ESTUÁRIO DO RIO SADO E PASMADINHOS DE SETÚBAL

22/07/2020

ESTUÁRIO DO RIO SADO E PASMADINHOS DE SETÚBAL

Eu li que seria interessante reservar um período, manhã ou tarde, para visitar o estuário. Então, neste dia, fiz meu desjejum no quarto mesmo e desci antes das 9 horas, para evitar mais penalizações de estacionamento. E me encaminhei diretamente para lá, o que foi providencial, como sempre.

Coloquei meu carro na área de estacionamento e estranhei um pouco o lugar. Não sabia para onde devia me dirigir. O portão de entrada tem uma espécie de mata-burro, mas é na verdade um portão com desvio, que não permite a entrada de animais de quatro patas e grande porte, como burros, vacas, cavalos...

E o corredor de entrada tem várias estátuas em ferro e pedra das várias espécies de aves que habitam, mesmo que sazonalmente, a área.

Mascarei-me e me dirigi à recepção. Ela esta inserida no espaço que foi um velho moinho de cereais, o único que pode ser recuperado, num total de quatro que havia. E que hoje é uma parte de um museu, que trás o conhecimento através do retrato de uma época. E como eu gosto muito destes processos de produção, como já disse antes, explorei sozinha. Procurei compreender cada peça e seu funcionamento e, do que não compreendi, requisitei o recepcionista para me explicar. E ele aproveitou para dar uma explicação completa. A pedra mó, as pás, movimentadas pela água, o sistema de represamento da água. E ainda disse que o moinho só operava na maré baixa, quando a água represada conseguia sair para o lado do mar e mover as pás. Caso contrário, na maré cheia, a força da água do mar impediria a água represada de sair e movimentar as pás. Ali se moíam aveia, trigo, centeio e mais um cereal, que não me recordo. E, por incrível que pareça, me esqueci de tirar fotos.

Na sala do outro lado, uma exposição temporária. No momento, das fotos dos pássaros tiradas pelo responsável pela catalogação e controle das espécies do Estuário. E também umas pequenas peças de porcelana, para venda, que o rapaz explicou serem os Pasmadinhos de Setúbal. Eu me interessei porque vi uma delas em um parque, na cidade.

- Neste mesmo parque estão todas.

E foi me falando o nome de cada um, inclusive do mais recente, que é uma homenagem ao time de futebol da cidade, o Vitória.

A visita ao Velho Moinho e à exposição eu só fiz após reservar lugar no barco que sairia num passeio de observação às 10h30, e que tinha vaga para mim. O passeio custava 50 euros com almoço, ou 35 sem o almoço. Mas eles só aceitavam dinheiro. Então, como só tinha 35 em espécie, certinho, só fiz o passeio de barco.

E usei o banheiro e comprei uma água saborizada com gás, que juntei com a água que ainda tinha na minha garrafinha, e já estava na hora de partir.

Os outros quatro integrantes do passeio eram de uma mesma família. Além de nós, os dois tripulantes. Todos mascarados, tive que higienizar as mãos assim que entrei no barco, muito limpo, com piso de carpete e cômodos assentos laterais.

O jovem apresentou seu pai, que há quarenta anos vive e trabalha naquela região. E ambos são profundos conhecedores das espécies de pássaros que avistam por ali.

Havia um binóculo para cada integrante do passeio, mas não quis usar o meu. Pássaros não são meu especial interesse, e quando quero vê-los de pertinho, olho fotos na internet. Interessa-me mais observar seu habitat, seu comportamento, saber o que os atrai para este lugar.

O Estuário do Sado é uma imensa baía, com uma estreita saída para o mar, o que faz com que ele mantenha as águas calmas, sem muitas ondulações. Ao longo do passeio avistamos várias pequenas ilhas, onde os pássaros se concentram. O alimento é abundante. A maioria dos pássaros que ali vivem são limícolas, ou seja, se alimentam no lodo. E para isso o formato de seus bicos costuma ser alongado.

Mas os Flamingos também costumam passar temporadas por lá, e alguns, que os guias chamam de juvenis, permanecem inclusive no inverno, quando as aves adultas atravessam o oceano procurando o calor africano. Os flamingos que vimos tem penugem externa branca, e pude ver a coloração avermelhada, com as pontas das asas pretas em seu voo. A ave só atinge a idade adulta com três anos. E a coloração rosada se dá em função do tipo de alimentação, em grande parte de camarões. Vivem em águas rasas. E bota seu único ovo no lodo que demora em média, 28 dias para eclodir. Em novembro e dezembro o estuário se encontra lotado destas aves, que estão imigrando do norte do globo para as regiões mais quentes.

Ao longo do caminho vimos vários peixes também que saltavam para fora da água, fazendo espetáculos, saltitando fora d'água. São todos da família das tainhas, e têm diversos tamanhos e algumas diferenças nas escamas. O rapaz nos disse que às vezes eles acabam pulando dentro do barco.

- Espero que sim, assim garanto meu almoço.

- Espero que não pois eles fazem uma sujeira.

Mas foi sim, e já que foi eu que pedi, ele pulou com um golpe em minha cabeça e braço, para depois cair no piso, ainda saltitando. E o moço pegou-o, permitiu-nos uma foto antes de atirá-lo à água novamente. E teve que sair limpando com uma esponja, pois uma gordura externa, que torna o peixe liso e escorregadio, funcionando como defesa, ficou impregnada nos locais onde tocou. Encontrei uma escama depois, em meu banho. kkkk

Foi um passeio de 2 horas e meia, onde o nosso guia apostava as espécies e as nomeava. Ele conseguia reconhecer quatro espécies num bando em voo. Ou contar, em segundos, a quantidade de membros de um bando pousado em uma ilha. E tinha com ele uma máquina fotográfica que, a princípio, chamei de canhão, pelo tamanho de sua ocular. Mas ao vê-lo atuar, me corrigi:

- Parece mais uma metralhadora, com a quantidade de cliques que você dá simultaneamente.

- E essa ainda não é veloz o suficiente.

Às vezes ele nos mostrava o fruto de suas fotos, identificando os pássaros, ou mostrando a sutil diferença entre duas espécies. Chegou a mostrar-nos o anilho identificador de uma ave, presa em seu pé. E explicou que depois ele cadastra num sistema mundial, e eles podem conhecer os hábitos da ave, descobrindo onde nasceu, e por onde anda.

Vimos também uma águia, ave solitária. As demais, todas, vivem em bandos, maiores ou menores. E os bicos são imensos comparados aos seus diminutos corpos.

Paramos numa longa praia, onde descemos do barco para nos refrescarmos. A água é turva, mas estava quente e limpa. Vi uma água-viva e perguntei;

- É uma caravela?

- Não, essa não tem perigo.

Na verdade queria saber se era uma medusa, ou água-viva. As caravelas portuguesas são perigosas, e causam queimadura de terceiro grau ao contato, mas elas não se movem, são levadas pelas marés. E têm um formato diferenciado. Mas, ainda assim, sua picada, através dos tentáculos, é venenosa. E assim me afastei e fiquei atenta.

Na praia o rapaz nos contou que viveu ali toda a sua vida, e em sua infância, enquanto os pais catavam uma espécie de minhoca nos lodos, usada para pesca desportiva, e vendida para toda a Europa, ele ficava ali na praia, descobrindo o que podia, e passou a ser um grande admirador de toda a fauna e flora da região. Pegou um minúsculo ser na água, e mostrou-nos o cavalo marinho do local. Era tão pequenino que, só com uma vista excelente e treinada seria possível achá-lo naquela água turva. Parecia um pedaço de linha preta, com menos de dois centímetros de comprimento.

A viagem de volta ainda foi observando os pássaros. Mas os flamingos estavam recolhidos às zonas mais rasas do estuário, onde o barco não poderia avançar para não encalhar.

Às 13 horas chegávamos ao ponto de partida, onde seria servido o almoço para a família.

Eu fui para o carro onde encontrei um casal que me perguntou o preço do passeio. E se era necessário fazer a reserva. Eu falei que não reservei, mas tive sorte de encontrar vaga e de chegar no horário certo. E mais uma vez eu agradeço.

Como vi que o Alegro era no caminho de volta, resolvi almoçar lá, e fazer um pouco de hora. E por volta de 15 horas, cansada, me dirigi à hospedagem. Mas não encontrei vaga para estacionar ali, e fui em direção ao Jardim do Bonfim, onde queria registrar as imagens grandes dos Pasmadinhos de Maria Pó. E ali, junto ao jardim, achei estacionamento gratuito. Mas o jardim não e muito grande e rapidamente venci todo o percurso, fotografando cada estátua, e percebendo o estádio do Vitória em uma das laterais do Jardim. 

Os Pasmadinhos são concebidos por Elsa Rodrigues e Jacel Piatkiewicz em tamanho gigante (3m) e encontram-se a mostra no Jardim do Bonfim, no centro da cidade. São também conhecidos como Pasmadinhos de Maria Pó, e segundo os autores, Maria por ser um nome universal, e Pó por serem as iniciais de Portugal, pátria da autora, Polônia, de seu marido e autor conjunto das obras, e porque o pó é a matéria prima na confecção das mesmas. Representam figuras típicas da região. 

São eles, na ordem em que aparecem na foto: Miss Livramento; Luísa Todi; Descarregador de Peixe; Frade Arrábido; Bocage; Maria Baía; Observador de Pássaros; Dona Vinha e Vitoriano. A grande é a Lavadeira de Azeitão (a colagem só permite 9 fotos).

E como ainda era cedo, me sentei num dos bancos do parque, à sombra, e fui olhar minhas mensagens. E ali fiquei até às 17 horas, mas louca para voltar ao quarto e descansar.

E ainda assim não encontrei lugar no estacionamento mais próximo, e na segunda volta, coloquei numa vaga um pouco mais distante, pensando em trocar o carro de local mais tarde. Mas depois do banho, desisti. E resolvi deixar lá mesmo.

E antes das 9 horas, saí com minhas malas direto para o carro, abasteci de novo o paquímetro e fui tomar meu café. Tinha a intenção de conhecer a península de Tróia, mas por terra. E dando a volta no estuário, passei por Alcácer do Sal. E tentei chegar à península, mas a ponte de ligação estava impedida. E não quis fazer o desvio. E voltei para Beja, chegando um pouco mais cedo do que previa.

E agora só viajo dentro de um mês. Aguardem-me!

Ah. E acho que a melhor parte do Estuário pode se ver nos vídeos que fiz e publiquei no Instagram (@lessameyre) ou no Facebook (Meyre Lessa). Tchau e até a próxima.