es-REFLEXÕES FILOSÓFICAS SOBRE MEU PRIMEIRO MOCHILÃO

17.06.2018

E tudo que essa jornada proporcionou a minha autoconsciência.

Aprendi que nós buscamos coisas, e encontramos outras pessoas pelo caminho, cada qual com suas buscas. Às vezes, no encontro, descobrimos causas comuns, e acontece a identificação. As buscas podem ser por simples ou tão valorosos sorrisos, um pouco de carinho, ou atenção. Podem ser por um lugar, ou uma ajuda, financeira ou informativa. E às vezes encontramos pessoas que nos parecem tão especiais, talvez porque suas causas e objetivos sejam muito semelhantes aos nossos. O mais difícil neste processo é controlar as expectativas, pois se as maximizamos, corremos o risco de frustrações. Tenho tentado não esperar demais, nem de mim mesma, pois já fui um severa capataz de mim. Porém sei que muitos dos que encontrei pelo caminho talvez esperassem um pouco mais da minha convivência, da minha atenção, das minhas lembranças. Saibam estes que os guardo todos, dentro dos meus pensamentos, do meu coração e da minha gratidão.

Aprendi com um de meus novos amigos que, antes de cumprimentar alguém com as mãos, devemos fazê-lo com o coração, e assim ele diz: 'Eu vos saúdo.' Talvez eu já viesse fazendo isso há muito tempo, com a maioria das pessoas, mas nunca tinha pensado nisso. Ao nos dirigirmos a alguém, devemos estar completos, presentes. Hoje em dia, com tantas distrações que o mundo promove, redes sociais, TV, rádio, problemas pessoais, a única coisa que parece que não fazemos é efetivamente estar presente. Tenho que me policiar. Mais uma coisa. São tantas... e pensamos que somos livres.

Descobri ainda que existem diferentes formas de demonstrar afeição. Algumas pessoas são tímidas, outras efusivas, alguns mais carentes que outros, e , acreditem se quiserem, lembra o Diego, o que invadiu meu Facebook em Montevidéu? Ainda me manda mensagens carinhosas no Messenger. Eu não respondo. Mas entendo que talvez ele seja diferente. E eu que não sou compreensiva o suficiente.

Aquele negócio de gentileza gera gentileza, não é só conversa mole. Observei e constatei praticando. E é fato que boa educação faz diferença na formação do cidadão. Ambientes favoráveis e pensamento crítico nascem de uma boa formação, através de bons exemplos no lar, bons mestres e bons livros. As pessoas são iguais em todo lugar, em ambientes mais permissíveis, se permitem. Caso contrário, se controlam. Porém a liberdade não deve ser cerceada. Deve-se educar para que os limites sejam conhecidos. Não é e nunca foi uma questão de despotismo. É uma questão de reflexo. Tive oportunidade de conviver com diferentes pessoas de diferentes culturas, de países que não são nem melhores, nem piores que o nosso. Que têm facilidades e dificuldades. Com regiões de abundância e de precariedade. Com gente rica e pobre. Como em todo lugar. A diferença é a de que, onde se praticam bons hábitos e a educação é valorizada, as cobranças são maiores, o respeito é necessário e a punição é eficaz. Sempre acreditei em nosso país, mas alguns controladores dos recursos financeiros nos últimos 40 anos, ou mais, tem provocado a derrocada da educação formal, que atinge por consequência, a educação pessoal (através do lar e quiçá da religião). Compreenderam assim que é mais fácil manipular uma massa não crítica, que já tem a mansidão, que aliás considero louvável, como característica intrínseca, fruto talvez da abundância de recursos naturais, inclusive o sol, presentes nesta terra. E agora, estou cansada, não sou mais uma jovem mulher-maravilha (coisa que nunca fui, mas acreditava ser) que pensa que poderá mudar o mundo. Ainda penso que posso mudar o mundo, mas o mundo ficou bem menor. Meu mundo são as pessoas que me cercam, e não quero mais mudá-las pois também aprendi que ninguém muda ninguém. Só quero ser estímulo, provocar a reflexão, talvez através da observação. E assim penso que, ao me movimentar por aí, estarei cumpindo o meu papel no mundo. Se me foi dada alguma benesse pelo Criador, algum talento, que eu possa distribuir através do exemplo. Pois me sinto fraca diante daqueles que conhecem meus defeitos, e não podem acreditar em minhas qualidades. O lá fora é, ao mesmo tempo, fora do meu país, fora do meu lar. Quem sabe lá podem ignorar meus defeitos, por desconhecimento.

Também entendi que não existe lugar no mundo em que tudo seja só maravilhas, um mar de flores sem espinhos, até porque, independe do que acontece lá fora, o que vai determinar se seu dia será bom ou não é o seu interior. Tenho certeza que já escrevi isso antes, em outra viagem. Mas as verdades têm que ser ditas e repetidas. Por melhor que fossem os lugares e as paisagens, houve dias ou momentos em que me senti triste, solitária, aflita, saudosa... Mas nestes momentos, mais do que nunca, enfrentava minhas angústias e saia a procura de consolo. E este vinha em forma de sorrisos, boas conversas e até abraços. O lar, nessa hora, poderia ser reconfortante, mas cômodo. Em casa acho que me deixaria abater e curtiria um dia de cama e choro. E talvez, no outro dia, ainda estaria me sentindo mal. Então a solidão e o inusitado, o desconhecido, pode nos fazer bem a medida que não nos sentimos confortáveis. Mais um ponto para a viagem solitária.

Quanto mais competição eu vejo, mais eu me convenço que não quero isso para mim. Sou adepta da cooperação e já a vinha praticando em meu trabalho, sendo ele o expoente do capitalismo. Eu era bancária. Essa atividade não existiria, provavelmente, se não fosse a ênfase dada ao acúmulo de capital e a exploração dos demais através do poder gerado por esse acúmulo. Além da competição para ser o melhor.

Já dizia Richard Bach que "Longe é um lugar que não existe". E por todo o caminho, enquanto eu me mantinha em contato com as filhas, os grandes amigos, incluindo os familiares, e os conhecidos, pelas redes sociais, não me sentia só. Não me sentia carente, pelo contrário, o simples fato de estar no pensamento de alguém e trazer consigo alguém no pensamento é de uma plenitude fantástica. E também é possível sentir-se querido no meio de estranhos. Então, essa é uma sensação do querer. Racional. Essa é uma constatação que pode me servir em muitos momentos não tão alegres da vida. Preciso me lembrar de reler sempre esse apontamento.

Coloquei um cartoon numa das postagens que é um resumo de como pretendo levar a vida daqui por diante: quero levar pouca coisa e viajar sem muita pressa, seguir leve pela vida e dar valor ao que interessa. Hoje vi um vídeo que dizia que a maioria das pessoas só é capaz de ser feliz após os cinquenta anos, isso porque elas não sentem mais necessidade de agradar ao outro ou de dar satisfação, assim, começam a gostar mais de si mesmas e agirem como gostam, se satisfazendo mais. Creio que é possível e já estou fazendo muitas mudanças, por enquanto estéticas, externas. Mas acho que as internas já iniciaram na jornada mesmo, ou até antes dela. 

Um dos momentos mais marcantes dessa jornada, onde ocorreram as maiores descobertas, foi a viagem até Córdoba, com o Pedro. Nela eu senti a maior manifestação de proteção divina, e também me descobri realizando o meu propósito, meu objetivo, e a alegria que me deu e dá ao relembrar das pessoas e o carinho que me foi oferecido. Isso me faz lembrar da música sacra:

"Se ouvires a voz de Deus, chamando sem cessar. Se ouvires a voz do mundo, tentando te enganar.

A decisão é sua. A decisão é sua. São muitos os convidados, quase ninguém tem tempo."

Eu tenho esse tempo, quero anunciar o meu Deus aos quatro cantos do mundo, esse Deus que habita em mim e me ilumina, e me acende a maior parte do tempo. E a humanidade é o meu combustível, a fertilidade dos corações generosos e aflitos por amor, são muitos. Porém que tem tempo de ofertar esse amor?

E falando em tempo, me recordo de minhas impressões quando li "A Montanha Mágica", de Thomas Mann. Suas impressões sobre este assunto, relatadas em função da vivência da personagem principal, me marcaram profundamente. Assim, observo o tempo ao meu redor, e suas sensações. O tempo não é algo que possa ser medido efetivamente. Pois trata-se muito mais de sensações do que de realidade. Não é palpável. Em dois meses que passei viajando tive a sensação de brevidade do tempo, porque logo eu estava de volta à minha rotina, à minha casa, ao que me era e é familiar. O mesmo tempo que pareceu longo ao conseguir realizar tantas coisas, ao sentir tantas emoções e conhecer tanta gente. E ainda o  que não terminava nunca quando me senti saudosa de familiares e amigos, carente e aflita. E que transcorre lentamente ao voltar ao lar e ficar num marasmo de coisas conhecidas que parecem entediantes, e que parece correr quando penso que já tem quase dois meses que voltei, e que o Natal foi outro dia e o primeiro mês do ano avança rumo ao segundo e eu pouco fiz. Mas que avalio quantas mudanças ocorreram em meu comportamento de desapego, que tenho praticado, e me parece que foi em tão breve momento, diante de uma vida inteira de diferente relação com o material. Só posso concluir que esse tempo precisa estar ao meu favor, e sou eu que pratico minhas sensações em relação a ele.

Tem outra coisa muito importante que já praticava em minha vida, e notava a eficácia. E durante a viagem tive a oportunidade de ratificar. O Poder da Oração. Uma vez um de meus pais me disse para rezar pela manhã, pedindo suavidade ao dia de trabalho, pois vivia um momento de muito tumulto e estresse em meu trabalho como administradora de uma grande agência bancária. E quando o fazia, sentia que o dia transcorria com mais tranquilidade. Não sei se sou eu que mudo em relação ao dia, ou ocorre alguma interferência nos campos energéticos, fato é que melhora. Durante a viagem, eu não deixava de deitar agradecendo, como costumo fazer diariamente, e demonstrar também minha gratidão em igrejas, orando quando chegava em uma nova cidade. E também falo com Deus a todo momento, em toda manifestação divina das quais me dou conta. Mas teve dias em que, especialmente, eu pedia para me ajudar no transcurso do dia. E me parece que as coisas foram muito mais acertadas nestes dias. É fato que, ao orar, devemos saber como pedir. Dizia um amigo meu, muito divertidamente que, pedia a Deus para ter muito dinheiro e estar sempre rodeado de mulheres. Foi trabalhar de caixa num Banco. Nem o dinheiro e nem as mulheres que o rodeavam eram dele. 

E não se esqueça de agradecer sempre, de coração. Seja qual for o seu Deus.

Agora, enquanto escrevo estas linhas, me pergunto do que eu fugia ao sair fazendo esta viagem. A ideia não foi minha, então não me pareceu, a princípio que buscava ou fugia de algo. Mas ao retornar me sinto diferente e que algo que estava escondido dentro de mim despertou. Infelizmente é uma mágoa. Mas felizmente eu a achei. Pois podia passar o resto da vida sendo ocultada e impossibilitar seu tratamento e meu crescimento. Preciso contar neste momento algumas aflições que vivi em 2016 que mudaram meu modo de encarar a vida. Coisas que a gente pensa mas não executa, entende mas não compreende, até que passa por elas. Em fevereiro fiquei viúva, de um grande amor, por quem tenho apreço, respeito e gratidão. Não acho que seja meu único amor, isso seria limitar demais o poder do amor. Sou uma amante por natureza. Amo tudo e todos que se permitem ser amados por mim. O companheiro de uma forma mais íntima e entregue. Foi uma grande mudança, mas que nem tive muito tempo de refletir e absorver pois, no final de agosto, descobri fortuitamente um tumor em meu rim direito, que após a extirpação do mesmo em 19 de novembro, comprovou-se maligno, sem metástase. Nesse dia resolvi abrir um novo livro de minha vida. Tirei minha aliança e revivi para o mundo. No entanto, as coisas não seriam assim tão simples. Em janeiro, minha filha que estava vivendo no Canadá com o marido, foi parar no hospital com uma hemorragia grave, ela que tem trombofilia, descoberta um pouco mais de um ano antes, ficou entre a vida e a morte. Com nova ocorrência no final de março e o retorno antecipado ao Brasil. Em fevereiro, a filha mais nova das duas que tenho, resolveu fazer uma cirurgia bariátrica, que sucedeu em maio, com êxito, graças a Deus. E em maio mesmo tive um AVC de pequeno porte, mas que podia tratar-se de uma metástase. Os exames contrariaram essa possibilidade. Também com a graça de Deus.

Digo tudo isso para poder me justificar talvez pela ânsia de viver, de equilibrar minhas emoções, de me retirar da solidão do cotidiano. A aventura foi um grande estímulo positivo. Preencheu meu tempo na preparação, organização, planejamento e compartilhamento. Nossa mente é a responsável por nossas sensações, assim, ao me manter ocupada na viagem, preocupada com os caminhos, a segurança, onde ir, o que fazer, como economizar, não me sentia só. O blog foi um elemento fundamental neste processo.

Ficando fora tanto tempo, tive a oportunidade de me aproximar de muita gente que se preocupou e me acompanhou, interagindo comigo através de aplicativos e redes sociais. E teve gente importante na minha vida que se ausentou. E isso foi o disparador da mágoa que estava reprimida. Então o objetivo que eu tinha para a viagem foi um, e Deus teve outro bem diferente. Propôs que eu viajasse por dentro de mim mesma, me descobrisse, me encontrasse e me conhecesse melhor. E só assim, nesse auto-conhecimento, eu posso tentar me aperfeiçoar, atingindo outros patamares na evolução espiritual. Só assim eu posso trabalhar melhor minhas expectativas, diminuindo a carga que coloco sobre o outro, e que quando não sustentadas ou superadas, me causam frustração. Descobri hoje que o problema não está em ninguém mais além de mim mesma. Sou eu que tenho que mudar. Só eu posso transformar-me. Não sou mágica, não tenho o poder de mudar ninguém, e nem esperar que qualquer um o faça. Essa é uma decisão individual. 

Assim, encerro minha reflexão com uma oração:

Concede-me, Senhor,
A serenidade necessária
para aceitar as coisas que eu não
posso modificar.
Coragem para modificar
aquelas que eu posso
e sabedoria para
distinguir uma das outras.
Vivendo um dia de cada vez;
Desfrutando um momento de cada vez;
Aceitando as dificuldades como um caminho para alcançar a paz;
Considerando como tu,
Este mundo pecador como ele é
E não como eu gostaria que fosse;
Confiando que endireitarás todas as coisas
Se eu me render à tua vontade,
Para que eu possa ser moderadamente feliz nesta vida e sumamente feliz contigo na eternidade.

Autor desconhecido