ÉVORA - AQUI PERTINHO DE CASA

05/12/2019

Quero começar este post elogiando os serviços de algumas empresas virtuais que tenho usado.

O cartão de dados de internet Easy4u, devolveu-me o valor correspondente ao serviço não utilizado, porque aqui na Europa não funcionou o mesmo chip que usei nos EUA e Canadá.

A GuidetoIceland me devolveu o valor referente o passeio cancelado, por condições climáticas inadequadas, para observação de baleias, assim que solicitei o ressarcimento.

O GertYourGuide, que tenho usado bastante para compra de ingressos e passeios antecipados, devolveu-me o valor referente o trem em Londres, cujo bilhete foi emitido em sentido contrário, tendo eu que comprar outro na bilheteria. Foi só eu entrar em contato via e-mail. Mandei as fotos dos bilhetes emitidos que ficaram em meu poder. Nem resposta ao e-mail eles deram, mas o crédito entrou no cartão.

Este tipo de assistência dá credibilidade aos serviços prestados. Então, tenho usado e recomendo, assim como o Booking, que aqui na Europa é comum fazerem a cobrança no cartão assim que se faz a reserva, e que, qualquer contratempo, os valores são devidamente ressarcidos. É uma alegria e uma tranquilidade quando encontramos empresas com esta postura.

Depois disso vamos ao que interessa, minha estada em Évora, que fica mais perto de Badajoz do que de Beja, e ainda assim está a uma hora de viagem de 'casa'.

Enquanto transitava pela Espanha, a rodovia foi, quase na maior parte do tempo, de duas pistas. Entrar em Portugal já altera este perfil, e a velocidade fica controlada em 80km/hora, sendo possível chegar aos 90km/h, não muito mais que isso. Por outro lado, são estradas com pouco tráfego, e é possível apreciar a paisagem. Demorei por volta de uma hora e meia para chegar a Évora. Quando saia de Badajoz liguei para o celular informado na reserva avisando sobre meu horário de chegada e perguntando sobre estacionamento.

Cheguei a Évora por volta de 11h30. A Inês me esperava na Casa de Sertório, e muito simpática, transportou minha mala até o meu quarto, que se localizava no segundo andar, por dois lances de escada bem íngremes. Avisou-me que eu estaria só na Casa, pelo menos naquele dia. Mostrou-me as instalações, que admirei muito, pela riqueza da história que ela conta, cheia de detalhes nos móveis, decorações, azulejos e na própria estrutura. A Inês me disse que pertencia à mãe do Paulo, o proprietário.

No primeiro andar fica uma cozinha completa e uma sala de estar com TV. Só usei a sala de estar mas sem ligar a TV.

Em meu quarto encontrei itens, sobre a cama e pendurado, que ainda não tinham sido oferecidos, conjuntamente, em nenhum outro lugar: toalha de banho, de rosto, robe de banho, tapete de banheiro e chinelo de quarto. O quarto tem cama de casal e um baú antigo coberto por tapeçaria colorida. Não tem forro, mas seu teto é em arco. E se liga ao hall que, aí sim, possui forro.

O banheiro foi o que vi de mais precioso, com aquelas banheiras antigas bem no meio do piso quadriculado. E com o sistema de encanamento e aquecimento, em cobre, exposto sob o lavatório.

Mas também tinha ducha, e daquelas que sai água por todos os lados, bem quentinha. E tinha espelhos, penteadeira, cadeira, cabide para a roupa. Parece que os donos tomam banho ali para verificar se não falta nada.

Como o tempo estava nublado, mas a previsão era de que não chovesse durante a tarde, guardei minhas coisas e fui almoçar e iniciar minha peregrinação pela cidade. A Inês indicou alguns restaurantes e pastelarias. Escolhi o Pipa Redonda, que ficava a menos de 300 metros do hotel e lá fui eu.

As mesas para refeição ficam ao fundo. Pedi bacalhau a Brás e vinho branco. Estava bom, mas nenhum igual ao que comi em Serpa. O melhor, até agora. Mas a sobremesa estava bem gostosa. Cremosa. Só achei que perdi muito tempo ali.

Dali segui para a Praça Giralda, uma das principais da cidade e bem perto de minha hospedagem. Passei por ela para ir a vários destinos.

Minha programação previa ver a Cerca Medieval, que na verdade são os muros da cidade. Caminhei por uma parte, a avenida que o acompanha é muito movimentada, e cheia de árvores que estavam com as melhores cores do outono, o que me pareceu muito bonito, e quis compartilhar com vocês através de um vídeo que publiquei no Facebook e no Instagram. (Meyre Lessa, @lessa meyre)

As Torres Fingidas estão passando por manutenção, quem sabe mudam até de nome.

E o Palácio de Barahona é só para apreciação externa.

Estando muito perto, resolvi antecipar a principal atração da cidade, a Capela dos Ossos, que fica junto a Igreja de São Francisco. O preço é de 5 euros, como eu já estava com pouco dinheiro, pois estava pagando tudo em espécie para obter moedas de troco e poder abastecer o paquímetro, já que deixei meu carro estacionado na rua, próximo ao hotel, mas numa zona paga, tipo 60 centavos a hora. Mas que só aceita moedas. Perguntei à recepcionista:

_ " Aceita cartão?"

_ " Só português."

Tirei meu cartão do Banco Millennium e daí ela falou:

_ " Mas o valor mínimo é de 10 euros."

Senti certa animosidade. Ela estava me vendo sozinha, custava já ter dito de uma vez: "Aceitamos cartão português para valores acima de 10 euros." Por sorte eu estava ainda com os últimos 5 euros na carteira. E tinha um tanto em moedas, mas estas estavam reservadas.

Neste valor estavam incluídos além da Capela dos Ossos, a Igreja de São Francisco, o Museu Sacro e a exposição de Presépios, que sempre me encantam.

Falam tanto da Capela dos Ossos que acho que esperava mais. Ela não é grande e suas paredes são totalmente tomadas de crânios, fêmures, tíbias e tantos outros ossos do corpo humano. Tem alguns suportes com dizeres explicativos. O que mais chama a atenção dos visitantes é a inscrição que consta na porta de entrada: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos."

Sua construção foi também em função de uma estratégia de especulação imobiliária no século XVII, se assim podemos dizer. Havia uma quantidade muito grande de cemitérios monásticos na época e queriam utilizar os locais para outros fins. Assim foram retirados os ossos e usados como decoração da Capela, dando-nos um sentido da transitoriedade da vida. É um lugar escuro que não me transmitiu nenhum tipo de sentimento ou energia.

Ao contrário da Exposição de Presépios, que sempre me encanta por fazer-me perceber a forma como a Sagrada Família é vista em cada cultura. Quando vi pela primeira vez uma exposição como esta foi que me dei conta que cada raça aproxima o sagrado de si mesmo, o que é natural. Mas nunca tinha imaginado que o presépio seria convertido em personagens com rostos de orientais ou de negros até vê-los assim, e o mundo me pareceu um lugar muito melhor desde então. Onde podemos ver nossos ícones com a nossa cara.

Tirei algumas fotos dos melhores exemplos do que digo acima.

O Museu de Arte Sacra é interessante por suas informações históricas, pelo menos para mim. São várias salas com artefatos religiosos ou quadros de motivos também religiosos, que já não me atraem mais quando tirados de seu contexto.

E a Igreja é bem bonita.

No caminho para os próximos destinos avistei este lindo Jardim Público e me encantei com suas cores, e os bancos vermelhos colaboram, num lindo contraste com o verde.

Dali ainda vi o Quartel do Exército. A Igreja Senhor Jesus da Pobreza. E passei na mais famosa Pastelaria da Cidade: Pastelaria Conventual Pão de Rala. Onde vi uma compota que parecia ser de figos maduros, mas eram ameixas, e são servidas com um bolo, que parece pão-de-ló, externamente, mas são um tanto cremosos e molhadinhos. E só uma ameixinha é colocada com cada pedaço. Também pedi um doce de ovos e tomei com chá frio. Estava com sede.

Enquanto eu ali fiquei apreciando meus doces, percebi que o bolo com ameixa é muito apreciado. Alguns o compram sem as ameixas.

Terminada essa excursão e já tendo adiantado um pouco o roteiro de amanhã, é hora de voltar ao hotel. Tenho lá meus comes e bebes para a noite. E estou louca por tomar um banho quente naquela banheira e sentir-me como alguma atriz de filmes antigos.

E vou dizer que foi uma experiência muito interessante. Primeiro porque, ao entrar, a banheira meio que balançou, e por estar no meio do cômodo, não há onde se apoiar. Mas entrei e sentei bem. E enquanto tomava meu banho só ficava pensando na saída. Se eu desequilibrar ela pode virar, derramar toda esta água e ainda me machucar. E eu estou sozinha no hotel. Fez-me lembrar de uma moradora de Badajoz que se estatelou com a bicicleta numa viela, em descida, bem na hora em que eu passava. Eu e uma outra transeunte fomos ajudar, mas ela disse que estava tudo bem, só que fazia dois meses que não andava de bicicleta, e desacostumou. E, para falar a verdade, andar por aquelas ruas de pedras a pé já é difícil, quanto mais de bike.

Fiquei em dúvida se eu deixava a água escorrer antes de sair, mas achei que o peso da água dentro da banheira iria dar a esta um maior equilíbrio. E de tanta atenção que prestei, sai sem problemas. Será que, quando mais jovem eu teria toda essa preocupação?

Deixei a janela entreaberta para o quarto não ficar abafado. Prefiro um pouco de frio ao calor demasiado. O tempo estava frio, porém agradável. E a cama de casal estava com pesados cobertores, de modo que dormi muito bem.

Tomei meu café da manhã na cafeteria da Praça Sertório, bem embaixo da hospedagem. Pedi uma tosta mista, com queijo e fiambre, e um galão de leite com café, além de um pastel de nata.

A tosta foi a última coisa que recebi, mas era enorme e seria suficiente para me manter sem fome até bem tarde.

Depois fui ver a Torre da Cinco Quinas, mas 2 delas ficam encravadas na construção anexa. E está vendo estas árvores encima do muro? Estão no Jardim de Diana. E só agora, que estou colocando as fotos, que percebi.

E o Jardim de Diana. Ele é pequenino, mas tem algumas características interessantes. Sua distribuição e colorido. Tem algumas esculturas que chamam a atenção. As Pedras de 'O Beijo', de onde se tem uma bela vista da cidade, e que me incitaram à ação reflexo, porém sem contrapartida. Começo a achar que estou precisando de um acompanhante.

Junto a ele, o Templo Romano, mais um conjunto de colunas que um dia pretenderam segurar alguma coisa. Apreciável!

E a Igreja dos 'Loios'. Na verdade a Igreja de São João Evangelista, que é uma igreja particular dos Condes de Cadaval, onde eles eram sepultados e onde se realizam as cerimônias religiosas da família. Atualmente eles são sepultados fora dali, mas quando exumados, seus ossos são para lá transportados. O último que para lá foi transladado faleceu em 2001 e foi exumado há 4 anos. Uma abertura no solo possibilita a visão dos ossos empilhados. E do lado oposto um enorme poço. Não gosto muito de caminhar sobre as tampas dos túmulos, em nenhum cemitério ou igreja, mas ali é impossível fazer diferente já que são muitos túmulos em um pequeno espaço. O valor da entrada é de 8 euros se quiser visitar também o Palácio, caso contrário fica por 4 euros. Eu comprei a entrada completa, já que ali estava mesmo.

Sai pela porta principal da igreja e entrei na primeira porta à direita, sai numa área de conexão entre as várias plantas de construção. Uma placa indicava que teria que subir para visitar o Museu do Palácio. Entreguei o tíquete para verificação e comecei a ver as dependências do Palácio. Todas elas estavam com obras de arte, na maior parte, de pinturas, do acervo pessoal da Condessa de Cadaval, ou de uma exposição temporária. O Museu possui 17 cômodos, e o recepcionista me mostrou um ângulo de onde eu poderia ver a infinidade de janelas. Disse-me também que a Condessa ainda vive no piso térreo do Palácio. Ela tem 38 anos e casou-se com um príncipe francês.

Ao ser questionado sobre o modo de vida dela, ele confirmou que vive como nobre, faz traduções de livros e viaja muito, a convite de diversas monarquias, para eventos variados. Estava em um destes neste momento, em viagem. Mostrou-me até um livro com a foto dela na contracapa.

Segui para a Catedral Nossa Senhora da Assunção ou da Sé. Ali tinha a opção vários tipos de ingressos. Optei por um que daria direito a apreciação do Claustro e da Igreja. O claustro é um corredor em volta do jardim Central, nos 4 cantos estão representados os Evangelistas, e além dos sarcófagos tem também algumas homenagens.

Vou aproveitar a lembrança que uma das fotos me trouxe para mencionar o quanto estamos ficando imbecilizados pela tomada de fotos. Desde sempre o ser humano registra-se no mundo, e isso é importante para a humanidade e para o indivíduo. Através destes registros é possível conhecer a história do mundo ou da pessoa. E também são registrados feitos... Mas o que tenho observado nas minhas andanças pelo mundo é que, cada vez mais as pessoas estão se pendurando por aí com o único objetivo de se fazer ver, cada vez mais a foto pela foto. E correm riscos pessoais ou de deterioração do patrimônio. São inconsequentes. E, na maior parte das vezes não apreciam, não sentem o lugar. Confesso que tenho necessidade de dividir as minhas impressões com alguém, e como não tenho com quem, e sempre gostei de fotografar, mesmo não sabendo (mas estou aprendendo), registro os locais para partilhar com vocês. De cada 10 a 15 fotos que tiro, uma é minha.  Cada dia tiro de 80 a 200 fotos, conforme o local visitado. E escolho algumas para partilhar e dar vida aos meus enredos. E não quero criticar quem gosta de se auto-retratar, mas sempre usem o bom senso.

A Catedral tem um estilo mais moderno. Junto às suas naves têm umas telas de vídeo com as explicações sobre ela. E entendi porque muitas naves são fechadas com grades. É traço histórico de quando o povo não podia se aproximar do altar e dos religiosos.

Desci a Rua 5 de Outubro apreciando as lojinhas, comprei uma água para obter mais moedas pois já estava dando 14h30, encerrando o período de estacionamento que paguei pela manhã. Mas gostei do lugar, penso em voltar para o almoço. Porém mais tarde, agora tenho que me preocupar com o carro. Essa foi a parte chata de Évora. Ficar tentando arrumar moedas para abastecer o paquímetro. E a maior parte dos comerciantes não as tinha também. No almoço na Pipa Redonda a garçonete deixou minha conta por 10 euros, dos 10,80 que somou, por não ter troco para 20 euros.

Quando tentei voltar para o restaurante, não o achei e acabei almoçando numa pastelaria da Praça Giralda, pensando que ali já teria boa sobremesa. Mas desisti da sobremesa quando lembrei que queria passar na Nut Show, indicação de minha amiga Cristina, novamente, pela simpatia de sua proprietária. Gosto de Nutella, mas em pouca quantidade. Acho-a excessivamente doce.

O estabelecimento era bem próximo a Praça Giralda, e foi fácil de achar. Dizer que a Carla é simpática é muito pouco. Sua loja é acolhedora e tem clientes cativos que passam ali para um simples café e umas palavras com a proprietária. Permaneci lá dentro por mais de uma hora. Comi churros com nutella, feito aperitivo, que você vai molhando o biscoito na pasta. Mostrei-lhe as fotos de min há amiga e seu marido, quando aqui estiveram. Conversamos sobre viagens e ela me indicou as Ilhas dos Açores. Disse ser muito lindas. Soube que ela já é casada e tem uma criança de dois anos. Um senhor passou, tomou um café e se foi para pagar suas contas. Passados uns 20 minutos ele retornou, dizendo-se irmão gêmeo do anterior e pedindo outro café, ao que a Carla contestou, mas ele disse que o primeiro foi o irmão que tomou. Olhou para mim e disse:

_ " A senhora deve estar a pensar que sou louco."

Sei que iniciamos uma conversação onde soube que ele gosta muito de cozinhar e é sempre convidado para festas com essa missão, tanto na família como nas reuniões de amigos. O Sr.Eduardo tem 71 anos, é casado há 33 com uma mulher 10 anos mais jovem, que pareceu-me não ser a mãe de seu casal de filhos, já que o moço tem 46 anos. Tem 5 netos. E uma gata que considera como filha, uma persa que o adotou. E segue-o como uma sombra.

Ainda chegaram mais duas pessoas, e todos se juntaram do lado de fora do estabelecimento, inclusive a Carla, para fumar.

Logo em seguida eu agradeci a acolhida, a conversa e fui-me embora senão capaz de ficar a tarde toda ali, conversando.

De lá eu fui ver a Igreja da Misericórdia, passei em frente, de novo, dos Doces Conventuais Pão de Rala, mas não entrei. 

Fui ver o Palacete da Rua Cicioso, que não quer mais ser visto, pois colocaram chapas de ferro nas grades para dificultar a observação, pareceu-me. 

E a casa de Garcia Resende, cujo antigo proprietário deve ter sua importância histórica. E quando vi cheguei por trás da igreja dos Loios, e novamente atravessei a Rua 5 de outubro e cheguei a conclusão que já estava bom de Évora, antecipando o final de minha estadia em um dia.

Mandei uma mensagem para a Inês avisando-a de minha decisão.

Fui tomar meu banho, desta vez testando a ducha, e encerrei-me no quarto, escrever e descansar.

Na sexta-feira preparei-me, desci devagar as escadas já com minha bagagem e parei novamente na cafeteria, desta vez pedi uma torrada, na esperança de vir um lanche menor. Igual em tamanho, mas só com manteiga. Não comi doce.

E voltei feliz para Beja, passando primeiro no mercado, de Évora mesmo, para comprar frutas, verduras e água.