es-VALE DOS DINOSSAUROS – SOUSA (PB) E ADEUS PARAÍBA

10.11.2018

Comecei o dia comendo a pizza e tomando o Nescau prontinho que comprei na padaria. Terminei de arrumar a mala, li minhas mensagens e desci às 8h45 para o posto. O Bento já estava me aguardando. Disse-me que se quisesse ir sem capacete, ele iria direto pela estrada de terra. Disse-lhe que não, podia escolher o caminho que fosse mais adequado, mas eu iria de capacete.

Atravessamos a pequena cidade de Sousa por sua rua principal, e mais a frente entramos em direção ao Vale dos Dinossauros, motivo que me levou a esta cidadela. A entrada é gratuita, e na sede administrativa tem um pequeno Museu. Muitas informações escritas sobre a pré-história, os períodos e a fauna da época. As informações são técnicas demais. Dois ou três quadros continham informações sobre os descobridores, os pesquisadores, os cientistas que tornaram pública e notória a passagem dos seres da megafauna por aquele lugar. Não continham informação também de como ficaram impressas, pelos séculos, suas pegadas.

Me foi oferecido um guia, achei que talvez fosse remunerado, não aceitei. O moto-táxi, Bento, me acompanhou, mas não ajudou com esclarecimentos, até porque ele acha muito esquisita essa história de dinossauros, de bichos pré-históricos, nascidos milhares de anos antes de Cristo.

O Parque abriga muito mais que pré-história, ele mantém a fauna e flora atual preservada. Por ali passa o Rio do Peixe, em cuja bacia está instalado o mesmo. Pude observar um Teiú, tomando sol, na parte seca do leito do rio, na mesma parte que, talvez, aqueles grandes seres da antiguidade também o faziam. É como se uma galinha grande tivesse caminhado por ali. Mas parece que o barro mal secou. Que a qualquer momento vai cair uma chuva e apagar tudinho!

Enquanto o Bento vai me guiando pelo Vale, vamos conversando, e ele me conta que está sozinho, pois já tentou alguns relacionamentos sem sucesso. Tem duas filhas adolescentes, Bruna e Beatriz. Preocupa-se com os estudos delas, mas isso é motivo de briga entre a mãe delas e ele. Já teve problemas com álcool, porém se livrou do vício há mais de três anos.

Quando estávamos saindo do Parque, um grupo de paulistas, com carro de Cotia, iniciou a visita. O avô levou o neto para ver a estátua do dinossauro, mas o pequeno não queria saber de conversa, assustado que estava. O homem estava quase entrando na boca do bicho pra mostrar que era de mentira, falando que era de concreto, mas o menino não quis nem saber. Achei cômica a situação.

Passando pela cidade, fiz uma foto da antiga estação de trem e perguntei de ainda passavam locomotivas por ali. E infelizmente a resposta foi negativa, disse-me que passavam principalmente cargueiros outrora, carregando sal, petróleo e outros, do Rio Grande do Norte. Hoje estas cargas vem todas de caminhão.

Como combinado, ele passou na Pousada do Posto Pai Assis para que eu pegasse minhas coisas e levou-me até a estrada para a próxima carona, agora para cabaceiras.

Árvores no sertão são poucas, baixas e então dividi com um chapa uma sombrinha, ambos aguardando caminhão, ele a procura de serviço, eu de transporte.

Uns 15 minutos depois que cheguei, ele foi chamado na pista oposta, uma caminhão que parou no posto da Rodo Rede. Nem deu tempo de vê-lo embarcar, parou um pequeno caminhão com o motorista e um ajudante. Eles iam pra Pombal, cidade uns 70 km antes de Patos. Já me adiantava.

Foi-me oferecido o lugar central, minha mala foi para a carroceria, pois a cabine estava apertada, entre os dois Franciscos. Eles trabalham para a madeireira Monteiro, distribuidora de tábuas para toda a região. O motorista era mais falante. O ajudante praticamente não abriu a boca. É um serviço de viagens curtas. Retornavam para casa após as entregas da manhã. Iam almoçar em casa, e retomavam às 13h. Vajamos juntos por um pouco mais de uma hora, e as 11h44 o motorista me deixava num ponto de alternativos. O ajudante já descera perto de sua casa.

Pedi uma água de coco pela qual paguei R$ 3,00. Pedi permissão para sentar-me à mesa, peguei a torta de frango que ainda tinha e almocei. Logo após meio dia já estava pedindo carona de novo. Mas achei aquele ponto muito tumultuado. Um pouco mais a frente tinha uma sombra de árvore, o guard rail e menos movimento de gente e carros. Mas depois de meia hora tentando, ninguém me deu trela. Então vou mais adiante. Caminhei por mais de 2 km sob um sol de quase 40 graus do meio dia. Estou aprendendo a observar diversos fatores que facilitam obter a carona. Primeiro era uma descida, os caminhões embalam. A subida começou em curva, ruim para parar, após a curva, mais uns metros tinha um posto de combustível, então é pra lá que eu vou.

Quando finalmente cheguei, fui direto para a sombra e bebi um pouco de água, que não estava muito fresca. Ia entrar no banheiro quando ouvi um motor de caminhão sendo ligado. Um dos motivos que ainda não tinha conseguido nada era, justamente, o horário de almoço. Aquele motorista parece que já tinha terminado sua refeição. Fiquei olhando e sendo observada por um frentista. Queria ir até o motorista, mas não com tudo aquilo... Olhei para o frentista que me liberou com o olhar, ficando claro que cuidaria de meus pertences.

O Rui começava dar a ré no caminhão quando perguntei para onde ele ia.

_ "João Pessoa", foi sua resposta.

_ "Pode me levar até Campina Grande¿"

Ele assentiu e eu corri pegar minhas coisas, sinalizando com dois 'joinhas' para o frentista, na evidência que deu certo minha abordagem. Agradeci e embarquei.

Eu estava bem cansada. O Rui não era também de muita conversa, então não provoquei muito, fiquei mais na contemplação, tirando algumas fotos, vez por outra. Tinha descarregado café em Sousa, e saiu de lá um pouco depois que eu, e já tinha almoçado, adiante de onde eu estava. Talvez passou enquanto eu lanchava.

Mas essa viagem foi excepcional. Costuma carregar biscoito entre a fábrica de Recife e o distribuidor, seu patrão, em João Pessoa. Dali, caminhões menores, distribuem para toda a região. Falei que queria mesmo é ficar em Cabaceiras. Ele não sabia onde era. Olhei no mapa e indiquei após a cidade de Soledade. Ele ligou para um parceiro, distribuidor de biscoitos, e ele confirmou que estava em Cabaceiras, próximo a Boqueirão, açude que mantém o abastecimento hídrico de Campina Grande. Assenti. E ele já sabia onde me deixaria. Passamos por uma placa que dizia;: "Lajedo do Pai Mateus". Eu mostrei e falei que aquela era uma das atrações da cidade que eu queria visitar. Disse-me ele que aquele acesso era de terra. Parou para comprar uma água com gás e trouxe-me um bombom.

Fiquei preocupada, pois estava ficando tarde. Ele rotulou-me como 'mulher de coragem e disposição'. Perguntou se eu viajava também a noite. Disse-lhe que não, pois aí seria me arriscar demais, com o que ele concordou. Já estávamos saindo de Campina Grande quando ele avisou-me que já estávamos chegando ao ponto de descida. Era uma rotatória que, para a direita estão Queimadas, Cabaceiras, Caruaru. Em frente chega-se a João Pessoa.

Percebi um posto a frente, e o trânsito estava muito intenso, de carros e caminhões. Passei em frente ao Parque de Exposições de Campina Grande.

No posto, procurei primeiro o banheiro, depois comprei um suco artificial de uva com açaí, doce pra 'dedéu'. Cheguei ali às 16h55. O sol já ia se pôr.

O Alex parou perto de 17h15. Abri a porta e fui perguntar seu destino quando ele me disse:

_ "Entra rápido", mas seu tom era inofensivo.

Entrei, mas não rápido o suficiente para evitar o disparo de alarme e o travamento do veículo. Ele explicou-me que quando percebeu que eu fui com a mão na maçaneta, não deu tempo dele travar a porta. O certo era conversarmos pela janela, ele pedir permissão para parar e depois abrir a porta. Ficamos ali parados quase 15 minutos enquanto ele pedia a liberação do veículo. Eu muda, para não perceberem que ele deu carona a alguém.

Depois me confidenciou que quando viu tratar-se de uma senhora, achou que a companhia lhe faria bem, pois estava com a cabeça quente com um problema recente. Contou-me que mora em Caruaru. Foi casado por 6 anos, já estava separado há 15, e agora casou-se com uma linda moça de 35 anos, já estão há três anos juntos e têm uma filha com menos de dois anos. Chegou em casa no dia anterior e a esposa disse-lhe que não dava mais a relação. Ele ainda dormiu em casa, mas de manhã, pegou algumas coisas suas, e foi ao posto, pegar o caminhão em que trabalha entregando papel-higiênico, de Uberlândia para o resto do país. Estava vindo do Rio Grande do Norte. Já escurecia e eu não o via direito. Ele não sabia onde era a entrada de Cabaceiras, e fomos procurando as placas. Perguntei se era a única filha e ele confessou-me que, na verdade, tem quatro filhos. Dois homens da primeira mulher, o mais velho com 16 anos. Uma menina de 7 anos, com uma ex-namorada com quem viveu um ano. E sua princesinha, da atual esposa. Que ficou dois meses fora de casa, trabalhando feito um cavalo e foi recebido deste jeito. Que era homem bom, não fazendo nada errado. Mas precisava ganhar dinheiro para prover as necessidades de seus filhos e sua família.

Este, ao contrário do Rui, falava mais que a boca. Deu para perceber que a esposa não queria a separação, pelo contrário, queria-o mais por perto. Eu me coloquei no lugar dela e tentei convencê-lo dentro de suas crenças, que ele devia ao menos conversar com ele. Ele estava irredutível. Orava em voz alta, pedindo a Deus para ajuda-lo, mas mantinha uma ideia fixa, de homem marrento, em sua cabeça.

Quando já atravessávamos a divisa com Pernambuco sem achar a entrada para Cabaceiras, eu já desistira, pois sabia que, daquela estrada ainda tinha um percurso para dentro, e já era noite avançada.

Cheguei a conclusão de que CABACEIRAS não me quer. Vejam, tentei ir até lá no sábado para a 'Festa do Bode Rei', não tinha mais ônibus. Antes disso, tentei fazer reserva pelo Portal de Férias, recebi um e-mail da pousada por mim escolhida informando preços, solicitei a reserva para dois dias, ela respondeu-me que, para isso necessitava de pagamento de parte do valor. Solicitei os dados da conta e, não obtive resposta. Por último, perdemos a entrada. É, pois um policial a quem pedi informação na fronteira, enquanto o Alex ia carimbar a Nota Fiscal, disse-me que a entrada ficara mais de 20 km para trás, mas depois ainda tinha uns 50 km para dentro. Ou seja, na altura mesmo de onde eu vi a placa sobre o Lajedo. Sugeriu-me ainda que fosse para Caruaru, já que meu destino seguinte era Arcoverde. Disse que no caminho não encontraria muitas opções de Pousadas.

O Alex sugeriu que eu ficasse no Posto onde eles tem apoio para o caminhão, já em São Caetano, logo após Caruaru, ou podia me deixar na Rodoviária, pois atrás desta, tinham algumas pousadas. Eu preferi a segunda opção, mesmo porque no posto não tinha hotel. Ele perguntou se eu dormia em rede, ao que neguei, pois sinto-me enjoada. Ele então disse que eu podia dormir no caminhão enquanto ele dormiria na rede. Em dado momento ele apontou para um lugar e falou:

_ "Rodoviária."

Eu olhei e não vi nada. Ele não parou, então achei que entendi errado.

Ele andou, andou, andou. E parou, no Posto, em São Caetano. Quando ele mostrou que estávamos chegando, reparei num Motel próximo. Descemos e eu lhe disse que ia comer, depois ia ver o preço do quarto no Motel.

Eu fui para o restaurante e ele pra lanchonete. Falou que os preços dali eram mais baixos. Expliquei que estava praticamente só com o café da manhã e fui jantar. O preço por cabeça era de O preço por cabeça era de R$ 16,00. E era servido um prato de carne de churrasco com linguiça, frango e carne de boi, à sua escolha. Pedi só linguiça. Peguei um pouco de macarrão, já estava ressecado em parte, parecendo pau. A única coisa razoável foi a linguiça. E o suco de maracujá estava excelente. Pedimos uma jarra para dividir, pelo preço de R$ 8,00. Cada um deveria pagar R$ 20,00 mas ele tinha um vale e colocou um tanto de dinheiro pois comprou um maço de cigarros, e eu desembolsei só R$ 18,50.

Decidiu me acompanhar até a porta do Motel, pois o caminho era escuro, para me dar mais segurança. Observei a presença de prostitutas no Posto.

Andando até a recepção do Motel Intimus, o Alex ficou para trás, atendendo a um telefonema. A moça, que depois descobri tratar-se de um travesti, me informou que o pernoite sem café da manhã, pois eles não serviam mesmo, era de R$ 45,00. Perguntei de o banho era quente. Ela disse que sim. Fiquei feliz. Era o que eu precisava.

Despedi-me do Alex, agradeci e rezei por ele, para que fosse iluminado. Mas esqueci de fotografá-lo. O quarto bem simples, o chuveiro elétrico, mas quando abro a torneira, água fria. Já estou nua, é tarde, não dá pra chamar ninguém agora para resolver o problema. Vou de água fria mesmo. Fazer o que?

Impressionante como uma coisa tão simples pode parecer tão importante em dados momentos. Com este, são cinco dias de banho frio. Não me sinto acalentada. O banho quente, para mim, funciona como um calmante. 

Por questão de segurança, resolvi travar a porta com a cadeira e a mochila. Se alguém tentasse entrar, ia fazer pelo menos barulho. Achei melhor assim, melhor prevenir do que remediar.

Já passava de 23h, eu queria muito escrever para não perder nenhuma memória, mas estou muito cansada. Desmaiei. Por volta de 3 horas da manhã acordo com o corpo todo picado por mosquitos. Coloco o repelente elétrico que trago comigo, vou ao banheiro e volto a dormir, até às 7h30.

Deus me mostrou com clareza que, posso fazer planos, mas ele cuida de mim, e nem sempre o que planejo é o melhor para mim.