es-RUMO AO SERTÃO – SOUSA (PB)

10.11.2018

Levantei-me mais cedo pois a viagem de hoje foi mais longa. Meu desejo era vencer os mais de 300 km entre Campina Grande e Sousa de carona. Deixei a maior parte das coisas prontas, como sempre, e tive uma ótima noite de sono. Pensei em tomar meu café da manhã pelo caminho.

A Eliseth, minha anfitriã, resolveu me acompanhar por parte do caminho que ela me orientou como a melhor opção para chegar até a BR-230, estrada que faz parte da Transamazônica e corta toda a Paraíba, desde João Pessoa, rumo ao Ceará.

Quando fomos para o portão de saída, tivemos uma surpresa, o portão estava fechado a corrente, pois com o movimento da 'Namoradrilha' da noite anterior, adotou-se essa medida para aumento da segurança. No entanto, a chave do cadeado foi levada por sua filha Alana, ao final do churrasco da noite anterior, quando foi dormir na casa do namorado. E esse cadeado, improvisado na última hora, não tinha cópia de chave. Álida e Eliseth fizeram contato com Alana, que mandou a chave pelo avô do namorado, mas tivemos que aguardar um pouco. Porém ele deu-nos carona até o centro da cidade, onde eu novamente precisava tirar um pouco de dinheiro (tiro aos poucos, pois não tenho muito mesmo e para não correr risco andando com muito dinheiro por aí) e dali seria mais fácil tomar o ônibus de R$ 3,30 até a Integração, onde peguei outro ônibus até São José da Mata.

O ponto final deste último é junto à BR-230, andei uns 100 metros até um posto de gasolina e comecei a solicitar carona. Um moto táxi e um alternativo me ofereceram o serviço, mas disse que iria longe e preferia não pagar pela viagem. Cheguei ao posto às 11h04. Ali passam muitos caminhões, mas muitos nem me deram atenção, muitos tinham passageiros, e eu comecei achar que no Brasil seria mais difícil conseguir este tipo de transporte. Fiz minha oração pedindo a proteção divina, que aparecesse só pessoas do bem para me ajudar e me transportar. O Eronildo encostou o caminhão descarregado às 11h30 me dizendo que ia para Patos. Eu já sabia que era a maior cidade rumo ao meu destino. Perguntei se ele podia me levar até lá, ao que ele assentiu. E vamos reiniciar as aventuras, agora pelo Nordeste de minha terra.

Ele transporta gado, pega nas propriedades rurais e leva para as feiras dos grandes centros. Gado de corte, de leite, reprodutores, etc. Diz que carrega entre 20 e 30 cabeças, conforme o tamanho do boi, garrote ou bezerro. Disse que a carga viva requer muitos cuidados na curvas, pois se eles se mexerem muito, podem tombar o caminhão, mas que após os 100 primeiros quilômetros, os bichos já se acostumam com a movimentação, não dando mais trabalho. Mas a carga também exige um transporte rápido, para não cansar, estressar ou judiar dos animais.

O Eronildo é pernambucano, casado, com duas filhas pequenas em torno de 10 anos, viaja por esse Brasil entre Pernambuco e Ceará, já puxou muito gado de Minas, mas com o aumento do aumento dos impostos daquele Estado, ficou inviável consumir gado de lá. Já viajou também para os Estados do Norte, usando a mesma Rodovia Transamazônica, mas comentou que é sofrido; parte dela ainda é de chão batido. No verão virá um pó tão fino que gruda na gente, feito goma, e no inverno, com as chuvas, vira lama, causando atoleiro para todo lado.

Falamos também de política, ele ficou em casa durante a greve dos caminhoneiros, mas um irmão seu ficou com o caminhão preso perto de Campina Grande pelos 10 dias. Como mora há uns 50 km do local, largou o caminhão lá e foi para casa. Mas disse que tudo estava muito organizado, que a população levou alimento e água para os caminhoneiros. Fiquei feliz em saber disso. Entende que eles, autônomos, representam só 25% da categoria, e que sem os empresários do setor, não teriam força para parar o país, como aconteceu. Mas enxerga que aqueles só fizeram a greve em benefício próprio, porém, se a população estivesse organizada, poderia ter conquistado benefícios, mas fizeram foi pagar muito mais caro numa verdadeira demonstração de: "salve-se quem puder."

Faltando uns 20 km para Patos, em São Mamede, ele estacionou o caminhão no Posto Ramal para almoçar. Aproveitei para usar o banheiro. As instalações, em geral, estavam muito limpas. O almoço era por cabeça e nem perguntei o preço. Tinha vários tipos de carne, e achei interessante a solução que eles deram para a mesa de saladas. Colocaram um ventilador, que além de manter frescos os alimentos, espanta as moscas. Os alimentos quentes têm tampas de inox. O almoço dá direito a um suco artificial e frutas de sobremesa. Terminei na hora em que ele comia a sobremesa. Fui me servir de um pouco mais de suco, e assim que finalizei, ele se adiantou para o caixa e fez questão de pagar os dois almoços. Pelo que vi, desembolsou R$ 35,00. Servimo-nos ainda de um cafezinho bem quentinho e já fomos em frente.

Ele é um homem bem alto. Como já notei antes, dentro do caminhão não dá para ter noção da altura do motorista. E deve ter pouco mais de 30 anos. Muito boa gente.

Na entrada de Patos, uma rotatória onde ele seguiria rumo à Itaporanga, à esquerda, e eu devia seguir em frente, em direção à Sousa. Andei um pouco sob o sol de mais de 35 graus, sendo um pouco mais de 14h. Nenhuma árvore a vista para me abrigar. Lá no alto, após um radar e uma lombada, uma placa grande. Nem vi o que sinalizava. Fazia uma boa sombra. Fiquei ali. E ia até a beira da estrada quando passava um caminhão.

Uns 20 minutos depois o Marcos parou. Ia para Iguatu, no Ceará, bem além de Sousa. Estava ao telefone com sua esposa quando parou. Cearense, baixinho, olhos azuis, muito simpático, transporta bebida, pegando nas fábricas da AMBEV nos grandes centros e levando para a DIVESA, para quem trabalha, que distribui pelo sertão a fora. Disse-me que costuma sair mais tarde em viagem, hoje estava adiantado. Para minha sorte, e também de sua esposa, que encomendou um frigideira para tapioca, e ele pode comprar, pois a venda, numa cidade que margeia a estrada, ainda estava aberta.

Ele é pai de 5 filhos, três moças do primeiro casamento, um casal do segundo. A mais nova das 3 moças já lhe deu um neto e ela é enfermeira. Moram todos em Iguatu e todos convivem em perfeita harmonia, até suas duas esposas, atual e ex. Ele afirma que tem que ser assim, no que concordo, ninguém é de ninguém não. Se o casamento não está dando certo, melhor cada um seguir o seu caminho, na paz. Já trabalha para esta empresa há 15 anos.

Todos perguntam também sobre mim, a disposição de fazer uma viagem assim. Aqui, estranham vir para um lugar sem ter parentes para visitar. Talvez porque seja uma terra tão distante, que às vezes parece esquecida até por Deus.

Falando nisso quero dizer que a Paraíba é formada por três regiões climáticas em virtude das chuvas: o litoral, o agreste e o sertão. O inverno deste ano, onde os meses principais das precipitações pluviais são junho e julho, tem sido generoso. A paisagem está verdejante. É uma vegetação de pequeno porte, as árvores têm troncos finos, e existem muitos arbustos e algumas espécies de cactos.

Quando comentei com o Eronildo sobre o período de seca em São Paulo, e a crise hídrica que tivemos, onde passei 10dias sem receber água da rua e as represas de São Paulo atingiram o volume morto, ele riu-se dizendo que no sertão passam, às vezes, mais de três anos sem chuva. É muito difícil imaginar o sofrimento de um povo sem viver o que ele vive.

Voltando ao Marcos, ele deixou-me em frente à Distribuidora de Bebidas Pau Brasil, dizendo que dali saem caminhões, por volta de meio dia, em direção à João Pessoa e Recife, e achava que estaria mais perto da minha hospedagem. Certíssimo! Andei menos de 1 km até o Posto Pai Assis, onde reservei minha hospedagem, na Pousada anexa.

O quarto é grande, tem três camas, ar-condicionado e o chuveiro...é frio também. Acho que chuveiro quente é um luxo desnecessário numa terra tão quente. Mas eu não me acostumo muito com isso não. Procuro tomar meu banho antes que escureça. E nada de banho cedo, quando a água ainda está fria demais.

Depois do banho uma música de igreja veio à minha cabeça. Minha mente parece um filme musical. As músicas surgem sempre, com suas letras adequadas ao momento que estou vivendo, ao meu sentimento do momento:

"Pelos caminhos do mundo,

Existem o mal e o bem!

Ajude sempre que possa,

Não olhe como e a quem!

Entre verdades, mentiras,

Você precisa vencer!

Pague com amor toda a ira

Endereçada a você!

Faço assim e vivo sempre a cantar,

Um sorriso cabe em qualquer lugar!

Fale de amor onde esteja,

Sorria quando puder!

Que a mão esquerda não veja,

O que a direita fizer!"

(Pelos Caminhos de Antônio Marcos)

Fui a pé até o centro da cidade procurando uma padaria. Estava louca por um café\jantar. Mas já estava para jantar e não tinha. Peguei alguns itens para o café da manhã: um pedaço de pizza, com massa de pão, um pedaço de torta de frango, um nescau, uma água, por R$ 6,75. Como passei por uma lanchonete, resolvi retornar e comer lá. Max Burguer, e faz de tudo. Optei por uma panqueca de carne, com um suco de abacaxi, por R$ 11,00. Parei mais uma vez ainda no caminho de 1,7 km entre o Posto e a padaria para pegar mais água e um pacote de amendoim para a viagem, gastei mais R$ 3,00.

Quando cheguei de volta ao Posto, tinha um simpático grupo de 4 homens, sendo um frentista, e fiquei batendo papo com eles um pouco. Um deles, que é moto-táxi, já me ofereceu serviço para amanhã e fez pelo módico preço de R$ 20,00. Costuma cobrar R$ 40,00, então, foi um bom desconto.