es-UM DIA DE CHUVA EM MARAGOGI (AL)

29.11.2018

A hora prevista para a passagem do micro-ônibus para Porto de Pedras seria 11h. Cheguei na rua às 11h02, fiquei na sombra de uma varanda, conversando com a dona da casa. Ela não viu passar a condução. De qualquer forma, levanto o meu dedão da mão direita e vou sinalizando para todos os veículos que passam. Ali são raros os caminhões. Antes das 11h30 já estou a bordo de um carro todo decorado para o jogo do Brasil, o forro tocando alto no rádio, e um senhor, de mais de 70 anos, morador de Porto da Rua me dá uma carona até lá, sem conversa porque o volume do rádio não permite.

Deixou-me junto ao ponto de moto-táxis. Vou logo pegar um pois o tempo está escoando rápido, o jogo do Brasil será às 15 horas e daqui a pouco, não terá viva alma disponível na rua.

O preço é de R$ 10,00. Um pouco mais que pagaria no ônibus. E num instante estávamos no Porto. O motoqueiro explicou-me que do outro lado do Rio Manguaba teria que pegar outra moto até Japaratinga, e lá tentar a carona ou lotação. E iria gastar mais R$ 10,00. Na balsa, pedestre não paga nada. É uma balsa pequena, e assim que chega algum carro, ela já faz a travessia, também curta.

Mal entrei na embarcação e uma moça me abordou vendendo cocada assada. Acondicionada em embalagem de isopor, parecia uma delícia. A Witna me contou que ela mesma prepara a iguaria, com coco fresco, que derrete o açúcar mascavo na água de coco antes de colocar na mistura. Ela é estudante de nutrição e o dinheiro das vendas é para ajuda-la nos gastos com a formatura. Comprei por R$ 5,00, já estava com fome. As piscinas naturais comeram todo meu café da manhã.

Já ia descendo da balsa quando lembrei-me de perguntar aos dois motoristas, que também faziam a travessia, para onde iam. Para minha sorte, o Sr. José Antonio ia para Maragogi. Ele saiu da balsa, e quando fui me aproximando do carro, estilo Marajó, da Chevrolet, um garoto também o fez. E vi que o banco de trás estava abaixado, com um maquinário dentro. Mesmo assim, o Felipe sentou-se num espaço que achou e eu fui na frente, com minha mochila no colo, a outra bolsa no chão, e a cocada assada aberta, para meu deleite, pois já ia consumi-la. Ofereci a ambos, o seu José não pode pois é diabético, o Felipe não gosta.

O calçamento da estrada, até Japaratinga é em paralelepípedo, e o carro tremia todo. O motorista confessou-me que não iria mais por ali, demorava e tremia demais. Perguntei qual a relação entre os dois, e tive que esclarecer:

_ "O que o senhor é dele¿"

_ "Ah! Ele é meu neto e meu filho. Eu que crio, porque o casamento da mãe dele não deu certo. Agora ela está com outro, mas ele me chama de pai, e a avó, de mãe. Como está de férias, chamei-o para vir comigo. Quando chegar lá a gente faz a entrega, toma um lanche na praça e volta."

_ "Que idade você tem Felipe¿"

_ "Treze", responde ele.

Logo estará um homem feito. Seu José diz que mora em São Miguel dos Milagres já tem uns 10 anos. É pernambucano e trabalhava para uma Usina em Alagoas, como carreteiro. Aposentou, mas só ganha 1 1\2 salário mínimo, o que não lhe permite parar de trabalhar. Quando veio para São Miguel, comprou seu terreno por 1.200, hoje estão vendendo por 50.000 e ele não vende a casa que construiu nem por 800 mil.

Já chegando à Japaratinga, comecei a avistar o mar, lindo, verde, limpo. Enquanto eu fotografava, prestava atenção em sua conversa que dizia fazer uso de insulina, 500 ml por dia, um dedo de comprido, mostrou, quando perguntei a quantidade. Meu marido usava mais de 100 unidades diárias, mas não sei em mililitros quanto dá. Mas do resto ele está bem, faz exames constantemente e não tem outros problemas além do coração. Maldita doença. Desculpem-me o desabafo.

Ainda em Japaratinga, começou uma chuva forte, pensei que ia complicar meu passeio a Maragogi, e já orei para não permanecer até meu destino. Chuva é bom, mas prefiro não me molhar.

Dito e feito, em Maragogi ainda não chovera. Coloquei o Google Maps com o endereço do Maragogi Hostel e vi que já tinha que descer uns metros mais a frente. Como o seu José tinha pedido uma ajuda para o combustível quando concordou com a carona, tinha lhe dito que daria o que ia gastar com a moto, mas ouvindo a história dele, dei R$ 20,00 com muito gosto. Ele fez cara de surpreso, mas eu disse que estava tudo bem, para Deus os abençoar e acompanhar.

Teria que caminhar 1,5 km na direção do mar. Quando cheguei a uma praça, o mapa me dava opção de seguir para a direita e esquerda. Fui para a esquerda, andei uns 600 metros, e cheguei a lugar algum. Só pude ver onde ficam as lotações, talvez sejam úteis na hora de seguir viagem. Retornei e agora solicitei ajuda. Beleza! Estou no caminho certo. Uma subida pela frente. A mochila sem alça não está fácil de arrastar, decido ligar confirmando o local, estava há uma casa de distância. O Hostel Maragogi tem um beco com uma escadaria que dá acesso ao portão. Lá de cima temos uma bela visão do mar. A Rosana desceu e fez a gentileza de levar minha mochila para cima.

Meu dormitório é para quatro mulheres e minhas companheiras deverão chegar mais tarde. O quarto tem 6 m2, como constava no aplicativo. Estou pagando R$ 25,00 a diária, com banho quente e café da manhã. Apesar de estreito, o quarto é bem planejado, tem ótima ventilação e claridade, uma tomada para cada cama, um ventilador de cada lado, e o banheiro, que é externo, está bem ao lado dele. 

Ajeitei-me e resolvi descer para a Orla para tomar um lanche e assistir o jogo. A Rosana Sugeriu o Milk Shake. Eu aceitei a sugestão pois eles tinham um telão para assistir o jogo, mas logo aos 22 minutos do primeiro tempo, com meu lanche e suco de R$ 25,00, já consumido, deu problema no equipamento e eles não conseguiram consertar. Voltei para a Pousada a tempo de assistir ao primeiro gol do Brasil, e ali terminei de ver o jogo com os demais hóspedes.

Meu remédio para reposição hormonal acabou já tem uns dias, e eu não comprei outro ainda. Já estou sentindo os efeitos de sua falta. Começa a subir o calor...

Entrei na fila para o banho e lá pelas 20 horas fui até o Ponto de Encontro, onde tocava música alta e divertida. Estava com sede e pedi meio litro de água de coco e uma porção de bolinhos de camarão, onde gastei mais R$ 29,00. Uma mocinha veio até minha mesa para convidar-me a juntar-me aos seus amigos já que sou tão animada e estava só. Não aceitei.

Quando saia, sacolejando ao som do forró, eles despediram-se de mim e a ouvi dizendo:

_ "Que bonitinha." Como falamos para crianças e idosos. Ri sozinha. Não sou mais criança.

Fui dormir quase 1 hora escrevendo. Um pouco depois das 6 horas já começava o movimento das pessoas. As moças que ficariam no quarto feminino chegaram quando eu voltava da lanchonete, à noite. Acharam o quarto apertado e resolveram passar para um outro, mais caro. Então, meu quarto ficou privativo. Pernilongos daqui não ligam para repelente elétrico, assim, tive que passar o repelente em spray.

No café da manhã conversei com uns hóspedes que residem em São Paulo, disse-lhes que eu moro no interior. Sabem onde eles moram¿ Em Salto, num condomínio na estrada que vai para Piracicaba. Eita mundão pequeno. Já estava, indo embora. Um outro casal, com filha, são portugueses, ainda permanecerão mais uns dias em Maragogi.

A Rosana indicou-me as agências da orla para ter mais tranquilidade e segurança. No primeiro que vi já vieram me oferecendo os passeios. Eu quero ir para as Galés e sei que o sistema é de rodízio. Ele confirmou que este seria seu destino e o preço de R$ 75,00 no cartão de crédito.

Pediram que eu aguardasse ali no restaurante. A hora prevista para a saída, em função do horário das marés, é às 9 horas. Comecei a conversar com a garçonete Gil sob uma cobertura de palha, e a chuva começou, forte. Todos correram para dentro do restaurante, mas não estava nos molhando e a conversa estava boa. Ela tem um filho paulista, que já tem 22 anos. Morou em Franco da Rocha, e veio separada do marido, de volta para sua terra, quando o garoto tinha 9 anos. Agora ela casou-se novamente, tem uma filha de 1 ano e oito meses. Ela está com 42. Mas aparenta ser mais jovem. Ela mora em Barra Grande, a cidade vizinha, e trás sua filha todos os dias pela manhã para deixar com a cuidadora, às 8h da manhã. Pega-a quando sai, às 17 horas, e diz que a filha fala:

_ "Mamãe, tô tão cansadinha."

Diz que o filho, inicialmente, teve ciúmes da irmã, mas agora ela é o xodó da casa.

A chuva passou e às 9h32 saímos para o catamarã. Eu ajudava um garoto a subir quando uma onda forte molhou-nos completamente. Ainda bem que a lona sintética de minha bolsa protegeu os meus pertences.

Uma garoa fez com que os passageiros preferissem ficar, todos, na área coberta da embarcação. Um dos marinheiros passou as instruções, apresentou o comandante e os marujos. Foram 25 minutos de navegação mar adentro.

Com a maré a 0.3, na hora de descer do barco, não dava pé. Uma equipe de mergulhadores aguardava àqueles que iriam experimentar a possibilidade de mergulho por R$ 120,00 cada.

Acreditem se quiser, mas desci do barco sem colete e fui nadando cachorrinho com a nova capa de proteção aquática para o meu celular, até que consegui colocar meus pés no chão. Muita gente, muito agito, muita água. Mal dava para ver os corais pois a água fica um pouco turva com a mistura da areia pelos pés. Os peixinhos são doutrinados, e seguem os fotógrafos. Já não se pode mais alimentá-los, não pode levar comida e bebida para consumo, com exceção de água, não pode pisar nos corais e nem por a mão. Tudo por causa dos excessos cometidos por gente que não tem um pingo de consciência.

As fotos lá seriam sem compromisso. Agora eu já sou uma expert em fotos subaquáticas. Hahaha. Vamos a um novo ensaio. Mas agora segurando só no fotógrafo. Consegui dar uns sorrisos com água salgada. Tudo muito rápido porque tem mais gente na fila.

 Um caminhar para lá e para cá, já estou satisfeita de novo. Só que agora tenho que esperar o horário combinado de meio dia. Mas volto para o barco. A maré já está mais cheia e meu cachorrinho vai cansando-se. Muita gente do barco não sabia nadar, então um dos marujos leva vários coletes salva-vidas para facilitar o retorno.

O sol agora iluminou tudo com força, vários tons de verde e azul surgem na água, um verde esmeralda lindíssimo. Todos os barcos começam a buzinar chamando seus passageiros.

Fotografo em volta, pois as nuvens formaram um círculo no céu, e o buraco está sobre nós, possibilitando essa linda visão e o retorno quente e tranquilo. No entanto observei o lixo da comida que não poderia ser levada, voando ao sabor do vento, dentro do catamarã. Peguei uma embalagem de bolachas e guardei em minha mochila, para o descarte futuro, mas fico inconformada.

Teria que pagar as fotos com dinheiro e fui sacar no BB. Cobraram-me R$ 20,00 por 9 fotos. Enquanto eu esperava ele baixar no meu celular, o Everton Santos, o artista dos ladrilhos, garoto talentoso, resolveu demonstrar sua arte, sem compromisso, pois eu já tinha dito que só faria fotos. Fiz um vídeo, é lindo o que ele faz com facilidade, usando tinta, azulejo e os dedos. Fez um por de sol pois foi o que eu disse que mais gostava. Lógico que fiquei com a pintura, que ele assina. Pediu-me 20 ou 15. Ofereci R$ 10,00 perguntando se ele não ficaria triste. E o moço da Corais Maragogi que ouvia disse:

_ "E tem com o ele ficar triste tendo um lugar deste como moradia¿"

Não. Não tem.

De posse do 'quadro' e das fotos, subi para tomar banho. E a chuva caiu mesmo, com muita intensidade, não dava nem para pensar em almoçar. Então, dormi.

Acordei com fome e disposição de comer bem. Voltei ao Restaurante Corais de Maragogi, pois ainda chuviscava, procurei a Gil, sentei em frente a TV. Passava o jogo da Inglaterra com a Bélgica, o garçom pegou meu pedido, informando que os pratos para duas pessoas tinha custo de metade mais R$ 5,00 quando confeccionado para um só. Pedi camarão a milanesa com arroz a grega e batata sauté. Um copo de suco de caju. Gastei R$ 68,00 e comi tudo. 

Sai ao final do primeiro tempo, mas ainda procurei a sobremesa. Na galeria de artesanato, um bolo de ameixa recheado estava uma delícia, por R$ 5,00.

Ainda iria descer mais tarde pegar água, um bolinho de rolo e sequilhos, na padaria, para a viagem de amanhã.

Será que só eu percebo as coisas como são, ou só eu as vejo assim  e elas não são?