es-REFLEXÕES PRÁTICAS SOBRE MEU PRIMEIRO MOCHILÃO

17.06.2018

Um aprendizado para toda a vida.

Primeiro preciso relatar que foram 8.711 km no total, foi a maior viagem que fiz em minha vida, sendo a anterior de um pouco mais que 7.000 km pela Europa de carro. Deste total, os primeiros 4.037 km foram percorridos, em grande parte, com caminhões. De ônibus semi leito mais 3.327 km e os derradeiros 1347 km foram de avião.

Antes de iniciar esta viagem, eu tinha alguns medos que me paralisavam, como os medos normalmente nos fazem mesmo. Viajar não era problema, faço isso desde meus seis anos de idade. Viajar sozinha também não. Já o fiz algumas vezes. Ir para o exterior também não era o caso, pois já me aventurei antes pela América do Sul e pela Europa. Então o que estava me apavorando? Logo de cara, o como pegar a primeira carona. As caronas em si podiam até representar um problema, mas eu já tinha me convencido que ia solicitá-las só com profissionais da estrada, que eles corriam mais risco do que eu ao me oferecer transporte. Mas a primeira, como tudo que fazemos pela primeira vez, e nos perguntamos: Como? Onde? Quando? Isso, graças a intercessão divina, e a interveniência de minha filha, foi resolvido com a ajuda de meu novo amigo Robson, que gentilmente me levou até Gravataí, no Rio Grande do Sul, que diga-se de passagem, foi um trajetão. 

Resolvido este primeiro impasse, o que dirão de dormir em quartos coletivos, com banheiro de uso comum. Eu não me incomodava muito comigo nesta hora, pensava nos outros, meus companheiros de quarto. Minha família diz que ronco. E sei que isso é verdade, principalmente quando estou muito cansada. E pior, sou sonâmbula também, evento que ocorre em situações de muito estresse. O banheiro de uso comum não chegaria a ser um problema se eu não ficasse pelo menos uma hora, duas vezes ao dia. Em casa o banheiro também é de uso coletivo, e no shopping, e nos postos de gasolina... Minhas poucas experiências em hostel foram, recentemente,  com o pessoal da faculdade. Que não são completamente estranhos. Mas ao chegar em Porto alegre, e ser tão bem recebida pela Valquiria, me senti acolhida. A Juliana ceder a cama dela no andar de baixo do beliche também foi muito gentil, e o clima de residência, pois afinal a Valquiria mora ali com seu marido e filha, também contribuiu para que essa primeira experiência fosse um sucesso. E aprendi a observar os horários em que o banheiro ficava por horas sem uso, e fazer deste tempo o meu preciosos tempo.

Por último e não menos importante, o desafio da linguagem. Fiz durante os dois últimos anos, com a mestra Lilian, na Fatec Itu, aulas de espanhol , 2 horas por semana. Esse contato com a língua, somado às propostas de trabalho da professora, inclusive com dois intercâmbios virtuais com americanos do estado de Nova Iorque, me fizeram crer que eu seria capaz. Mas uma coisa é pensar na possibilidade, bem outra é realizar. No entanto, ao adentrar na boleia do primeiro caminhão em território internacional, no Uruguai, com o senhor Horácio, e ele me dizer que ficou com receio de não me entender mas que nossa conversa estava fluindo bem pois eu me expressava bem e o entendia também, desmontou-se a última muralha do meu labirinto de dificuldades.

Algumas pessoas que me acompanharam na viagem, através de meus relatos, tinham uma questão bem prática:

_"Andar emagrece?"

A essa questão só posso afirmar, conforme as minhas experiências que, sim, se você aliar a uma dieta restritiva, no meu caso, de açúcar. Que não foi o caso. Então, para mim, andar tanto só evitou que eu engordasse mais, como é comum em viagens de férias onde a alimentação foge do controle rotineiro.

Apesar de andanças não emagrecerem, fazem bem à saúde, e também confirmei que sorrisos rejuvenescem, pois minha idade diminuiu para a faixa de 30 a 45. Preciso continuar sorrindo.

Sobre viajar sozinha, percebi muitas vantagens, não me canso de minha companhia. Ainda bem, pois são 54 anos me aguentando. Posso ser volúvel, quero agora, não quero mais. Vou, não vou mais. Sim, não. Posso, agora não. Vou às 8h, melhor às 9h. Adoro as noites, a noite me entristece. É divino isso. Em nenhuma outra condição de viagem isso é possível sem causar algum desconforto. Seja com marido, namorado, filhos, pais ou amigos.

Estando só a contemplação é necessária, tem horas que serão só você e Deus, de modo que, aproveite o momento para conversar com Ele. E render suas homenagens à criação.

Aproveite também para conhecer melhor o ser humano, em seus diferentes ambientes e culturas. Observe que, somos intrinsecamente, iguais. Com pequenas diferenças estéticas. Extraí destas observações exemplos a seguir e a rejeitar. Se auto avalie. É uma oportunidade excelente para se desenvolver e crescer.

Viajar só também requer alguns cuidados extras com a segurança pessoal. Tá. Eu estou me aventurando com pessoas desconhecidas, em lugares desconhecidos, e venho falar de segurança pessoal? Sim. Eu tomei muito mais cuidado do que o habitual ao me movimentar. Se estou só, nada de fazer estripulias. Um pé, depois o outro. O primeiro está firme, agora o outro sai do lugar. Escalar, se perder no meio do mato, torcer o pé, quebrar o braço, pode ser um complicador muito maior quando se está só. Viajei com meu seguro saúde internacional, foi uma garantia extra, mas não pretendia usá-lo. Fora as despesas extras. Um simples resfriado já me custou uns trocados numa caixa de remédios... E acabar com o passeio antes da hora. E incomodar pessoas que não tem nada a ver com isso. Não! Definitivamente não. Melhor prevenir.

Ah. Sim. E roupas e sapatos, para que temos tantos? Isso só pode se dever à intensa enxurrada de propagandas deste sistema capitalista, que nos faz gastar muito, podendo ou não. Passei quase dois meses fora com praticamente 5 mudas de roupas, e olha que enfrentei temperaturas de -10º a 38º. Minhas decisões quanto ao que levar foram muito práticas e acertadas. Só não precisei usar o canivete. Ainda bem. Todo o restante foi utilizado.

No entanto, na próxima mochila, porque haverá próxima, vou levar um tapetinho de banheiro, daqueles que vêm no jogo de toalhas. Melhor até levar o jogo completo. A toalha de rosto para quando vai só escovar seus dentes ou lavar suas mãos para fazer uma refeição. A maior parte dos hostels não tem nem papel toalha no banheiro. E o tapete é essencial. Um banheiro coletivo onde você tem que se vestir no banheiro, e que o chão fica, no mínimo umedecido pelo vapor de seu próprio banho, ter um piso de pano, sequinho, onde possa tirar os chinelos para se vestir e secar os chinelos antes de colocá-los novamente nos pés, é tudo de bom.

Ser mochileira, usando transportes e hospedagens baratas requerem um pouco de condição física, muita disposição e boa vontade e nenhuma frescura. É necessário aprender a compartilhar, respeitar, dividir e multiplicar. Mas também tem que aceitar, tolerar, compreender. Tem que se acostumar com o barulho e com o silêncio, com gargalhadas e com música, com ronco e com choro, com alegria e bebedeira, com organização e bagunça, com torneira pingando, descarga quebrada, chuveiro que não esquenta, outro que esquenta demais, travesseiro fino, cheiro de mofo, umidade, secura, do ar e de gente, luz na cara, falta de espaço e de privacidade, regras demais ou ausência de regras, sumiço da sua comida na geladeira, e até furto de alguma sua coisa de valor. Nada disso pode te chatear ao ponto de atrapalhar o seu objetivo maior, que pode ser passear, conhecer gente, beber, fotografar, sumir, enfim, seja qual for, mantenha o foco. Já tive malas extraviadas em uma viagem de avião, em que passei 4 dias em Buenos Aires, dois deles sem roupas limpas, pois elas foram passear no Chile. E me diverti assim mesmo, lógico, depois de chorar uns 30 minutos, copiosamente, no ombro de meu marido.´

Não tenha medo de experimentar. O pior obstáculo, que é sair pelo mundo, você já venceu. Então tente vencer também os preconceitos.

E é gratificante encontrar pelo caminho pessoas que, como você, superaram seus medos e estão enfrentando adversidades muito maiores. O coreano de 67 anos, viajando pelas Américas, de bicicleta, tendo dificuldade até de comunicação, me fez sentir-me jovem e capaz. Tem gente de toda cor, tem raça de toda a fé, como diria Ivete Sangalo, misturando o mundo inteiro, vamos ver o que é que dá. Me pareceu que o resto do mundo já está bem melhor acostumado com este tipo de viagem. Não lhes parece uma aventura.

Agora, fatalmente, alguma situação inesperada acaba acontecendo, e nessas horas se perde totalmente a racionalidade. O medo é um cárcere. Ele nos aprisiona. E uma sucessão de pensamentos surgem em sua cabeça aterrorizando-o. Nestas horas, tente manter a calma e trazer de volta a razão. E use os acontecimentos como aprendizado, diminuindo assim os riscos da vida à medida que ganha experiência. Isso vale para tudo na vida.

Muitos depoimentos que li antes da viagem, relatavam a diferença entre a situação dos homens e das mulheres viajantes solitários. Devemos ser mais cuidadosas, mas acima de tudo, devemos nos apoderar do NÃO. E esta não é só uma questão de fonética, é uma questão de postura. Seu corpo e seus modos têm que confirmar a negativa. Não mostrar-se insegura ou suscetível. Se tiver dúvidas, não funcionará. Se fraquejar, não funcionará. Seja determinada, no SIM ou no NÃO.

Ainda sobre ler o que relatam outros viajantes, ao fazer seu planejamento de viagem, coloque na planilha um espaço para observações e as leia. Assim você evita passar frio ou calor, queimar-se por falta de protetor ou boné, e tantas outras circunstâncias. Na maior parte do caminho eu me recordei das orientações e do que levei para cada circunstância, antes de sair para os passeios. Às vezes, na maioria delas, saía com minha mochila pequena carregada de apetrechos que podiam sem necessários. Quando o caminho seria mais árduo, e o transporte ia ficar por perto, levava um cinto de utilidades, com o mais necessário para o momento, não esquecendo nunca a água. Aliás, em lugares de altitude fomos aconselhados a bebê-la em grande quantidade, mas aos poucos. E andar devagar.  Mas passei uns perrengues também, com queimaduras de sol e frio desnecessário.

Uma outra informação importante é sobre o dinheiro a se carregar. Não levei muito, até porque não o tinha. Carreguei meu cartão de crédito internacional e pretendia fazer as transações de maior valor com ele, deixando o dinheiro em espécie para comer, transporte urbano e coisas assim. No entanto, pelo menos pelo Sul da América, a maior parte dos hostels não aceitavam cartão. Isso foi um complicador. Não acho conveniente nem seguro ficar viajando com muito dinheiro em espécie.

Descobri que escrever sobre o que fiz, ou sobre o que vou fazer, é quase tão bom quanto realizar. E que rever as anotações é como estar lá novamente, mais do que olhar as fotos, ou seja, me redescobri uma grande leitora de mim mesma ( sempre gostei de ler). E quem sabe uma boa escritora. 

Através de meus textos e fotos, pude compartilhar minhas emoções e vivências com outras pessoas, e recebi dicas, e informações. Descobri, por exemplo, através de uma prima bióloga, que o jacarandá é parente do Ipê. Obrigada Marta Cristina. Amei o jacarandá. E alguns brasileiros que estavam na Argentina estavam crentes que eram ipês o que viam, eu os corrigi, mas também achava-os parecidos.

Também descobri que rever fotos e textos me faz sorrir novamente.

Não consegui definir se viajar só me deu mais liberdade de expressão ou se foi a maturidade, ou ambos. Só sei que tenho me sentido a vontade para me expor, sem me importar de fazer papel ridículo. Ou será que por estar em terras estranhas, que ninguém me conhece mesmo?

Também sei que não conseguirei abordar aqui todos os pontos práticos a serem praticados ou rememorados antes de uma viagem sozinha. Mas como farei outras, com certeza, ainda tenho muito a aprender e compartilhar com vocês.