es-Último dia em Colônia del Sacramento e no Uruguay

26.03.2018

Como achas que me decidi?

Uma ponta de tristeza surgiu em meu coração, então, como é de meu feitio não me deixar abater, vamos mudar o rumo da prosa... Então, me agasalhei, coloquei o lenço preto e vermelho que ganhei de minha tia, passei um batom, coloquei brincos, e... Tranquei-me por dentro, não consigo abrir a porta. Abro a janela de vidro de correr, ninguém do lado de fora. Volto na porta, nova tentativa, nada. Acotovelo-me na janela e fico esperando uma boa alma. O brasileiro, vizinho de quarto, aparece. Pode chamar a moca, fiquei presa. Ele resolve tentar ele mesmo e me salva a noite. E lá fui eu, a procura de uma taça de vinho Tannat, e quem sabe uma companhia.

Achei melhor seguir pela General Flores, mais movimentada, primeiro em direção ao bairro, depois de volta ao centro. O movimento era pequeno. Ao final da avenida,achei um lugar acolhedor, com vista para o Rio del Plata. Acomodei-me em uma cadeira do lado de fora. Esclareci que um 'vaso' é um copo, e 'una copa' é uma taça? Então, dê-me 'una copa' de Tannat. E quero uns queijos para acompanhar. Ah! Uma porção de queijo de colônia mesmo, com azeite. Um pouco caro, mas eu esperava o que?

Espero, espero, espero, só tinha pedido o vinho ate então. Surge um rapaz, o garçom, e me pergunta se já fui atendida. Respondo que sim, mas não sei direito se fui. Ele começa a brincar com um cachorro bonito que passa na rua. Acho que esta querendo se mostrar. Um tempo depois, a garçonete volta, desculpa-se pela demora e anota meu pedido completo. Logo depois sou servida. Estranhei a maneira de servir o queijo, não em pedaços, mas em fatias. Comi com garfo e faca. Sensacional! O azeite ainda melhor, mas era só um fio. 

Fui degustando meu vinho, comendo o queijinho (ou queijão) junto, pensando e olhando o lugar. Até um tanto monótono. Mas sendo observada.

Quando terminei, não sabia se o dinheiro que tinha seria suficiente para pagar, então pedi 'tarjeta'. Como o valor foi de URL 485, vi que era suficiente. Quando apresentei o 'efectivo', descobri que teria desconto. Seriam URL 445. Mas não tinham troco em pesos uruguaios suficientes. Disse-lhe que me serviam pesos argentinos. E a moça ficou num vai e vem que me fizeram rir. Por fim, decidiu-se por me dar ARL 55, eu nem entendi que era moeda argentina, pela quantidade, achei que tinham arrumado o valor em moeda local.

O garçom se aproximou antes de finalizar o pagamento e me perguntou de onde eu sou. Disse-lhe, de São Paulo. Ah! Disse ele, e alguma coisa de cores que não entendi. Depois, com sua explicação, compreendi que ele torce por um time de futebol uruguaio que é tricolor, com as mesmas cores do time do São Paulo. Falou que eu tenho um sorriso bonito, ao que agradeci. Perguntou para onde eu iria e contei um pouco de minha jornada. Perguntou se podia ir junto? Como? O que? Nesta noite fria, eu aqui sozinha. Vamos! Mais que depressa ele aconchegou meu braço e saiu andando comigo. Ri-me muito. Mas aonde vais? Não esta trabalhando. Estou, mas acho que acabei de perder o emprego. Acompanho-te. Venha por aqui, vaamos dar uma volta na quadra para eu ta apresentar a cidade. Bom! Ele viu meu apuro para pagar a conta, então não deve querer me roubar dinheiro. Se quiser me roubar um beijo, hahaha, lhe dou, não precisa roubar.

Resolvi arriscar, e o Bruno, como descobri chamar-se, pegou em minha mão e disse que estava 'caliente'. Eu disse que 'acalorada' pois minha 'maestra' me ensinou que 'caliente' para pessoas quer dizer outra coisa. Ele riu-se. Perguntei sua idade ao que me respondeu 31. Oh! Que jovem. Tenho filhas de sua idade, quer ver? Mostrei a foto e ele disse: Que Lindas! Mas você também é linda. Derreti-me. Ao perceber que estava mudando a fisionomia para algo mais sério resolvi segurar-lhe a face e dar um selinho. Uns dois selinhos depois voltávamos à rua principal. Pedi para fotografá-lo, ele disse, juntos. Queria que fosse buscá-lo à meia noite, na saída do trabalho. Vou dormir cedo, para aproveitar melhor o dia. Despedimos-nos e voltei mais feliz para minha a hospedagem. Com certa leveza terminou a noite.

Deitei-me cedo ainda, como queria, eram 23h.

E assim, às 8h já estava de pé. Queria ir à manicure, mas como gastara demais no dia anterior, resolvi arrumar as unhas das mãos eu mesma. A noite foi milagrosamente quente. Hoje foi o primeiro dia sem vento desde que no Uruguay cheguei. Minha programação era para o Centro cultural del Carmem. Decidi cumprí-la à tarde.

Ontem deixei minha roupa para ser lavada direito, três camisetas de manga curta, uma longa, um baby doll, duas calcas e uma toalha de banho. Paguei URL 100. Voltou dobradinha e cheirosinha. Então, guardei tudo, me ajeitei e perto do meio dia peguei um mapinha dos pontos turísticos na recepção para chegar ao Centro Cultural. Fechado para Reformas. Então 'Museo do Azulejo'. Segui direitinho o mapa mas, não achei.

Tudo isso depois de ter comido um lanche típico uruguaio de nome 'Chivito', com um suco de laranja, ficaria por URL 410, autorizei a gorjeta e paguei URL 379. Não entendi. Chamei o garçom. Que desconto é esse aqui. Dos impostos. Cada lugar é de um jeito, mas esta bem. Um lanche de meio metro com um delicioso pão. E passarinhos para me acompanhar durante a refeição.


Quando retornava do passeio frustrado, fui em busca da sobremesa. O sorvete. Pensei bem e resolvi experimentar o El Cali, pois a Fredo, acharei em Buenos Aires, o outro é artesanal e local. Não aceitavam cartão. eu tinha poucos pesos uruguaios e poucos argentinos, somando tudo consegui comprar uma casquinha tamanho junior, com dois sabores. Apesar de achar que ficaram com dó de mim e me presentearam com a quantidade de sorvete maior. Pedi doce de leite tradicional, e chocolate italiano. Muito bom mesmo. Mas, ainda gostei mais do sorvete da Fredo. Gosto é gosto. 

O caixa também entabulou comigo uma conversação. Queria saber se gostei do sorvete, disse-lhe que sim, e também da música. Perguntou-me de onde sou. Essa pergunta, dizem os blogueiros, temos que aprender a responder em todas as línguas. É igual perguntar para crianças quantos anos tem? Enche o saco às vezes, das crianças, hahaha, mas não há como evitar. Falou que tinha música sertaneja lá também. Sertaneja eu gosto para 'bailar', a uruguaia também para escutar. Sorrisos e 'muchas gracias' na saída.

Observo um casal que se aventurou pelas ruínas da Porta da Cidade acima. Em outros tempos, também faria isso, até porque é permitido. Mas sozinha, não devo me arriscar mais do que faço. Se cair dali, acabou a viagem. Estou sendo muito cuidadosa.

Uma passada pelo banheiro atrás do escritório de informações turísticas.

Umas duas quadras à frente, três senhoras brasileiras se queixam de um tratamento. Entro na conversa e descubro que uma delas foi chamada de "senhorinha" por uma jovem diante de seu grupo. A garota quis ser educada, mas ela pensa que senhora ou senhor já é sinal de boa educação. O 'inha' é classificação. Colocou-a no grupo de idosos mais avançados, vovózinha. Hei de concordar. Porém, muito 'me gusta' chegar a ser senhorinha nesta altura do campeonato. Elas seguiam para o Porto Marítimo. Foram fazer a travessia para Buenos Aires. Acompanharam-me até a porta do hostel.

Minha impressão até aqui:

- Nunca, em nenhuma outra, de tantas viagens que fiz nos últimos 50 anos, falei com tanta gente desconhecida;

- Com exceção do banheiro, de minha casa, nunca meditei tanto sobre a vida e sobre mim;

- Observo mesmo, como já constataram outras viajantes solitárias, que a noite, a mulher só, é vista de maneira diferente do que homem só, então, há de se ter o máximo cuidado;

- A vida  é um reflexo de si mesmo, todos continuam contentes ao meu redor;

- Posso estar tão perto de minha família e amigos, mesmo estando distante (longe é um lugar que não existe), desde que assim quisermos;

- As poucas coisas materiais que comigo trouxe, estão sendo suficientes;

- Minha fé na humanidade tem se confirmado. Isso só me traz alegria.