es-São Tantas Emoções - Um dia e uma noite

04.04.2018

As emoções foram muitas, partindo das despedidas da família e queridas amigas, em Buenos Aires, pela noite de 31 de outubro, deixando também para trás o lindo Outubro rosa.

Fui regalada por minhas amigas Magda e M.Tereza com um charmoso café com 'tostados' num café em frente ao Obelisco, onde nos rimos muito de nós mesmas, chamando a atenção dos garçons. Pedi para que não pusesse mais bebida alcoólica em nosso leite, e ele tirou-nos algumas fotos registrando um pouco mais dessa emoção, que é a alegria do reencontro e a tristeza da partida, juntos e misturados.

Depois um UBER levou-nos primeiro até bem perto da casa de Maria Tereza, já quase 22h, pois esta trabalha no dia seguinte. Magda nos deixara um pouco antes, também com seus compromissos. Abraços muitos, com o compromisso de mantermos essa amizade tão linda e nos encontrarmos em breve, que sabe, em Foz do Iguaçu, com nossa quarta integrante, M.Elisa.

Aquele motorista 'guapo', o Lucas, levou-me para casa de meus primos, desejando-me sorte para o dia seguinte com minhas caronas, pois ninguém ia deixar de me dar carona. Ai amigo, se queres, pego já minha mochila, e partimos daqui mesmo para onde quiseres. Estou afogueada.

Na casa de meus primos, muita conversa em português, para matarmos a saudade da língua, da terra, da família... Um pouco sobre nos mesmos, que em nosso encontro da sexta, em grupo, não foi possível nos atualizarmos. Saio dali depois de meia-noite, com abraços e novos amigos, pois eles são mais jovens que minhas filhas. Mas esquecemos de registrar em foto, ficará só na memória esse momento.

Fui dormir à 1h30, acordando um pouco depois das 7h já com a definição de transporte público para sair da cidade, porém, à noite, ficamos sem energia elétrica, depois descobri que só em nosso quarto, isso fez com que meu celular ficasse com carga baixa, e a bateria extra estava descarregada, causando-me algum desconforto. Isso não é dia para acontecer isso. Achei um modo ultraeconômico de uso da bateria e o ativei, fazendo-a ter duração prevista de 17h.

Não sei porque achei que Córdoba é perto de Buenos Aires. São mais de 700 km.

Um pouco antes de me levantar, cedo por causa da distância a percorrer, a Maria uruguaia saiu para suas obrigações, mandando-me um beijo de longe, numa despedida de quem se afeiçoou, assim como eu.

Após o café da manhã, pego minhas coisas, confirmo o ônibus com a Suzana, e abraço-a sentida, já com saudades. Uma, duas, três, quatro vezes, até nossa despedida na porta do hostel. Taí um lugar que eu moraria. Assim, indico:

https://www.loarashostel.com/

Tomei o 59 que me levaria ate a Panamericana, na saída da cidade. E assim começa de verdade minha saga do dia primeiro de novembro.

Passei por um viaduto, sobre a estrada e fui até um posto de combustível. Ali comprei uma sanduíche de milanesa e um suco de pomelo, além de uns MMs, por ARS 130. Abasteci-me pois, não sabia o que o dia me reservaria. A frentista me disse que os caminhões param bem cedo ou final da tarde, um motorista bonitinho ficou me olhando enquanto abastecia, pois estava com uma placa que fiz no dia anterior, indicando minha direção (Córdoba). Acheguei-me e ele disse que ia por perto, pedi se não poderia me deixar num lugar à frente, com mais movimento de caminhões? Meu primeiro anjo do dia me socorreu. O Miguel me levou adiante, em outro posto de combustível. Entusiasmou-se com minha aventura e me desejou sorte.

Como era um posto na marginal da Rodovia, não passava muitos caminhões, então consultei o frentista e tomei outro ônibus, dando-me ele a opção do 15 ou 21. Não lembro qual foi, mas seguiu às margens da Autoestrada por bastante tempo, e depois da troca de motorista num terminal, baixei em outro posto, da YPF, ainda às margens da Rodovia, porém ali, com mais movimento de caminhão. Um chofer de caminhão, pois é assim que os chamam, me sugeriu ir ate o próximo pedágio, ali seria mais adequado, pois passam os caminhões que têm destinos mais distantes. Ficava a umas cinco quadras, isso quer dizer, quase 5 km.

Sem calcada, a maior parte do tempo, passando por lugares estreitos, com grama, terra, poças d'agua e cuidando do trânsito rápido atrás de mim, cheguei pela marginal até bem perto do pedágio. Dali tive que me decidir, após conversar com um rapaz que me disse que era a segunda mulher que me perguntava como atravessar, também em busca de carona, no mesmo dia. Ele não sabia o que fazer. Atravessei a marginal, subi um gramado, passei aperto na ponte sobre um riacho, pulei o guardrail e cheguei.

Tinha um muro entre duas faixas de velocidade e as faixas após o pedágio, que deu a altura certa para me sentar e, encher-me de esperança e sorrisos. Não entendi porque tinha outro pedágio logo à frente. Muitos motoristas me davam atenção, mas a maioria dizendo que ia por ali mesmo, com sinais. Alguns motoristas de ônibus também mexiam comigo, mas de forma alegre, eu acenava e agradecia a todos.

Aproveitei para comer meu lanche, pois já era 14h. Logo após, um motorista parou, não sabia se era para mim, desceu do caminhão e conferiu os pneus. Fui até ele e descobri que iria para Santiago del Estero, saindo em Rosário. Servia-me. Rosário fica no meio do caminho. Ele assentiu. Falou que teria que parar para colocar uma 'goma' e depois entregar um papel, se estava bem para mim?

Um pouco após compreendi que a goma era o conserto de um furo em um dos pneus. Na borracharia, encontrou o chofer de outro caminhão da mesma companhia, pediu que ele trocasse o papel. Depois de meia hora, seguimos adiante mas, um pouco depois, o Daniel, meu segundo anjo, me informava entristecido que teria que parar na empresa, um pouco adiante, não podendo me levar ao destino combinado. Parou na rotatória da saída para seu destino, onde pude ficar sentada, agora no guardrail, no final de uma acesso para a Autoestrada e a própria Ruta 9. Com meu novo cartaz, erguia-o esperançosa, para todo carro que passasse, vindo de qualquer das pistas, achando que os que vinham pelo acesso, mais devagar, teriam mais possibilidade de parar.

Nem sei quanto tempo passou, mas de repente, um caminhão em velocidade, em que percebi que o chofer me notara, saiu da faixa do meio, fechou outro caminhão que vinha pela direita e encostou, muito a frente, com a seta ligada. Será que parou por mim? Vou arriscar. Meus pés, costas e braços já doíam da caminhada arrastando uma mochila e trazendo a outra a frente do peito. Fui depressa, dentro da minha capacidade reduzida, rezando para que não saísse na última hora, pois não o vira descer.

Quando cheguei e ele abriu-me a porta, surgiu, não sei de onde, outro cara. Foi uma sensação de "trem fantasma" de parque de diversões. Achei que o que estava fora fosse companheiro do motorista. Vi-me apurada. O de dentro não falava comigo, só puxando minhas malas. Perguntei se falava espanhol e nada. Estava entre as 'caballeras' (caveiras) do dia dos mortos e o monstro. Subi no caminhão. Quando entrei o motorista me orientou a ter cuidado com o outro, que já me perguntara algo sobre o coletivo. Assim, empurrei minha mala adentro e fechei a porta sem nem me sentar. O motorista me disse que o cara estava me seguindo, que me vira sozinha lá atrás, e que o cara estava na ponte, quando passei, foi atrás de mim. Que era perigoso, e que, com perdão da palavra, não sabia se eu entenderia, queria me 'foder'. Assaltando-me ou não.

Ainda não sabia se tinha feito a melhor escolha. O Pedro, que depois de 2 anjos, descobri ser meu santo. O São Pedro. Ele também ia para Santiago del Estero, mas pela Autoestrada, passando por Córdoba. Obaaaa!!!!!

_Então posso ir contigo?

_Vamos ver.

Ver o que? Pensei. Mas vamos ver. Quem sabe agora é ele.

Começamos enfim a conversar, eu estava feliz, podia enfim ter encontrado a grande carona. Então, feliz me comportei. Fiquei assim sabendo que iria parar numa cidade adiante para abastecer.

Mais para frente disse que estava disposto a fazer uma loucura. Devo me preocupar? Pensei novamente. Ainda não me convencera da sorte. A forma como ele arriscou-se para parar na Autoestrada me pegar me deixava ainda em dúvida sobre suas intenções.

Mais tarde, soube que a cidade em que íamos parar era onde reside com sua família. Me disse que ele não podia oferecer carona, mas não ligava para isso, no entanto, eu teria duas opções:

- podia descer ali no cruzamento e aguardá-lo retornar ou;

- esconder-me na cama atrás, enquanto ele abastecia, para não ser vista pelos companheiros da empresa.

Entendi que me guardava dos olhares e comentários de conhecidos e vizinhos, assim, sentei-me atrás numa parada que ele fez próximo a entrada da cidade, só enquanto o caminhão estava em movimento. Quando chegou à empresa, recostei-me nos travesseiros e roupas com a cortina meio puxada.

Pouco depois, de volta a estrada, voltei ao meu lugar. Mais adiante ele recebeu uma ligação de sua esposa, e explicou que seguiu adiante porque queria adiantar descarga e nova carga para poder ficar em casa no final de semana.

Paramos um pouco a frente para banhar-nos. Não tinha banhos então ficamos em café com leite e 'medialunas'. Ele pagou.

Na praça de pedágio, mais a frente, paramos, como muitos caminhões. Tinha banho, inclusive para as damas. No meu banheiro estava só. Mas o cano de água fria só me animou a tirar o suor do corpo, não lavando o cabelo, que ainda estava limpo, apesar de embaraçado. Ele demorou mais do que eu e saiu limpinho e cheiroso. Cheiroso. Aí que mora o perigo.

Dali seguimos mais um pouco, até achar onde jantar. Paramos num restaurante por quilo, e meu santo e cuidador disse que pagaria, pois é uma regra dele, não permitir que mulheres paguem a conta. E que eu já não era mais uma desconhecida. Passavam das 22h, e ali comi umas coisas diferentes. Comi nervo ensopado. Isso é o que chamo de aproveitamento.

Nossas conversas, em ritmo lento para que nos entendêssemos, flutuaram entre vários temas diferentes. Ele nasceu em 12 de junho de 1964, num dia próximo ao de um amigo muito querido, e alias, tem historia de vida semelhante, tem um casal de netos e está casado há 32 anos. Ou seja, é quase um ano mais novo que eu. Mostra fotos, da esposa, dos netos, da casa. É feliz com o casamento. Considera-se um privilegiado. Também falo de meu casamento, minhas filhas, e sobre a vida.

Falamos sobre o momento da carona, me perguntou a impressão que tive dele. A primeira, disse eu, foi a de que era mudo, pois não me respondia. Depois a de uma caveira no trem fantasma, e por último, de meu santo cuidador, que me conquistou a confiança.

Como os fatos sempre são sob o ponto de vista de quem conta, ele me disse que me vira 'sacando o dedo' (pedindo carona), e algo bateu nele, chamando sua atenção para parar, tendo feito uma manobra arriscada para isso. Quando viu o rapaz, achou que podia estar comigo, e que talvez corresse perigo, mas que quando me sentiu em apuro, soube que tinha que me tirar dali. Que esperava uma argentina ou alguém que falasse castelhano. Quando o cumprimentei não acreditara que era uma brasileira, por isso não respondeu, achou que eu não entenderia.

Sentiu-se afortunado, pois tem muita vontade de conhecer o Brasil. E não imaginava que conseguiríamos nos entender tão bem.

Em dado momento constatou que falávamos a mais de 3 horas com pleno entendimento. Às vezes, riamos das dificuldades de nos fazer entender. Manteve a luz do seu lado do caminhão, o tempo todo acesa, para iluminar meu rosto e ver-me sorrir. Não me entendia se não me olhasse. Acho que meu rosto é muito expressivo, então, se expressa melhor que meu parco espanhol.Rs

Explicou-me então, que, normalmente, ao parar para abastecer em sua cidade, vai até em casa banhar-se, descansa um pouco para depois sair viajando. Mas sua loucura foi se determinar a me acompanhar até o meu destino, passando comigo no caminhão ao lado da família e conhecidos. E viajar pela madrugada adentro, só parando para dormir quando não se sentiu mais confortável e desperto para dirigir.

Neste momento, encostou o caminhão junto à rotatória, perto de dois outros em que os motoristas já dormiam, desocupou a cama, e me chamou para deitar. Não preciso, disse-lhe, morrendo de sono. Fique tranquila, dormimos um para um lado e o outro para o outro. Cedeu seu travesseiro para mim. Pedi que entrasse primeiro, ele se deitou e eu ao seu lado. Cobriu-se, me cobriu e ali ficamos quietos, até dormir. Depois de umas duas horas, creio, tive que levantar para urinar. Entrei embaixo do caminhão, arriei as calças, e a urina se misturou a umidade da chuva que tinha caído. Mesmo com a vontade que estava, ela demorou a sair quando a friagem da madrugada se espalhou por minhas ancas. Por que meu marido gostava de fazer xixi ao ar livre?

Quando retornei, não quis acordá-lo, precisava descansar para continuara viagem. Assim, me ajeitei no banco e dormi ali mesmo, como foi possível. Às 7h30, depois de escovarmos os dentes, continuamos nossa viagem, que já chegava ao fim. Um pouco depois de 90 minutos, novamente modificava um pouco sua rotina para deixar-me num posto de gasolina, explicando sobre os táxis e depois de abraços, um generoso e carinhoso: 'Cuida-te'

Não posso deixar de citar aqui algumas conversas que me encantaram ou me emocionaram a ponto de levar-me as lágrimas.

Todos me questionam sobre os riscos desnecessários aos quais estou me submetendo, e cada vez que tento explicar, me vejo um pouco mais.

Ao falar com ele sobre isso, e lembrando as palavras de minha amiga Cida, que até agora, foram as que expressaram melhor meu sentimento, dizendo que se preocupava com minha escolha, mas entendia que eu precisava ultrapassar os limites dos conhecidos, e procurar gente nova, para distribuir o que sou. Não exatamente assim ela disse, mas assim entendi e tentei lhe explicar. Sinto como se em cada um desses contatos pudesse plantar uma sementinha de amor, de esperança, de alegria, de luz, que caberá a cada um dos jardins, fazer florir.

Sinto-me tão grata que mesmo agora, aqui escrevendo, meus olhos se enchem de lagrimas. A térrea fértil esta em todo lugar. Desejo distribuir o que tenho, e só o que tenho sou eu. Não posso mudar o mundo, mas posso fazer a minha parte, distribuindo sorrisos, abraços, amizade sincera. As pessoas que estavam ao meu entorno talvez possam ser ainda mais tocadas em, me conhecendo, saber de minhas aventuras, e em me amando, entender as minhas conquistas e realizações.

Meu amigo Pedro, talvez, se me mostrasse interessada, quisesse uma noite mais 'caliente', como me fez entender, mas também se mostrou um homem de caráter, que não ilude, que não se aproveita, que aguarda a manifestação do outro.

Foi carinhoso, abrindo portas e me ensinando as rotas, para não ser lograda, me envolveu com seu carinho e atenção. Acolheu-me. Passou-me segurança e me cuidou. Por um dia. E espero ter acalentado também seu coração generoso. E é dessas pessoas que meu mundo é feito. Inclusive VOCÊ, que está me acompanhando, na torcida, orando, se preocupando, para que tudo dê certo, e que esse Deus que eu tanto creio, esteja realmente me protegendo, me conduzindo em segurança pelos caminhos do mundo. E que me leve de volta para casa, ao final dessa caminhada. Meu muito obrigada por VOCÊS existirem.

P.S.Fotos com ele? Tirei, mas não vou publicar, a seu pedido.