es-UNIÃO DOS PALMARES - MAIS UM POUCO DE HISTÓRIA

16.11.2018

Até breve Bonito. Até logo Zona da Mata pernambucana. Tchau Pernambuco. Hoje irei para União dos Palmares em Alagoas. Como dormi tarde, e a distância a ser percorrida é de pouco mais que 100 km, não me preocupei em levantar cedo. Minhas coisas já estão arrumadas e precisei ir ao Banco antes de viajar. Aproveitei para comprar água, um Nescau e amendoim para a viagem. Ates de sair, fotofrafei com a Josneide e a dona Maria, simpáticas funcionárias da Pousada Casagrande.

O puxador da mochila, rodando, quebrou-se na posição mais longa. Agora preciso puxar na posição mais curta e com cuidado. Se eu tivesse uns 10 cm a menos, não seria problema. Fui até o Trevo de entrada na cidade, onde fica a Rodoviária. Amanheceu chovendo, o que me fez entender os planos que o Senhor fez para mim. Eu deveria ter chegado a Bonito dia 14, então dia 15, hoje, iria fazer as cachoeiras... Com chuva. Não ia rolar.

Na rodoviária de Bonito, um garoto de uns 16 anos, pediu R$ 5,00 para comida. Disse-lhe que não tinha, reduziu para R$ 2,00. Ofereci um pedaço de pizza que estava em minha mala. Ele fez careta. Eu disse que ele não estava com fome então, e o ignorei. Ele foi embora.

A dica de viagem foi pegar o ônibus até Agrestina, onde a estrada estadual se encontra com as BR-104. Gastei R$ 4,00 para fazer este percurso. Choveu ao longo do caminho. Sentei-me do lado esquerdo, no ônibus, o mesmo lado da ida, de modo que consegui fotografar vários lagos da região de Alto Bonito. O gado está gordo, muitas áreas plantadas, um cinturão verde que certamente atende boa parte do nordeste em produtos agrícolas e pecuários.

De Agrestina não saem ônibus para União dos Palmares. Perguntei porque estava com receio de ficar na estrada tomando chuva. Mas o tempo estava nublado, porém havia estiado. Então tomei o rumo do Trevo entre as duas estradas, para ficar na BR. Andei uns 20 minutos, passei por uma exposição a céu aberto, em que o artista utiliza-se de lixo reciclável para compor a sua obra.

E, assim que passou o primeiro caminhão, já obtive carona.

O Rinaldo vinha de Caruaru, rumo a Maceió, trazendo cenouras do CEASA da primeira. Que sorte. Ou não. Que benção. São só 85 km entre os dois pontos, com pouco trânsito, e a estrada boa. Conversamos sobre nossas perdas e sobre relacionamentos. Ele quis saber como faleceu meu esposo, se tinha alguma doença, falou que adora massas, troca arroz e feijão por macarrão. Mas penso que não é diabético. Perdeu sua mãe quando ela tinha 53 anos, vítima de um AVC, também fulminante. E o pai, com 73, com um câncer de fígado. Mas entendemos que apesar da tristeza, a vida segue seu curso, e essa é a ordem natural das coisas.

Ele tem 2 filhas e 5 netos, a mais nova com apenas 3 meses. O único neto chama-se Felipe. Eu disse-lhe que meu nome é com 'y', afinal sou filha de nordestino. Ele contou-me que ninguém o conhece pelo nome, só pelo apelido: 'salsicha', e que sua atual esposa, de nome Ângela, é conhecida por 'Titinha'. Sua neta, de nome Isabelly, acha um exagero, mas disse-lhe que é bom para evitar homônimos.

Esteve casado por 25 anos, mas sua esposa descobriu um relacionamento que estava tendo com uma sua amiga e, deu um basta. Ele não desejava isso, para ele, família é tudo. No entanto, confessa que há muito tempo não se via tão feliz. Sua filhas se dão muito bem com a nova mulher, e os filhos dela, ainda jovens, têm muito respeito por ele, e o tratam como a um pai. Só com a ex-esposa ainda existe ressentimento. Mas ele reconhece que 'pisou na bola' muitas vezes, e deu motivo para o desenlace. Disse que já não tinham um relacionamento com intimidade, e viviam para filhas e netos. Sente-se feliz, mas cometeu o deslize, no dia do namorado, após beber um pouco mais, de chamar pelo nome da ex a atual. Ele justifica que foi mais por força do hábito, mas a mulher ficou magoada. E estava de mal dele. Mas que ia comprar umas tapiocas na praia, já que ela gosta muito, e passar em casa para fazer um agrado. Amanhã já deve ir, descarregado, para Bento Gonçalves, buscar maçãs.

Me deixou na segunda entrada para União dos Palmares, e mal desci do caminhão, onde alguns chapas balançavam aos mãos contentes pensando que ele precisava de assistente, e já surgiu um moto-táxi que me trouxe até o Hotel Santa Maria Madalena por R$ 3,00.

Este não é o hotel que reservei a princípio, mas o Varanda´s não pode alterar as datas de reserva, antecipando em um dia a hospedagem, assim, fiz esta reserva em cima da hora. E gostei, do apartamento e da localização.

Comi o pedaço de pizza que sobrou com o Nescau e, apesar de estar com a preguiça do dia cinzento, fui para a rua especular. A cidade transpira certa pobreza, e falta de cuidado, infelizmente. Passa no meio da região central, a linha de trem abandonada. Hoje teve feira livre, na rua, e estavam recolhendo as barracas por volta de 17h, quando passei. O lixo já estava sendo varrido, mas os cheiros que ficam, não fazem bem ao olfato ou ao estômago. Uma pequena amostra de artesanato aqui, um ensaio de quadrilha na praça da igreja, nada que realmente chame a atenção. Achei um mercado para comprar o jantar, sardinha, não tinha nenhum tipo de pão. Achei, como também rocambole de goiabada, na padaria da outra esquina. Tive com estes itens mais um gasto de R$ 22,80. Já retornei ao hotel, passam das 18 horas e espero estar disposta para visitar o Quilombo e outras cenas históricas do lugar.

Agora a pouco bateram à porta. Perguntei quem era, a voz informou que era da recepção, não abri. Não pedi nada. Ele perguntou-me se consegui ligar a TV, mas as vozes da TV, penso que seriam audíveis do corredor. Ele assentiu e se foi. Sei lá. Ousar sem vacilar. Melhor assim.

O Hotel Santa Maria Madalena leva o nome da padroeira da cidade. Tem uma excelente relação custo\ benefício. As instalações são novas, tem ar-condicionado, TV, eles fornecem shampoo e sabonete, além de toalhas, e o café da manhã é bem completo também, com frutas, pães, frios, cuscuz (tradicional na região), assim como a macaxeira, bolos, curau, suco, café e leite. Não deve nada a hotéis 3 e 4 estrelas. Paguei R$ 65,00 a diária. Como o restaurante é no quarto andar, tem-se uma vista panorâmica da cidade.

Os pontos de interesse, com exceção ao Parque Memorial do Quilombo, são todos próximos ao hotel. Fui primeiro até a Casa do Poeta Jorge de Lima. É um edifício antigo, precisando de restauração, com alguns pôsteres que passam informações sobre a vida do artista, bem como sua linha cronológica. Fico admirada com minha ignorância literária. Ele é o responsável pelo poema: "Essa Negra Fulô", que foi transformado em espetáculo teatral. Era também pintor e escultor, além de médico, mas viveu a maior parte de sua vida entre Maceió e Rio de janeiro.

Uma coisa tem me incomodado em minhas visitas a estes espaços públicos. Novamente achei um erro de grafia, num museu de um literato. Certamente, quem prepara o material é leigo, mas antes de torna-lo público, que o confere. Não fica de graça para os cofres públicos a confecção dos cartazes. É inadmissível aceitar e ignorar o erro. Nestes pequenos detalhes vamos percebendo a construção de nosso país. Mais do que o 'jeitinho brasileiro', é a permissividade, o deixa pra lá, não é comigo mesmo. Muda Brasil.

Ali, na mesma rua, a Casa de Maria Mariá, não a da música, mas talvez a maior personalidade filha desta terra. Todo lugar oferece um filho ilustre, ao menos, na construção da história do país, e a estes rende suas homenagens. Antes de visitar a casa, avistei uma Escola, que por sinal foi onde Maria Mariá estudou suas primeira letras, e um asno, no pátio da escola, sendo alimentado por seu dono, me chamou a atenção. 

Segundo o João Paulo, jornalista formado pela Universidade Federal de Maceió, e guia da Casa de Maria Mariá, um mulher vanguardista que nasceu em 1917, filha de um tabelião da cidade, estudou na escola primária, que registrei em foto, depois seguiu seus estudos, formando-se no magistério e voltando para dar aulas na mesma escola que iniciou sua formação. Aboliu o uso da palmatória em 1940, por considerar inadequada à educação, escandalizando os catedráticos da época, e também a sociedade, com seus hábitos e costumes, como usar calças compridas e fumar. Chegou ser exilada da cidade por uma foto de maiô que tirou. Porém, seua alunos se uniram em protesto, fazendo com que retornasse com um cargo de maior importância para a melhora da educação. Não se casou, talvez porque sua primeira e única paixão foi o estudo. Era autodidata em algumas áreas. Aprendeu alemão e francês nos livros que lia, no original. No entanto, tal expoente modificou as estruturas educacionais em sua época, mas a semente plantada não vingou. União dos Palmares teve a oportunidade de ter se destacado no cenário nacional, dando sequência a tal brilhantismo, mas tudo se perdeu com a morte da filha ilustre. E até sua memória foi mal conservada, perdendo-se muitos manuscritos, e, em sua casa, restam poucos objetos que a ela pertenceram e que a família não fez caso. E o descaso das autoridades públicas que não possibilitam a manutenção do espaço de forma adequada. Só resta o amor e esforço de alguns poucos, que enxergam a importância da história na construção da base da sociedade que hoje formamos, e que lutam com as memórias e a falta de recursos, para prestar contas e oferecer ao visitante, um pouco daquele passado glorioso, de lutas e conquistas.

O espaço, apresenta ainda algumas exposições temporárias. No momento, está a mostra, o artesanato de Dona Marinalva Nunes, artesã da Comunidade Quilombola de Muquém. Ela confecciona peças de utilidade culinária que aprendeu fazer, ainda menina, com seus ancestrais. A peça mais famosa é a cuscuzeira de barro, por ter sido utilizada por um chef de cozinha, num programas de TV da Ana Maria Braga,

A artesã Irineia Rosa, responsável pela confecção de cabeças de cerâmica muito características e originais, é considerada patrimônio vivo do Estado de Alagoas e tem seu trabalho reconhecido mundialmente, já teve sua mostra realizada na Casa.

Mas o que mais me encantou, por seu brilho e reflexos, foi o trabalho do finado 'Caboclinho do Norte' para o folguedo 'Guerreiro', manifestação folclórica tipicamente alagoana. O material foi resgatado de uma escola pública, restaurado e colocado a mostra na Casa de Maria Mariá, no entanto, encontra-se agora amontoado, esperando o reconhecimento e seu devido espaço.

Estava saindo da Casa, após elogiar o trabalho do João Paulo, que foi, inclusive, o autor das fotos da exposição de Marinalva, que está em curso, quando me foi apresentado um senhor que se diz adivinho. Foi apresentado como bruxo do lugar, tudo com muita farra, de brincadeira entre amigos. Cumprimentou-me, afastou-se, mas antes que eu saísse, voltou-se e me disse:

_ "Quando você voltar para São Paulo, uma coisa com que sonha há muito tempo vai acontecer. E, venha mais vezes, e acompanhada da próxima vez."

Se ele estiver certo, farei questão de voltar. E, acompanhada.

Passei na igreja, que estava aberta, é bem moderna e simples. Gosto deste estilo mais despojado. Mas o João Paulo contou-me que ali estava antes a igreja original de 1835. Ela foi demolida na época em que aqui estiveram padres de origem canadense, que consideraram que sua construção corria risco de desmoronamento. No lugar construíram uma igreja feia e inadequada ao clima do lugar. E a atual é bem recente, já de nosso século.

Voltando, passei no mercado maior, pensando que iria maior variedade de produtos. Enganei-me, encontrei só maior quantidade. Mas comprei a coalhada, que tanto gosto, e por aí quase não encontro. E umas bolachas recheadas de goiabada que o Roberto ia amar. Apesar de ele gostar mesmo é de Romeu e Julieta. Eu que prefiro a combinação doce com doce. Vem num pacotão, mas são embrulhadas uma a uma, e sai só por R$ 0,35 cada.

Fui para o Hotel Santa Maria Madalena, pois ao meio dia se encerra minha estadia, tenho que desocupar o quarto e trocar de hotel. Mas antes quero ver a abertura da Copa do Mundo.

O Hotel Varandas fica há uns 200m do Maria Madalena. Já falei que a haste de arrastar minha mochila quebrou? Fiz um improviso com uma malha que trouxe, para na posição curta, que está funcionando, não doer minhas costas. No segundo hotel, o restaurante oferece almoço. Selfie service por R$ 12,00, com um copo de suco. Mas a moça me cobrou só R$ 10,00 pois viu que eu como pouco, perto dos moços da Eletrobrás que estão hospedados no mesmo hotel.

Negociei com o proprietário a diminuição da estadia, reservada pelo booking.com em um dia. A reserva era para 14 a 16, mas com a confusão que fiz em Caruaru, estou antecipada em um dia na minha programação. Ele aceitou, fez a alteração no site, e eu paguei R$ 65,00 por esta diária. Terei um dia a mais com minha prima em Maceió. Ela já está avisada.

Depois do almoço, já com ideia de preço, procurei um moto-taxista para me levar à Serra da Barriga, patrimônio histórico tombado pelo Iphan, e que abriga, atualmente, o Parque Memorial do Quilombo dos Palmares, reconstituindo um pouco da história, mas, infelizmente, sem a preservação de nenhuma estrutura daquela sociedade. 

O Jackson seguiu comigo, conduzindo-me até lá, e me guiando pelo Parque. Disse-me que o preço normal é de R$ 25,00 só ida. Negociei com ele, com volta e uma permanência de uma hora, aproximadamente, e paguei R$ 30 mais todo o trocado que eu tinha comigo, que era mais ou menos uns quatro reais.

 Lá dentro, o Sr. Elcias veio até nós e falou um pouco de seu trabalho a frente do Memorial, de uma página no Facebook, denominada:  Vamos subir a Serra, onde divulga os eventos que vem sendo realizados no parque.

https://www.facebook.com/search/top/?q=vamos%20subir%20a%20serra

Contou-nos também que, no dia da morte do líder quilombola, Zumbi, tornado dia da consciência negra, 20 de novembro, o Parque recebe uma verdadeira multidão de visitantes, com várias manifestações da cultura acontecendo naquele cenário. Mostrou-me que, mesmo com a pequena divulgação do lugar, neste ano eles já receberam mais de 1200 pessoas, que registraram a visita no livro, mais aqueles que não o fizeram, não podendo ser computados. Considero ainda uma iniciativa incipiente. A estrada que sobe a Serra da Barriga está em processo de asfaltamento, com opiniões contraditórias, como sempre, sobre os benefícios ou malefícios que isso pode causar.

O Jackson, que é Palmarino, conhece o lugar desde criança, passou comigo pelas ocas e mirantes, foi até a lagoa, onde está uma Gamaleira Branca, de tronco oco, e que pela profundidade de suas raízes, responsáveis por buscar água nas profundezas do terreno e trazê-las a tona, forma a Lagoa. Era considerada a essência da criação na lagoa encantada, que representa a purificação da vida.

Após a visita à Lagoa Encantada, vimos um pequeno pé de Baobá, em cujas raízes foram depositadas as cinzas de Abdias Nascimento, PAN Africanista. Personagem de maior importância no movimento negro brasileiro, que faleceu em 23 de maio de 2011, aos 97 anos.

Dos mirantes, lá do alto da Serra da Barriga, é possível observar toda a exuberância das redondezas, e inclusive ver o Rio Mundaú, cuja cidade vizinha, do mesmo nome, é responsável por uma das maiores produções de laranja do Estado de Alagoas.

Aprendi nesta jornada, com meus dois interlocutores, que Catolé é uma espécie de Palmeira.

Que o lugar é chamado de Palmares justamente pela presença constante das palmeiras na vegetação de mata Atlântica do local.

Que jaca não cai da árvore, não oferecendo risco para quem por baixo dela passa. Quando madura, ela vai secando até que suas sementes se espalhem.

O Jackson me contou ainda que, dentro de um mês, mais ou menos, deve seguir para São Paulo, acompanhado por sua esposa, para morar no bairro Paraisópolis, junto a uns parentes. Ofereci alguns contras, comparados a sua existência aqui. A brutalidade da cidade através do coração endurecido de seus habitantes. A cidade que vive e respira 24 horas por dia, a maior da América Latina e uma das maiores do mundo, oferece muitas coisas boas, mas eu, que estou no interior do Estado há quase vinte anos, não tolero mais as coisas ruins. Talvez até tolerasse, por um ótimo motivo. Manifestei minha torcida para o êxito de sua empreitada.

Chegamos pouco após às 15h30. Voltei para o hotel com vontade de esticar o esqueleto na cama. Andar de moto por estas estradas esburacadas maltratam minhas costas.

O jantar também tem a opção de sopa, de legumes, carne e espaguete, por R$ 7,00, acompanhado de pão e suco, de limão.

O apartamento não é tão bom quanto o do outro hotel, a construção é mais antiga. Mas está bem satisfatório.

Amanhã, pela manhã, irei `Comunidade de Muquém', conhecer o trabalho das artesãs, descendentes dos quilombolas, e depois, capital. Maceió, lá vou eu de novo.