es-RECIFE ANTIGO - TERÇA FEIRA, DIA DE MUSEUS (GRATUITOS)

01.11.2018


Dia intenso, aproveitando a gratuidade dos museus municipais e estatais(???). Os Museus privados têm cobrança normal, mas nada extorsivo.

Estava caminhando quando passei em frente ao Museu do Bonecos Gigantes. Sabia que era particular, mas resolvi entrar, hoje já tinha recurso para tanto. Oh! 25,00 reais, com ingresso conjunto com a Embaixada de Pernambuco. Resolvi entrar e conhecer parte do acervo de um total de mais de 400 bonecos. Ali ficam expostos 65, eleitos pelo público em função da 'tietagem'. quando baixa a popularidade, são trocados. Do total de bonecos, 80 desfilam na segunda de Carnaval de Olinda. O único que não sai no Carnaval é o boneco do Papa. Muito respeitoso. Os bonecos tem entre 13 e 20 kg, são feitos de madeira e fibra de vidro. Sua altura é de aproximadamente 2 metros, e quando carregados por trabalhadores remunerados, chegam a quase 4 metros. São muito populares no Recife, e retratam personalidades, ao contrário de outros que saem no Carnaval e representam o imaginário popular. Eu também dei uma de 'paparazzi', e fotografei com meus ídolos, ou aos meus ídolos. Reparem que o 'Selton Melo' está com a mão na minha cintura. Hummmm. E a expressão de espanto do Mussum e minha...

Comprei o ingresso que deu direito à visita aos dois Museus. Eles têm pessoas treinadas para explicar cada espaço, e tirar fotos nossas nos mesmos. Gostei.

Indo em direção à Embaixada de Pernambuco, passaria na frente do Paço do Frevo, que constava na minha programação. Antes quis fotografar o ônibus de informações turísticas, que fica ali mesmo, na Praça do Arsenal. E o restaurante, Teatro Mamulengo, com interessante caracterização. Em torno desta Praça dá para passar metade do dia em atividades.

O Paço do Frevo é gratuito na terça, e tem vivência de dança (Frevo), imagine se não fiquei animadíssima. Fui de elevador direto ao terceiro andar, onde a exposição apresenta nomenclaturas desta arte popular com os significados, em português e inglês.

Estandartes e Flabelos são as bandeiras que anunciam as suas agremiações no Carnaval. São colocadas no piso, sob vidros, para que os visitantes tenham que baixar sua cabeça para ver, e de certa forma, reverenciar estes símbolos extremamente respeitados, ligados até ao sagrado para os participantes de cada agremiação.

Fotos trazem o Boneco da Meia Noite, primeiro boneco a circular pelos carnavais locais, com mais de 40 kg. Foliões e manobras do ritmo que conduz a festa.

Cada detalhe é pensado com carinho na montagem do espaço, e o teto tinha elevações em vermelho que me chamaram a atenção. Nas beiradas era possível ver tratar-se de pessoas, de ambos os sexos, de mãos dadas.

A vivência foi feita a partir de troca de pés em compasso binário, acrescentando movimentos aos poucos, com um grupo de quase 20 visitantes. Todos se soltaram e dançaram. E com poucos minutos de dança, já fiquei suada. soube que no Carnaval não há muito espaço para a demonstração daqueles passos elaborados que vemos com frequência nas mídias.  E poucos minutos de apresentação ocorrem, assim como nas filmagens das passistas dos carnavais do Rio e de São Paulo. O professor me garantiu que com uma hora diária de frevo, posso emagrecer até 3 kg em uma semana. Acredito! Bora dançar frevo.

No segundo andar do prédio, as indumentárias dos dançarinos. E fotos da folia.

A amostra encerra no primeiro andar com livros com a cronologia do Frevo, e uma maquete representativa das diversas manifestações populares.

Indo adiante, finalmente chego à Embaixada de Pernambuco, o Museu com ingresso combinado ao dos Bonecos Gigantes. Entrei só. Fui fazendo fotos até a recepcionista vir me instruir sobre todas aquelas vestimentas, que são utilizadas no Carnaval em expressões como o Maracatu, o frevo, o Bumba meu Boi, e muitos outros. Fiquei deslumbrada. E quis fazer outras fotos que inicialmente não me chamaram a atenção.


O Vagner apresentou um número de frevo enquanto eu o fotografava e filmava. Depois se ofereceu para me ensinar alguns passos. Já aproveitei o pouco conhecimento adquirido no museu anterior. E ainda aprendi passos novos. ele gostou do desempenho da aluna. Olha ele comigo aí embaixo.

Alguns de seus passos:

E as diversas vestimentas que aparecem nos carnavais daqui. Muito ricos em cultura folclórica. 

Notei o chacrinha sendo homenageado nos dois museus, e fiquei sabendo que, tanto ele quanto o Pedro de Lara, eram Pernambucanos.

Eles nos dão a oportunidade de participar da brincadeira, e com chapéus diversos, fui me travestindo.

Pela programação, meu próximo destino seria o Museu do Cais do Porto, que era avistável da saída da Embaixada. Mas no caminho tinha uma Torre. qual seria? tinha lido sobre ela, mas a tinha incluído em meu roteiro, nem sei porquê. Fato que trata-se de uma bela construção, e inevitável seria desprezá-la, até por estar exatamente, no meio do caminho.

Seu nome: Torre Malakoff. 

Abaixo fotos de registro histórico do antes. E foto de agora, tirada por mim.

Estava com acesso impedido ao mirante, previsto para liberação daqui seis meses, após obras de restauração. Mas no andar  térreo tinha a exposição permanente, com uma nova maquete acessível, com relevo e braile. Pela maquete observei os possíveis espaços culturais, inclusive um anfiteatro a céu aberto do lado que dá para o mar, e para o cais do porto. 

Na sala diametralmente oposta, uma exposição de muito bom gosto, da artista plástica Suzana Costa, denominada Nascedouro. A arte dela me é aprazível. Ela se movimenta pelas cores, num padrão monocromático muito representativo.

O Cais do Porto é uma construção gigante, e parte dela abriga o Museu, que não identifica muito bem o acesso. Desta forma, deixo aqui registrada fotos que identificam a entrada, para que não façam como eu, e tentem entrar na empresa ao lado, com área livre, como um jardim de inverno, comum a ambos.

Ao final da visita, já passando de 14 horas, comi meu lanche junto a este jardim circular central, sentada em bancos de caixotes de madeira, e curtindo a brisa do mar.

O ingresso também foi gratuito, tive que deixar minha mochila com o lanche no guarda-volumes e, vocês irão dizer que estou vendo coisas, mas olhe de trás para frente o número do armário a mim destinado.

Olhe o 27 aí de novo gente. será que devo jogar no bicho, ou procurar um bilhete da Loteria Federal? e, podem reparar nas unhas, que estão bonitinhas ainda. Rs

Este Museu é também conhecido como Memorial Luiz Gonzaga. E tem trajes, instrumentos musicais, e a história deste pernambucano conhecido como o rei do baião. Tem atividades interativas, e a exposição é cortada por uma representação do Rio São Francisco, e tem até peixes. Logo que entrei, uma moça me informou que às 13h30 começaria um curta metragem. Iria então iniciar minha visita e teria meia hora para ali voltar e assistir ao filme de Marcelo Gomes, denominado: Um dia no sertão, com 16 minutos de duração.

Logo na entrada havia uma representação de relevo, que recebia iluminação criando figuras e frases, que observadas a olho nu tem um efeito, fotografadas  perdem a terceira dimensão. Achei interessantíssimo.

Ouvi algumas músicas deste artista de quem tanto gosto, e pude apreciar muitos dos objetos que fazem alusão a vida do sertanejo nordestino.

Um túnel de vidro nos coloca num caleidoscópio. Não entendi qual seria a proposta do mesmo, mas adorei o efeito visual.

Quando dali sai, observei o chão molhado. Assim me lembro de contar-lhes como estão sendo as famosas chuvas de inverno no Nordeste. Passam nuvens carregadas sobre nós. Normalmente, não dá tempo nem de abrir o guarda-chuva. Elas realmente passam. E o povo diz: "Tá chovendo." Não me preocupo nem em me abrigar, se molhar um pouquinho, o calor se encarrega de secar tudo em poucos instantes. Não sei se é sempre assim, mas é o que estou vivenciando.

Eu vi umas placas aéreas de sinalização de uma Sinagoga. Resolvo procurá-la. Entendi pelo mapa que seria ao lado dos Bonecos Gigantes, mas vou parar oa lado da Embaixada, sendo redirecionada à Rua do Bom Jesus, que já denominou-se Rua dos Judeus.

Ali a Sinagoga Kahal Zur Israel foi descoberta debaixo de uma edificação católica, após escavações de reforma, que encontraram um Mikve, local de purificação do povo judeu.

Paguei 10,00 reais pelo ingresso, fui acompanhada inicialmente por um guia que me explica como nos início do século XVII, em Recife, em função da ocupação holandesa, foi permitida a manifestação de outras religiões, liberando assim os judeus, que vinham como novos cristãos, fugindo da inquisição, de praticar livremente seus rituais sagrados. 

As estruturas como piso e paredes são originais, no terceiro piso existe uma réplica da Sinagoga. Bem como uma exposição de arte me metal. Nos demais andares, muitas fotos de judeus daquela época. Nas paredes, um pouco da história deste povo e suas dificuldades.

Olhando estas fotos, tenho a impressão que de alguma forma, o primeiro Lessa que deu origem a minha família por parte de mãe, que segundo contam os mais antigos, veio fugido de Portugal e aqui foi adotado por uma família que carregava este nome, devia ser um destes novos cristãos, pois as mulheres me fazem lembrar de minha mãe.

Estava louca por um docinho, então procurei um café. Depois que fui servida, percebi que tratava-se de um Café da Cacau Show. Pedi meu Capuccino sem chocolate, e matei minha vontade. Gastei mais 10,00 reais. E já estava a caminho da travessia da Ponte Maurício de Nassau novamente.

Cheguei à Capela dourada caminhando pela Avenida do Imperador. Um transeunte me indicou o lugar.

Na Sinagoga ouvi a guia falar para outro casal ( que, diga-se de passagem, recebeu muito mais atenção que eu na visita) que aprendeu na escola que, a gente tem medo daquilo que desconhece.

Recordo disto neste momento pois, ontem, tanto o Recife antigo como este lado dos Bairros São José e Santo Antonio, me pareceram mais sinistros. está tudo aqui, do mesmo jeito, a pobreza, a sujeira, o descaso, mas meu olhar já se acostumou, meu cérebro já registrou.

Em frente a Capela Dourada, muitos mendigos. Depois soube pelo guia, Fernando, que tinha se iniciado naquele momento, a missa do pão dos pobres, na igreja anexa, de Santo Antonio, padroeiro da cidade de Recife.

Paguei 5,00 pela visita guiada, e soube pelo guia que, todas as igrejas tem seu guia, faz parte de um projeto municipal. Ele é estudante de história e um amante de conhecimento.

Achei lindo o pátio central e seu jardim, depois soube que não fazia parte da construção original da Ordem Terceira de São Francisco do Recife. Aprendi que a Ordem Primeira e dos freis. A Ordem Segunda das madres franciscanas, e a Terceira é a dos leigos, portanto mista, homens e mulheres, e não enclausurados.

Quando entrei na Capela, fiquei deslumbrada. Quase deixo de ver esta maravilha.

Ela foi fundada por ricos e poderosos da época, e tem muitas pinturas em madeira de cedro, todas emolduradas em madeira estilo rococó, recobertas por folhas de ouro. Aproximadamente 120 kg no total, o que faz que seja a terceira, neste quesito, no Brasil, atrás somente da Igreja de São Francisco, em Salvador, e da Igreja de Ouro Preto, a uma das representações de Nossa Senhora, da qual não recordo agora o nome.

Descobri que todo santo que tem peruca é do estilo Rococó. Mas nem todo Santo do estilo Rococó tem peruca.

As duas imagens acima têm cabelo natural. E uma diferença do comum e que o Cristo crucificado não esta morto, seus olhos estão abertos.

O Senhor morto é a única estátua que sai em procissão.

No restauro, existia um púlpito lateral onde eram feitas as homilias. Após a restauração, descobriu-se que ele não era original, pois acharam um quadro escondido e mal armazenado nas dependências da igreja. O quadro voltou ao seu antigo lugar, e destoa dos demais pois é o único que não sofreu restauro, estando com a coloração do ouro esmaecida. O púlpito, no entanto, está em exposição também, devidamente recuperado.

No teto, no centro da Capela, existe um vitral, também posterior a construção inicial, que retrata São Francisco. Junto dela, um rosto retratado simboliza a morte, pois diz-se que, nem a ela o Santo temia.

Azulejos portugueses com temas ligados a caça marcam uma contradição numa Capela em homenagem ao Santo protetor dos animais, mas é uma característica marcante do estilo rococó, mostrar o supostamente profano em oposição ao santificado. E nota-se que são colocados na parte mais baixa, no rodapé das paredes.

Dois painéis laterais mostram 26 mártires franciscanos, crucificados no Japão em 1597. Consta que há uns 150 anos, uma irmã franciscana, revoltada, desfigurou os rostos dos guardas dos painéis. Fez isso por mais de uma vez. E isso faz parte da história do lugar, tendo assim, permanecido desfigurados após a restauração.

A Sacristia, ao lado, tem no teto de gesso, o simbolo integral da Ordem Franciscana. 

Abaixo dela um recipiente onde se colocavam as hóstias consagradas durante a Paixão de Cristo, antes do domingo de Páscoa.

E no mesmo cômodo, um gaveteiro onde se guardavam os registros de nascimento da época.

O Fernando me ensinou ainda como chegar na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos pretos, e disse-me que valeria a pena voltar a Basílica de Nossa Senhora da Penha para visitar seu interior, onde descobri os cajados e o guarda sol que indicam que o papa ali esteve e qualifica-a como Basílica. (Aprendi isso em Salta, Argentina).

Antes entrei na Igreja de Santo Antonio, anexa, e vi um pedaço final da missa do pão dos pobres.

Queria ir para Boa Viagem, mas errei o ônibus, de modo que tive que descer no mesmo ponto de ontem e passar na conveniência do Shell para sacar dinheiro e comer, uma coxinha, uma empada, um chá gelado e outro capuccino. Gastei mais 19,49 reais. Terminei o jantar comendo as duas bananas da terra feitas no microondas do Hostel, e o mamão, sobras da compra de ontem. Preparei um suco de limão com o Tang, para levar amanhã, e queria dormir cedo, mas já são 1h40.

Mas afirmo: ADORO HISTÓRIA.

e meu dia foi FANTÁSTICO!