Excursão pelo PARQUE NACIONAL DO TIMANFAYA e muito mais. LANZAROTE – ILHAS CANÁRIAS (ESPANHA).

20/02/2020

Hoje eu tive uma grande excursão guiada, pelo Sudoeste da Ilha de Lanzarote e pelo Parque Nacional Timanfaya. O tempo total previsto era de 7 horas e o local de busca foi bem perto de meu hotel, às 8h50 da manhã, precisamente.

Eu estava sozinha no ponto esperando quando surgiu o ônibus. O guia, Paul, desceu para me receber e esperava alguém mais. O ônibus estava bem cheio, mas os quatro bancos da frente estavam vazios, com exceção do ocupado pelo guia. E pedi para sentar ali. Ele me autorizou e disse-me que o ônibus iria totalmente cheio. Fiquei atrás do Silvestre, o motorista.

Mas o motorista percebeu alguém, do outro lado da rua, em frente ao Grande Hotel, num movimento de curiosidade e questionou o guia se não seria o passageiro ausente. Foi até ele e se confirmou sua suspeita. Achei muito gentil de sua parte.

E um senhor de mais de 70 anos entrou e sentou-se ao meu lado, desculpando-se por estar no local errado. Mas eu acho que a comunicação não foi eficiente. No meu voucher constava: em frente ao Grand Hotel, e no campo da localização dizia, em frente a tenda China. As duas coisas são bem próximas, separadas por uma rotatória e uma avenida. Só acho que podia estar ao contrário, em frente à Tenda China próxima ao Grande Hotel.

Mas o senhor não iria permanecer conosco, sua excursão era a curta, e ele só ia até outro ponto para trocar para outro ônibus da mesma empresa: First Minute.

E dali nós seguimos para mais quatro paradas pegando passageiros, e o Paul ajeitando os assentos. No último ponto, eu passei para o assento da janela, ao lado dele. E o ônibus, com 55 assentos fora o do condutor, estava todo tomado. E 27 pessoas pertenciam a uma mesma família. A excursão foi guiada em inglês e espanhol.

E nossa primeira parada foi para café, banheiro e saque no ATM, para quem, como eu, estivesse sem dinheiro, pois os passeios de camelo e almoço não estavam incluídos na passagem, mas também não eram obrigatórios.

Como tinha tomado café da manhã no hotel, com as coisas que comprei ontem no mercado, só pedi um cappuccino, que me despertou, já que dormi pouco, e me deu direito a usar o banheiro sem pagar por isso.

O Paul explicou o que eu já supunha, do que vi. A ilha não tem fontes de água doce. Toda a água utilizada é dessalinizada. E a água para beber é comprada, importada. Disse ainda que, em tempos remotos, onde os processos citados ainda não estavam disponíveis, a água doce era recolhida da chuva. E que aqui só chove, em média, 20 dias por ano. E por isso as casas são construídas nos pés das montanhas, e com telhados inclinados, a água da chuva escorria pelas montanhas, e pelas ruas, e era captada e recolhida em poços. E que essa água era só para beber e ainda assim, em pequenas quotas diárias. Ele me disse que quando chove aqui, seu prazer é tão grande, que coloca short e camiseta e vai para a rua, se molhar. Quem vem de fora pensa que ele é louco. Não entende o prazer que sente alguém que desfruta de algo raro. Entender nós entendemos, é que para muitos, a chuva ou a água doce é abundante.

A parada seguinte foi num dos lugares mais impressionantes e bonitos em que já estive, e olha que isso não é pouco. Foi no vulcão El Golfo. Quando vi o mar bravio, de longe, já me impressionei com sua cor e movimentação. Quando paramos, com 20 minutos para apreciação do local, o Paul indicou um caminho que leva até um mirante e um lago verde. E lá fui eu, como sempre, sem saber o que esperar.

Um banco de areia preta separa o mar e a lagoa, tendo a água ficado ali parada, os líquens se desenvolveram dando a cor verde à lagoa. Mas além dessa coloração diferenciada e de incrível beleza, o conjunto de lagoa verde, banco de areia negra, mar azul, e vulcão formam um todo estonteante. Fiquei maravilhada"

O percurso é pequeno e fácil, e em 10 minutos eu o fiz, tendo sobrado tempo para olhar de outro ângulo, e observar melhor o mar. Um rapaz tomou uma foto minha, a meu pedido.

Já vi que essa viagem será bem melhor do que eu podia imaginar.

A próxima parada foi em Los Hervideros, e uma rocha negra foi esculpida pelo mar bravio, formando passagens subterrâneas, onde o mar continua investindo e castigando, para nosso deleite. Mais uma vez fui por um caminho diferenciado da maioria, e consegui observar uma parte do túnel de forma bem satisfatória. Tendo olhado depois, pelo ângulo que os demais tomaram, vi que minha escolha foi mais acertada.

Aqui é comum a prática de um tipo de bike, que se pedala com as mãos, que eu desconhecia. Então não é pedala, é mandala, poderão dizer alguns... E a posição de mandalar é deitado. É tida como uma bicicleta inclusiva e na internet está escrito que se chama handbike. Acho que o cara ia curtir esta foto dele, que fiz de dentro do ônibus.

Depois passamos pelas salinas, que já foi chamada de ouro branco, por aqui. E por que? A principal atividade econômica da ilha era a pesca, e os navios, antes de saírem ao mar, carregavam o barco com sal, que era o conservante natural do pescado. Houve época em que a produção de sal atingiu 300 toneladas por semana. O local das salinas hoje era o velho Porto, mas que foi atingido e destruído em uma das erupções vulcânicas da ilha, que foram muitas, a pior delas em 1736, que destruiu uns 20 povoados, mas como os tremores de terra aconteceram durante anos, o povo se deslocou. E como não havia uma contagem precisa da população, não se sabe ao certo se houve mortos. Essa erupção tomou cerca de 180 mil m2 de área, correspondente a um quarto da área da ilha.

E como faziam antigamente para transportar o sal para os locais necessários, se não havia estradas? Usavam transporte animal e os dromedários foram trazidos do Marrocos, na África, que fica só a 120 km de distância, de mar. E por muito tempo foram os únicos responsáveis pelo transporte de carga em Lanzarote. São animais fortes, resistentes às altas temperaturas, e ao clima seco.

E nossa próxima parada seria para andar nos dromedários, em passeios de 20 minutos, por 6 euros cada pessoa. E eu ainda não havia decidido se andaria ou não. Fui fazendo perguntas e o gui explicou a todos os visitantes. Há uma população de mais de 300 dromedários neste atrativo. Os animais que ali estão são devidamente licenciados, a carteira de vacinação tem que ser apresentada e a licença é renovada a cada cinco anos. Eles têm um controle de utilização dos animais, com tempo máximo de 5 horas, dia sim dia não, sendo que neste período só podem fazer até 3 passeios diários. Na baixa temporada chegam a ter até mais dias de intervalo de descanso. Perguntei sobre o destino dos mesmos quando não são mais úteis?

_ " O animal, como nós, desenvolve ao longo dos anos, artroses e outros problemas, como nós. Então, quando não estão mais sendo utilizados nos passeios, ainda assim são trazidos, mas sem nenhum peso, sem cadeiras, sem montaria, a fim de que continuem se exercitando, pois se forem deixados parados, assim como nós, acabam morrendo antecipadamente.

E fiquei pensando, este não é um animal nativo. Se ele não tiver nenhuma utilidade para o homem, será abandonado por sua própria conta. Ninguém vai alimentá-lo sem retorno. E neste local inóspito, onde quase nada cresce além de líquen e raros arbustos, e sem água, como sobreviveriam? Eles precisam que os montemos, para continuarem a ser tratados por seus proprietários. Ou talvez eles fossem vendidos de volta ao Marrocos, para serem usados em cargas, talvez mais pesadas e cansativas, com menor controle.

Eles usam uma espécie de focinheira, igual se colocam em cachorros, algumas com tiras de couro, outras com espécies de arames. Mas não me pareceram incomodados. É uma medida para evitar acidentes, porque sei que eles mordem e cospem. E passam o tempo todo ruminando o alimento que receberam.

Recebemos a orientação de que, a pessoa mais pesada nas duplas, ficasse do lado esquerdo do animal, o que é melhor para ele. No meu caso, além de eu ficar na esquerda, o proprietário dos dromedários ainda colocou um saco de areia para compensar a diferença. Eu disse a ele que aquilo me magoou profundamente.

O camelo atrás de nós era uma gracinha. Eles são ensinados a caminhar bem juntinhos um do outro. Acho que é uma técnica usada pelos beduínos, no deserto, para evitar que se percam do grupo. E ele vinha enfiando a cara nas nossas costas, a maior parte do tempo ao lado de minha parceira de viagem. Era branco e estava bem limpo. Aliás, todos me pareceram bem tratados.

A parte mais complicada da montaria é quando ele dobra os joelhos dianteiros para se sentar. Temos que estar segurando bem e atentos, porque somos projetados para frente. E o passeio ocorreu sem maiores ocorrências, aproveitando um pouco a vista, e desfrutando dessa experiência e convívio. Perguntei ainda o nome do animal. E ele não tem nome. É realmente uma relação comercial. Mas já ouvi dizer que os camelos eram mais bem tratados que as mulheres, em tempos antigos. E também custavam mais caro. Tipo, um bom camelo por 10 mulheres. Nem vou me questionar se valho um camelo...

O passeio de camelo já é na entrada do Parque Nacional Timanfaya. Eu tinha lido que não era um passeio muito interessante porque tem que ser feito dentro do ônibus, com janelas sujas, e não há a imersão no local, de que tanto gosto.

Depois de pararmos no escritório de controle, o Paul foi fazer a identificação, e ultrapassamos uma fila enorme de veículos ao longo da pista, que aguardam uma vaga no estacionamento. Nosso guia nos informou que eles ficariam ali até três horas esperando, e que na alta temporada o tempo é ainda maior.

O carro é colocado no estacionamento e os visitantes partem nos ônibus locais. Essa é uma forma de preservar o patrimônio, já que, o que tenho observado por aí, que qualquer risco é válido por uma boa selfie... Preserva vidas também.

O ônibus passa na frente, mas tem tempo limitado de permanência. O Paul nos disse que faríamos três experimentos da temperatura do local.

No primeiro, formamos um círculo e um homem com uma pá, escavou um pouco o chão e veio distribuindo as pedrinhas quentes de mão em mão. Fui a primeira a receber, e como queria filmar o experimento, não tinha como trocar entre as mãos as pedrinhas tão quentinhas. E o jeito foi ir jogando para cima até ela perder a quentura (vejam o vídeo no Instagram @lessa meyre ou no Facebook, Meyre Lessa).

Depois fomos a outro ponto onde um buraco grande, parecendo de um poço, está escavado no chão. Um rapaz com uma forquilha, coloca um maço de gravetos, aparentemente secos, na temperatura de 250 graus, e num instante começa a fumaça. E um fogaréu. Só que eu fiquei numa posição onde o fogo avançava, e tive que me afastar antes que ele chamuscasse meus cabelinhos. Mas fiz um segundo de vídeo da fogueira também.

E o último experimento foi com água, que é colocada com um balde num furo, e sobe em jato de volta. 400 graus Celsius.

O calor é tão grande que o Restaurante del Diablo, no local, usa este calor para cozinhar. Aliás, restaurante este também projetado pelo principal artista de Lanzarote, Cesar Manrique, com janelas de vidro para apreciação do Parque enquanto se faz uma saborosa refeição.

Aliás, o símbolo do parque é um diabinho, a cadeia de vulcões é denominada Del Fuego, e tudo porque os povos antigos, desconhecendo a natureza, acreditavam que o diabo viveu na ilha por um tempo, quando o solo se rompia, formando grandes crateras, e de dentro delas explodiam os vulcões, formando novas montanhas. Todas as ilhas Canárias são vulcânicas e em todas, os vulcões ainda estão ativos. Sendo que as mais novas têm atividade mais recente e mais constante , sendo a última registrada em 1971, na Ilha de Palmas.

Depois destes experimentos, fomos fazer o tour pelo parque, em nosso ônibus, com vidros limpos e de onde se podia apreciar perfeitamente as reentrâncias, a lava rachada depois de resfriada, a formação de líquen, as crateras de vulcões, alguns arbustos já nascendo no vale do Silêncio, o que prova o poder de reconstituição da natureza, mas por outro lado o vulcão vem e destrói tudo de novo... Em algumas passagens podemos ver a altura que a lava pode atingir. Na verdade até muito mais que isso.

Passamos por um ponto onde é mantida a estação meteorológica do Parque, medindo a intensidade dos tremores.

O guia nos disse que as frequentes utilizações das paisagens em cenários de alguns filmes atraem turistas, fazendo com que atualmente, o turismo seja responsável por 90 por cento do PIB da ilha, ficando os outros 10 por cento ainda para a atividade pesqueira. Filmes como Papillon, Alcatraz, 2001 Odisséia no Espaço, o Primeiro Guerra nas Estrelas (Star Wars), Planeta dos Macacos...

E nosso próximo destino foi o restaurante, na cidade de Yaiza, o povoado mais próximo do Parque e mais antigo, sendo a única população remanescente das catástrofes, pelo que entendi. E nessa oportunidade o Paul falou-nos da Igreja em frente ao restaurante, dedicada a Nossa Senhora das Dores, e que o povo venera como benfeitora que fez cessar a erupção de 1736. E disse também que a cor oficial das casas é o branco, podendo variar para bege. E portas e janelas são verdes, azuis ou marrons, que eram vermelhas antes, mas se revelaram uma cor muito quente. E assim o são porque eram as tintas usadas para pintar e proteger as embarcações, e perceberam que seria bom também para as madeiras da casa. E assim é até hoje.

Nosso almoço comprovou minha teoria. Como não estava incluído no preço da passagem, pagamos 8 euros e recebemos comida de ótima qualidade. Uma sopa de grão de bico. E buffet livre com saladas, peixe, frango, croquetes, arroz, enfim, muito gostoso. E na mesa, água e vinho tinto seco, bom.

Tirei umas fotos do entorno e sentia-me curiosa quanto aos solos preparados com o que parecia ser alcatrão. Não entendia o motivo.

Mas do restaurante fomos para uma bodega, e passamos por um vale que, segundo o Paul, numa das erupções vulcânicas se cobriu de cinzas. Que se mostraram extremamente úteis para um local que nada se produzia por não ter água. Eles perceberam que, abaixo das cinzas a água se mantinha e não sofria a evaporação do sol. Então começaram a fazer uma camada com esta cinza, perfura-la para introduzir as sementes. Só que o vento levava tudo embora. Então o que fizeram os criativos camponeses. Faziam bacias escavadas, cercam com muros de pedras, e plantam no meio.

É lindo de se ver. Segundo a UNESCO, é uma estratégia única no mundo.

E mais, ali, onde tem um vinhedo, quando a parreira se cobre de folhas, ela forma uma espécie de guarda chuva, protegendo-se do vento, e os frutos ficam abrigados em seu interior. A natureza não é mesmo sábia?

Provamos no local um vinho branco seco, ou um moscatel licoroso. Eu fui de moscatel, para variar.

E nosso passeio chegou ao fim, cada qual sendo conduzido até o ponto de partida. E eu gostei muitíssimo.

Amanhã vou para o norte desta ilha que tem 80 km de comprimento por 25 km de largura. Cidade de Haría.