FARO - DOIS DIAS QUE VIRARAM UM

24/07/2019

TERÇA

Sim, estou passeando aqui, mas meu objetivo principal era a entrevista no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Dessa forma, para hoje, marquei de conhecer o Mercado Municipal, pois a localização, no mapa, se aproximava. E qualquer coisa mais, após a entrevista, que estava marcada para 15h.

A caminhada até o Mercado é de um quilômetro, mais ou menos, no plano. E lá fui eu em ritmo de praia, sandálias havaianas no pé, short e camiseta, minha mochila com os documentos, a parte mais importante além de mim.

Achei o Mercado, mas antes de entrar, deixe-me achar o SEF. O Google indicava ao lado, mas não tem nada aqui. Será que mudou-se?

Fui perguntar numa lanchonete.

_ " É dentro do Mercado. Você entra, vira a esquerda e sobe. É no primeiro andar."

Maravilha. Passam um pouco de 11h. Segui as instruções e fui de elevador até o primeiro andar. Mas lá estão vários órgãos públicos. O indicado com a cor verde era o SEF. Perguntei para um moço que ali aguardava se necessitava tirar senha.

_ " Não. Eles chamam pelo nome de acordo com o agendamento."

Assim sendo, não tenho porquê permanecer aqui. Vou visitar o Mercado.

Mas é mais que um mercado, é quase um shopping. No térreo tem o mercado propriamente dito, com uma grande área de pescados, um pouco de frutas, flores, grãos, etc.

No cinturão de entorno, várias lojas de serviços, incluindo cafés e restaurantes.

Não dormi bem a noite que passou, juntando ansiedade e mal estar. Saí de casa com a garganta inflamada. E com o intestino dando sinais de desarranjo. E isso só fez piorar. Comi dois pedaços da pizza de ontem com café, logo cedo. Meio pesado para quem está com problemas intestinais. Durante a noite, tive que levantar várias vezes para ir ao banheiro. Estou um pouco enjoada e estufada. Mas, antes da entrevista, passo aqui para tomar um café.

No subsolo tem um grande mercado, e estacionamento. Rodei tudo em pouco mais que meia hora. Fui ao café e pedi um pastel de nata e um café com leite grande. Fiquei ali fazendo hora e ainda eram 12h30. O que farei com o tempo restante?

Já sei, vi um lugar que faz unhas. Vou perguntar se tem vaga.

A ucraniana Oksana que me atendeu. Tem muitos ucranianos por aqui. Perguntei a ela sua origem porque era muito branquinha e loira de olhos azuis. O nome estava escrito em sua camiseta. Elas fazem unha em gel também. E um processo que chamam de verniz. A unha comum ficou em 8 euros.

Olhou minhas unhas e notou que a do dedo anular direito estava com pequenos poros do uso incorreto da lixa elétrica. Eu lhes disse que não gostei da mão que fiz em Beja. Mas ela foi mais cuidadosa e caprichosa. Gostei. Mas ainda assim fazem um trabalho limpo para não ter que limpar com acetona e palito.

Ainda resta um tempão. Será que a depiladora lá embaixo faz sobrancelha?

Ela faz até desenho de sobrancelha, mas não é o que desejo, pelo contrário, quero que mantenha o contorno como está. A Fátima está livre e já pode me atender. Ela pede que eu deite na maca porque assim consegue fazer um trabalho melhor.

Começamos conversar e noto que ela não tem o acento português, quando ia perguntar de onde ela era, ela comenta:

_ " O nosso país..."

_ " Ah. Você é brasileira?"

_ " Sim, mas fui casada com um português e vivo há quarenta anos em Portugal."

Ela é carioca. Viúva há 27 anos. Tem dois filhos casados, um com uma brasileira e outro com uma portuguesa. Ambos moraram no Brasil, de modo que seus netos são brasileiros, se muito não me engano. O filho mais novo voltou para Portugal recentemente.

_ " Mas quarenta anos aqui e não pegou o acento português?"

_ " Não quis."

Ela terminou o serviço, mas a conversa mal havia começado.

Ela é da Ordem Franciscana e auxilia na Igreja, abrindo-a e fechando-a diariamente. Mas muito mais do que isso, é uma alma caridosa, preocupada com a melhoria da humanidade. Não digo que a gente atrai os semelhantes. Me mostra no Face que estão fechando dois mosteiros, um em Portugal e outro na Espanha, por falta de verbas. Sugere uma convocatória de noviços de outros países de língua portuguesa, que poderiam manter o local e proporcionar ajuda à Comunidade, em amparo espiritual.

Conto sobre meu blog e ela já pede para eu entrar, usando o seu celular. Também já a adiciono no Facebook. E sou convidada para assistir o terço na Igreja de São Francisco, às 18 horas, que será conduzido por ela.

Agora sim, já passam de 14h. Posso ir ao SEF. Agora está bem cheio. E eles estão atrasados. Noto que os computadores estão sendo trocados. Já passava de 15h30 quando um senhor foi chamado, perguntei à sua filha:

_ " Você sabe o horário que seu pai estava agendado?"

_ " 14h."

Ai, ai, ai. Ainda me resta uma longa espera. Começo a sentir fome e sede. Pergunto a uma senhora que está ao meu lado qual o horário agendado para ela. Também às 15h, com o eu. Ela foi perguntar e eles disseram que tem que aguardar pois estão um pouco atrasados por causa dos computadores que deram problema. Eles também não tinham almoçado. Ela estava com seu marido, alemão, e vieram para trocar o endereço de residência. Ela morou muitos anos na Alemanha, e gostava, por causa dos serviços e funcionalidades. Mais organizado. Melhor atendimento. Mas seu esposo gosta de estar em Portugal por causa do clima. Mais quente. Ela fez críticas severas ao Estado português, principalmente no que tange aos serviços públicos, reclamando da falta de gente no SEF, por exemplo. Disse que morou num lugar em que as pessoas dormiam na rua, em filas para atendimento no serviço de saúde. Depois que o governo português fez convênio com Cuba e trouxe de lá os médicos, isso melhorou muito. Diz que o governo dormiu no ponto e deixou sair do país os técnicos especializados em áreas importantes, por remunerar mal. Agora está oferecendo um bônus de quase 6mil euros para quem decidir voltar. Conversamos por mais de uma hora. Eles foram chamados antes de mim, que só fui chamada perto de 17h. No entanto, a moça que me atendeu estava melhor preparada e eu saí antes deles, por volta de 17h30, precisando de banheiro e banho.

Descobri na rua detrás da do hostel um point da badalação. E fui por ali. Tinha fome, mas não queria comer. Comprei um pedaço de torta de figo seco com amêndoas, sem massa, só figos, por 5 euros. E comi um pedaço desta com água, já no hotel, após banheiro. Não tinha disposição para mais nada, mas percebi que precisaria medicar-me.

Já eram 20 horas quando fui a farmácia comprar algo para restabelecer a flora intestinal. A atendente orientou-me a tomar após o café da manhã.

_ " Não posso tomar com o estômago vazio? Vou ter que comer algo agora só para tomar."

A outra que nos ouvia disse:

_ " Tome agora e amanhã cedo, após o pequeno almoço."

_ " Obrigada, porque preciso de algo para me aliviar os sintomas e conseguir dormir esta noite."

Gastei 23,15 euros. Prefiro gastá-los passeando ou comendo.

Assim, volto ao hostel, tomo o medicamento diluído em água e vou tomar banho.

Deito-me com os cabelos ainda molhados e durmos antes das 22h30, com a luz ainda acesa. Quando acordo a primeira vez, já está apagada. Estava tão cansada física e emocionalmente que me pareceu um dopante. Ou talvez estivesse com um pouco de febre, a delirar. Mas tinha uns insights noturnos e voltava a dormir. Só levantando umas três vezes para ir ao banheiro.

QUARTA

Ainda não estou bem. Mas preciso comer algo. Hoje tenho um passeio de barco pelas ilhas da Ria Formosa.

Saio a procura de algumas frutas, mas é bem cedo e não encontro muita coisa aberta. Vejo um local que serve café da manhã e eles têm padaria dentro. Comprei um pão pequeno, daqueles com a massa bem fermentada, cheio de buracos. Voltei ao hostel e comi com café.

A recepção já estava aberta e me indicaram onde comprar frutas. No mini preço. A uns 300 metros de distância. Comprei uma maça e uma pera.

E fui para o ponto de saída do barco, junto à porta Nova.

Ressabiada que já estou, cheguei às 9h30. O barco sai às 10h10. Mas pude observar a saída dos ferrys, e a passagem do comboio, bem a beira da Lagoa.

O barco é para doze pessoas, já vem com meia dúzia do porto. Acomodo-me ao lado de duas moças que falam espanhol, são das Ilhas Canárias e estão em 5 pessoas, 3 mulheres e dois homens. Ainda tem uma família com um casal de crianças de menos de 10 anos, que falam inglês, mãe e filho, que falam francês, e eu. O condutor então tem que dar as explicações em 3 idiomas diferentes. Inglês, francês, às vezes fala em espanhol, às vezes em português. Já que informei que espanhol eu entendo bem. E as moças disseram que entendem o português se for falado devagar.

Descubro então que a Ria não é formada por um rio e sim por uma Lagoa de mar. Protegida por seis ilhas, com 5 entradas naturais e uma artificial. Criando assim um ecossistema único. É considerada uma das 7 maravilhas naturais de Portugal.

No início ele vai devagar, explicando-nos os detalhes, depois avança com velocidade para a Ilha Culatra ou do Farol, como é popularmente conhecida. Ali tem um povoado com muitas casas de veraneio, algumas com estilo mouro, de tetos retos. Charmosas e cheia de detalhes. A maior parte do pessoal avança rapidamente para um banho no Oceano Atlântico, no extremo oposto. Eu decido ir devagar, saboreando o lugar. Só teremos uma hora. E sozinha, é mais do que o suficiente. Praia, para curtir, é bom acompanhado. Ou se tiver muito tempo para só sentar e apreciar o mar.

Ainda assim chego a praia, que tem um pouco mais de movimento de pessoas.  Na areia algas que parecem alface. Caminho com os pés na água gelada. Até a outra ponta.

Pedi para um senhor que fotografava sua netinha, se podia tirar uma foto.

_ " Minha?" ele respondeu.

Ri e respondi.

_ " Não minha."

Ele tirou algumas, mas sempre acho que estrago as paisagens. Mas é uma forma de registrar que estive ali mesmo.

Volto ligeiro, só tenho 20 minutos para fazê-lo. Quando desci para a praia, tinha um degrau bem grande. Desci de lado. Mas para subir a coisa muda de figura. E não tinha nenhum ponto de apoio. Vejo uma senhora na pontinha e chamo-a:

_ " Senhora, senhora", ela me dá atenção, "poderia me ajudar a subir?"

Ela não hesita. Fico pensando em como não derrubá-la, já que é uma frágil senhora de mais de 70 anos. Peço que ela se segure no apoio do final da ponte para aí me dar a mão. Funcionou.

Ela me diz que ali está com sua filha, que está na praia. Que aquele degrau é difícil para ela, então fica ali, só apreciando o mar.

No horário marcado, saímos para a Ilha Barreta ou Deserta, que só tem um habitante, com seu cachorro. A esposa dele vive em Faro.

Mar limpo, claro, misturando tons de verde. Agora o banho, para quem tomou, foi na Ria.

Uma bruma envolveu o lugar e senti-me num mundo mágico, de elfos e bruxas, como em As Brumas de Avalon. Ficou muito lindo, apesar de perder a visão de distância. Estamos na maré chamada de morta, das luas crescente ou minguante, que são mansas e sem mudanças exageradas. E também no horário de maré baixa, onde podemos observar melhor os contornos das ilhas. Ali, na deserta, é possível ver onde a maré avança formando pequenos poços, que agora estão secos. Mas são movediços.

O retorno se dá pelo mesmo caminho, mas agora ele vai deixar-nos a todos no Porto, e fazemos a entrada por baixo da linha do trem.

Meus amigos me aconselharam a comer coisas leves, maça, arroz com legumes, mas não é fácil achar quando se está fora de casa. Quero comer antes de voltar ao hostel, pois tomarei um banho e vou descansar o resto do dia. Ainda não me sinto bem.

Achei um lugar para comer nhoque com molho ao sugo. As massas costumam ser boas para este tipo de problema. E como não tem nenhuma carne. Até o queijo parmesão ralado só aceitei meia colherinha.

Volto ao hotel, me hidrato, tomo um bom banho e vou dormir até às 18 horas, quando inicio a atualização do blog. Espero estar melhor amanhã, quero ir para Olhão de Comboio (trem)