FARO - VILA ADENTRO E ADJACÊNCIAS

22/07/2019

Hoje sai com menos desespero de casa, apesar de não ter tido uma boa noite de sono. Preocupação. Mas saí de casa já eram mais de 9h30.  E assim tive que esperar pouco tempo. O ônibus estava previsto para 10h20, chegou no horário, mas demorou a sair porque tinha uma pessoa sem lugar e teve que conferir para ver onde estava o problema. Uma passageira que já vinha embarcada de outra cidade, estava em carro errado. Solução, puseram o moço que sobrava no banco auxiliar, ao lado do motorista. Até a primeira cidade onde abriu espaço, Castro Verde.

Eu estimava demorar só uma hora e meia, são só 160 km de distância entre Beja e Faro. Mas paramos em Castro Verde, Ourique, Albufeira (onde desceu muita gente), e Quarteira (aqui pertinho de Faro). Só chegamos às 13h30. E eu estava com bastante sede e fome. 

O Hostel é quase dentro da Rodoviária. E apesar de ter uma pequena escada, foi sossegado. Estou num quarto feminino com 5 beliches; A recepcionista foi muito generosa pois me colocou num junto a janela, escolhi a cama de baixo. Quando cheguei tinha só umas 3 pessoas ocupando. Ainda bem que chegeui cedo. Da janela vem um ar refrescante, típico de praia, apesar que aqui não temos uma praia comum. Eles chamam de Ria Formosa. e, na verdade, é um rio de água salobra, pois se mistura com o mar de fora, que segue junto a costa, protegido por várias pequenas extensões de terra. Isso lhe atribue uma característica única, interferindo em sua fauna. É um habitat diferenciado, e confere ao lugar um charme especial e único.    

Eu pensei em começar fazendo um passeio pelas ilhas, mas dado o horário de chegada, não foi possível. Me ajeitei no quarto, troquei as roupas por algo mais leve e fui almoçar no Café Montparnasse, aqui ao lado. De propriedade de franceses, apresentava um menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa por 10 euros. Escolhi Tartare de Tomates, Costeleta de Porco, e Creme Brulee. 

E uma cerveja preta para acompanhar. Gastei 14 euros com a gorjeta. E sai muito satisfeita. Desde a apresentação dos pratos até a mistura de sabores e cores me agradaram. Senti-me no Master Chef tentando descobrir os ingredientes do Tartare.

Agora quero comprar a passagem de barco para quarta feira, pois amanhã não posso, tenho a entrevista no SEF. Mas acabei dando de cara com um obelisco e o Jardim Manuel Bivar, e a marina. Estou no caminho certo, não imaginei que seriam tão próximos ao hostel.

Logo em seguida vejo um Arco de entrada. E o Arco da Vila. As portas de entrada destes lugares impressionam pela espessura das paredes.

Fui seguindo o fluxo de gente e saí na Praça da República, onde se encontra a Catedral da Sé. Subi as escadas e vi a porta fechada. Fiquei decepcionada. Mas numa entrada ao lado, outra escada, gente subindo, vou ver o que é. Ah. sim. A entrada e a cobrança do ingresso é ali. 

O recepcionista pergunta a nacionalidade da família à minha frente e começa as explicações em francês para ele. Chegada a minha vez, pagado o ingresso de 3,50 euros, pergunto-lhe quantos idiomas ele fala.

_ " Cinco, mas só três fluentemente."

Então tá né?

Decido iniciar pela Capela dos Ossos. É pequena, e realmente as paredes tem ossos, crânios e outros mais, mas não é tétrico, não sei se por estar claro...

Depois entro na Capela de São Miguel, cheia de anjos... e colunas.

O jardim, segundo consta, foi um cemitério, coisa comum também, ladeando a Igreja. Ali há uma nascente em estilo gótico do século XIII.

A impressão inicial, logo ao entrar na Matriz, pela porta lateral, foi de óóóóóóó....

Uma mistura de azulejos e capelas em estilo barroco, com banho de ouro, que fornecem ao local um colorido especial. Visitei Capela a Capela, registrando-as através da câmera de meu celular. Quem são os Santos? Recebi um folder com as explicações logo na entrada, a quem interessar são: Nossa Senhora dos Prazeres, São Brás (o do soluço), São Domingos, Nossa Sra. da Assunção, São Francisco de Paula, outra com 3 imagens que incluem N.Senhora, São Pulo e São Pedro, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora do Rosário, Senhor Jesus dos Pobres. Eu não me ligo muito nas imagens, e sim no trabalho como um todo, e são lindíssimos.

De repente meus olhos se voltam para um ponto e se fixam. É um órgão, vermelho, como que pendurado no teto, deslumbrante. Sou fascinada por órgãos. Este nem tantos tubos, mas seu arranjo é muito original. 

Na parte de cima tem um Museu de arte Sacra que visitei mas é como muitos outros, nenhuma peça me chamou especial atenção.

No andar superior uma boa visão geral das naves da Igreja, do órgão e um menino Jesus encapsulado com um fundo de luz gerado por uma grande janela, e um hinário entre eles. Posso fazer uma interpretação pessoal desta cena, como a Luz, que é Deus, iluminando a humanidade através da palavra, na forma da mais sublime arte, transmitida por Jesus. Viajei? Talvez. A cena é criada em minha mente porque entendo que Jesus nos preparou um caminho a seguir para nos melhorarmos enquanto raça. 2000 anos e alguns progressos. Estamos indo a passos lentos.

Estava saindo já quando o recepcionista lembrou-me da Torre Sineira. Eu li que é o melhor mirante da cidade e já ia embora sem subir? Ele alertou-me ainda:

_ " São 68 degraus."

Tranquilo, pensei. E foi mesmo, com exceção aos primeiros por serem muito altos. Mas tem um corrimão de aço inox para ajudar, bem quente por ficar ao ar livre.

O topo é bem interessante mesmo, a começar pelos sinos e galos, depois pela vista da Ria Formosa e da cidade. Um local imperdível.

Eu vi um Museu do Azulejo ali mesmo, na Praça da República. Num prédio antigo e estiloso. Do lado de fora o calor é refrescado pela brisa constante, mas quando entro no prédio de poucas janelas, fico com o corpo todo banhado de suor. A atendente me explica que estando ela ali parada, não sente o calor que falo, porque o prédio possue grossas paredes mantendo o ambiente fresco. O ingresso custa 2,50 euros.

Todas as paredes são azulejadas, desde as escadas, com exceção ao forro. São azulejos de estilo Rococó realizados por Domingos de Almeida, um mestre na arte de azulejaria. É bem colorido e intenso o que se apresenta. O lugar é um Paço Episcopal, reedificado após o terremoto de 1755.

Pergunto a recepcionista:

_ " Onde fica a Porta do Repouso?, já olhei no Google o mapa, mas quero saber a direção a tomar.

Ela me indica um caminho e a questiono:

_ " Mas este não é o Arco da Vila?"

_ " Ah. Sim, me confundi. Está vendo aquela árvore rosa ali? Chegando lá vire a direita."

E foi o que fiz. Junto a árvore um lindo arranjo de trepadeiras coloridas, e um Arco. Chamado Porta Nova. Minha cara :/

Mas o Google me localizou. No entanto avisto água e decido ultrapassar a porta. Ainda não tinha visto a Ria de perto. É sereno e encantador.

E logo ali uns pontos de vendas de passeios de barco, bem como de Ferry, bem mais baratos. Mas o Ferry tem um destino de cada vez. Eu quero fazer a Ilha Deserta e a Ilha do Farol num único passeio. E ganhar tempo. Li que a Formosamar tem este tipo de passeio com duração de 3 horas. Acho que é mais do que o suficiente. Se não for, algum dia volto e faço o de dia inteiro por outra companhia. Já comprei o bilhete para quarta às 10 horas. Terça tenho a entrevista. Se lembram?

Retorno e vou passando pelos paralelepípedos desgastados e escorregadios. Estou com minha nova sandália baixa, estilo gringo, adequada ao calor e as condições de piso. Vejo uma abóbora crescendo sobre o muro

Uma águinha pois tenho sede, e estou na Praça Dom Afonso III.

Um pouco adiante a Rua do Repouso leva direto à Porta com o mesmo nome. Muito interessante, com mais de uma saída. Junto dela uma casa com um lindo cão olhando o movimento e um aviso.

O Palacete Belmarço fica do lado externo, mas bem próximo dali, e posso observar também os muros pelo lado externo. E até o Consulado brasileiro.

A Aldeia Adentro não é muito grande, uns poucos passos e estou de volta ao Arco da Vila, à Preça Manuel Bivar, observando que o Banco de Portugal sempre se alojou em bonitas construções. E....

O trenzinho está no ponto de parada. Ainda são 17 horas. Vou dar uma volta e depois vou para o Hostel.

Ele já está quase cheio. Pago 2,75 e me alojo nos últimos assentos do último carro. Vou sozinha naquele espaço. Algumas pessoas ainda chegam logo depois de mim.

O trajeto inicia pela Vila Adentro, passando pelos lugares que já fiz a pé, mas depois percorre o lado externo, distanciando um pouco da cidade e passando por lugares que ainda pretendo visitar, com calma. Nada além de um quilômetro de distância. 

De volta ao ponto de partida, dirijo-me ao Hostel na esperança de encontrar um banheiro vazio para um bom banho.

Meu quarto agora já tem 9 mulheres. E se você pensa que por estar em Portugal vai encontrar um monte de gente falando em português, se engana, tem muitas francesas, uma holandesa, uma alemã, e uma senhora que fala um inglês fluente, como as demais, e que é muito falante.

Talvez também falem espanhol.

Uma francesa estava com dificuldades com a chave do armário, e falei para ela:

_ " Half turn", juntando palavras que me pareciam fazer sentido para meia volta.

Ela consegui, eu olhei depois no dicionário e a tradução é correta. Não sei se é uma expressão que eles usam assim, mas fiquei orgulhosa de mim. Não consigo conversar como toda essa gente a minha volta, mas começo a produzir pequenas expressões com a montagem de meu parco vocabulário, que fazem algum sentido.

Vou lhes revelar um sentimento de algo muito simples e que me está fazendo muita falta. Não é uma pessoa, um bicho, um alimento, nada disso. Quando encontro uma ducha para banhar-me é um prazer inenarrável. Pode? Já falei com a Dona Rosalita sobre isso. Ela vai arrumar alguém que instale o gancho na parede para eu fixar a ducha.

Coloco um vestidinho rosa, esvoaçante e vou para a rua em busca de meu jantar e, quem sabe, um bonito por do sol, e rezando para que o vento não mostre minhas partes mais íntimas. Não que isso vá me causar algum problema, mas pode escandalizar os mais tradicionais, e certamente, desgostar a todos. No alto dos meus 55 anos já não são tão agradáveis de se ver. kkkk

Mas vou segurando pelas laterais e obtenho um bom resultado.

O restaurante fica junto ao ancoradouro. Sento-me na parte de dentro, mas as paredes são de vidro e o sol está descendo do meu lado direito.. Peço uma pizza, de oito pedaços, de quatro queijos, e um vinho verde, frisante, da marca Gazella. Só meia garrafa. A pizza me é servida num prato individual. Solicito um prato extra. Sei que não vou conseguir comê-la toda. Mas como metade. Ela não tem molho de tomate, mas fora isso, é muito boa. O vinho verde muito bom. Fez bom acompanhamento. Mais uma água e gastei 27 euros, sempre contando a gorjeta. O restante da pizza vai virar café da manhã por dois dias.

O sol não me decepcionou. E se mostrou lindo.

Saio dali já são quase de 22 horas e ainda não escureceu completamente.

No Hostel, começo a relatar meu dia. 

Às 22h30 a senhora decide apagar as luzes, o que me leva a dormir logo em seguida, pensando: " Levantei cedo, dormi mal na noite passada, preocupada. Estou cansada."

Mas não foi assim, primeiro porque meu estômago está desarranjado. Depois meu corpo dói. Apesar de estar na melhor cama do quarto 102, a 8, perto da janela, fico num misto de frio e calor durante a noite toda. Levanto-me às 2h30 e às 4h30 para ir ao banheiro. E toda vez que começo a dormir me assusto com meu ronco e volto a despertar. O ritmos no quarto é intenso. Com gente chegando e se movimentado até quase 2 da manhã. E algumas sem conseguir dormir, como eu. Noto a holandesa com o seu celular, e o movimento nas camas de baixo. Dormi, de forma entrecortada e precária. Espero não ter atrapalhado o sono das demais. Que são bem silenciosas. Dormindo. Eu sou mais silenciosa acordada. Hahahaha.

Mas ainda estava ansiosa com a entrevista.