es-Salta (Argentina) - outra cidade depois do fim de semana

29.04.2018

O dia começou com um novo foco, uma nova estratégia e uma nova energia. Depois dos conselhos de minhas amigas, resolvi estabelecer as prioridades acima. O enfoque espiritual, quando se esta emocionalmente vulnerável, pode se tornar uma explosão de sentimentos e lembranças que suscitam lágrimas e saudades.

Assim, começo a caminhar pela 'Peatonal Alberdi' a caminho de 'La Vina', ou Igreja de Nossa Senhora da Candelária, olhando as vitrines de roupas que não pretendo comprar, mas pensando que minha mãe ia gostar dessa estampa, essa roupa ficaria bem na Débora, essa outra na Brenda, preciso ir ao Brás com a Brenda antes do Natal, essa camisa me parece um pouco cara... Impressionante como parece outra cidade na segunda-feira. Muitos carros pela rua, muita gente apressada, crianças indo e vindo para as escolas.

O calçadão termina um pouco antes da Igreja. É uma igreja bonita, no mesmo estilo externo que a Catedral. Tem uma grande área externa com jardins, uma cúpula abobadada atrás do corpo principal, mas esta, tem uma torre ao invés de duas. Um Cristo em linhas contemporâneas está pendurado junto a abóbada da nave principal, junto ao altar, e consegui uma bonita imagem fotográfica. Porém, deixei meu celular carregando no quarto, quando voltei do passeio no final da tarde, e ele sumiu (cara de tristeza), assim, só devo recuperar as fotos quando voltar para o Brasil, assim espero, ou se alguém achar meu celular.(cara de esperança). Fui até a Capela fazer minha oração e sai em busca da Praça San Martin.

Passo por uma banca de frutas. Finalmente. Preciso comer bananas, tenho tido muita câimbra a noite. Frutas e verduras. Compro 2 bananas, uns 8 damascos, 1 limão e uma embalagem com verduras picadas, com cenoura, repolho verde e roxo, e uma folhagem verde escura que não reconheço o sabor, além de 1 tomate cereja.

Não estava tao longe, é uma praça bonita, com um lago de águas turvas, mas que tem barcos e pedalinhos para passear, patos e gansos na água. E muita gente aproveitando as sombras das árvores, quase ao meio dia. Podem estar em horário de almoço, ou simplesmente passeando como eu.

Depois de algumas fotos, cheguei ao Museu de história Natural, que estava fechado, afinal é segunda feira, mas não tinha me programado para passar ali. Foi um achado. Bem perto dele tinha algumas árvores grandes bem acessíveis. Resolvi fazer uma sessão de descarrego e abracei uma delas. Não consegui envolvê-la totalmente, precisava de mais umas duas pessoas para fazê-lo. Conversei um pouco com ela e parti. (juro que sou normal)

Vi uma carrinho vendendo pipocas ensacadas, e algodão doce. Resolvi fazer uma estrepolia. Tinha amarelo, rosa e azul. Assim, escolhi minha cor predileta, já que não interfere no sabor: azul. Achei um banco grande, à sombra de uma árvore, onde podia me sentar sem que meus pés tocassem o chão. Um parque de diversão ao lado, deixei minha criança não tão interior se manifestar e enfiei a boca no algodão, balançando as pernas em uma manifestação de alegria infantil. Melei os dedos e a boca, mas lambi-os com gosto, continuavam doces. Ao final, uma formação que parecia uma serpentina de plástico para dar suporte ao algodão doce, mas era também açúcar. Fiz uma selfies brincando com a forma, usando como auréola, como boca, como barba e bigode, até que finalizou e sobrou só mesmo o palito.

Continuo a caminhar pela praça,agora em busca do Terminal Rodoviário. Quero comprar passagem para Assunção do Paraguai. Não estou mais com vontade de me sujeitar aos tempos das caronas, até porque estamos a 1000 km deste. Então tenho passagem para dia 30, o único dia que sai ônibus daqui para Assunção. Perco um tempo na rodoviária ate acertar no Banco alguns agendamentos que estavam atrapalhando a liberação do limite de crédito, mas com a ajuda de minha gerente, que infelizmente estava em horário de almoço, consegui realizar a compra, depois de aguardar seu retorno. Comprei um sanduíche de copa com queijo para levar, uma água de limão, gastando ARS 70. Precisava da senha do Wi-Fi. Como a espera foi longa, comi o lanche com a água ali mesmo. Ainda bem que fiz isso ontem, hoje estaria perdida, sem contato com ela.

Como passei em frente a entrada para o teleférico, por volta de 15h30 voltava a este ponto para a subida ao 'Cerro San Bernardo'. Ida e volta custa ARS 200 e também é realizado em cabines para até 5 pessoas. Subi sozinha. Filmando e fotografando. Buááá. (levaram meu celular antes de publicar as fotos)

O topo não é muito grande, logo ao final do percurso, saindo pelas escadas, vi um ponto de venda de vinhos com a pergunta: "Você ainda não bebeu uma taça de vinho de Salta?".

Pois é. Não bebi. Por ARS 40 eu poderia fazer isto. Então vou passear aqui por cima e antes de descer tomo meu vinho.

Vi um jardim de minhas flores prediletas, margaridas. Quero tirar uma selfie com uma flor na orelha, mas sem arrancar nenhuma, de forma que acho uma caída, já um pouco desfalecida, mas que em minha orelha terá sustentação. (cara de alegria) Estou me proporcionando prazeres infantis. Procuro um lugar um pouco mais solitário porque não quero que pensem que arranquei a flor. E faço minha fotos.

Então percebo que tem uma diversidade de flores muito grande no Cerro. Caminho buscando as varias espécies e fotografando, tudo em nome da distração de minha mente. São diversas cores e formatos, desde umas muito miúdas ate cachos de rosas brancas. Em árvores ou em arbustos, mas como uma coisa em comum, todas maravilhosas.

Vi no mapa do local que há uma cascata, então vou procurá-la. Muito interessante o que fazem artificialmente com o percurso da água. Vão desviando seu curso daqui pra lá, passando por debaixo de pequenas pontes e aumentando sua velocidade, até se derramar na cascata final. Fui descendo os degraus de pedra para acompanhá-la, e da queda final, baixei pela estrada que dá acesso ao Cerro, de carro, fazendo a subida de retorno por esse caminho.

Agora é a hora do vinho. A uva daqui é a Torrentes. Vinho branco. O Juan e a Gisela me dão muitas explicações sobre os vinho para que eu possa decidir. O Juan me oferece uma prova de um vinho branco de cor e sabor intenso, um tanto doce. Digo que gosto de brancos frisantes. Não entendem a palavra, mas com um pouco mais de conversa, chegam a uma conclusão. Me dizem que o sabor da uva fica mais acentuado de acordo com a elevação da altura na área de plantio. Pois as condições climáticas são mais agressivas, exigindo do fruto sua superação. Escrevendo isso agora, entendo todo o processo de minha vida, e também me sinto mais doce e mais forte. Só espero que seja transformada em vinho, que Deus não permita, pelo menos por enquanto, que eu vire uma uva passa, por mais que eu goste dessas.

Assim me apresentam um vinho da bodega Colome, com uma cor mais suave, mas este só é vendido em garrafa. E não tenho como carregar uma garrafa na minha mochila. A Gisela é muito assertiva quando propõe que eu tome uma taça ali e leve o restante para consumir no hostel até minha partida. Gostei da ideia. Gosto de compartilhar as coisas. O vinho é muito saboroso, seco porém doce, dá uma sensação de frisante por ser um pouco adstringente. A Gisela me oferece um pedaço de pão caseiro integral, feito por ela mesma, recheado de abacate e queijo. Tenho descoberto maneiras inusitadas de se comer abacate.

Descemos juntas no teleférico, Gisela e eu, ela me lembra muito minha amiga Viviana, em um de seus perfis. Ambas loiras de olhos claros, cabelos lisos e compridos, que costumam estar presos em rabos, no caso da Gisela, numa tranca. Eu não sabia, mas ela seria a auxiliar do meu anjo da guarda hoje. Perguntou-me se assisti a algum espetáculo na Praça 9 de julho. Diante de minha negativa, me leva até ao Teatro para conferir a programação, pois lhe disse que já tinha olhado mas só vislumbrei apresentações para dezembro. Já são quase 17h, a bilhateria reabre neste horário, aguardamos enquanto alguns pais vem buscar suas filhas ao final de uma aula de ballet. Ela diz que, semanalmente, a orquestra da cidade oferece apresentações gratuitas, como forma de estimular o gosto e a cultura local, além de incentivar os músicos a praticarem para as apresentações. Confirmo o investimento em cultura com a presença das meninas no ballet.

Após verificar que não terá nenhum evento mesmo até minha partida no dia 30 pela manhã, cruzamos a praça para verificar o horário de atendimento do Museu de Alta Montanha, onde estão expostas as 3 múmias encontradas a 6000 metros de altura, de crianças, que segundo explicação dela, em conhecimento adquirido com sua professora de 'quechua', demonstram um apelo espiritual de resgate da humanidade, demonstrando a força da cultura ancestral e a ideia de manutenção da vida, pois diz que comprovaram que os tecidos corporais ainda possuem vida,assim como os pulmões se expandiram. Foram escolhidas para sacrifício aos deuses incaicos, por sua beleza e status social, e consideradas como anjos protetores de sua população. Devo ir amanhã visitar e quem sabe entender melhor esse conceito.

Dali fomos tomar um sorvete na Rose Mari, eu tomei uma bola de cereja ao marrasquino com chantilly e ela pediu mascarpone também com chantilly. Comprei uma água também, o dia está bem quente. Gastei ARS 60. Conversamos sobre nossos relacionamentos, ela está separada, tem um filho de 28 anos que vive em Buenos Aires há 1 ano e meio. Casou-se jovem, seu ex- marido tem 9 anos anos a mais que ela, e viveram felizes e bem até perceberem que começaram a ter interesses diferentes, resolvendo assim trilhar também caminhos separadamente. Vive em Salta uma de suas irmãs,de 7 filhos que tiveram seus pais. Ela é vegetariana, e encontrou aqui um novo caminho, da antiga filosofia oriental, o TAO, da qual muito se agrada, transformando muito seu modo de agir e pensar. Comento que estou com dor no calcanhar. Isso ocorre toda vez que paro e o corpo esfria um pouco. Ela diz que a física quântica (mais uma semelhança com a Viviana) tem explicação para isso, e que foi transformada por um estudioso, em linguagem popular, perguntando se me interessa a explicação. É claro que sim. Como escutou minha história, disse que o lado esquerdo representa o feminino. O pé é a parte de sustentação e de avanço. Então a dor representa este momento de me sustentar e avançar pela vida sem o apoio do masculino, seguindo sozinha. Que a simples consciência disso pode, às vezes, levar a cura. Mas que também uma imersão em água com bicarbonato de sódio pode operar verdadeiros milagres, já que este elemento tem muitas propriedades salutares para o corpo externamente e internamente.

Fomos então ao Mercado Municipal, onde descobri que 'porotos' é um dos nomes que atribuem aos feijões, que também denominam 'frejol'. E tem uma diversidade muito grande dos mesmos. Assim como dos 'maiz' ou 'choclos', nosso milho, é uma infinidade surpreendente. Vejo também uma saco de pedras, que pergunto se são para fazer sopa. O vendedor me diz que muitas pessoas associam aquelas formas a pedras, mas tratam-se de batatas desidratadas. Daria então uma bela sopa de pedras, fala a verdade... Ela compra ali alguns itens, inclusive um pouco de bicarbonato, que me oferece como 'regalo'. Avançamos pelo mercado, que tem a área de frutas e verduras, castanhas e sementes, e também tem a área de têxteis e produtos importados.

Nosso próximo destino foi um supermercado, para que eu pudesse comprar queijos, para acompanhar o vinho, mais tarde, no hostel. Comprei um pedaço de queijo com aparência de emental, que me apetece com vinho branco, e um pouco de queijo fatiado, para comer com a salada e, se sobrar, no café da manhã. Gastei ARS 96. A fila do mercado está grande, e continuamos a falar, agora do empreendimento dela, já que perguntei se o projeto que a trouxe a Salta, para trabalhar com sua irmã, estava dando certo? Ela disse que esse não vingou, mas que o projeto da Barrica de Vinho é de seu amigo Juan, que é formado em engenharia comercial; ela tem muita experiência em vendas, e que estão em quatro nesse projeto, o que considera muito produtivo e encorajador, pois os ânimos se alternam, de modo que os que estão mais motivados ajudam sempre os demais, mantendo o empreendimento. Preciso comentar isso com minha filha mais nova. Ela também diz que alguns cursos de orientação ao microempreendedor foram fundamentais no processo de escolha e formatação do empreendimento. Entendi que trata-se de processo semelhante ao instituído pelo SEBRAE no Brasil. Concordo com ela. É importante aliar essa expertise comercial, pois não só de talento e sonho se alcança sucesso em um negócio.

Ela faz questão de me acompanhar até a porta do hostel, não quer entrar pois esta cansada e mora a uns 45 minutos de onde estamos, irá de ônibus. No último trecho, onde relato minhas conquistas como pessoa eterna ao longo da viagem, ela me enxerga como uma buscadora, que alia a experiência já adquirida às trocas agora realizadas, onde cada experiência não é uma novidade em si, e sim uma forma de experimento em campo, como diriam os catedráticos, para comprovação de uma hipótese.

Me mostra um vídeo sobre o despertar da consciência e da luz, eu já tinha visto um similar. E que está em completa sintonia com as minhas crenças e propósitos. Me vejo como um evangelista, proposto por Jesus:

"Ide e evangelizai"

Apresentar ao mundo a forma do amor. Aquele amor Ágape que comentei e descobri como termo ou vocábulo enquanto estava em Porto Alegre. Entendo isso como minha missão no despertar da consciência eterna. Tenho encontrado muitos outros nesse caminho. Pelo Brasil, e agora pelo mundo. Isso me enche de esperança e alegria. Creio no avanço da humanidade, enquanto povo de Deus, tanto no plano físico e limitado em que vivemos, como no plano espiritual e eterno. Desculpem-me aqueles que pensam diferente. Os respeito. Mas as diferenças são somente estéticas. O amor divino é comum, tenho certeza.

Trocamos telefones, e, apesar dela não gostar ou não estar acostumada ao contato físico com estranhos, nos despedimos com abraço e beijos no rosto, e com certeza esse contato e outros que fiz pelo caminho serão as maiores perdas se não recuperar meu celular.

E agora como isso sucedeu...

Deixei minha nova amiga na calçada, fechando a porta do hostel por questão de segurança, à pedido da Caroline, e subi, passando rapidamente pelo quarto para pegar os apetrechos de banho, e a toalha, aproveitando enquanto os banheiros estão vazios. Levo e celular pois tinha 166 mensagens não lidas, lembro-me porque mostrei a Gisela, pois passei umas 5 horas sem internet. Como estava só em meu quarto, os outros 3 companheiros já haviam partido, e meu celular estava com criticidade de bateria, resolvi colocá-lo para carregar enquanto jantava. A maior parte dos hóspedes, em sua maioria franceses, estavam também na cozinha, jantando. Pedi que um tirasse a rolha da garrafa de vinho já aberta, preparei a salada com pedaços do queijo fatiado, cortei em cubos o queijo tipo emental, e compartilhei queijo e vinho com todos que quiseram e estavam presentes naquele ambiente. Uma das francesas preparava uns cookies e todos conversávamos alegremente. Contei a Caroline sobre a presença providencial da Gisela naquela tarde. Foi como a resposta de Deus às minhas necessidades. Conversamos sobre seu noivo francês, sobre a riquíssima experiência de trabalhar em um hostel, com tantos estrangeiros de diferentes culturas, num intercambio de línguas e maneiras. Mas também das situações mais exasperadoras de lidar com ânimos enaltecidos diante de adversidades. Ela comentou uma situação que a abalou, de preconceito,  que terminou de forma positiva, e me fez lembrar de um vídeo que assisti no mesmo dia pelo What'sApp, onde num avião, uma senhora branca se recusa a sentar ao lado de um negro, e a aeromoça, instruída pelo piloto, pede desculpas pelo inconveniente e conduz o negro à primeira classe.

Somos as últimas a permanecer na cozinha, já passa de 23h. Vou até o quarto pegar o celular para fotografar a garrafa de vinho, já vazia e... só encontro o carregador conectado à parede. Será que minha memória está me enganando? Já vim buscá-lo e deixei na cozinha, voltando a buscá-lo sem me lembrar do que fiz? Não. Volto a cozinha e não esta lá. Comento com a Caroline, olho no banheiro, volto ao quarto, inspeciono a cama, debaixo da cama, debaixo da roupa, abro o armário que está com o cadeado, averíguo, minhas mochilas, roupas, bolsas... Peço para a Caroline me ajudar com a inspeção, porque posso estar nervosa e não enxergar estando o objeto em questão à minha frente, sem que eu o perceba. Mas... nada!

Isso me entristece profundamente. Não pelo celular, mas que ele carrega, especialmente os contatos que fiz ao longo do caminho, e que não tenho como recuperar. Peço a Deus que seja só um engano e que o remorso pela atitude leve quem subtraiu de meu quarto o insignificante bem material, a depositá-lo em algum lugar que possa ser por mim encontrado.

Assim, minha comunicação fica mais prejudicada do que já estava. É um sinal. Hora de voltar para casa. Vou passar por Assunção. Fico lá ate dia 5. E já estou vendo uma forma de voltar o quanto antes. Apesar ou mesmo que coisas muito boas aconteceram ou estão acontecendo.

Uma noite um pouco menos agitada que a anterior, mas ainda nao estou dormindo bem.

E que Deus me ajude.