar Plaza. Pedi à hostess um acento com ponto de tomada próximo, para recarga do celular. E ao garçom uma paella de mariscos, a tradicional, uma taça de vinho branco e uma água. O restaurante estava bem cheio. O sol forte me fez ficar com o óculos de sol. Uns 40 minutos se passaram até chegar meu pedido. O celular estava quase com a carga completa.

O vento estava tão forte que, na primeira garfada de paella queimei a língua, na segunda já estava morna, no meio do almoço a comida já estava fria, e eu nem como devagar.

Depois do almoço pedi a carta de sobremesas. Dez minutos depois ainda não tinha recebido. Ainda bem que eu estava curtindo a paisagem. Escolhi um bolo de cenoura com queijo italiano. Minha conta ficou em 20,50 euros. E o almoço virou jantar. Sai de lá já eram 17h30. Pensei até em esperar o por do sol, mas estava esfriando e a minha roupa não estava adequada para o frio noturno.

Estava bem perto do Farol e foi para onde me direcionei antes de voltar à hospedagem. Quando eu chegava perto do farol passei por uma família em que a menininha estava saltitante e feliz, o que me chamou a atenção para eles. Quando olhei no carrinho de bebê, a bebezinha tinha dormido com o corpo projetado para a frente. Lembrei-me imediatamente de uma postagem que vi no Face, feita pela Camila, de um bebê que morreu asfixiado numa cadeirinha de carro, justamente dormindo numa posição inadequada, e sufocando. Os pais da bebê não perceberam que ela tinha dormido. Aí perguntei:

_ " Mas não há perigo de ela sufocar?"

A mãe foi olhar e disse para o marido que ela tinha dormido, aí ele também foi olhar e acomodaram a criança numa posição mais adequada.

_ " Ah, disse eu, melhor agora."

Acho que ela estava bem, a cabeça estava com a cor normal. Mas é impressionante como as pessoas andam distraídas com seus rebentos. Será que eu era assim?

Vim caminhando e passei pela Plaza de la Constituición, onde iniciam as melhores decorações de Navidad. Amanhã pretendo vê-las acesas, durante a noite.

Como sai na rua da esquina em que o carro está, passei por lá para conferir se está tudo bem. E vim para o apartamento. E agora encerro o dia de hoje.

Domingo

Hoje fui tomar café na panederia, e tive a possibilidade de pedir um pão diferente. Um sanduíche com jámon serrano e um pão com aparência de mini baguete, mas com uma casca bem crocante, como gosto. Tomei dois copos de chocolate quente e ainda comi uma torta doce.

No caminho avistei de novo uma senhora que toca sanfona, e canta divinamente. Ontem queria lhe dar uma moeda, mas não as tinha. Hoje pude realizar minha vontade. (vídeo no Istagram e Facebook)

E depois fui conhecer a Plaza La Merced.

E o Museu Picasso. Sabiam que Pablo Picasso era malaguenho? 

E eu recomendo muitíssimo a visita a este museu. Eu, que sou leiga em arte, com esta visita áudio guiada pelas coleções, lendo algumas colocações e observando a obra, assei a entender melhor e gostar. Tem três tipos de ingresso, o mais caro custando 12 euros, outro de 8 e um de 6,50. Optei pelo de 6,50 e vi as duas coleções. As obras não podem ser fotografadas. Ainda assim, vi duas pessoas, um senhor de mais idade e uma jovenzinha fazendo fotos roubadas. Sim, digo roubadas porque percebi claramente a forma disfarçada de fazê-las. O senhor foi visto e repreendido pela vigilante, a mocinha foi seguida por ela. Eu, sabendo que não era permitido, perguntei se podia fotografar alguns dizeres, pois senão teria que anotá-los. Ela me autorizou, exclusivamente os dizeres, salientou.

Ele retrata pessoas e coloca na arte mais do que o a pessoa aparenta, ele coloca aquilo que ele vê, inclusive sentimentos. E eu pude enxergar mistos de tristeza e alegria em alguns quadros. Em outros pude ver espíritos conturbados. Vi sofrimento. Vi gente que transborda alegria colorida. E percebi que ele enxergava Françoise, pelo menos no tempo que a pintou, como alguém neutro e condizente entre o que aparenta e o que é. Ou os olhos do amor o faziam enxergar assim. Essa é uma impressão minha, e que, ao procurar posteriormente na internet, vi que se trata de Françoise Gillot, com quem teve uma relação de 10 anos e dois filhos, e que o abandonou, o que não era o habitual, em suas complicadas relações amorosas.

A obra 'Desnuda acostada y el gato' mostra uma mulher com dedos fálicos que sugerem uma ação. E aí a gente começa a ver a ironia da obra, o humor, a crítica.

Outra interpretação de como ele chegou ao cubismo, filho de desenhista que era, fazia desenhos, recortava e montava os bonecos de papel. Isso dá uma percepção tridimensional. As obras de Picasso mostram as várias facetas do ser retratado, com volume no plano. Volto a dizer que estas são considerações minhas, após ver, ouvir e sentir sua obra.

Depois desta visita eu fui a Plaza de Toros Malaguenha. Mas o Google já me avisou que poderia estar fechada. E assim foi. Mas o imponente prédio vermelho de formato circular, com várias portas de entrada fazendo lembrar um estádio de futebol, é a arena de espetáculos de Málaga.

Ainda são pouco mais de 13 horas e o próximo destino já é o Castillo de Gibralfaro. Mas a subida é longa. E linda. Cheia de curvas e após cada uma delas uma surpresa, com flores, folhas, pedras e água, vão se fazendo vários ambientes que convidam a pausa, a contemplação, ao descanso e ao registro fotográfico.

Fui fazendo no meu ritmo e levei o tempo exato para chegar lá às 14h05 e aproveitar a gratuidade.

No caminho, quase no final dele, tem um mirante de onde se avista a Arena dos Touros, e já que não pude ver a partir de baixo, vejo agora, com vista aérea. 

E lá também diz que o percurso foi de 610 metros. Mas a subida ainda não acabou e, ela é mais curta do que o Rochedo de Gibraltar, mas não menos íngreme. Sinto que estou forçando demais o coitado do joelho.

Mas de lá de cima podemos avistar o outro lado da cidade, pois a montanha está entre este e o mar.

E o céu, que acordou limpo e ensolarado, passou para nublado, agora apresenta uma mistura de nuances entre a cor cinza das nuvens e o azul do céu, mais o reflexo do sol... Como uma pintura do Rei dos Artistas, o Grande Arquiteto do Universo.

O Castelo também é cheio de altos e baixos, e muito grande. Fiza maior parte do percurso. Mas poupei-me em ir aos jardins mais baixos, já que os via de cima mesmo. E até melhor.

Fui voltando para encontrar a saída e desci, parte do caminho, por uma rota alternativa, podendo apreciar outros recantos do jardim.

Demorei 15 minutos para descer, e fiz a comparação para ter ideia do tamanho do percurso em Gibraltar. Eu estimo que 1,5 km, e bem mais para a descida, já que cheguei até o cemitério de Trafalgar a pé. A volta deve ter dado uns 2,5 km.

A visita ao Castelo demorou 40 minutos e agora ainda são 15 horas e só me falta ir novamente a Plaza de la Costituición, onde queria almoçar e ver as luzes natalinas, mas é cedo para as luzes e talvez tarde para o almoço.

Ainda assim achei um restaurante numa viela que sai da praça, aberto e operante. O garçom da porta, que convence o cliente a entrar, muito simpático, me ofereceu paella: não quero, comi ontem. Calamares: não gosto muito. Frituras: não. Daí vi a opção de costilhas de cordeiro. Ele disse que é servido com batata pobre e pimentão vermelho.

_ "Eu não gosto de pimentão."

_ " Mas vem em pedaços grades e dá para separar."

Entrei e pedi também uma taça de vinho tinto, que acompanha melhor as carnes.

No final, veio pimenta doce verde junto com as batatas, e as costeletas de cordeiro. Não era um prato muito grande, mas para mim estava bem servido. Eu tinha comprado uma fanta de limão sem gás então não pedi água. E este foi meu almoço. O serviço foi rápido, mas as batatas estavam um pouco frias. E o café no final estava morno. Café morno é horrível, ou quente, ou frio.

Numa mesa próxima vi uma mulher reclamando, em espanhol, que não ia pagar 28 euros naquele tanto de lagosta. Podiam levar a lagosta. Ou tentar uma solução melhor. A conversação foi longe, no final se entenderam, mas não sei qual foi a solução. Sei que ela estava com mais 3 pessoas a mesa que falavam em inglês. Até tem sentido o que aconteceu, ela viu o preço no cardápio, mas não sabia o tamanho da porção. Não sei se eu teria coragem de fazer isso,

Encerrado o almoço, não quero comer a sobremesa aqui. E acabo comendo um merengue no mesmo local do café da manhã, próximo ao apartamento.

Passo no carro para deixar uma um par de meia que faz as vezes de pantufas e um par de luvas com digital para celular.

E volto para o apartamento encerrando minha passagem por Málaga. E digo: " Cada local por que passo acho o mais lindo, pensando que não vou ver mais coisas tão maravilhosas. E toda vez eu me surpreendo porque é possível. Cada lugar é único e traz consigo uma alma. Você crê que lugares também têm energia? Que a Terra é um ser vivente? Eu creio, e sinto. E fico cada vez mais extasiada com estas descobertas.